HOJE É O DIA DE TODAS AS PESSOAS

Celebra-se hoje, no sétimo dia a contar do início do novo ano lunar, o ian iat (人日), literalmente o dia de todas as pessoas. Esta celebração reporta-se à lenda da criação dos seres vivos pela deusa Nüwa (女媧).
Rui Rocha and 13 others
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  • Celebra-se hoje, no sétimo dia a contar do início do novo ano lunar, o ian iat (人日), literalmente o dia de todas as pessoas. Esta celebração reporta-se à lenda da criação dos seres vivos pela deusa Nüwa (女媧). Muito tempo depois da criação do mundo por Pángǔ (盘古) e da sua morte, Nüwa veio a este mundo. Sentindo-se sozinha cria vários seres vivos a partir da lama de uma lago onde habitualmente se mirava nas suas límpidas águas: a galinha, no primeiro dia do primeiro mês (zhēngyuè正 月); no segundo dia, o cão; no terceiro, o javali; no quarto, o carneiro; no quinto, a vaca; no sexto, o cavalo; e, no sétimo, o ser humano, como reza no Livro de Adivinhação (占書), de Dōngfāng Shuò (東方朔, 154-93 a.C.) da dinastia Han Ocidental (207 a.C.- 25).
    A celebração do ian iat é realizada em todos os países do Sudeste asiático de influência cultural chinesa. No Japão, o ian iat (jinjitsu, em japonês) era celebrado, tal como na China, no 7º dia do ano novo lunar mas durante o período Meiji (1868 – 1912), com a adoção do calendário solar, esta
    festividade passou a ser celebrada no 7º dia de janeiro de cada ano. Temos, assim, na tradição cultural chinesa uma celebração singular da unidade antropológica e biogenética do ser humano – o dia da sua criação. Mas será interessante também avaliar o modo como na tradição chinesa é contado e celebrado o aniversário de nascimento das pessoas individualmente. Não existe na tradição ocidental uma data de celebração do ser humano; porém, a celebração do aniversário de cada pessoa é de grande significado uma vez que a matriz civilizacional do ocidente está assente no pensamento humanista e na afirmação da individualidade e da valorização das capacidades e das realizações individuais.
    Por outro lado, tal individualidade é também obra da própria Natureza quena sua criatividade e “inteligência” tem o bom hábito que não reproduzir cópias dos seres que cria. Muito budisticamente falando, cada ser é aquele que é. Na verdade, embora sejamos universais por virtude da nossa estreita relação com o Cosmos (somos um belo acaso de agregados de poeiras resultantes de uma ancestral fragmentação cosmológica), somos também ontologicamente únicos.
    A tradição chinesa confere, contudo, uma particular atenção à contagem dos anos de vida de cada pessoa, de acordo com o seu calendário lunissolar. No Extremo Oriente, os calendários tradicionais, sobretudo da China e dos países fortemente influenciados pela cultura chinesa como o Japão, a Coreia e o Vietnam, são lunissolares porque harmonizam as doze lunações[1] em cada ano num total de 354 dias com o ciclo solar de 24 períodos solares em cada ano correspondente a 365,25 dias, acrescentando noventa dias ao calendário, em cada oito anos, ou seja, três lunações aproximadamente. Estecalendário assinala desde o dia mais longo (solstício de verão) e o dia mais curto de cada ano (solstício de inverno), bem como os dois dias do ano em
    que o dia e a noite têm igual período (equinócios da primavera e do outono), assinalando também a mudança das estações e as alterações climáticas ao longo do ano com reflexos na agricultura.
    Os períodos solares ao longo do ano têm nomes sugestivos que acompanham a mudança das estações tais como o Começo da Primavera (lìchūn立春 1º período solar-ps), o Começo do Verão (lìxià立夏, 7 º ps), o Começo do Outono (lìqiū立秋,13º ps), o Começo do Inverno (lìdōng立冬,22ºps); ou, então, os fenómenos relacionados com o clima e a agricultura: Despertar dos Insetos (jīngzhé惊蛰, 3º ps), Pura Claridade (qīngmíng清明, 5º ps), Grão Cheio/Redondo (xiǎomǎn小滿, 8º ps) Grão em Barba (mángzhòng芒种, 9º ps), Água das Chuvas (yǔshuǐ雨水, 2º ps), Grãos de
    Chuva (Gǔyǔ谷雨, 6º ps), Menor Calor (xiǎoshǔ小暑, 11º ps), Maior Calor (dàshǔ大暑, 12º ps), etc.
    Os países que adotam ou adotaram calendários lunissolares (China, Japão, Coreia e Vietnam) contam o ano de nascimento de uma criança como o ano um e não como o ano zero e a partir de 1ºps (lìchūn立春) que, em regra,
    calha no dia 4 ou 5 de fevereiro do calendário gregoriano. Outra versão diz ainda que toda a gente celebra o seu aniversário no Ano Novo Chinês mesmo que não seja a data oficial do seu nascimento. Não importa, por isso, em que mês uma criança nasce pois à nascença tem um ano de idade. O segundo ano de nascimento é um acontecimento familiar importante em que a criança escolhe o seu futuro profissional. A criança é rodeada por um conjunto de objetos tais como uma boneca, moedas ou um livro. Se a criança escolher um livro será professor, se escolher as moedas será rico, se escolher a boneca terá muitos filhos.
    O sexto ano de nascimento é a grande festa de aniversário, enquanto que, por exemplo, na Coreia é ao centésimo dia de nascimento( baegil ), que literalmente significa “100 dias”. Depois do sexto ano de nascimento, os aniversários de nascimento, embora celebrados, apenas a partir dos 60
    retomam uma significativa importância celebrante, começando aos 61 anos de idade um novo ciclo. Há contudo três idades para as mulheres que não devem ser celebradas: os 30 anos, que é considerado um ano de incerteza e
    de perigos vários, mantendo-se com 29 anos até fazer 31 anos; os 33 anos também considerado um ano perigoso e turbulento; e os 66 anos que, tal como os 33 anos é considerado um ano perigoso e turbulento. Os homens
    têm nos seus 40 anos um ano cheio de incerteza e de perigos. Terão, assim, dois anos consecutivos com 39 anos até atingirem os 41 anos. Estas tradições ainda persistem das mais variadas formas, principalmente nas zonas mais rurais e entre as populações mais idosas da China e dos países
    “sinófonos”, embora com tendência a desaparecerem devido à adoção do calendário gregoriano na quase totalidade dos países da Ásia e do mundo.
    [1] Uma lunação é um ciclo lunar completo e corresponde ao tempo que decorre entre duas luas novas consecutivas. Esse período tem a duração média de 29 dias, 12 horas, 44 minutos e 2,9 segundos, contudo esse valor não é constante, e pode variar entre 29 dias e 4 h e 29 dias e 22 h aproximadamente.
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    • 16 h
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  • Posso partilhar? I.e fazer copy and paste?
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    • 13 h
  • Claro que pode! O Facebook é uma janela aberta ao mundo😀
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    • 13 h
  • Obrigada pelas partilhas! Metade do meu coração anda por aí…e, principalmente agora, vou absorvendo tudo o que me cheira a Macau
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    • 3 h

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lusofonias.net

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção e da comissão executiva da AICL