porque falhamos OSVALDO CABRAL

Porque falhamos

Se a radiografia do futuro económico dos Açores já era desanimadora, a crise da pandemia, sobretudo a que ainda está para vir, acaba com qualquer visão optimista em relação ao que nos espera.
O que se vai seguir é minimizar os estragos, não dispensando, mesmo assim, um plano agressivo de recuperação que tenha uma visão estratégica muito diferente do modelo que até agora se arrastava em sucessivas legislaturas falhadas.
O foco político da próxima década é só um: evitar o colapso, ainda maior, da fraca estrutura produtiva e económica da nossa região, já de si bastante débil, mas que se vai agravar com as consequências de todo o tecido a partir de 31 de Dezembro.
Acreditar na viabilidade de um plano maçudo com 250 medidas, numa região da nossa dimensão e com 240 mil almas, quando a “visão estratégica” do consultor Costa Silva para todo o país, adoptada pelo governo da república, é de apenas 120 páginas, é fugir do foco essencial, que se deve resumir a uma empreitada muito mais pequena, mas muito mais agressiva no espaço temporal.
A criação de emprego, o combate à pobreza, mais investimento na saúde e a requalificação das pessoas são os eixos mobilizadores dos próximos tempos, o que implica trazer mais parceiros e cidadãos para o centro da recuperação e menos intervenção do estado regional, que tem sido um péssimo gestor do investimento público.
Os projectos estratégicos para a recuperação regional passam pelas pessoas e não pelas clientelas e grupos desqualificados, como tem acontecido nos últimos anos, empurrando-nos para um caminho de profundas desigualdades, de estagnação e de fraqueza do tecido produtivo.
A nossa encruzilhada é tão mais difícil quanto mais complicada se tornar a estratégia a adoptar nos próximos tempos.
O que fizemos até aqui foi um falhanço notório na coesão regional, devido à qualidade das políticas públicas, à qualidade das instituições e à qualidade da classe dirigente.
O declínio não foi maior porque o sector do turismo, mesmo com toda a sua precariedade laboral, trouxe um alento que foi transversal a outros sectores.
Só com gente talentosa, decorrente de boas políticas públicas e a consequente qualidade na formação de competências, é que se consegue dar o salto.
A geração da Autonomia já enfrentou três crises económicas, mas a pior de todas foi o falhanço da convergência e a consolidação de uma política de coesão interna ao longo destes últimos anos.
Criamos enormes dependências, uma cultura de pedinchice, ilhas a desertificar, famílias a empobrecer, um batalhão de precários e de salários mínimos, uma empresa de aviação falida, uma educação com os piores índices europeus e um sector da saúde onde se morre à espera de uma consulta.
Desbaratamos muitas oportunidades nos últimos anos com políticas erradas, canalizando conhecimento e investimento em áreas sem valor acrescentado e gerindo recursos públicos da forma mais desastrosa e teimosa, como é exemplo todo o absurdo sector empresarial público, com destaque para a SATA, porventura o desastre mais histórico cometido por um governo em décadas de Autonomia.
Precisamos de investimento produtivo para responder à procura de emprego da imensa camada de jovens açorianos que “vai e não volta”, despovoando as ilhas mais frágeis e reduzindo a nossa dimensão demográfica a uma vasta geração grisalha.
O desemprego jovem nos Açores é dos mais altos de todas as regiões, muito acima da média da União Europeia e da Zona Euro, factor que ajuda a travar qualquer aspiração a uma economia dinâmica e moderna.
Ao invés, criamos uma máquina monstruosa na administração pública regional, pesada, desgastada e anquilosada, profundamente dependente e que retira espaço a outros investimentos produtivos geradores de riqueza e empregos qualificados.
Sustentamos, nestas últimas legislaturas, empresas públicas medíocres, gestores sem mérito e uma vasta classe política que nem ficará no rodapé da nossa História contemporânea.
Só nestes últimos quatro anos contabilizamos 12 mil açorianos à espera de uma cirurgia, cerca de 15 mil beneficiários do Rendimento Social de Inserção, a maior comunidade de Portugal a viver em pobreza severa, um terço da população abaixo do limiar da pobreza, a pior região nas desigualdades da distribuição de rendimentos, o dobro da mortalidade numa série de doenças, o maior número de analfabetos, os maiores consumidores de álcool e droga, a taxa mais elevada de suicídios entre os jovens, os mais elevados índices de violência doméstica, abuso sexual e gravidez precoce, uma população escolar com os piores índices académicos do país, a mais alta taxa de abandono escolar e uma taxa de alunos com apoio da Acção Social Escolar acima dos 60%, qualquer coisa como mais de 25 mil alunos (S. Miguel atinge os 70%): como é que estes alunos vão para escola motivados e preparados para competir no mundo real?
