Não esquecer que o uso da máscara(entre outras coisas)num designado “Estado de Calamidade”,não é obrigatório, é facultativo…

Views: 0

Não esquecer que o uso da má-scara(entre outras coisas)num designado “Estado de Calamidade”,não é obrigatório, é facultativo…
Situação de Calamidade. "Restrição de direitos fundamentais passa a ser inconstitucional"
observador.pt
Situação de Calamidade. “Restrição de direitos fundamentais passa a ser inconstitucional”

ajude a AICL faça-se esócio e use a consignação de IRS

Views: 0

PREENCHA A SUA FICHA DE SÓCIO AQUI ffichaAICL

 

CONSIGNAÇÃO DO IRS E IVA... 
                            
indique o nosso nº fiscal, nif 509663133 
            AICL ASSOC DOS COLOQUIOS DA LUSOFONIA
            

ATENÇÂO A TODOS OS QUE CONSIGNAM 0,5% DO IRS OU IVA A UMA ASSOCIAÇÃO DA SUA PREFERÊNCIA:

Para fazê-lo vão à página das finanças, https://sitfiscal.portaldasfinancas.gov.pt/geral/dashboard
ordem alfabética, procurem Comunicar Entidade a Consignar IRS/IVA

indique o nosso nº fiscal, nif 509663133

Cientistas “dispararam” tardígrados para ver se sobrevivem a impactos espaciais

Views: 0

Cientistas “dispararam” tardígrados para ver se sobrevivem a impactos espaciais
Por ZAP – 22 Maio, 2021
dottedhippo / Canva
“Ser disparado de uma arma em alta velocidade”. Mais uma coisa para juntar à lista infindável de coisas a que os tardígrados podem sobreviver.
De acordo com o site Science Alert, a astroquímica Alejandra Traspas e o astrofísico Mark Burchell, ambos da Universidade de Kent, no Reino Unido, queriam saber se organismos semelhantes aos tardígrados conseguem sobreviver sob certas condições no Espaço.
Isto porque, recorde-se, em 2019 estes “indestrutíveis” animais, também conhecidos como ursos de água, chegaram à Lua, depois de uma viagem na sonda espacial israelita Beresheet, que acabou por se despenhar.
Para isso, os investigadores utilizaram uma arma de gás leve – um aparelho projetado para gerar velocidades extremamente altas – com um processo de duas etapas: primeiro a pólvora e depois um gás leve, como hidrogénio ou hélio, colocado sob pressurização rápida, para atingir velocidades de até oito quilómetros por segundo.
A equipa “carregou-a” com dois ou três tardígrados da espécie Hypsibius dujardini, cada um dentro do seu sabot de nylon, tendo sido congelados para induzir o seu estado de hibernação. Estes objetos foram então disparados contra alvos de areia numa câmara de vácuo, a velocidades de 0,556 a 1,00 quilómetros por segundo.
O alvo de areia foi de seguida despejado numa coluna de água para isolar os tardígrados, que foram separados e observados para determinar quanto tempo demoravam para sair do estado de hibernação. Como grupo de controlo, 20 tardígrados foram apenas congelados, tendo todos recuperado após cerca de oito ou nove horas.
Os espécimes “disparados” sobreviveram, inclusive quando se tratou de uma velocidade de impacto de 825 metros por segundo, embora tenham demorado mais a recuperar, o que sugeria danos internos. A velocidade mais alta seguinte, 901 metros por segundo, não teve tão bons resultados.
“Nos tiros de até e incluindo 0,825 quilómetros por segundo, tardígrados intactos foram recuperados após o tiro, mas nos tiros de alta velocidade só conseguimos recuperar fragmentos dos tardígrados”, escreveram os autores do estudo publicado, a 11 de maio, na revista científica Astrobiology.
Segundo o mesmo site, isto sugere que o limite de sobrevivência está entre estes dois números, o equivalente a uma pressão de choque de 1,14 gigapascals.
E embora o estudo não responda diretamente à questão sobre se estes animais microscópicos sobreviveram depois de cair na Lua, em 2019, sabemos que os dados finais da sonda espacial indicavam uma velocidade vertical de 134,3 metros por segundo e uma velocidade horizontal de 946,7 metros por segundo. Logo, há esperança de que os tardígrados possam ter sobrevivido à viagem.
Pode haver sobreviventes da sonda israelita que se despenhou na Lua (sim, são tardígrados
0 comments

