CONGO TRAGÉDIAS E GENOCÍDIOS ESQUECIDOS

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PARA COMPREENDER UM POUCO O QUE SE PASSA NO CONGO
(NA SEQUÊNCIA DO ASSASSINATO DO EMBAIXADOR DA ITÁLIA)
Escreve Almeida fernandes no Público:
«Na segunda-feira, 22 de Fevereiro, foram assassinados a tiro na República Democrática do Congo (RDC) o embaixador italiano, Luca Attanasio, e o carabineiro Vittorio Iacovacci. O atentado ocorreu no Parque Nacional de Virunga, na província do Kivu-Norte. Iam em missão humanitária, integrados num ‘comboio’ da Monusco (a força de estabilização da ONU). O crime poderá ter decorrido de uma tentativa de rapto. Os trabalhadores da ONU e das ONG, e também os padres, são muito apreciados porque rendem bons resgates. Attanasio era um militante das muitas causas africanas.
Não há certeza quanto ao bando armado que matou os italianos. Pouco importa. À excepção da Itália, o crime deu lugar a curtas notícias. Mas lembra o dever de olharmos para as “guerras esquecidas” da África, um flagelo da nossa época. Neste momento a Europa está assolada pela pandemia da covid e centrada sobre si mesma, o que é lógico. Este texto, superficial, é apenas um convite para pensarmos durante alguns minutos numa tragédia que pode parecer longínqua, mas que nos diz respeito, no plano moral e no plano geopolítico.
A sua relevância pode ser resumida numa pergunta: qual é o mais sangrento conflito desde a II Guerra Mundial? É a “guerra silenciosa” que há 26 anos se trava no Kivu-Norte e que, nas suas várias fases, já terá feito um total de cinco milhões de mortos.
O Kivu-Norte tornou-se numa região sem lei e quase sem Estado, onde os massacres étnicos se multiplicam, a violação se tornou uma arma de guerra e as crianças-soldados são carne para canhão dos “senhores da guerra” – e também escravos sexuais. Há países em que as riquezas naturais são uma maldição. É o caso da RDC. Hoje, a tragédia gira em torno do negócio de um minério, o famoso coltan, combinação de dois minerais, um deles o tântalo, indispensável para as baterias dos telemóveis, tablets e computadores. O coltan alimenta os bandos armados e é o primeiro fio que liga o nosso quotidiano à tragédia dos kadoga, as crianças-soldados.
A “grande guerra africana”
Tudo é trágico nesta história, a começar pela sua origem, o genocídio do Ruanda, em 1994. A maioria hutu massacrou centenas de milhares de tutsis para “erradicar a sua raça”. Foi o último genocídio do milénio. Um exército de exilados tutsis respondeu ao genocídio conquistando o poder, que os tutsis ainda hoje mantêm.
Pouco interessam as peripécias. Derrotadas, as milícias hutus, refugiaram-se na RDC. Formaram as Forças Democráticas para Libertação do Ruanda (FDLR), que passaram a ser perseguidas por milícias tutsis. Entretanto, abriu-se uma disputa do poder na RDC, que gerou uma guerra regional envolvendo Angola, Namíbia, Chade, Ruanda, Burundi e Uganda. Chamaram-lhe a “grande guerra africana”. Esta fase terminou em 2003, após um acordo patrocinado pela ONU sobre um governo de transição congolês, deixando mais de três milhões de mortos, essencialmente civis massacrados ou mortos pela fome ou por doença. Hoje, só no Kivu-Norte, há cinco milhões de deslocados e, no ano passado, registaram-se 2000 mortes devido à miséria.
