os 4 moscateiros (Terceira) ANTÓNIO BULCÃO

Os 4 moscateiros
O karaoke deu palco aos desafinados. Cada desafinado sente-se estrela quando escolhe a sua canção no menu, agarra o microfone e vai soletrando a letra que aparece no ecrã, tentando acertar nas notas, sem consciência de que está a cantar uma coisa totalmente diferente do original.
Mas é, de certa forma, a democratização da performance musical. Quem afina, canta para públicos, quem desafina canta para os amigos, até para desconhecidos, imaginando-se Tina Turner ou Bruce Springsteen quando geme que é simplesmente the best ou dança in the dark.
O facebook e outras redes sociais abriram espaço para a opinião. Noutros tempos, quem sabia escrever produzia livros, publicava artigos nos jornais. Hoje o que não falta é gente que sabe muita coisa e quer partilhar o seu ponto de vista com toda a gente.
Mas, pode-se dizer, é a liberdade de expressão no seu expoente máximo. Com erros ortográficos, com opiniões muitas vezes sem sentido ou mesmo ofensivas para a honra e consideração de terceiros, lá vai mais um post, dentro de caixinha, fora de caixinha, a cores ou a preto e branco. Depois é só esperar likes, comentários, carinhas a rir, outras furiosas.
Quem gosta de escrever geralmente publica num jornal a sua opinião. E muitas das opiniões que enchem o facebook dificilmente seriam aceites na mais humilde redação.
Ao longo dos anos, sobretudo depois do 25 de Abril, muitos foram os articulistas a deixarem a sua marca nos jornais açorianos. Mas, a partir de certa altura, começaram a surgir escribas ligados aos partidos, produzindo em geral artigos sem grande sabor, sendo que toda a gente já sabia, pela assinatura, o conteúdo dos mesmos.
Mas, depois das eleições de outubro do ano passado, assistimos a uma nova moda: os deputados do PS, eleitos pela Terceira, decidiram começar a escrever todas as semanas. Dividindo pastas entre eles, Educação para o professor, Saúde para o enfermeiro, problemas sociais para a empresária sobretudo dedicada à política na maior parte da sua vida activa e bordoada geral para o que, não fosse a política, estaria desempregado.
Tudo estaria bem se, antes de entrarem para a vida política, ou até depois, enquanto o PS foi governo, tivessem povoado as páginas dos jornais. Seria apenas, nesse caso, a continuação de uma actividade cívica que é sempre louvável – participar na vida colectiva destas ilhas, dar a sua opinião, discutir em praça pública o seu ponto de vista.
Só que não foi o caso. Não me lembro de nenhum escrito assinado pelo especialista em saúde e, muito menos, do expert em educação, sendo que os dois restantes só muito esporadicamente apareceram nestas páginas. Perguntei-lhes, há semanas, o que querem com esta invasão. Nenhum me respondeu.
Tiro, então, as minhas conclusões. Ou antes não sabiam escrever. Ou sabiam, mas não tinham ideias. Vêm agora defender tudo o que podiam ter feito enquanto foram poder e malhar nos que querem governar. Chamam-lhe… oposição. Mas não pensem que as pessoas são tolas. Porque não são.
Ninguém julgue, no entanto, que preferiria deixassem de escrever. Que passei a ser contra a liberdade de expressão. Muito pelo contrário. Porque a vossa fraca escrita e a vossa ausência de ideias dificilmente convencerão alguém. Falta-vos a forma, para além da substância.
E se apenas conseguis escrever enquanto oposição… que nunca mais parem.
António Bulcão
(publicada hoje no Diário Insular)
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  • E é assim que se escreve, é assim que se mostram factos. Uma boa argumentação, com cabeça e conhecimento.
    Só podia ser o Professor Bulcão!
    Quem fala/escreve assim não é gago!!

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lusofonias.net

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção e da comissão executiva da AICL