imperdível: o ranking da discórdia

Views: 0

O RANKING DA DISCÓRDIA
Quase diariamente faco um exercício de debate sobre a realidade portuguesa com um amigo confundido de direita. As trocas de áudio são tão longas que praticamente trocamos podcasts. Metade do tempo fico a rir com a disparidade de opiniões mas, na verdade, gosto de ouvir pensamentos nos antípodas dos meus.
Ontem discutíamos, entre outros, o ranking das escolas. Entretanto já li vários textos e opiniões sobre o tema e fico com a sensacão que se escolhem lados sem ir ao fundo da questão.
A minha experiência em instituicões de ensino privado é zero. Passei os 8 anos seguintes à primária nas escolas respectivamente classificadas nos lugares 476, 240 e 498 do afamado ranking. Portanto, pertenco à fatia maioritária da populacão que aprendeu consoante a sorte ou azar de apanhar um bom professor e uma turma com poucos indíos.
Parte da indignacão vai para a aldrabice do ranking em si. A média é mais alta em sítios onde os alunos são escolhidos a dedo e as entradas (ou permanências) condicionadas. Já no ensino público não há escolha e como tal, as médias finais retratam mais fielmente a sociedade. Ora, isso é verdade.
Depois há também a constatacão mais ou menos óbvia que há escolas públicas muito boas, algumas médias e outras, muito más. Se cavarmos mais um bocadinho vamos perceber em que zonas estão as piores e, com algum grau de certeza, percebemos que a zona ou bairro, a existência ou não de problemas sociais, as condicões de habitabilidade e o extrato social dos progenitores vão condicionar o desempenho das escolas. Sei que existem excepcões mas acho que este retrato será mais ou menos de senso comum.
É contudo na parte em que se afirma que o ensino no privado é mau que eu comeco a ficar baralhado. Entendamo-nos. Eu sou um acérrimo defensor da escola pública, completamente contra a proposta da “escolha individual” que a IL preconiza com base no modelo sueco (que não tem escolha alguma – poderei falar sobre isso noutro texto) e acho que o investimento público deve ser canalizado para a educacão. Sempre e em primeiro lugar.
Quando ouco António Costa dizer que parte do dinheiro da bazuca vai para mais estradas no interior, fico com os cabelos em pé. Sem creches e com os professores pagos com esmolas, continuam a meter dinheiro em estradas? É criminoso.
Mas dito isto, querer ignorar o óbvio é que me parece um exercício de meter a cabeca na areia. É claro que os colégios privados fornecem ensino de qualidade. Pago a peso de ouro, apenas para as elites, inacessível para alunos com outro tipo de necessidade e por aí fora. Estamos de acordo. Mas para quem lá está…claro que têm muito melhores condicões de aprendizagem do que a maioria cá fora.
Parte do problema não chega do ranking mas sim da degradacão da escola pública ao longo dos anos. O que eu gostaria, em tese, é que colégios privados não existissem e a escola pública universal oferecesse oportunidades de aprendizagem como aquelas que uma pequena elite tem a pagar.
Um sítio onde os instrumentos musicais não se resumissem a uma flauta, o complexo desportivo fosse mais do que 100 metros de cimento e as actividades extra-curriculares não fossem apenas a eterna visita ao aquário Vasco da Gama.
Abri ao calhas a página de um desses colégios de betinhos. Escolhi o Moderno. Vi um menu de almoco com 4 ou 5 opcões onde figurava raia com acorda de coentros. Escola de música e actividades extra-curriculares que iam do ballet ao british council, do judo ao ténis, do futebol à ginástica. Salas todas bonitas, edificios em cimento e janelas lavadas. Eu não sei como foram as vossas aulas mas as minhas de educacão física no 498 ou no 240, consisitiam em jogar futebol num pedaco de cimento com balizas feitas com pedras ou futebol humano, o melhor desporto de sempre para quando nem uma bola de qualquer coisa a escola tem. Nas aulas de inglês nunca ouvi um professor a fazer um diálogo, quanto mais British Council. Refeitório com raia frita bom, teríamos primeiro que ter um refeitório. Aulas que por vezes eram dadas em barracões imundos e gelados no inverno, passando a imundos e estufas no verão. E, na falta de educacão sexual, tínhamos o professor de electrotecnia que, enquanto nos explicava como ligar uma caixa de derivacão, contava sobre o último filme pornográfico que tinha visto e onde, cito, “uma preta tinha aviado 5”. De notar que ele nos contava isto para que um grupo de 4 ou 5 alunos, entre os quais uma rapariga de origem angolana, o ouvisse bem. Portanto, ali pelos 13 anos, ainda não sabia que raio tinha feito o Van Gogh com a orelha, que muro era aquele em Berlim ou como se chamava a frigideira que no céu se formava com estrelas mas, em compensacão, sabia o que uma preta com 3 buracos e 2 mãos conseguia fazer. “Street smart”, dizem-me. Não nego a aprendizagem “extra-curricular” que aprendi na escola mas, enfim, aos 13 anos acho que teria preferido judo.
Sei que existem escolas públicas excepcionais. Não frequentei nenhuma delas mas os nomes são mais ou menos conhecidos. Pessoalmente preferia que, em vez de denegrirmos os colégios privados, pensássemos como é que a escola pública se poderia aproximar daquele nível de ensino. Ou por outras palavras, como é que poderíamos fazer para que cada escola de bairro fosse de qualidade aceitável, para que os nossos pais não andassem com esquemas de moradas ou a contar trocos, na procura de algo melhor?
Eu não acho que o problema maior esteja no parque escolar ou nos equipamentos. Pelo menos nos dias de hoje. Acho que passa muito pelo reconhecimento (ou falta dele) que atribuímos aos nossos professores. Acho que passa pelo facilitismo das avaliacões (para as estatísticas da UE) e também pela falta de temas fora dos programas convencionais. Lembro-me sempre da vergonha que senti ao pegar numa baga, num arbusto aqui perto de casa, e ouvir o meu filho a dizer que aquela não era boa para se comer mas a vermelha do lado já podia ser. Ele que ao fim de 6 anos na escola já aprendeu a fazer fogueiras, cabanas de madeira, orientacão com mapas, 3 linguas, diferencas entre cristãos, muculmanos e judeus, experiencias com N instrumentos musicais, pratica de desportos que vao do hoquei no gelo ao golfe, do judo à esgrima, do futebol ao ténis. Sabe muito menos de matemática do que eu sabia na idade dele, é um facto, mas percebe muito melhor o mundo.
Ora, não existindo um modelo perfeito, julgo ser um tiro no pé ignorar a decadência do ensino público e condenar a oportunidade de negócio das escolas privadas. O que nós, defensores da escola pública devemos fazer, é garantir que a qualidade da escola universal deixa os colégios sem negócio.
Como é que isso se faz num país pobre, com enorme abandono escolar, com professores pagos miseravelmente e sujeitos a carreiras de instabilidade, é que me parece um debate mais alongado.
O que o ranking nos diz, em primeiro lugar, é que o sítio onde nascemos nos dá (ou tira) uma vantagem na corrida a uma posicão na vida.
E sim, já sei que há 500 000 exemplos contrários. Mas em média, se pensarmos em todos os alunos destes colégios e os restantes das escolas públicas (as boas, as más e as miseráveis), não me parece difícil perceber quem tem as melhores condicões de aprendizagem.
Sendo a educacão pública o pilar de qualquer país que ser quer civilizado e de primeiro mundo, a defesa da carreira docente parece-me o primeiro passo para se chegar a algum lado neste debate.
Cada um de nós terá as suas histórias da escola pública. Eu guardo com saudade os bons professores que tive e já me esqueci da maioria, de tão irrelevantes que foram. Se me perguntassem há 30 anos se preferia ter aulas no colégio moderno ou passar os intervalos entre aqueles barracões da imagem, eu teria dito sem hesitar, mesmo com o perigo de ferir a vista nos sapatos de vela, colégio Moderno. E só para jogar futebol num campo com balizas, até calcava uns redley sem ser obrigado.
1 comment

as contas dos políticos

Views: 0

A CAUSA DAS COISAS
Os responsáveis políticos só são obrigados a declarar contas à ordem se o montante lá depositado for superior a 50 salários mínimos. Se o saldo da conta não passar dos 33.250 euros, um político até pode ter 10 vezes esse dinheiro, espalhado por dez contas diferentes, que não tem de declarar nenhuma.
May be an image of money and text
0 comments

