Afonso Chaves. O homem que fez dos Açores um laboratório da ciência mundial

Afonso Chaves. O homem que fez dos Açores um laboratório da ciência mundial

Foi um destacado cientista do final do século XIX e início do século XX. Reconhecido internacionalmente, foi pioneiro nas áreas da meteorologia, sismologia, vulcanismo e oceanografıa e contribuiu para outras áreas, como a biologia e a fotografıa

Logo na entrada da casa de João Luís Cogumbreiro, um velho retrato do trisavô está cuidadosamente emoldurado na parede. Apesar de nunca o ter conhecido, a figura do “avô Chaves” esteve sempre presente: quer lá em casa, quer ao longo da vida. João Luís é o mais novo de seis irmãos e coube-lhe a responsabilidade de cuidar do legado do coronel Francisco Afonso Chaves (1857-1926), um dos mais destacados cientistas portugueses do final do século XIX e início do século XX. Quando fala do trisavô, não consegue disfarçar o entusiasmo. “É fácil estar apaixonado pela figura, fez coisas lindíssimas e hoje em dia vivemos numa geração sem heróis”, diz, de sorriso aberto e com a voz preenchida de orgulho.
Pela longa mesa de madeira está criteriosamente espalhado um manancial de artigos. Entre livros e dossiers, a diversidade temática da informação revela a variedade de áreas que Afonso Chaves tocou: a meteorologia, a sismologia, o magnetismo terrestre, a oceanografia, a história natural, a biologia e a fotografia — só para enumerar a disciplinas mais presentes. Alguns objectos eram do próprio Afonso Chaves. Caso da agenda pessoal, que servia para todo o tipo de anotações, como as compras de mercearia e os pagamentos aos funcionários. Ou a tina, uma caixinha aberta em vidro, que suportava os banhos químicos das lâminas de vidro para a revelação de fotografias.
João Luís, que saiu por instantes da sala, volta, trazendo na mão um estojo que transporta como se fosse um tesouro. Antes de o abrir, avisa: “Isto é fantástico.” Lá de dentro, retira meticulosamente as condecorações da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada e da Ordem de Saint-Charles (do principado do Mónaco), atribuídas ao coronel Chaves.
A colecção está, porém, mais pequena desde 2013, quando as cartas foram doadas à Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada. Uma forma de “zelar pela conservação” e “facilitar os conteúdos” aos interessados, nota João Luís Cogumbreiro, que, com a mulher, Iva Matos, bibliotecária, catalogaram e transcreveram dezenas de cartas antes da doação.
No acervo de seis mil cartas, há correspondência trocada com algumas das figuras de maior destaque daquela altura: Jules Richard (primeiro director do Museu Oceanográfico do Mónaco), Charles Richet (Nobel da Medicina de 1913), Frijdov Nansen (Nobel da Paz de 1922), irmãos Lumière (precursores do cinema), Francisco Lacerda (músico português), Hintze-Ribeiro, ministro do reino de então, e claro, Alberto I do Mónaco, o príncipe cientista, com quem Chaves desenvolveu uma amizade que lhe iria abrir as portas da ciência mundial.
Para lá da família, provavelmente ninguém conhece tão bem o espólio como Conceição Tavares. Para esta investigadora do CHAM — Centro de Humanidades, das universidades Nova de Lisboa e dos Açores, os contactos com algumas das maiores figuras da altura são fundamentais para perceber o “maior legado” do cientista falecido há 94 anos. “A integração dos Açores no mapa científico internacional, sem dúvida, ao nível da meteorologia, da sismologia e oceanografia, sobretudo”, frisa, quando questionada sobre o maior legado de Chaves e aprofundando, em seguida, a credibilidade internacional de que o cientista gozava: “Era um interlocutor credível, fiável, responsável, reconhecido pelas redes internacionais que procuravam penetrar no Atlântico nas diferentes especialidades.” Entre essas especialidades, parece consensual entre os investigadores que a meteorologia é a mais evidente. Para perceber o cientista Afonso Chaves, é necessário perceber a história da meteorologia nos Açores.

