Mês: Agosto 2020

  • URBANO B LEMBRA TEXTO DE LEONARDO

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    Porque gosto muito deste texto do Leonardo.
    E lê-lo faz-me ainda ouvir o eco de outras vozes que por aqui passam.

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    Leonardo Sousa

    se a verdade não chegar por fases, há-de chegar por fezes.
    há-de entrar pelo lameiro, cair nos canais do saneamento (por acidente e compromisso), escorregar pelas secreções e chegar a mar alto – dá tempo de lavar a cara antes de chegar à tona. depois, manter o ritmo, aliviar para baixo, olhar para cima. disfarçar o caso. «né, filho?»
    para-para-parasite? não, não, um tentáculo que lhes toca no pé: ó diabo!
    desde os bastidores submersos. terra abençoada, deixas sempre um rastro para a gruta do negócio. a uma profundidade em que nada é audível e te esguicham tinta para os olhos, manchetes, letras muito gordas a palrar. oposição, tubarões-baleia, tanto faz. alimentam-se de restos, levam os cardumes à campanha, mas ficam sempre lá ao fundo, em águas morninhas, que o que se quer é paz e sossego. e ali, nas bóias da moderação: umas caras perfeitas, que dantes até tinham alergias ao sistema, comichões muito ruidosas: que davam entrevistas em forma de borbulhas e indignação. agora agentes publicitários, até creme hidratante passam no que dizem, não vá a colheita do rendimento secar antes da época. e ainda a juventude, tão adulta, tão sensata, fazendo cálculos ao futuro e cartazes à medida – capaz, com um só nó ao pescoço, de preparar o discurso, a carreira e a forca. junta-te à juventude, filho – preferes um tacho na política ou nas artes?
    plástico debaixo da terra? esgotos atolados debaixo de água? pobreza? desemprego? a cultura nas olimpíadas da esmola? tudo cocó de gaivota!
    soltem os touros no aeroporto! abaixo os turistas com adn de corona e de gaivota – e sobretudo «não se fala de boca cheia», como dizia meu pai: esse mesmo que foi silenciosamente comido pelos vermes.

  • SATA pronta para servir os Açores

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    André Silveira
    8thmSponsdoredi

    Série: Recordar é viver
    Calma, a notícia é de 2018. Sim, não 2014, nem 2017, apenas há dois anos era isto que Vasco Cordeiro dizia sobre a SATA. Não se passa nada e “Pr’á frente é que é caminho! “Aliás foi sempre assim com Vasco Cordeiro. Foi sempre pr’á frente é que é caminho com a SATA, e o problema a agravar-se. Foi sempre assim com a saúde e o buraco a aumentar. Foi assim com a Lotaçor, com a Santa Catarina, foi assim com praticamente tudo durante 8 anos. Na verdade, todos os mandatos de Vasco Cordeiro caracterizam-se com um pr’á frente é que é caminho quando deparado com um qualquer desafio que carecesse de coragem e uma ideia própria para os Açores. Vasco Cordeiro nunca teve a sua política, limitou-se a ser uma extensão Carlos César e guardião dos interesses que entretanto sustentaram o regime. Os Açorianos, pobres e a divergirem da Europa são vítimas disto tudo. Apenas isso. A história julgará este como um dos períodos mais negros dos Açores que culminou com um o acesso de prepotência e repressão sob o argumento da saúde pública. A mesma saúde pública que destruíram. É irónico que a região do país com piores indicadores de saúde acabe por se querer destruir usando como argumento uma doença cujos efeitos foram hiperbolizados por uma histeria colectiva mundial.
    Entretanto morrem de diabetes às dezenas e a obesidade é uma pandemia contra a qual nada se faz.

    O presidente do Governo dos Açores garantiu que a SATA tem “todas as condições” para continuar servir a região e adiantou que “está em …
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  • Regresso às aulas. “Máscara tem estatuto ainda mais importante do que o manual escolar” – Renascença

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    Em declarações à Renascença, o presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas pede mais funcionários para os estabelecimentos de ensino em tempo de pandemia de Covid-19 e ainda aguarda por orientações das autoridades de saúde em relação às aulas de Educação Física.

    Source: Regresso às aulas. “Máscara tem estatuto ainda mais importante do que o manual escolar” – Renascença

  • Moçambique celebra 30 anos de democracia sem paz efetiva

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    Moçambique celebra 30 anos de democracia sem paz efetiva

    Posted: 28 Aug 2020 01:38 AM PDT

    Sociedade civil e políticos apontam as eleições turbulentas, retrocessos nas liberdades e intervalos de guerra entre a RENAMO e o Governo, mas não só, como manchas da democracia moçambicana.

    O Instituto para a Democracia Multipartidária (IMD), organização não-governamental moçambicana, e o Ministério da Justiça, lançaram em Maputo as celebrações dos 30 anos de democracia multipartidária, apresemtando os marcos e os desafios do país.

    Políticos e sociedade civil apontam as eleições turbulentas e as violações dos direitos humanos, retrocessos na liberdades de imprensa e de expressão como algumas das manchas da democracia nos trinta anos desta conquista.

    O ativista social Tomás Vieira Mário refere-se ao histórico de eleições, desde 1994, e identifica vários desafios.

    “A qualidade eleitoral é muito sofrida ainda. Temos eleições muito problemáticas, os órgãos eleitorais constituídos de forma não consensual, revisões constitucionais feitas sobre o joelho nas vésperas das eleições. Tudo isto tira a qualidade das eleições”, avalia.

    Já o IMD lembra que ainda falta confiança nas instituições democráticas e soberanas.

    “Por exemplo, nas eleições passadas, o que tivemos é que, apesar de alguns partidos terem levado algumas reclamações ao Conselho Constitucional, o resultado que de lá saiu não lhes agradou e, por outro lado, para além de ter lhes desagradado, já tínhamos esta questão que é recorrente, que é a falta de confiança nessas instituições,” relata o diretor-executivo do IMD, Hermenegildo Munjovo.

    Faltam liberdades, sobram ataques

    A Constituição que trouxe a transição política em Moçambique do sistema de partido único para o multipartidarismo foi implementada há 30 anos. Em 1994, realizaram-se as primeiras eleições multipartidárias, cujo vencedor foi Joaquim Chissano e a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), com a contestação da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), liderada na altura por Afonso Dhlakama.