DO YIN, DO YANG E DO CONFUCIONISMO, , crónica 96-98, 26 abril – 16 maio 2011

Views: 0

DO YIN, DO YANG E DO CONFUCIONISMO, , crónica 96-98, 26 abril – 16 maio 2011
DO YIN, DO YANG E DO CONFUCIONISMO, , crónica 96-98, 26 abril – 16 maio 2011

 

Mero aprendiz de feiticeiro, jovem desenfreado na segunda aventura de liberdade, sem as peias constrangedoras da sociedade patriarcal em que cresci, estava disposto a gozar ao máximo o que a vida me pudesse proporcionar. O hedonismo era, sem sombra de dúvida, a Filosofia que me guiava. Demasiadas restrições, proibições, tradições invioláveis e outros tabus haviam regido a vida de infante a adolescente. Liberto das peias castradoras da sociedade ocidental e da família arreigada a tradições seculares, ia, enfim, crescer numa errância própria da era das descobertas.

Era a aprendizagem sem noções premeditadas, nem destinos certos, mas ainda, irremediavelmente, coartado pelos princípios e noções basilares recebidas de meus pais no tocante à inviolabilidade e perenidade da família. Comecei a descobrir que a vida não era como o yin e yang, entre o branco e o negro, era matizada por uma infinidade de tons cinzentos.

Também a minha vida era composta por duas forças complementares e sendo de signo Balança ou Libra, havia um equilíbrio dinâmico, que, tal como no princípio da dualidade de yin e yang, surgia o movimento e mutação, a que não me queria opor. Se uma era ativa, diurna, luminosa, quente, a outra era passiva, noturna, escura, fria.

 

Era um ocidental em busca de equilíbrio e de identidade, tal como os macaenses, em ambiente estranho e hostil. Muitas forças contraditórias me impeliam e sustinham. De Kung-Fu-Tzu (Confúcio) partilhava preocupações com a política e a pedagogia. O valor do estudo, disciplina, ordem, consciência política e trabalho são lemas que o confucionismo impôs à civilização chinesa da antiguidade e que se mantêm. Não são uma religião, nem um credo mas determinações rituais de caráter social, que permitem a liberdade de crença em qualquer sistema metafísico ou religioso que não vá contra as regras de respeito mútuo e etiqueta pessoal. Curiosamente, este paralelismo entre os valores confucionistas e os meus, deixaram aberta uma via de compreensão. À época faltavam-me muitos anos para entender, na globalidade, o verdadeiro significado do dito confucionista “Mesmo nas situações mais pobres uma pessoa que vive corretamente será feliz. Coisas mal adquiridas nunca trarão felicidade” que se tornaria no meu arquétipo após os quarenta e cinco anos.

 

A vida em Macau (1976-1983) tinha, para mim, o enorme chamamento materialista de privilegiado de que beneficiava. Por outro lado, as inovações tecnológicas que chegavam (antes da Europa e EUA) eram demasiado atraentes para as recusar. Os meus jovens anos não eram conducentes a uma prática de reflexão, mas centravam-se num hedonismo de ação e gratificação instantânea de sentidos e sentimentos. Queria ser feliz, não sabia como e pensava que o dinheiro ajudava. Ia ensaiar o velho sistema de tentar errar e confiar na proverbial sorte para o atingir.

 

Ainda não chegara – nessa era – ao ponto em que me consideraria um nativo do ocidente com uma visão oriental do mundo, como citei ao Prof. Lei Heong Iok, presidente do Politécnico (abril 2011), ao explicar como interpretava o interesse da China pela lusofonia. Conseguia transmutar a minha mente para um ponto de vista oriental, olvidando a lógica do pensamento ocidental, delimitando razões e ações, imbuído de um pensamento confucionista. Sem o imediatismo ocidental que busca a satisfação apressada. É difícil de explicar, mas segui basicamente o método de esquecer as premissas em que cresci e colocar-me na mente do outro, imaginar o quando, como e porquê das suas atitudes, tentar antecipá-las e usar as mesmas, se possível em proveito próprio, como forma de me precaver contra inopinadas surpresas. Nem sempre era fácil ou possível, e nem sempre levava aos resultados esperados, mas iria permitir-me, mais tarde, atingir o equilíbrio cultural entre as noções originais da minha educação e as aprendizagens orientais que cultivara nas décadas de vivência na Australásia e no Império do Meio. Isso adviria naturalmente.

 

Nem sequer me apercebi de como me tornara tão diferente dos familiares e amigos em Portugal. Estes, dificilmente entenderiam a minha mudança de nome, identidade, nacionalidade e jamais interpretariam corretamente a mudança de paradigmas pelos quais me passei a reger. A verdade é que a mudança, inicial e erroneamente localizada em Timor, se deu em Macau no confronto entre as noções e princípios da educação judaico-cristã e os mundos desconhecidos de que Marco Polo falava e ora eu conhecia. Depois de ali viver seis anos, mais o que aprendera com expatriados chineses, macaenses e de Hong Kong na Austrália, e 14 anos casado com uma macaense, tudo despertara em mim uma forma nova de encarar a vida, o presente e o futuro, para adotar uma visão mais oriental da vida.