No entanto, a semente ficou. A FDLR decompôs-se em inúmeros bandos terroristas, que vivem da indústria do rapto e da extorsão das populações civis. O conflito tornou-se mais complexo e difícil de abordar. Haverá cerca de 130 milícias armadas, conhecidas por Mai-Mai: o termo designa qualquer tipo de milícia congolesa, para lá das etnias. Umas têm relações directas com o Ruanda, outras com o Uganda, país que interfere frequentemente no Kivu. Na generalidade, foram fundadas para defender um dado território de outras milícias. Vivem de saques, sequestros e banditismo. Está no terreno também outro grupo, as Forças Aliadas Democráticos (ADF), ligado aos islamistas do Uganda e que, segundo Washington, estará associado ao Estado Islâmico (ou ISIS). A ONU acusou as ADF de terem assassinado mais de mil pessoas desde 2019.
O reino do coltan
Se as variadas formas de banditismo são responsáveis por grande parte dos crimes, tudo roda, no entanto, em torno da exploração das riquezas naturais. A RDC tem 75% das reservas mundiais de coltan, mas também grandes reservas de estanho, tungsténio e diamantes.
O jornalista italiano Alberto Negri explica como o sistema funciona: “A extracção dos minérios no Congo não exige tecnologia sofisticada. O coltan, as pepitas de ouro, os diamantes aluviais ou o cobalto – em que o Congo representa 60% da produção mundial – podem ser recolhidos à superfície ou a baixa profundidade, apenas com o uso das mãos. Mão de homem, mas também de crianças.”
É uma engrenagem infernal. Prossegue Negri: “Num país desestabilizado por anos de guerra civil, esta actividade [mineira] levou à criação de milícias ligadas aos ‘senhores da guerra’, financiadas clandestinamente por empresas estrangeiras exportadoras. Ocuparam militarmente as áreas mais rentáveis, combatendo-se entre si, escravizando os mineiros e oprimindo as populações locais. É um mercado em que a mão-de-obra não custa praticamente nada e extrai as mercadorias indispensáveis à indústria high-tech do mundo inteiro. É um mercado ilegal de que se servem a China e as multinacionais mineiras do Ocidente.”
Em 2010, o Congresso dos EUA decidiu exigir às empresas americanas a certificação de que o seu coltan não era “minério de sangue”. Foi uma primeira tentativa de legalização. O efeito foi o contrário do desejado. Uma súbita interrupção da actividade reduziu o financiamento dos “senhores da guerra”, mas desocupou também milhares de mineiros e muitos se alistaram em bandos armados. E as empresas europeias não foram abrangidas pelas novas regras.
As crianças-soldados
Uma das características deste conflito é o uso dos kadoga, crianças-soldados. Escreve no La Repubblica o jornalista Pietro del Re: “Em todas as aldeias atacadas, as milícias rebeldes, depois de terem morto os homens e violado as mulheres, raptam os mais pequenos para os transformar em escravos sexuais ou em combatentes.”
Há quatro anos, o médico congolês Denis Mukuege recebeu o Nobel da Paz, pela criação de um hospital em Bukavu, onde já tratou mais de 40 mil mulheres violadas. Explicou ao mesmo jornal a tragédia dos kadoga: “Estas crianças, a quem entregam espingardas e punhais, muitas vezes para torturar prisioneiros, na absurda crença de que podem ser mais cruéis do que um adulto, crescem na violência mais absoluta. A que vão praticar quando, por sua vez, se tornam adultos.”
Antonella Napoli, repórter italiana que segue a tragédia congolesa, publicou em 2019 um livro sobre as crianças-soldados, L’ Innocenza Spezzata (A inocência despedaçada), em que testemunha casos de barbárie, como o de Suleya, uma menina de 12 anos que perdeu os pais, o pai assassinado e a mãe violada e feita desaparecer pelos rebeldes dum autodenominado Exército de Libertação do Senhor. Um dia chegaram à aldeia para a saquear. Raptada e levada para uma escola de treino, Suleya estava destinada a ser uma criança-soldado e escrava sexual.»
JORGE ALMEIDA FERNANDES
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lusofonias.net

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção e da comissão executiva da AICL