HISTÓRIAS DO PETER’S

NUNCA DESISTIR…
Aquele homem magro, com cerca de 1,70 m de altura, de fato azul escuro, camisa branca e gravata, entrou no Café Sport devagar como muitos outros turistas o fazem, olhando calmamente para tudo o que o rodeava, e aproximou-se do balcão esquerdo, onde eu estava. Perguntou-me: “Este café existe há muito tempo?” Respondi-lhe que sim, que existia desde 1918, mas que tinha sofrido duas alterações desde o espaço original.
Lembrava-se de um pequeno café nesta rua e de um outro ao lado, que agora já não existia. Estávamos em 1990 e ele disse-me que era alemão, que tinha vivido no Faial em 1938-39 quando tinha 19 anos. Tinha trabalhado na Companhia dos Cabos Submarinos Alemã. “Fui muito feliz aqui – acrescentou – os tempos mais felizes da minha vida foram aqui passados. Quando começou a Guerra as autoridades portuguesas enviaram-nos para Lisboa e depois para a Alemanha. Quando a Guerra acabou e a Alemanha foi dividida, fiquei a viver na Alemanha de Leste, e nunca mais saí! Sempre sonhei com esta ilha, com o sol, com o mar, com esta paisagem, com a fruta, e com todos os bons momentos que aqui passei. O Muro de Berlim caiu há 10 meses, no dia 9 de novembro de 1989, e eu logo que pude voltei ao Faial. Este fato que tenho vestido foi feito aqui na cidade por um alfaiate há 51 anos. Tenho agora 70 anos.”
Eu saí do balcão, pedi para lhe dar um abraço e disse-lhe: “Parabéns por não ter desistido !!” Ofereci-lhe uma bebida e ele optou por um sumo de laranja natural, porque esta era a fruta de que mais tinha saudades da ilha. Sorriu e disse: “Simpatia portuguesa!” …
Em 1985 eu tinha estado em Berlim, antes da queda do Muro, e durante um dia fui visitar Berlim Leste, e senti aquela dura realidade. Mal cheguei a Portugal inscrevi-me na Amnistia Internacional e todos os meses passei a enviar duas cartas para contribuir para a libertação de presos políticos: uma para os chamados “países de leste”, e outra para países de ditaduras de direita, de outras partes do Mundo.
A minha alegria foi por isso enorme por este encontro fantástico, alegria suficientemente grande para confortar a tristeza que senti ao saber que os melhores anos da vida daquele homem tinham sido nos seus 18 / 19 anos de idade… Ainda bem que aquele homem pode voltar ao sítio onde foi tão feliz. Que bem que me soube aquele abraço!
Outubro 2020
José Henrique Azevedo
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