A religião chinesa não é uma religião como o judaísmo ou o islamismo. É constituída por muitas religiões e filosofias, como o confucionismo e o taoismo. Confúcio não pretendia fundar uma religião. Pretendia propiciar instrução moral e ensinar as pessoas a viver bem, de acordo com os valores de dever, cortesia, sabedoria e generosidade. Uma das ideias mais importantes era a de que os filhos deviam honrar e respeitar os pais, em vida e após a morte. Por isso, Confúcio [551-479 a.C.) encorajava a prática do culto aos antepassados, que fazia parte da religião. Sábios posteriores [Mêncio (372-289 a.C.) e Zhu Xi (1130-1200)] transformaram as ideias de Confúcio num sistema religioso. No taoismo, o Tao é mais do que um caminho, a fonte de tudo neste mundo. Ao seguir o caminho, os taoistas aspiram à união com o Tao, e, com as forças da natureza. Isso implica livrar-se de preocupações e apego ao mundo material para concentrar-se no caminho, alcançando equilíbrio e harmonia na vida e conquistando a paz que vem da compreensão. Diz-se dos que atingem o objetivo que serão imortais após a morte física.

Considere-se como terceira religião (que não o é, propriamente dito) o budismo, que penetrou na China perto do início da era cristã, atingindo o apogeu na dinastia T’ang (618-907). Ao oferecer aos chineses uma análise da natureza transitória e sofredora da vida, o budismo oferece um caminho de libertação, introduzindo a possibilidade de que os ancestrais estejam a ser atormentados no inferno. Rituais para adquirir e transferir méritos aos mortos tornaram-se importantes, seja pela execução correta de funerais, ou outros rituais.

A religião popular é extensamente praticada e, embora diversificada, constitui uma quarta via. Os chineses em geral não sentem que devam aceitar determinada religião ou filosofia e rejeitar as demais. Escolhem a mais proveitosa, no lar, na vida pública ou nos ritos de passagem. Mesmo a ideia de transcendente não se aplica aos chineses. O pensamento chinês é imanente – tudo está, em potência, esperando ser desperto. A transcendência só existe no budismo, que acredita na libertação completa da matéria. Sei-o agora com experiência e retrospeção. Inferi que a razão por que Macau não dispusera de um capítulo, devotadamente dedicado, nos anteriores volumes da ChrónicAçores, se devia ao facto de haver pontas por unir, e que a conjugação dos fios da meada só se tornara possível ao regressar após trinta anos de ausência. Macau fora um capítulo em aberto, a história por contar, uma estória em busca de desenlace. Por vezes, só o tempo permite analisar, de forma fria e sem emoções, a relevância de factos passados. Sou definitivamente um nativo do ocidente com uma visão oriental do mundo.

Mero aprendiz de feiticeiro, jovem desenfreado na segunda aventura de liberdade, sem as peias constrangedoras da sociedade patriarcal em que cresci, estava disposto a gozar ao máximo o que a vida me pudesse proporcionar. O hedonismo era, sem sombra de dúvida, a Filosofia que me guiava. Demasiadas restrições, proibições, tradições invioláveis e outros tabus haviam regido a vida de infante a adolescente. Liberto das peias castradoras da sociedade ocidental e da família arreigada a tradições seculares, ia, enfim, crescer numa errância própria da era das descobertas.

Era a aprendizagem sem noções premeditadas, nem destinos certos, mas ainda, irremediavelmente, coartado pelos princípios e noções basilares recebidas de meus pais no tocante à inviolabilidade e perenidade da família. Comecei a descobrir que a vida não era como o yin e yang, entre o branco e o negro, era matizada por uma infinidade de tons cinzentos.

Também a minha vida era composta por duas forças complementares e sendo de signo Balança ou Libra, havia um equilíbrio dinâmico, que, tal como no princípio da dualidade de yin e yang, surgia o movimento e mutação, a que não me queria opor. Se uma era ativa, diurna, luminosa, quente, a outra era passiva, noturna, escura, fria.

 

Era um ocidental em busca de equilíbrio e de identidade, tal como os macaenses, em ambiente estranho e hostil. Muitas forças contraditórias me impeliam e sustinham. De Kung-Fu-Tzu (Confúcio) partilhava preocupações com a política e a pedagogia. O valor do estudo, disciplina, ordem, consciência política e trabalho são lemas que o confucionismo impôs à civilização chinesa da antiguidade e que se mantêm. Não são uma religião, nem um credo mas determinações rituais de caráter social, que permitem a liberdade de crença em qualquer sistema metafísico ou religioso que não vá contra as regras de respeito mútuo e etiqueta pessoal. Curiosamente, este paralelismo entre os valores confucionistas e os meus, deixaram aberta uma via de compreensão. À época faltavam-me muitos anos para entender, na globalidade, o verdadeiro significado do dito confucionista “Mesmo nas situações mais pobres uma pessoa que vive corretamente será feliz. Coisas mal adquiridas nunca trarão felicidade” que se tornaria no meu arquétipo após os quarenta e cinco anos.

 

A vida em Macau (1976-1983) tinha, para mim, o enorme chamamento materialista de privilegiado de que beneficiava. Por outro lado, as inovações tecnológicas que chegavam (antes da Europa e EUA) eram demasiado atraentes para as recusar. Os meus jovens anos não eram conducentes a uma prática de reflexão, mas centravam-se num hedonismo de ação e gratificação instantânea de sentidos e sentimentos. Queria ser feliz, não sabia como e pensava que o dinheiro ajudava. Ia ensaiar o velho sistema de tentar errar e confiar na proverbial sorte para o atingir.

 

Ainda não chegara – nessa era – ao ponto em que me consideraria um nativo do ocidente com uma visão oriental do mundo, como citei ao Prof. Lei Heong Iok, presidente do Politécnico (abril 2011), ao explicar como interpretava o interesse da China pela lusofonia. Conseguia transmutar a minha mente para um ponto de vista oriental, olvidando a lógica do pensamento ocidental, delimitando razões e ações, imbuído de um pensamento confucionista. Sem o imediatismo ocidental que busca a satisfação apressada. É difícil de explicar, mas segui basicamente o método de esquecer as premissas em que cresci e colocar-me na mente do outro, imaginar o quando, como e porquê das suas atitudes, tentar antecipá-las e usar as mesmas, se possível em proveito próprio, como forma de me precaver contra inopinadas surpresas. Nem sempre era fácil ou possível, e nem sempre levava aos resultados esperados, mas iria permitir-me, mais tarde, atingir o equilíbrio cultural entre as noções originais da minha educação e as aprendizagens orientais que cultivara nas décadas de vivência na Australásia e no Império do Meio. Isso adviria naturalmente.