    Nestes 30 anos, as entidades lamentam os períodos de guerra entre o Governo e a RENAMO, o maior partido da oposição. Ambas as partes assinaram um acordo de paz efetiva há um ano, mas, no centro do país, continuam a haver registo de ataques armados.

    Uma outra questão que preocupa o político Raúl Domingos, antigo número dois da RENAMO, é a limitação das liberdades.

    Muitos jornalistas moçambicanos têm-se queixado de perseguição e, para Raúl Domingos, também é preciso “assegurar que haja efetivamente liberdades, sobretudo a liberdade de expressão e de pensamento.”

    Constituição, a base para avanços

    Ainda assim, a ministra da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos, Helena Kida, lembra que, com a revisão de 1990, a Constituição se tornou mais moderna e progressista.

    “Resulta de uma ampla participação dos cidadãos e traduz o consenso resultante da sabedoria de todos no reforço da democracia e da unidade nacional. É uma conquista do nosso povo, uma conquista da nossa nação”, afirmou Helena Kida.

    “A Constituição da República de Moçambique que hoje celebramos resulta de um longo processo de luta pela autodeterminação que aglutinou todas as camadas patrióticas da sociedade moçambicana do mesmo ideal de liberdade, justiça e progressza”, finalizou a ministra.

    Romeu da Silva (Maputo) | Deutsche Welle

    Moçambique | Grupo que ocupou porto de Mocímboa da Praia ainda está na vila

    Posted: 28 Aug 2020 01:24 AM PDT

    Fonte do Exército diz que insurgentes ainda continuam em Mocímboa da Praia desde que o porto da vila foi ocupado, há duas semanas, avança a agência Lusa. Forças moçambicanas “tiveram de recuar”.

    O grupo de atacantes que invadiu a 12 de agosto o porto de Mocímboa da Praia, norte moçambicano, continua na sede da vila, que está atualmente isolada, disseram esta quinta-feira (27.08) à agência de notícias Lusa fontes das Forças Armadas de Moçambique.

    “Eles continuam em Mocímboa da Praia desde o assalto ao porto. Muitas forças nossas tiveram de recuar. Por exemplo, a minha unidade, uma das que estavam em Mocímboa, recuou até Mueda [a pouco mais 100 quilómetros de Mocímboa da Praia]”, declarou à Lusa uma fonte do Exército que está no teatro de operações em Cabo Delgado, através de um contacto telefónico.

    A invasão ao Porto de Mocímboa da Praia ocorreu na madrugada do dia 12 e os confrontos deixaram um número desconhecido de mortos, incluindo elementos da Força Marítima, segundo a fonte.

    “Nós tivemos muitas baixas. Tenho notado que há esforços para que cheguem mais reforços, mas a situação está muito séria e complicada porque não dá para contar com o porto de Mocímboa da Praia”, declarou.

    “Eles vão voltar a atacar”

    O ataque ao porto seguiu-se a vários outros que os insurgentes realizaram, entre 05 e 12 de agosto, às aldeias de Anga, Buji, Ausse e à vila sede e, segundo dados do Ministério da Defesa avançados no dia 11 de agosto, pelo menos 59 “terroristas” morreram em operações de resposta das forças governamentais.

    Várias infraestruturas foram vandalizadas e, neste momento, as linhas de comunicação também estão interrompidas em Mocímboa da Praia.

    Outra fonte do Exército moçambicano em Maputo disse à Lusa que “está claro que, a partir de Mocímboa da Praia, eles vão voltar a atacar”.

    “A estratégia deles é atacar e recuar para se abastecer. Eles também tiveram várias baixas nestes últimos ataques. Mas sabemos que eles vão voltar a atacar”, disse a fonte, que está ligada ao departamento central que regista ocorrências no Exército moçambicano.

    Na última semana, o bispo de Pemba, Luiz Fernando Lisboa, informou que a diocese de Pemba estava há dias a tentar, sem sucesso, contactar duas religiosas da congregação que estão em Mocímboa da Praia a prestar ajuda aos afetados pela violência armada.

    “Continuamos sem saber sobre a situação delas e são agora três semanas. Estamos em contacto permanente com as Forças de Defesa e Segurança, mas ainda não temos qualquer informação sobre elas”, disse à Lusa o padre Latífo Fonseca Mateus, da diocese de Pemba.

    Mocímboa da Praia é uma das principais vilas da província de Cabo Delgado, situada 70 quilómetros a sul da área de construção do projeto de exploração de gás natural conduzido por várias petrolíferas internacionais e liderado pela Total.

    A vila tinha sido invadida e ocupada durante um dia por rebeldes em 23 de março, numa ação depois reivindicada pelo grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico, e foi, em 27 e 28 de junho, palco de longos confrontos entre as forças governamentais e os grupos insurgentes.

    A Lusa contactou também o Departamento de Comunicação do Ministério da Defesa, que remeteu um “pronunciamento oficial” para o Comando Conjunto das Forças de Defesa e Segurança “logo que for oportuno”.

    A violência armada já causou a morte de, pelo menos, 1.059 pessoas em quase três anos, além da destruição de várias infraestruturas em distritos de Cabo Delgado.

    De acordo com as Nações Unidas, a violência armada levou à fuga de 250.000 pessoas de distritos afetados pela insegurança, mais a norte da província.

  • “É repugnante Portugal ter-se tornado a lavandaria das elites angolanas” –

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    “É repugnante Portugal ter-se tornado a lavandaria das elites angolanas” — whistleblower

    Posted: 28 Aug 2020 05:55 AM PDT

    Rui Pinto em entrevista

    O autor de Football Leaks e também uma das fontes de Luanda Leaks começa a ser julgado na próxima semana e deu uma entrevista à revista alemã “Der Spiegel”. “Estou cá para lutar e para mostrar a todos que sou um whistleblower e fiz o que tinha que fazer”, afirma Rui Pinto

    Rui Pinto começa a ser julgado na próxima sexta-feira. O autor de Football Leaks deu à Der Spiegel a sua primeira entrevista desde que deixou de estar em prisão preventiva. Remeteu para o julgamento mais explicações relativas ao processo pelo qual está acusado de 90 crimes, mas manifestou a sua revolta com o que a investigação Luanda Leaks, da qual foi denunciante, revelou. “É repugnante Portugal ter-se tornado a lavandaria das elites angolanas”, afirma.