No meio desta ansiedade colectiva, os jovens deste arquipélago são os grandes sacrificados desta fase desastrosa da nossa Autonomia.
E o pior é que este falhanço endémico só vai provocar mais danos nos vindouros. É a próxima geração que vai pagar os dislates que cometemos nestes últimos anos. São eles que nos vão perguntar o que fizemos aos mais de 1,5 mil milhões que recebemos no último quadro comunitário da Europa, para onde era suposto convergirmos.
Não temos políticas transgeracionais e com ideias inovadoras.
Como diz Augusto Mateus, somos bons a gastar dinheiro, mas péssimos a arranjar boas ideias.
E o mais desolador disto tudo é que olhamos para os protagonistas do futuro e vem-nos à pele um enorme arrepio.
Basta olhar para as listas dos candidatos à próxima legislatura e facilmente avaliamos o que vamos ter pela frente, com muitos políticos insuflados e cidadãos modestamente submissos.
Somos uma região que se habituou a viver à sombra da administração pública. Tudo depende do governo omnipresente, que decide como entende, sem explicações e escrutínio.
Num mandato de quatro anos tivemos um parlamento que nos custou quase 50 milhões de euros e que, vergonhosamente, não conseguiu produzir uma única linha de propostas legislativas para a “Reforma da Autonomia”.
Não temos a tradição de definir prioridades, de planear, de preparar, de mobilizar. É tudo ao molhe e fé em Deus.
Como diz o consultor António Costa Silva, temos uma grande tradição de planos na gaveta.
Criamos uma cultura de subsídio-dependência que se tornou na principal indústria extractiva regional e uma rede de dependências assistencialistas pesadíssima e dispendiosa.
É devastadora a enorme falha em competências institucionais na nossa região. De um lado temos uma classe dirigente muito dependente do cartão partidário e do outro um batalhão de famílias dependente das boas graças dessa classe dirigente.
Falha-nos uma visão estratégica que mobilize os cidadãos de todas as ilhas e não apenas os de uma, duas ou três, como os ex-distritos de antigamente.
Há uma incapacidade de planeamento estratégico para longos anos. Um dia é a agricultura, no outro é o turismo, a seguir será o mar e há ainda quem sonhe numa era espacial…
A poucos meses do arranque do novo quadro comunitário, já sabemos que vão jorrar mais 3 mil milhões de euros, mas não sabemos em que ciclo vamos mergulhar e em que sectores vamos apostar. É de recear que utilizem os fundos para os mesmos de sempre e para tapar os buracos ruinosos das últimas governações.
Não há planeamento nem visão integrada das nossas competências.
Como diz o professor Luís Aguiar-Conraria, noutro contexto, “a principal preocupação da elite portuguesa não é crescer, mas sim consumir os recursos dos outros. Portugal é isto, foi isto e, enquanto não enfrentarmos de frente este problema, será isto”.
Os recursos que têm sido consumidos davam para dourar cada uma das nossas ilhas ou, no mínimo, retirar todas as famílias do maior índice de pobreza.
É por isso que os jovens talentos emigram.
Sem fixar talentos, a nossa região não vai a lado nenhum.
Basta olhar para o saldo migratório de 2017, em que 1.421 açorianos (e)migraram para outras paragens, um número assustador e nunca visto nos nossos anos de Autonomia.
Muitos deles são, certamente, jovens desiludidos com as respostas desta Autonomia.
Entre 2009 e 2017 passamos de 18,6% para 16% de população jovem na nossa região, com um preocupante crescimento de 12,7% para 14% de habitantes com mais de 64 anos.
Estamos a envelhecer nas ilhas, sem nenhuma política virada para o rejuvenescimento.
Uma região com mais de 50 mil pensionistas, que aumenta de ano para ano, em vez de apostar nas suas crianças e jovens, que são o futuro das nossas ilhas, prefere enterrar os nossos recursos nas empresas públicas falidas e no sustento de uma classe de gestores e políticos de duvidosa competência.
Na hora do balanço, o cenário é desolador.
Não foi para isso que se fez a Autonomia.

Osvaldo Cabral
Setembro 2020
(Diário dos Açores, Diário Insular, Multimédia RTP-A, Portuguese Times EUA, LusoPresse Montreal)

Image may contain: Osvaldo José Vieira Cabral

Publicado por

lusofonias.net

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção e da comissão executiva da AICL

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