 

Nem sequer me apercebi de como me tornara tão diferente dos familiares e amigos em Portugal. Estes, dificilmente entenderiam a minha mudança de nome, identidade, nacionalidade e jamais interpretariam corretamente a mudança de paradigmas pelos quais me passei a reger. A verdade é que a mudança, inicial e erroneamente localizada em Timor, se deu em Macau no confronto entre as noções e princípios da educação judaico-cristã e os mundos desconhecidos de que Marco Polo falava e ora eu conhecia. Depois de ali viver seis anos, mais o que aprendera com expatriados chineses, macaenses e de Hong Kong na Austrália, e 14 anos casado com uma macaense, tudo despertara em mim uma forma nova de encarar a vida, o presente e o futuro, para adotar uma visão mais oriental da vida.

A religião chinesa não é uma religião como o judaísmo ou o islamismo. É constituída por muitas religiões e filosofias, como o confucionismo e o taoismo. Confúcio não pretendia fundar uma religião. Pretendia propiciar instrução moral e ensinar as pessoas a viver bem, de acordo com os valores de dever, cortesia, sabedoria e generosidade. Uma das ideias mais importantes era a de que os filhos deviam honrar e respeitar os pais, em vida e após a morte. Por isso, Confúcio [551-479 a.C.) encorajava a prática do culto aos antepassados, que fazia parte da religião. Sábios posteriores [Mêncio (372-289 a.C.) e Zhu Xi (1130-1200)] transformaram as ideias de Confúcio num sistema religioso. No taoismo, o Tao é mais do que um caminho, a fonte de tudo neste mundo. Ao seguir o caminho, os taoistas aspiram à união com o Tao, e, com as forças da natureza. Isso implica livrar-se de preocupações e apego ao mundo material para concentrar-se no caminho, alcançando equilíbrio e harmonia na vida e conquistando a paz que vem da compreensão. Diz-se dos que atingem o objetivo que serão imortais após a morte física.

Considere-se como terceira religião (que não o é, propriamente dito) o budismo, que penetrou na China perto do início da era cristã, atingindo o apogeu na dinastia T’ang (618-907). Ao oferecer aos chineses uma análise da natureza transitória e sofredora da vida, o budismo oferece um caminho de libertação, introduzindo a possibilidade de que os ancestrais estejam a ser atormentados no inferno. Rituais para adquirir e transferir méritos aos mortos tornaram-se importantes, seja pela execução correta de funerais, ou outros rituais.

A religião popular é extensamente praticada e, embora diversificada, constitui uma quarta via. Os chineses em geral não sentem que devam aceitar determinada religião ou filosofia e rejeitar as demais. Escolhem a mais proveitosa, no lar, na vida pública ou nos ritos de passagem. Mesmo a ideia de transcendente não se aplica aos chineses. O pensamento chinês é imanente – tudo está, em potência, esperando ser desperto. A transcendência só existe no budismo, que acredita na libertação completa da matéria. Sei-o agora com experiência e retrospeção. Inferi que a razão por que Macau não dispusera de um capítulo, devotadamente dedicado, nos anteriores volumes da ChrónicAçores, se devia ao facto de haver pontas por unir, e que a conjugação dos fios da meada só se tornara possível ao regressar após trinta anos de ausência. Macau fora um capítulo em aberto, a história por contar, uma estória em busca de desenlace. Por vezes, só o tempo permite analisar, de forma fria e sem emoções, a relevância de factos passados. Sou definitivamente um nativo do ocidente com uma visão oriental do mundo.

DO YIN, DO YANG E DO CONFUCIONISMO, , crónica 96-98, 26 abril – 16 maio 2011
DO YIN, DO YANG E DO CONFUCIONISMO, , crónica 96-98, 26 abril – 16 maio 2011

 

Mero aprendiz de feiticeiro, jovem desenfreado na segunda aventura de liberdade, sem as peias constrangedoras da sociedade patriarcal em que cresci, estava disposto a gozar ao máximo o que a vida me pudesse proporcionar. O hedonismo era, sem sombra de dúvida, a Filosofia que me guiava. Demasiadas restrições, proibições, tradições invioláveis e outros tabus haviam regido a vida de infante a adolescente. Liberto das peias castradoras da sociedade ocidental e da família arreigada a tradições seculares, ia, enfim, crescer numa errância própria da era das descobertas.

Era a aprendizagem sem noções premeditadas, nem destinos certos, mas ainda, irremediavelmente, coartado pelos princípios e noções basilares recebidas de meus pais no tocante à inviolabilidade e perenidade da família. Comecei a descobrir que a vida não era como o yin e yang, entre o branco e o negro, era matizada por uma infinidade de tons cinzentos.

Também a minha vida era composta por duas forças complementares e sendo de signo Balança ou Libra, havia um equilíbrio dinâmico, que, tal como no princípio da dualidade de yin e yang, surgia o movimento e mutação, a que não me queria opor. Se uma era ativa, diurna, luminosa, quente, a outra era passiva, noturna, escura, fria.

 

Era um ocidental em busca de equilíbrio e de identidade, tal como os macaenses, em ambiente estranho e hostil. Muitas forças contraditórias me impeliam e sustinham. De Kung-Fu-Tzu (Confúcio) partilhava preocupações com a política e a pedagogia. O valor do estudo, disciplina, ordem, consciência política e trabalho são lemas que o confucionismo impôs à civilização chinesa da antiguidade e que se mantêm. Não são uma religião, nem um credo mas determinações rituais de caráter social, que permitem a liberdade de crença em qualquer sistema metafísico ou religioso que não vá contra as regras de respeito mútuo e etiqueta pessoal. Curiosamente, este paralelismo entre os valores confucionistas e os meus, deixaram aberta uma via de compreensão. À época faltavam-me muitos anos para entender, na globalidade, o verdadeiro significado do dito confucionista “Mesmo nas situações mais pobres uma pessoa que vive corretamente será feliz. Coisas mal adquiridas nunca trarão felicidade” que se tornaria no meu arquétipo após os quarenta e cinco anos.