    A entrevista à Der Spiegel aconteceu no passado fim-de-semana, sob grande secretismo, repartida entre duas conversas em sítios distintos, cujas localizações os jornalistas da revista alemã apenas tiveram conhecimento pouco antes dos encontros. A segunda conversa decorreu no dia da final da Liga dos Campeões, realizada num Estádio da Luz despido de público. “O futebol vive dos adeptos, de um ambiente real, não destes eventos com um ambiente de plástico dominados pelo dinheiro”, comentou Rui Pinto.

    Questionado sobre se acha que voltará para a prisão, Rui Pinto mostrou-se otimista. “Não creio”, declarou à Der Spiegel. O autor do blog Football Leaks queixa-se de “tortura psicológica” quando esteve detido em Budapeste (entre janeiro e março de 2019), mas considera que quando esteve preso em Portugal (a partir de março do ano passado) foi bem tratado.

    Rui Pinto considera que a sua vida está “em risco”, mas ao mesmo tempo, e apesar de estar acusado de 90 crimes, diz dormir bem à noite. “Obviamente o isolamento deixa sempre algum tipo de marcas. Lembro-me que depois de deixar o isolamento [na prisão] por vezes tinha problemas em concentrar-me, porque depois daqueles meses todos abria-se uma grande porta à minha frente e tinha muitas pessoas diferentes à minha volta e era difícil concentrar-me, porque tinha estado fechado tanto tempo”, desabafa na entrevista à Der Spiegel.

    “De certo modo, sinto-me orgulhoso de ter conseguido lidar bastante bem com o isolamento. Eu sabia que não podia perder a cabeça, tinha de me concentrar para preparar o julgamento, para chegar fresco ao julgamento e mostrar que estou cá para lutar e para mostrar a todos que sou um whistleblower [denunciante] e fiz o que tinha que fazer”, acrescenta.

    “Tive uma relação espetacular com os guardas prisionais. Tiveram enorme respeito por mim”, diz ainda Rui Pinto na entrevista, declarando que “estamos sufocados com corrupção”, e que, nesse contexto, “ninguém pode esperar um futuro bom para si e para a sua família”.

    O autor de Football Leaks e fonte de Luanda Leaks foi entrevistado em Lisboa pela revista alemã Der Spiegel, afirmando que provará em tribunal que não houve extorsão à Doyen e dizendo ter sido ingénuo nos acontecimentos de 2015 que levaram ao processo em que é acusado de 90 crimes

    E A ACUSAÇÃO DE TENTATIVA DE EXTORSÃO À DOYEN?

    Entre os crimes de que é acusado está a tentativa de extorsão à Doyen em 2015, então liderada por Nélio Lucas, em que sugeriu ao fundo que investia no futebol um pagamento de 500 mil euros a um milhão de euros para parar com a divulgação de contratos e documentos daquela empresa no blog Football Leaks.

    “Lamento em particular ter tido este contacto com Nélio Lucas. Era ingénuo nessa altura. E estou contente por ter recuado a tempo”, afirma Rui Pinto à Der Spiegel.

    Na entrevista diz ainda estar “absolutamente seguro” de que ficará provado em tribunal que não fez nenhuma extorsão. “As provas mostram-o claramente. Mas a procuradora não quis olhar para elas. Ela preferiu cortar as partes que me ilibavam das acusações de extorsão”, refere.

    Tribuna, do Expresso

    Na imagem: Rui Pinto enfrenta uma acusação de 90 crimes relacionados com o Football Leaks. // SONJA OCH / DER SPIEGEL

  • Angola | Emergência social, isso sim

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    Angola | Emergência social, isso sim

    Posted: 28 Aug 2020 07:09 AM PDT

    Faz tempo que Angola está em um estado de “Emergência Social”. Teremos que enfrentar este estado por muito tempo mais. E é necessário que o executivo tenha coragem para declarar o Estado de Emergência Social, mas não mais para restringir ou eliminar garantias. Quem pode eliminar garantias em Angola, se já quase todas estão eliminadas? Ou suspender o que já está suspendido? Que garantias mais se pode eliminar ao povo angolano?

    Adão Xirimbimbi “AGX”* | Folha 8| opinião

    Quase 1 milhão de crianças em estado de sobrevivência, uma grande incidência da mortalidade infantil, uma grande incidência da desnutrição. Não podemos esperar épocas eleitorais para resolver esses problemas sociais. Indivíduos com mais de 5 casas, e ao mesmo tempo família sem uma casa própria, que paradoxo. Crianças com idade pré-escolar, não sabem o que é pré-escolar (isso é selvagem). É triste saber que somente 1 de cada 5 crianças terminam a escola básica, isso é absurdo, porque essas crianças são o futuro do país. “Se estás pensando a longo prazo, educa a uma criança”.

    Nós não podemos admitir que essa barbaridade continue a existir por debaixo dos nossos narizes. Grande parte de jovens adolescentes não entram na escola, e muitos deles se inclinam para a delinquência, porque eu considero que o homem não é maldoso por natureza. Esta situação estamos vivendo aqui e, os nossos governantes têm a consciência que isto é uma realidade. O que eles fazem? Pergunta tão fácil, quanto a sua resposta.

     

    É urgente solucionar os problemas sociais, e isso deve passar também por uma profunda reforma no sector social. Temos ouvido sempre o termo reforma, será que estamos confundindo reforma com revolução? Porque as nossas reformas até hoje não ganharam forma.

    Não se pode admitir que um chefe do executivo, depois de 5 ou 10 anos de governação, venha dizer a todos angolanos “fiz até onde podia fazer”. Em contrapartida, deixa o país numa desgraça social, isso não se pode admitir, isso é desumano. É preferível que um Presidente deixe o poder passado 2 anos, e que esse período serviu para deixar “atrás” o passado e enterrado, e que verdadeiramente alavanca um novo motor para o desenvolvimento nacional. O importante agora para Angola, é que se arranque com um novo projecto nacional, porque já vimos que o anterior foi um fracasso total. Há que empurrar o barco para a frente, e depois que os nossos filhos se encarreguem de navegar.

