touradas e estado laico Francisco Maduro-Dias

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TOURADAS E ESTADO LAICO
A questão começou a bailar-me no espírito há já anos. Estávamos em 1996 e o novo Governo Regional dos Açores decidira alterar a designação de Direcção Regional dos Assuntos Culturais para Direcção Regional da Cultura.
Na ocasião liguei pouco ao assunto até que, em conversas, me fui apercebendo que a mudança não era uma questão de nome, era de filosofia. De facto, uma coisa é assumir que a cultura é múltipla, abrangente, dialogante, contestatária, evolutiva e dinâmica, sem se acrescentar mais nada a não ser o olhar liberto sobre essa variedade, outra coisa é manter todos esses termos e palavras, mas procurando orientar “o rebanho” de acordo com os nossos pensamentos. Passar de Assuntos Culturais para Cultura acabava por ser, um bocado, isso.
Sempre tive, para mim, a ideia que um governante deixa de ser desta ou daquela cor, quando começa a exercer o governo. Sempre me deixou e deixa perplexo aquela cantilena de que “daqui a quatro anos ou se castiga ou se aplaude”, deixando o resto do tempo numa espécie de “ditadura democrática” dos que se alcandoraram ao poder, sobre todos os outros.
Tendo nascido e começado a viver, até com algum conforto, antes do 25 de Abril de 1974, a nova liberdade mudaria o paradigma e deixou marcas, mas boas. Deixou-me essencialmente com a certeza de que uma governação é feita para todos, partindo-se, embora, dos pontos de vista que enformam o nosso entendimento da vida e, portanto, o nosso modo de intervir na Polis, ou seja, na comunidade.
Este trocadilho com a ideia de Estado Laico começou a formar-se-me no espírito, entretanto, e consolidou-se com as atitudes prepotentes da actual senhora Ministra da Cultura quando, fazendo tábua rasa do gosto de muitos por touradas, praças e faenas, e apoiada, por outro lado, por outros que entendem quase o diametralmente oposto, decidiu que haveria de orientar a governação no sentido do que pensava.
Se aceito, com naturalidade, e até exijo, que uma pessoa a quem são entregues responsabilidades nas questões da cultura, tenha opiniões e as manifeste, não percebo porque é que se faz tanta gala quanto a um Estado Laico, ou seja neutro – porque é isso que significa – em matéria de religião, permitindo e, até, favorecendo, os entendimentos de fé de cada um, mas não se faça gala dessa mesma laicidade, nomeadamente, neste caso, quanto a touradas e a festas taurinas.
Enquanto pessoa, a senhora ministra tem todo o direito de manifestar e lutar pelo que pensa, enquanto ministra, tem o dever de perceber que nem todos lêem pela sua cartilha e aceitar isso, talvez não de cara alegre, mas sem demasiada sisudez.
É aqui que regresso aos Açores, neste tempo novo de agora. A cultura não é homogénea. As culturas que convivem numa mesma comunidade são múltiplas, variadas e dinâmicas. Se o desafio da cultura é grande, ao falar-se de um espaço continental, ainda é maior quando se fala em ilhas que convivem em arquipélago. A legitimidade da governação adquire-se por uma postura abrangente, tolerante e livre. Laica, portanto, desde logo quanto a touradas, mas, em suma, quanto a tudo.
Publicado em versão impressa no Diário Insular e no Açoriano Oriental, sábado, 5.12.2020
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Maldivas podem desaparecer

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  • O país que está criando ‘ilhas’ para não desaparecer. BBC Travel. 5 dezembro 2020
Legenda da foto,
A ilha artificial de Hulhumalé foi construída usando milhões de metros cúbicos de areia bombeada do fundo do mar
Espalhadas pelo Mar da Arábia, a sudoeste do Sri Lanka e da Índia, as Ilhas Maldivas representam o destino dos sonhos de viajantes do mundo inteiro, que voam até lá para desfrutar do cenário paradisíaco de atóis de coral rodeados por areia branca, resorts de luxo e desportos aquáticos de nível internacional.
Mas talvez nenhuma outra nação enfrente uma ameaça ambiental como as Maldivas.
Os resorts de luxo à beira-mar do arquipélago podem ser mundialmente famosos, mas com mais de 80% de suas 1.200 ilhas a menos de 1 metro acima do nível do mar, a elevação dos oceanos causada pelo aumento das temperaturas globais é uma ameaça a sua própria existência.
“Somos um dos países mais vulneráveis ​​da Terra e, portanto, precisamos nos adaptar”, declarou o então vice-presidente das Maldivas, Mohammed Waheed Hassan, em um relatório do Banco Mundial de 2010 que alertou como, diante das previsões de aumento do nível do mar, todas as cerca de 200 ilhas naturais habitadas do arquipélago poderiam estar submersas até 2100.
Mas a população local está determinada a lutar para preservar sua existência. Em 2008, o então presidente Mohamed Nasheed ganhou as manchetes dos jornais no mundo todo ao anunciar um plano para comprar terras em outro lugar para que seus cidadãos pudessem ser realojados caso as ilhas ficassem submersas.
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