 

A vida em Macau (1976-1983) tinha, para mim, o enorme chamamento materialista de privilegiado de que beneficiava. Por outro lado, as inovações tecnológicas que chegavam (antes da Europa e EUA) eram demasiado atraentes para as recusar. Os meus jovens anos não eram conducentes a uma prática de reflexão, mas centravam-se num hedonismo de ação e gratificação instantânea de sentidos e sentimentos. Queria ser feliz, não sabia como e pensava que o dinheiro ajudava. Ia ensaiar o velho sistema de tentar errar e confiar na proverbial sorte para o atingir.

 

Ainda não chegara – nessa era – ao ponto em que me consideraria um nativo do ocidente com uma visão oriental do mundo, como citei ao Prof. Lei Heong Iok, presidente do Politécnico (abril 2011), ao explicar como interpretava o interesse da China pela lusofonia. Conseguia transmutar a minha mente para um ponto de vista oriental, olvidando a lógica do pensamento ocidental, delimitando razões e ações, imbuído de um pensamento confucionista. Sem o imediatismo ocidental que busca a satisfação apressada. É difícil de explicar, mas segui basicamente o método de esquecer as premissas em que cresci e colocar-me na mente do outro, imaginar o quando, como e porquê das suas atitudes, tentar antecipá-las e usar as mesmas, se possível em proveito próprio, como forma de me precaver contra inopinadas surpresas. Nem sempre era fácil ou possível, e nem sempre levava aos resultados esperados, mas iria permitir-me, mais tarde, atingir o equilíbrio cultural entre as noções originais da minha educação e as aprendizagens orientais que cultivara nas décadas de vivência na Australásia e no Império do Meio. Isso adviria naturalmente.

 

Nem sequer me apercebi de como me tornara tão diferente dos familiares e amigos em Portugal. Estes, dificilmente entenderiam a minha mudança de nome, identidade, nacionalidade e jamais interpretariam corretamente a mudança de paradigmas pelos quais me passei a reger. A verdade é que a mudança, inicial e erroneamente localizada em Timor, se deu em Macau no confronto entre as noções e princípios da educação judaico-cristã e os mundos desconhecidos de que Marco Polo falava e ora eu conhecia. Depois de ali viver seis anos, mais o que aprendera com expatriados chineses, macaenses e de Hong Kong na Austrália, e 14 anos casado com uma macaense, tudo despertara em mim uma forma nova de encarar a vida, o presente e o futuro, para adotar uma visão mais oriental da vida.

A religião chinesa não é uma religião como o judaísmo ou o islamismo. É constituída por muitas religiões e filosofias, como o confucionismo e o taoismo. Confúcio não pretendia fundar uma religião. Pretendia propiciar instrução moral e ensinar as pessoas a viver bem, de acordo com os valores de dever, cortesia, sabedoria e generosidade. Uma das ideias mais importantes era a de que os filhos deviam honrar e respeitar os pais, em vida e após a morte. Por isso, Confúcio [551-479 a.C.) encorajava a prática do culto aos antepassados, que fazia parte da religião. Sábios posteriores [Mêncio (372-289 a.C.) e Zhu Xi (1130-1200)] transformaram as ideias de Confúcio num sistema religioso. No taoismo, o Tao é mais do que um caminho, a fonte de tudo neste mundo. Ao seguir o caminho, os taoistas aspiram à união com o Tao, e, com as forças da natureza. Isso implica livrar-se de preocupações e apego ao mundo material para concentrar-se no caminho, alcançando equilíbrio e harmonia na vida e conquistando a paz que vem da compreensão. Diz-se dos que atingem o objetivo que serão imortais após a morte física.

Considere-se como terceira religião (que não o é, propriamente dito) o budismo, que penetrou na China perto do início da era cristã, atingindo o apogeu na dinastia T’ang (618-907). Ao oferecer aos chineses uma análise da natureza transitória e sofredora da vida, o budismo oferece um caminho de libertação, introduzindo a possibilidade de que os ancestrais estejam a ser atormentados no inferno. Rituais para adquirir e transferir méritos aos mortos tornaram-se importantes, seja pela execução correta de funerais, ou outros rituais.

A religião popular é extensamente praticada e, embora diversificada, constitui uma quarta via. Os chineses em geral não sentem que devam aceitar determinada religião ou filosofia e rejeitar as demais. Escolhem a mais proveitosa, no lar, na vida pública ou nos ritos de passagem. Mesmo a ideia de transcendente não se aplica aos chineses. O pensamento chinês é imanente – tudo está, em potência, esperando ser desperto. A transcendência só existe no budismo, que acredita na libertação completa da matéria. Sei-o agora com experiência e retrospeção. Inferi que a razão por que Macau não dispusera de um capítulo, devotadamente dedicado, nos anteriores volumes da ChrónicAçores, se devia ao facto de haver pontas por unir, e que a conjugação dos fios da meada só se tornara possível ao regressar após trinta anos de ausência. Macau fora um capítulo em aberto, a história por contar, uma estória em busca de desenlace. Por vezes, só o tempo permite analisar, de forma fria e sem emoções, a relevância de factos passados. Sou definitivamente um nativo do ocidente com uma visão oriental do mundo.

DO YIN, DO YANG E DO CONFUCIONISMO, , crónica 96-98, 26 abril – 16 maio 2011

 

Mero aprendiz de feiticeiro, jovem desenfreado na segunda aventura de liberdade, sem as peias constrangedoras da sociedade patriarcal em que cresci, estava disposto a gozar ao máximo o que a vida me pudesse proporcionar. O hedonismo era, sem sombra de dúvida, a Filosofia que me guiava. Demasiadas restrições, proibições, tradições invioláveis e outros tabus haviam regido a vida de infante a adolescente. Liberto das peias castradoras da sociedade ocidental e da família arreigada a tradições seculares, ia, enfim, crescer numa errância própria da era das descobertas.

Era a aprendizagem sem noções premeditadas, nem destinos certos, mas ainda, irremediavelmente, coartado pelos princípios e noções basilares recebidas de meus pais no tocante à inviolabilidade e perenidade da família. Comecei a descobrir que a vida não era como o yin e yang, entre o branco e o negro, era matizada por uma infinidade de tons cinzentos.