    É importante que o Presidente da República seja um intérprete do sentir do povo angolano, que a sua maioria está vivendo por debaixo do umbral humanitário.

    O Estado angolano pode declarar o “Estado de Emergência Social”, não é para suspender mais garantias, mas sim, para tomar ACÇÕES DE EMERGÊNCIA para restituir as garantias. Temos que acabar com a concepção que toda emergência é para suspender as garantias. Para Estados que estão em emergência não há sábado nem domingo, porque há milhões de angolanos que não tem quase nada para comer, ou não têm escolas para ir, não têm um parque para jogar, não tem uma casa para dormir em paz, não têm nada.

    Para que um governante seja honrado não basta sentir ou dizer que não faz nenhuma maldade a ninguém, um homem honrado de verdade é aquele que sabe que alguém está sofrendo e, faz tudo que está ao seu alcance para evitar o sofrimento deste ser humano. Está é a única forma de ser honrado. Será que os nossos governantes são honrados? É necessário começar uma batalha a partir do executivo, contra estas péssimas condições sociais que estão submetidos a maioria da população angolana.

    A desigualdade que existe hoje em Angola, impede o desenvolvimento económico. Um país com alto índice de criminalidade, problemas de saneamento básico, baixo nível de educação e de esperança de vida. Não é que a igualdade, ou a desigualdade, seja um fenómeno novo, sempre existiram aqueles que têm muito e aqueles que têm pouco. O que se passa é que a diferença entre os que têm e os que não têm é bastante abismal. A pergunta obrigatória é, como chegamos a esse ponto? Penso que todos sabemos a resposta. E a pergunta moral e política é, quanta desigualdade podemos assumir mais?

    *Jurista

    “É repugnante Portugal ter-se tornado a lavandaria das elites angolanas” — whistleblower

    Posted: 28 Aug 2020 05:55 AM PDT

    Rui Pinto em entrevista

    O autor de Football Leaks e também uma das fontes de Luanda Leaks começa a ser julgado na próxima semana e deu uma entrevista à revista alemã “Der Spiegel”. “Estou cá para lutar e para mostrar a todos que sou um whistleblower e fiz o que tinha que fazer”, afirma Rui Pinto

    Rui Pinto começa a ser julgado na próxima sexta-feira. O autor de Football Leaks deu à Der Spiegel a sua primeira entrevista desde que deixou de estar em prisão preventiva. Remeteu para o julgamento mais explicações relativas ao processo pelo qual está acusado de 90 crimes, mas manifestou a sua revolta com o que a investigação Luanda Leaks, da qual foi denunciante, revelou. “É repugnante Portugal ter-se tornado a lavandaria das elites angolanas”, afirma.

    A entrevista à Der Spiegel aconteceu no passado fim-de-semana, sob grande secretismo, repartida entre duas conversas em sítios distintos, cujas localizações os jornalistas da revista alemã apenas tiveram conhecimento pouco antes dos encontros. A segunda conversa decorreu no dia da final da Liga dos Campeões, realizada num Estádio da Luz despido de público. “O futebol vive dos adeptos, de um ambiente real, não destes eventos com um ambiente de plástico dominados pelo dinheiro”, comentou Rui Pinto.

    Questionado sobre se acha que voltará para a prisão, Rui Pinto mostrou-se otimista. “Não creio”, declarou à Der Spiegel. O autor do blog Football Leaks queixa-se de “tortura psicológica” quando esteve detido em Budapeste (entre janeiro e março de 2019), mas considera que quando esteve preso em Portugal (a partir de março do ano passado) foi bem tratado.

    Rui Pinto considera que a sua vida está “em risco”, mas ao mesmo tempo, e apesar de estar acusado de 90 crimes, diz dormir bem à noite. “Obviamente o isolamento deixa sempre algum tipo de marcas. Lembro-me que depois de deixar o isolamento [na prisão] por vezes tinha problemas em concentrar-me, porque depois daqueles meses todos abria-se uma grande porta à minha frente e tinha muitas pessoas diferentes à minha volta e era difícil concentrar-me, porque tinha estado fechado tanto tempo”, desabafa na entrevista à Der Spiegel.

    “De certo modo, sinto-me orgulhoso de ter conseguido lidar bastante bem com o isolamento. Eu sabia que não podia perder a cabeça, tinha de me concentrar para preparar o julgamento, para chegar fresco ao julgamento e mostrar que estou cá para lutar e para mostrar a todos que sou um whistleblower [denunciante] e fiz o que tinha que fazer”, acrescenta.

    “Tive uma relação espetacular com os guardas prisionais. Tiveram enorme respeito por mim”, diz ainda Rui Pinto na entrevista, declarando que “estamos sufocados com corrupção”, e que, nesse contexto, “ninguém pode esperar um futuro bom para si e para a sua família”.

    O autor de Football Leaks e fonte de Luanda Leaks foi entrevistado em Lisboa pela revista alemã Der Spiegel, afirmando que provará em tribunal que não houve extorsão à Doyen e dizendo ter sido ingénuo nos acontecimentos de 2015 que levaram ao processo em que é acusado de 90 crimes

    E A ACUSAÇÃO DE TENTATIVA DE EXTORSÃO À DOYEN?

    Entre os crimes de que é acusado está a tentativa de extorsão à Doyen em 2015, então liderada por Nélio Lucas, em que sugeriu ao fundo que investia no futebol um pagamento de 500 mil euros a um milhão de euros para parar com a divulgação de contratos e documentos daquela empresa no blog Football Leaks.

    “Lamento em particular ter tido este contacto com Nélio Lucas. Era ingénuo nessa altura. E estou contente por ter recuado a tempo”, afirma Rui Pinto à Der Spiegel.

    Na entrevista diz ainda estar “absolutamente seguro” de que ficará provado em tribunal que não fez nenhuma extorsão. “As provas mostram-o claramente. Mas a procuradora não quis olhar para elas. Ela preferiu cortar as partes que me ilibavam das acusações de extorsão”, refere.

