mais um golpe de estado na Birmânia (Myanmar)

Antonio Sampaio

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José Ramos-Horta

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Myanmar: Ramos-Horta “extremamente preocupado” com situação
Díli, 01 fev 2021 (Lusa) – O ex-Presidente timorense José Ramos-Horta mostrou-se hoje “extremamente preocupado” com a situação em Myanmar, apelando a uma posição conjunta “forte” dos EUA, UE e China para responder ao que classificou como “golpe militar” no país.
O Exército de Myanmar (antiga Birmânia) declarou hoje o estado de emergência e assumiu o controlo do país durante um ano, após deter a chefe do Governo, Aung San Suu Kyi, informou um canal televisivo controlado por militares.
“Estou extremamente preocupado como estão os países membros da ASEAN, por causa deste grande revês no processo da democratização em Myanmar, que ocorre num período profundamente conturbado na região e no mundo”, disse.
Ramos-Horta disse à Lusa que é “urgente uma tomada de posição conjunta” dos Estados Unidos, da União Europeia, Japão, Coreia do Sul e China para “restaurar a ordem constitucional democrática” no Myanmar.
“É obvio que os militares ficaram surpreendidos com o revês dos seus candidatos nas eleições e não gostaram. Veem o poder civil a consolidar-se e aproveitam a onda que estalou nos Estados Unidos de fraude eleitoral, que Trump e uma parte da ala republicana semearam, e acharam que também podiam fazer o mesmo em Myanmar, alegando fraude eleitoral”, afirmou.
Ramos-Horta disse que observadores consideraram que as eleições “corresponderam exatamente às previsões de que a Liga Nacional para a Democracia (LND) da senhora Suu Kyi iria manter a sua esmagadora maioria”.
E notou que apesar das criticas internacionais em relação a Suu Kyi, nomeadamente em torno ao tema da minoria muçulmana dos rohingya, a chefe do Governo “continua a inspirar confiança na esmagadora maioria do povo”, ainda que “não tanto nas minorias étnicas que muito se sentiram defraudadas por Suu Kyi”.
“Ao longo destes anos eu fui voz solitária na comunidade internacional a alertar o próprio Secretário Geral da ONU, Antonio Guterres, a UE, EUA, para terem cuidado e não isolarem Suu Kyi. Os militares têm vindo a seguir cada passo dela, e se desse um passo em falso dizendo qualquer palavra de simpatia pelos rohingyas, eles interviriam”, disse.
“Sempre tentei argumentar que estavam a ser demasiado irrealistas e injustos com ela. Deviam apoiá-la porque estava um jogo de equilíbrio com o povo birmanes, os budistas que não veem com bons olhos os muçulmanos e com os militares”, frisou.
O “golpe militar” apanhou a comunidade internacional “distraída” com a pandemia da covid-19 e a crise económica internacional, sendo que a administração Trump “é a maior responsável de dar cobertura a regimes autocráticos e militares que sempre tiveram o apoio moral por parte de Trump”.
O Nobel da Paz considera que a situação em Myanmar é ainda um “teste muito sério à ASEAN” que deve “ter uma tomada de posição forte e firme”, procurando sensibilizar a China para que “não cometa nenhum erro de dar apoio a este golpe militar”.
“Creio que Xi Jinping mostrará inteligência e astúcia se colaborar com EUA e UE nesta questão”, disse.
O Exército de Myanmar (antiga Birmânia) prometeu hoje organizar novas eleições quando terminar o estado de emergência de um ano, decretado após o golpe de Estado levado a cabo pelos militares.
“Estabeleceremos uma verdadeira democracia multipartidária”, anunciaram os militares num comunicado publicado na rede social Facebook, acrescentando que o poder será transferido após a realização de “eleições gerais livres e justas”.
O partido da líder de Myanmar, Aung San Suu Kyi, detida hoje pelo Exército, apelou à população para que se oponha ao golpe de Estado e ao regresso a uma “ditadura militar”.
A Liga Nacional para a Democracia (LND), que venceu as eleições de novembro com grande vantagem, publicou um comunicado na rede social Facebook, em nome de Aung San Suu Kyi, afirmando que as ações dos militares são injustificadas e violam a Constituição e a vontade popular.
De acordo com a agência de notícias France-Presse (AFP), terá sido a própria Aung San Suu Kyi quem “deixou esta mensagem à população”, segundo explicou no Facebook o presidente do seu partido, Win Htein.
ASP // SB
Lusa/Fim
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Rosely Forganes, Rosa Horta Carrascalao and 26 others
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lusofonias.net

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção e da comissão executiva da AICL