Também a minha vida era composta por duas forças complementares e sendo de signo Balança ou Libra, havia um equilíbrio dinâmico, que, tal como no princípio da dualidade de yin e yang, surgia o movimento e mutação, a que não me queria opor. Se uma era ativa, diurna, luminosa, quente, a outra era passiva, noturna, escura, fria.

 

Era um ocidental em busca de equilíbrio e de identidade, tal como os macaenses, em ambiente estranho e hostil. Muitas forças contraditórias me impeliam e sustinham. De Kung-Fu-Tzu (Confúcio) partilhava preocupações com a política e a pedagogia. O valor do estudo, disciplina, ordem, consciência política e trabalho são lemas que o confucionismo impôs à civilização chinesa da antiguidade e que se mantêm. Não são uma religião, nem um credo mas determinações rituais de caráter social, que permitem a liberdade de crença em qualquer sistema metafísico ou religioso que não vá contra as regras de respeito mútuo e etiqueta pessoal. Curiosamente, este paralelismo entre os valores confucionistas e os meus, deixaram aberta uma via de compreensão. À época faltavam-me muitos anos para entender, na globalidade, o verdadeiro significado do dito confucionista “Mesmo nas situações mais pobres uma pessoa que vive corretamente será feliz. Coisas mal adquiridas nunca trarão felicidade” que se tornaria no meu arquétipo após os quarenta e cinco anos.

 

A vida em Macau (1976-1983) tinha, para mim, o enorme chamamento materialista de privilegiado de que beneficiava. Por outro lado, as inovações tecnológicas que chegavam (antes da Europa e EUA) eram demasiado atraentes para as recusar. Os meus jovens anos não eram conducentes a uma prática de reflexão, mas centravam-se num hedonismo de ação e gratificação instantânea de sentidos e sentimentos. Queria ser feliz, não sabia como e pensava que o dinheiro ajudava. Ia ensaiar o velho sistema de tentar errar e confiar na proverbial sorte para o atingir.

 

Ainda não chegara – nessa era – ao ponto em que me consideraria um nativo do ocidente com uma visão oriental do mundo, como citei ao Prof. Lei Heong Iok, presidente do Politécnico (abril 2011), ao explicar como interpretava o interesse da China pela lusofonia. Conseguia transmutar a minha mente para um ponto de vista oriental, olvidando a lógica do pensamento ocidental, delimitando razões e ações, imbuído de um pensamento confucionista. Sem o imediatismo ocidental que busca a satisfação apressada. É difícil de explicar, mas segui basicamente o método de esquecer as premissas em que cresci e colocar-me na mente do outro, imaginar o quando, como e porquê das suas atitudes, tentar antecipá-las e usar as mesmas, se possível em proveito próprio, como forma de me precaver contra inopinadas surpresas. Nem sempre era fácil ou possível, e nem sempre levava aos resultados esperados, mas iria permitir-me, mais tarde, atingir o equilíbrio cultural entre as noções originais da minha educação e as aprendizagens orientais que cultivara nas décadas de vivência na Australásia e no Império do Meio. Isso adviria naturalmente.

 

Nem sequer me apercebi de como me tornara tão diferente dos familiares e amigos em Portugal. Estes, dificilmente entenderiam a minha mudança de nome, identidade, nacionalidade e jamais interpretariam corretamente a mudança de paradigmas pelos quais me passei a reger. A verdade é que a mudança, inicial e erroneamente localizada em Timor, se deu em Macau no confronto entre as noções e princípios da educação judaico-cristã e os mundos desconhecidos de que Marco Polo falava e ora eu conhecia. Depois de ali viver seis anos, mais o que aprendera com expatriados chineses, macaenses e de Hong Kong na Austrália, e 14 anos casado com uma macaense, tudo despertara em mim uma forma nova de encarar a vida, o presente e o futuro, para adotar uma visão mais oriental da vida.

A religião chinesa não é uma religião como o judaísmo ou o islamismo. É constituída por muitas religiões e filosofias, como o confucionismo e o taoismo. Confúcio não pretendia fundar uma religião. Pretendia propiciar instrução moral e ensinar as pessoas a viver bem, de acordo com os valores de dever, cortesia, sabedoria e generosidade. Uma das ideias mais importantes era a de que os filhos deviam honrar e respeitar os pais, em vida e após a morte. Por isso, Confúcio [551-479 a.C.) encorajava a prática do culto aos antepassados, que fazia parte da religião. Sábios posteriores [Mêncio (372-289 a.C.) e Zhu Xi (1130-1200)] transformaram as ideias de Confúcio num sistema religioso. No taoismo, o Tao é mais do que um caminho, a fonte de tudo neste mundo. Ao seguir o caminho, os taoistas aspiram à união com o Tao, e, com as forças da natureza. Isso implica livrar-se de preocupações e apego ao mundo material para concentrar-se no caminho, alcançando equilíbrio e harmonia na vida e conquistando a paz que vem da compreensão. Diz-se dos que atingem o objetivo que serão imortais após a morte física.

Considere-se como terceira religião (que não o é, propriamente dito) o budismo, que penetrou na China perto do início da era cristã, atingindo o apogeu na dinastia T’ang (618-907). Ao oferecer aos chineses uma análise da natureza transitória e sofredora da vida, o budismo oferece um caminho de libertação, introduzindo a possibilidade de que os ancestrais estejam a ser atormentados no inferno. Rituais para adquirir e transferir méritos aos mortos tornaram-se importantes, seja pela execução correta de funerais, ou outros rituais.