    Tribuna, do Expresso

    Na imagem: Rui Pinto enfrenta uma acusação de 90 crimes relacionados com o Football Leaks. // SONJA OCH / DER SPIEGEL

  • golpe palaciano Guiné-Bissau

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    Guiné-Bissau | PAIGC acusa Umaro Sissoco Embaló de “golpe palaciano”

    Posted: 28 Aug 2020 09:36 AM PDT

    O Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde acusou hoje o Presidente Umaro Sissoco Embaló de fazer um “golpe palaciano” para tentar “usurpar” os poderes do Parlamento com a revisão da Constituição.

    Umaro Sissoco Embaló afirmou na quarta-feira (26.08) que a Constituição que será aplicada no país é a proposta pela Comissão Técnica para a Revisão Constitucional.

    “Não haverá outra comissão a par desta comissão que eu criei. A única Constituição que será aplicada na Guiné-Bissau é a que vocês propõem. Ainda falta trabalho e vamos ter em conta os subsídios que ainda podem vir de outras pessoas ou entidades”, afirmou o chefe de Estado.

    Umaro Sissoco Embaló defendeu também a realização de um referendo sobre a Constituição até ao final do ano.

    “Usurpação violenta e grosseira” de poderes

    Para o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), as afirmações do Presidente do país constituem “uma usurpação violenta e grosseira dos poderes constitucionais de um órgão de soberania que é a Assembleia Nacional Popular, constituindo este facto ignóbil, a consolidação da subversão da ordem constitucional”.

    Num comunicado enviado à imprensa, o PAIGC apela a “todas as forças nacionais que defendem a legalidade do Estado de direito, bem como à sociedade civil, assim como a todos os guineenses, para denunciarem mais este “golpe palaciano” e para criarem uma “frente conjunta” para “travar mais uma inconstitucionalidade”.

    O partido salienta também que nos últimos seis meses as autoridades no poder demonstraram “claramente a sua agenda ditatorial”, nomeadamente através de restrições à liberdade de expressão e de imprensa, espancamentos, intimidações, aliciamentos, prisões arbitrárias e ameaças a opositores políticos.

    Aumento de “corrupção desenfreada”

    “Estas violações dos direitos fundamentais estão associadas igualmente ao aumento de uma corrupção desenfreada por parte dos titulares dos órgãos públicos, clientelismo jamais visto no país e um aumento do tráfico de droga e crime organizado”, acusa o partido.

    O Presidente guineense criou em maio uma Comissão Técnica para a Revisão Constitucional, coordenada pelo jurista e advogado guineense Carlos Joaquim Vamain, que integra também a antiga presidente do Supremo Tribunal de Justiça Maria do Céu Monteiro.

    A comissão entregou na quinta-feira a Umaro Sissoco Embaló a proposta de revisão da Constituição.

    Os principais parceiros internacionais da Guiné-Bissau têm insistido na necessidade da revisão constitucional para minimizar os conflitos políticos no país.

    Deutsche Welle | Lusa

    Guiné-Bissau está preparada para ensinar árabe nas escolas?

    Posted: 28 Aug 2020 07:34 AM PDT

    Com origem num golpe de estado, primeiro-ministro e presidente da república ditam “mudanças”

    Sociedade guineense e professores reagem negativamente à decisão. Cidadãos questionam se país está preparado para implementar a medida. Mas Executivo promete avançar e diz que tudo foi feito com base nas leis.

    Está instalada a polémica na Guiné-Bissau, depois de o Governo ter decidido introduzir o ensino da língua árabe nas escolas do país. Os argumentos usados para justificar a decisão geraram um coro de críticas contra o ministro da Educação, Arceni Baldé.

    Num vídeo posto a circular nas redes sociais, o titular da pasta da Educação, ao justificar a iniciativa, afirmou que um dos objetivos da implementação do ensino da língua árabe nas escolas guineenses coincide com o seu desejo de “colocar os alunos muçulmanos ao mesmo nível dos alunos das outras confissões religiosas.”

    O Movimento dos Cidadãos Conscientes e Inconformados (MCCI), na voz do seu presidente, vê nas palavras no ministro indícios de discriminação.

    Para Sana Canté, é preciso “condenar e denunciar a instrumentalização das instituições do Estado para fomentar o tribalismo e a discriminação religiosa, em particular, a tentativa de forçar a implementação do ensino árabe no sistema educativo, de forma abusiva e ilegal, no mero ato de adotar a religião muçulmana de poderes de domínio contra outras confissões religiosas.”

    Perante a contestação da sociedade, o Ministério da Educação reagiu, em nota lida pelo seu porta-voz, Amadu Uri Djaló: “A introdução da língua árabe no sistema de ensino guineense não foi uma decisão exclusiva e unilateral do ministro da Educação Nacional e Ensino Superior, doutor Arceni Abdulai Jibrilo Baldé. Foi, sim, uma decisão do Governo da República da Guiné-Bissau, chefiado pelo engenheiro Nuno Gomes Nabiam, que não é muçulmano, e os 22 membros dos seus membros não são [muçulmanos]”.

    Estará o país preparado?

    Os trabalhos já estão em curso para a implementação da língua árabe nas escolas. O centro de formação de professores “Tchico Té”, em Bissau, abriu as inscrições para um curso de bacharelato na língua. No entanto, oficialmente, ainda não há explicações sobre de onde virão os professores de árabe ou como serão selecionados.

    À DW África, Miguel Gama, professor de língua portuguesa no “Tchico Té”, levanta várias questões: “Que trabalhos foram feitos para chegar a essa conclusão de que é preciso, realmente, introduzir essa língua [árabe]? Vi também que vai começar a formação de professores, ainda neste ano letivo, em língua árabe. As escolas de formação de professores estão preparadas para isso? Os conselhos pedagógicos dessas escolas fizeram trabalho de base? O que terá dito o INDE [Instituto de Desenvolvimento da Educação] à volta disso? Teve a sua opinião ou estamos perante uma decisão política?”

    Miguel Gama não acredita que essas “instituições académicas tenham dito algo sobre a questão”.

    Medida impopular

    Nas ruas, vários cidadãos ouvidos pela DW África mostraram-se contra a decisão governamental.

    “Acho que é muito cedo para fazer isso. Mesmo que o Ministério [da Educação] tenha essa intenção, há que haver preparação para tal, já que o ensino é um processo”, disse o cidadão Sabino Mendes.

    A cidadã Juaira Pereira estranha a decisão do Governo: “A língua árabe é muito distante para nós, é uma coisa nova para nós. Eu estudava a língua e sei que é muito difícil”, afirma.

    Francelino na Fia, outro entrevistado pela DW África, também discorda do Governo. “A introdução da língua árabe? Eu não sei como vai ser administrada, mas considero que é uma decisão um pouco precipitada, devia ser com uma preparação prévia”, pondera.

    Mas, como sublinha o porta-voz do Ministério da Educação, Amadu Uri Djaló, a decisão é para cumprir e é legal: “Esta medida consta do programa do Governo, que foi adotado pelo Conselho de Ministros e submetido e aprovado na Assembleia Nacional Popular (ANP), órgão legislativo máximo da República e fiscalizador de ação governativa”, pontua.

    Iancuba Dansó (Bissau) | Deutsche Welle

  • Onde está o dinheiro que falta à política social

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    Onde está o dinheiro que falta à política social

    Posted: 28 Aug 2020 12:07 PM PDT

    #Publicado em português do Brasil

    Roteiro para compreender os “paraísos fiscais”, usados pelas corporações e bilionários para não pagar impostos. Quantos existem. Como funcionam as empresas de fachada. Quanto as sociedades perdem com a sonegação

    Will Fitzgibbon e Ben Hallman, no ICIJ | Outras Palavras | Tradução de Simone Paz

    As receitas tributárias permitem que a civilização não se afunde nem se afogue. Mas nem todos os contribuintes seguem as mesmas regras.

    Com a ajuda de advogados, contadores, empresários de prestígio e governos ocidentais cúmplices, os ricos e bem relacionados conseguem fugir do pagamento de trilhões de dólares em impostos. O resto de nós cobre a diferença — ou, como é mais comum, essa diferença fica descoberta, deixando os Tesouros sem o dinheiro necessário para construir estradas e escolas e enfrentar ameaças existenciais como mudanças climáticas e pandemias globais.

    Os paraísos fiscais tornam tudo isso possível.

    Segundo estimativas, cerca de 10% do valor da produção total de todas as economias do mundo encontra-se em centros financeiros offshore [isto é, com contabilidade feita fora das fronteiras do país onde operam], mantidos por empresas de fachada que existem apenas no papel. O custo para os governos, em receita perdida, é calculado em mais de 800 bilhões de dólares ao ano.

    Os ricos preservam o dinheiro para manter fortunas intergeracionais, que dão origem a uma nova classe aristocrática global e agravam o abismo entre abastados e empobrecidos. As multinacionais usam esse excedente de dinheiro para recompensar acionistas e eliminar concorrentes menores.

    Os países que mais precisam de receita tributária, perdem mais dinheiro de impostos do que os países ricos — em porcentagem do PIB. Tal como acontece com outras desigualdades, os pobres sempre se dão pior.

    Anos depois do Panamá Papers, o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos [ICIJ, na sigla em inglês] continua comprometido em expor todos aqueles que usufruem dos paraísos fiscais — uma longa lista que também inclui políticos corruptos, mafiosos, narcotraficantes e outros criminosos que lavam dinheiro e ativos por meio de empresas offshore para despistar as autoridades. O fácil movimento do dinheiro ilícito desestabiliza governos e ajuda déspotas a permanecer no poder.

     

    Eis aqui um guia que criamos para ajudar a explicar como funcionam as finanças offshore e por que isso é importante:

    O que é um Paraíso Fiscal?

    Não há uma definição universal para eles, mas os paraísos fiscais, ou centros financeiros offshore, costumam ser países ou lugares com impostos corporativos baixos ou até nulos, que permitem que estrangeiros abram negócios facilmente. Os paraísos fiscais também limitam a divulgação pública sobre as empresas e seus proprietários. Como as informações podem ser difíceis de extrair, os paraísos fiscais às vezes também são chamados de jurisdições secretas. Os paraísos fiscais quase sempre negam ser paraísos fiscais.

    Onde ficam esses paraísos fiscais?

    Espalhados pelo mundo inteiro. Alguns são países independentes, como Panamá, Holanda e Malta. Outros estão dentro de países, como o estado de Delaware nos EUA, ou são territórios, como as Ilhas Cayman.

    As investigações do ICIJ têm se concentrado em diversos paraísos fiscais, a depender, geralmente, da origem e do conteúdo dos documentos. O Panama Papers, por exemplo, expôs como o Mossack Fonseca, um dos maiores escritórios de advocacia offshore do mundo, vendeu milhares de empresas de fachada nas Ilhas Virgens Britânicas para clientes do mundo todo. O Mauritius Leaks revelou como as empresas usavam as Ilhas Maurício para evadir impostos, enquanto a Paradise Papers revelou os segredos das Bermudas, ilha onde o escritório de advocacia Appleby foi fundado

    Alguns paraísos fiscais, como Niue e Vanuatu, deixaram de atuar como tal por conta da pressão internacional; enquanto outros, como Dubai, emergem como novos focos de riqueza ilícita

    Por que um país ou região resolve virar um paraíso fiscal

    Por dinheiro. Os paraísos fiscais recebem receitas significativas advindas das taxas pagas por pessoas e empresas que criam e utilizam as empresas de fachada. Os paraísos fiscais também geram trabalho para advogados, contadores e secretários. As Ilhas Maurício, por exemplo, afirmaram que 5.000 pessoas perderiam seus empregos se o país deixasse de ser um paraíso fiscal.

    O que é uma empresa de fachada?

    Uma empresa de fachada é uma entidade legal, criada num paraíso fiscal. Normalmente, as empresas de fachada existem somente no papel, não possuem empregados fixos nem escritórios. Um único prédio comercial nas Ilhas Cayman, por exemplo, abriga 19 mil empresas de fachada. As regras diferem, mas os verdadeiros proprietários de muitas delas não são divulgados nos documentos de incorporação. Alguns usam o termo “empresa de fachada”; outros, “empresa offshore”, de forma intercambiável.

    Por que são chamadas de empresas de fachada?

    Porque assim como uma concha vazia [em inglês, o termo para “empresa de fachada” é “shell company”, ou empresa-concha], não possuem nada dentro. Uma empresa de fachada (feito uma simples fachada de cenografia), só existe, legalmente, no papel.