A religião popular é extensamente praticada e, embora diversificada, constitui uma quarta via. Os chineses em geral não sentem que devam aceitar determinada religião ou filosofia e rejeitar as demais. Escolhem a mais proveitosa, no lar, na vida pública ou nos ritos de passagem. Mesmo a ideia de transcendente não se aplica aos chineses. O pensamento chinês é imanente – tudo está, em potência, esperando ser desperto. A transcendência só existe no budismo, que acredita na libertação completa da matéria. Sei-o agora com experiência e retrospeção. Inferi que a razão por que Macau não dispusera de um capítulo, devotadamente dedicado, nos anteriores volumes da ChrónicAçores, se devia ao facto de haver pontas por unir, e que a conjugação dos fios da meada só se tornara possível ao regressar após trinta anos de ausência. Macau fora um capítulo em aberto, a história por contar, uma estória em busca de desenlace. Por vezes, só o tempo permite analisar, de forma fria e sem emoções, a relevância de factos passados. Sou definitivamente um nativo do ocidente com uma visão oriental do mundo.

iphone e o fuso dos açores

Views: 0

: á á ç. ã
Vários açorianos queixam-se de não poderem agendar lembretes ou definir horas de despertar quando o iPhone está a usar o fuso horário do arquipélago
O mistério começou a ganhar forma com as mais recentes atualizações do sistema operativo dos iPhones: de súbito, os serviços de lembrete, notificações e até de despertador deixaram de funcionar sempre que um utilizador escolhe o fuso horário dos Açores. O iOS, que é usado nos telemóveis da Apple, reconhece o fuso horário açoriano (menos uma hora do que em Portugal Continental), mas sempre que algum utilizador tenta inserir na agenda um evento com lembrete ou define uma nova hora no despertador estas ferramentas desligam-se, como se o utilizador tivesse saído delas, e sem guardar as alterações.
Resultado: desde fevereiro que vários açorianos começaram a usar os fusos horários de Cabo Verde e Guiné-Bissau – mas essa solução apenas funcionou até ao dia em que se iniciou o horário de verão. Entretanto, há quem tenha começado a guiar-se pelo horário de São Tomé e Príncipe – e aparentemente sem problemas. Questionada pelo Expresso, a Apple ainda não forneceu qualquer resposta oficial.
“Tendo em conta o valor que custam estes telemóveis, o mínimo que se exige é que funcionem como os das outras marcas. Não me agrada ter de andar a usar o fuso horário de outro local. A Apple tem meios e capacidade suficiente para resolver este problema; não têm de ser os consumidores a encontrar soluções”, denuncia Carolina Coelho, dona de um iPhone 12 e habitante da ilha de Santa Maria.
Questionada pelo Expresso, Carolina Coelho confirma que várias pessoas da ilha já terão solicitado explicações à Apple, mas a marca limita-se a propor aos queixosos que procedam às mais recentes atualizações do sistema operativo iOS. O que no entender de Carolina Coelho, não é a solução: “Dizem-nos para fazer as atualizações, mas isso já nós fizemos!”.
Em Ponta Delgada, ilha de São Miguel, chega o relato de uma resposta da Apple ligeiramente diferente daquela que surge nos relatos dos utilizadores de Santa Maria. “Segundo um técnico do jornal em que trabalho, a Apple já está ao corrente do que se passa, mas a solução só deverá chegar com o lançamento do iOS 15”, refere Nuno Neves, jornalista do Açoriano Oriental e também dono de um iPhone.
A versão do iOS poderá não ser apenas um detalhe neste misterioso bug, que permite mudar para o fuso horário dos Açores mas impede a marcação de lembretes na agenda e horas de despertar no relógio. Vera Carvalho, residente na Ilha de Santa Maria, também teve o mesmo problema – mas curiosamente no momento em que prestava declarações ao Expresso reparou que o telemóvel passou a permitir o normal uso da agenda e do despertador. E diz que, por coincidência, aconteceu o mesmo com o da cunhada.
Vera tem um iPhone 11, enquanto a cunhada tem um iPhone SE – mas ambas têm a correr o iOS 14.4.2, possivelmente porque não enveredaram pelas atualizações automáticas e acabaram por se manter com a versão do sistema operativo que estreou a 26 de março.
A comparação entre os telemóveis das conterrâneas Vera Carvalho e Carolina Coelho permite apurar algumas diferenças que, eventualmente, poderão funcionar como uma eventual pista para a origem do bug: Carolina tem um iPhone 12, que é mais recente que o de Vera, mas enveredou pelas atualizações automáticas – e por isso já tem instalada a versão 14.5.1 do iOS, que foi lançada a 3 de maio, mais de um mês depois do lançamento da versão do iOS que Vera usa no respetivo iPhone.
Será um problema da mais recente atualização do iOS? É possível – mas o bug, eventualmente, não será exclusivo da versão 14.5.1, uma vez que desde fevereiro que a página dedicada às comunidades dos utilizadores de produtos da Apple tem vindo a registar queixas e pedidos de ajuda – sendo que a mais recente versão do iOS só foi lançada a 3 de maio.
O caso ganha complexidade adicional quando se verifica que há versões lançadas depois de fevereiro (como a 14.4.2) que aparentemente deixaram de ter o bug – mas estes e outros “casos” inexplicados só poderão ser sanados quando a Apple revelar o que se passou com o iOS.
“Aparentemente, há pessoas que não têm este problema no iPhone e outras que têm”, refere Vera Carvalho, admitindo que não está muito inclinada a descarregar a atualização mais recente do iOS para não passar pelos constrangimentos do misterioso bug do iPhone.
“ENGENHOCAS” PARA MANTER FUNÇÕES NO TELEMÓVEL
Entre os açorianos que não conseguem marcar horas de despertar e lembretes na agenda multiplicaram-se os expedientes: alguns optaram pelos já referidos fusos horários de países como Guiné Bissau, Cabo Verde ou São Tomé em Príncipe – mas há também quem tenha passado a “enganar” o sistema mudando temporária e manualmente para um fuso horário diferente do açoriano apenas e só para registar horas de despertador e lembretes de agenda, para depois regressar ao fuso horário açoriano, depois de guardadas as alterações.
Não será de estranhar que, até aparecer uma solução da Apple, outros estratagemas sejam engendrados para sanar este “bug horário” do iOS. Mas nada garante que essas soluções mais ou menos imaginosas não produzam efeitos indesejados.
“Com a mudança para a hora de Cabo Verde, passou a ser possível guardar lembretes e horas de despertar… mas quando publicávamos algo no Instagram aparecia a dizer que tinha sido publicado uma hora antes (daquela em que realmente foi publicado)”, conclui Vera Carvalho. O bug lá saberá a que horas anda.
No photo description available.
Lizuarte Machado and 90 others
78 comments
18 shares
Like

Comment
Share
78 comments
View previous comments
All comments