    As empresas de fachada são usadas para quê?

    Fins legais e ilegais. As empresas de fachada podem possuir dinheiro, casas luxuosas, propriedade intelectual, negócios e outros ativos. Elas também desempenham um papel vital em facilitar o fluxo de dinheiro ilícito no mundo inteiro.

    Quem utiliza os paraísos fiscais, e para quê?

    Pessoas ricas, mas também pessoas “comuns” — por exemplo, dentistas e pelo menos um ou outro dono de quitanda do Alabama — usam empresas de fachada por motivos que podem incluir tornar mais difícil para credores em potencial — incluindo ex-cônjuges, sócios descontentes ou inspetores fiscais — identificar e recuperar dinheiro devido.

    Investimentos feitos por meio de paraísos fiscais podem ser especialmente lucrativos, devido às economias fiscais significativas das quais as empresas offshore podem desfrutar.

    Bob Geldof, Madonna e o secretário de comércio dos EUA, Wilbur Ross, estão entre os nomes destacados que o ICIJ vinculou a empresas de fachada. Alguns, como a Rainha Elizabeth II, alegam que nem sabiam terem investido no exterior.

    Políticos, como o ex-primeiro-ministro da Islândia, Sigmundur David Gunnlaugsson, e o ex-presidente do senado da Nigéria, Bukola Saraki, ocultaram investimentos e casas luxuosas com a ajuda das empresas de fachada. Seus filhos fizeram o mesmo. Entre alguns que se destacam, estão o filho e a filha do ex-primeiro-ministro do Paquistão, Nawaz Sharif, e Isabel dos Santos, a bilionária filha do ex-presidente angolano, José Eduardo dos Santos.

    Senhores do tráfico de drogas e de armas, ladrões de banco, chefões da máfia, rainhas e corruptos também usam empresas de fachada para ocultar suas identidades e, junto com isso, dinheiro, bens e atividades ilícitas.

    Possuir uma empresa de fachada é ilegal?

    A resposta simples é não. A resposta longa e profunda é que depende de como ela é usada e de onde a empresa de fachada é criada ou incorporada. Esconder ativos roubados no exterior é claramente ilegal, mas comprar um iate de luxo com uma empresa de fachada pode não ser. (Olá, Paul Allen — da Microsoft — e Príncipe saudita Mohammed bin Salman Al Saud!). Advogados e contadores são ótimos em propor formas tecnicamente legais de gastar ou esconder dinheiro no exterior.

    Como as empresas se beneficiam dos Paraísos Fiscais?

    Por exemplo: uma grande empresa farmacêutica pode abrir uma nova organização nas Bermudas ou na Holanda e “vender” a essa entidade a patente de um medicamento lucrativo. A empresa-mãe pode então pagar uma grande taxa de licenciamento à empresa offshore, o que por sua vez permite que ela registre lucros menores em casa — e pague menos impostos. As empresas farmacêuticas evadem bilhões de dólares em impostos dessa forma, de acordo com a Oxfam.

    Todos os anos, as empresas escapam de pagar mais de 500 bilhões de dólares em impostos usando métodos como esses. Alguns nem chegam a pagar impostos em seus países de origem.

    Entre a grandes corporações que evadem impostos estão a Apple, a Johnson&Johnson e o Skype.

    As corporações costumam dizer que empresas de fachada incentivam o investimento estrangeiro e fazem negócios que não seriam possíveis de outra forma. Muitos dizem que eles também incorporam offshore para evitar o pagamento de impostos duplicado para o mesmo lote de dinheiro. Especialistas dizem que essas defesas são exageradas e até míticas.

    Para saber mais, assista nosso repórter Simon Bowers numa palestra do TED falando de como descobrir os segredos fiscais da Nike e da Apple nos Paradise Papers.

    O que as empresas querem dizer quando afirmam que pagam os impostos devidos, onde são devidos?

    Os especialistas chamam isso de “mantra fiscal”. Ele permite que as corporações pareçam ser bons cidadãos corporativos, mas não contradiz o fato de que muitas dessas empresas usam brechas (algumas das quais são posteriormente consideradas ilegais) para evitar o pagamento de impostos.

    Como é possível abrir uma empresa de fachada?

    Na maioria dos casos, é tão simples quanto enviar um e-mail ou fazer um telefonema. Você nem precisa sair de casa. Em grande parte dos casos vistos pelo ICIJ, os indivíduos pagam outra pessoa para fazer isso por eles. Há uma pequena indústria de especialistas offshore — incluindo Mossack Fonseca (já extinto), Appleby e Asiaciti, como relatamos anteriormente — ansiosos para fazer aquela ligação ou escrever aquele e-mail em seu nome (com a cobrança de uma taxa) para criar uma empresa de fachada.

    As regras variam de acordo com a jurisdição, mas, de modo geral, você precisaria fornecer alguma forma de identificação e responder a perguntas sobre como ganhou seu dinheiro e o propósito do novo negócio. Os especialistas offshore com frequência omitem essas perguntas.

    Após a investigação dos Panama Papers, por exemplo, advogados do mundo inteiro se esforçaram para tentar descobrir a identidade de seus próprios clientes.

    Alguns repórteres chegaram ao ponto de criar uma empresa de fachada para si próprios. Ouça Planet Money da NPR fazer isso, aqui. Os parceiros do ICIJ na Univision’s Fusion abriram uma empresa de fachada em Delaware … para um gato.

    Quem mais colabora com o funcionamento das empresas de fachada?

    Consultores, gestores de fortunas e advogados tributários, que aconselham sobre a melhor forma de evadir impostos e esconder dinheiro das autoridades. Também, contadores — que assinam as auditorias das empresas de fachada.

    Quanto custa abrir uma empresa de fachada?

    Os custos dependem de onde será criada a sua empresa de fachada e de quem vai ajudar você a fazer isso. Alguns advogados, incluindo Mossack Fonseca, do Panama Papers, cobravam US$ 350 para constituir uma empresa. Outros escritórios de advocacia, incluindo o Appleby, do Paradise Papers, cobravam uma taxa fixa de quase 2 mil dólares em um paraíso fiscal popular, a Ilha de Man, e US$ 2.700 nas Bermudas.

    Quais são os diferentes tipos de empresas de fachada?

    As empresas de fachada, corporações ou “entidades” existem de diversas maneiras. Embora as empresas e corporações sejam a ferramenta offshore mais comum (em Delaware, Ilhas Virgens Britânicas, Bahamas e Niue), outras entidades offshore incluem trustes (Jersey) e fundações (Panamá). Cada um tem uma regra diferente, de acordo com as leis internas de um paraíso fiscal. Trustes são particularmente abertos a abusos porque usam princípios jurídicos antigos para evitar declarar ou definir um proprietário. Os trustes dividem a possível propriedade em três: o proprietário legal dos bens, a pessoa que controla os bens e a pessoa que pode usufruir ou usar os bens.

    Continua confuso? Esse é o ponto. Estruturas complexas confundem autoridades fiscais, policiais e jornalistas investigativos. Segue um exemplo de uma estrutura complexa configurada para laboratórios Abbott a partir de nossa investigação de Lux Leaks:

    O que é um diretor nomeado e o que eles fazem?

    Um diretor nomeado pode ser uma pessoa ou empresa paga para aparecer nos documentos oficiais. As empresas de fachada podem usar nomeados, também conhecidos como “manequins”, em vez do verdadeiro proprietário (ou proprietários) da empresa como diretores, para evitar divulgação pública. Os indicados executam tarefas administrativas, incluindo a assinatura de atas de reuniões da empresa, mas não têm poder real ou legal ou controle sobre a empresa de fachada. Um exemplo recente de empresa nomeada dummy foi o uso da Regula pelo Deutsche Bank.

    Qual a diferença entre evitar impostos (“tax avoidance”) e a evasão de impostos?

    De acordo com as definições tradicionais, a evasão fiscal é ilegal (um crime), mas o ato de evitar impostos (“tax avoidance”) usa brechas legais para reduzir ou evitar o pagamento de impostos. Cada vez mais, os especialistas argumentam que a distinção é confusa; muito (mas não tudo) do que é chamado de “tax avoidance” poderia ser criminalizado ou anulado se houvesse uma contestação no tribunal, mas grande parte disso permanece em segredo. Essa área cinzenta levou ao termo “tax avoision” (algo como “evitação” fiscal, em português).

    O que é um proprietário beneficiário?

    A pessoa ou empresa que, em última instância, possui a empresa de fachada, não importa quantos diretores nomeados ou empresas subsidiárias sejam colocados entre ela e a empresa de fachada.

    Como o governo do meu país pode descobrir se sou proprietário de uma empresa de fachada?

    Depende de onde você mora. Como regra geral, manter segredos offshore não é mais tão fácil como antes. Muitos governos, incluindo os Estados Unidos, podem receber informações automaticamente de paraísos fiscais e outros países sobre contas bancárias estrangeiras de seus próprios cidadãos. Outros países, especialmente os países em desenvolvimento, devem fazer solicitações individuais aos paraísos fiscais para obter informações. Muitas jurisdições, incluindo o estado americano de Delaware, se recusam a fazer registros públicos onde constem os proprietários beneficiários de empresas de fachada.

    O que é uma “ação ao portador” e o que ela faz?

    Uma ação ao portador permite que quem detém o documento físico (a “ação”) seja o seu proprietário legal, o que pode tornar alguém proprietário de uma empresa de fachada. A ação ao portador não é registrada sob nome de nenhuma pessoa, o que significa que a propriedade nunca é registrada. As ações ao portador foram proibidas em muitos países porque criminosos usavam essa falta de registro de propriedade para ocultar crimes e bens.

    O que é o preço de transferência?

    O preço de transferência ocorre quando duas empresas do mesmo grupo negociam entre si. Isso acontece, por exemplo, quando o Facebook Irlanda vende um serviço ou um ativo para o Facebook EUA. Um erro no preço de transferência é quando as empresas (supostamente, incluindo o Facebook) evitam ou sonegam impostos ao inflar ou deflacionar artificialmente o valor dos serviços ou ativos vendidos internamente.

    Quando dinheiro é guardado em contas offshore?

    É impossível saber com certeza (essa é parte da questão: é segredo). O economista francês Gabriel Zucman estima que o equivalente a 10% do PIB global seja mantido no exterior — cerca 5,6 trilhões de dólares. O economista americano James Henry calcula até US$ 32 trilhões.

    Que investigações do ICIJ expuseram os paraísos fiscais — e aqueles que usufruem deles?

    O Panama Papers, publicado pela primeira vez em 2016, é provavelmente a investigação mais conhecida do ICIJ sobre paraísos fiscais. Foi a maior colaboração jornalística da história (na época) e levou à renúncia de líderes mundiais, condenações criminais e mais de $ 1 bilhão de dólares em dinheiro recuperado. Ele se baseava no trabalho de nossas investigações anteriores, Offshore Leaks, Swiss Leaks e Lux Leaks. Nós retornamos com a Paradise Papers, West Africa Leaks, Mauritius Leaks e, em 2020, com Luanda Leaks.

    Por que não há grande repressão contra as empresas offshore?

    Por um simples motivo: alguns dos países mais poderosos do mundo são grandes beneficiários. O dinheiro offshore flui através dos territórios ultramarinos do Reino Unido; os estados norte-americanos de Delaware, Wyoming, Nevada e Dakota do Sul; e pela Suíça e Holanda.

    No entanto, desde que o Panama Papers foi publicado pela primeira vez, houve uma pressão nos EUA para eliminar o sigilo corporativo. Alguns especialistas se mantEm otimistas quanto a essa reforma; no ano passado, a Câmara dos Representantes dos EUA aprovou a Lei de Transparência Corporativa.

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    *Will Fitzgibbon é um repórter sênior do ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos). Também, é coordenador de parcerias do ICIJ na África e no Oriente Médio. Will coordenou a investigação Fatal Extraction que examinou o impacto das mineradoras australianas na África. Ele é um dos jornalistas com maiores colaborações pan-africanas.

    *Ben Hallman é o repórter-chefe do ICIJ e lidera a equipe de reportagens. Anteriormente, foi editor adjunto do The Trace e editor de investigações e repórter do HuffPost. Nos últimos anos, vem investigando fraudes e abusos nas indústrias de execução hipotecária e de hospícios, e as demissões financiadas por empréstimos do Banco Mundial.