Um centro meteorológico

A telegrafia sem fios chegou aos Açores em 1893, depois de meio século de avanços e recuos. A operação só viria a avançar devido ao ultimato inglês e ao resfriamento das relações entre Portugal e Reino Unido. “Os Açores eram uma reserva do império britânico em termos práticos”, explica Conceição Tavares, referindo que a ligação entre o continente europeu e um arquipélago estrategicamente localizado no meio do Atlântico depreendia um potencial enorme que os ingleses não queriam ver aproveitado pelas nações concorrentes.
Afonso Chaves percebeu a oportunidade e, quando soube que o telégrafo ia mesmo avançar, não esteve com meias medidas: escreveu a Brito Capelo, director do Observatório Meteorológico do Infante D. Luiz, em Lisboa, a pedir autorização para chefiar o Observatório de Ponta Delgada. Chaves assumiu as rédeas de um observatório “praticamente ao abandono” e modernizou-o, através de donativos da elite local, desafiada a contribuir para colocar os Açores no mapa da meteorologia mundial.
Para o sucesso desse desafio, a colaboração do príncipe Alberto I do Mónaco foi decisiva. “Tudo isso ia chegando aos ouvidos do príncipe através de cartas. Afonso Chaves pôs o posto apto a responder às solicitações a que ele sabia que ia responder”, explica a investigadora. Seis anos antes, Alberto tinha conhecido o jovem cientista Afonso Chaves, aquando da segunda expedição das famosas campanhas oceanográficas que realizou. O príncipe foi visitar o museu da cidade de Ponta Delgada e registou em diário o quão impressionado ficou com as competências demonstradas pelo então assistente do director do museu. Oito anos depois, e após vária correspondência trocada com a equipa científica do Mónaco, Afonso Chaves recebeu a primeira carta do príncipe — e logo com uma proposta ambiciosa. Alberto queria montar um serviço internacional de meteorologia nos Açores e queria que Chaves o liderasse.
A ideia de um Serviço Meteorológico Internacional no meio do Atlântico entusiasmou o mundo e França e Alemanha disponibilizaram-se de imediato a financiá-lo. Afonso Chaves correu a Europa para conhecer todos os observatórios meteorológicos europeus, mas o projecto acabou por não avançar. Mais uma vez, devido à pressão britânica, a que o rei D. Carlos foi sensível. “Havia um problema de correlação de forças internacionais sobre o Atlântico, que era o objecto da atenção e da cobiça internacional”, vinca Conceição Tavares.
O projecto perdeu o cariz internacional e foi ajustado à dimensão nacional, mas nem por isso perdeu importância. A “dinâmica internacional” tinha sido criada e Alberto do Mónaco firmou-se com um “porta-voz mundial” do Serviço Meteorológico dos Açores, finalmente criado em 1901. Além disso, os dados do Atlântico eram “fundamentais” para a previsão do tempo. Com tudo isso, Conceição Tavares não tem dúvidas: “O Serviço Meteorológico dos Açores tornou-se o interlocutor internacional da meteorologia em Portugal.” Com Afonso Chaves na liderança.

O pioneirismo

Para o meteorologista Diamantino Henriques, a criação deste serviço é mesmo a “grande marca” de Afonso Chaves na história da ciência nacional. Até porque, destaca, foi o primeiro serviço meteorológico num país até então apenas composto por observatórios. A diferença não é só semântica: “A meteorologia estava dispersa pelas Forças Armadas, a academia, os serviços agrários, por uma série de instituições e não havia um serviço meteorológico autónomo.” Afonso Chaves, que irá liderar o Serviço Meteorológico dos Açores até ao final da vida, criou postos nas Flores e Faial e estações de observação no Pico.
Entre os muitos trabalhos de Chaves, Diamantino Henriques destaca a de finição da hora oficial, os anuários climatológicos “muito bem feitos”, mesmo para a visão actual, e a criação de um sistema de pré-aviso de ondas. A criação desse sistema foi incentivada pelo Governo francês, que pediu a colaboração de Chaves para a previsão das tempestades sofridas em Marrocos. “Ajudou a construir a estrutura da meteorologia e tinha uma visão da meteorologia muito parecida com a que temos hoje”, resume o meteorologista, dando como exemplo a intenção de criar uma estação meteorológica na montanha do Pico. Foi “pioneiro da ciência meteorológica em Portugal e até mesmo no mundo”.
O seu pioneirismo estende-se a outras áreas. “Foi um pioneiro na sismologia e vulcanologia dos Açores, diria até do Atlântico Norte”, aponta Victor Hugo Forjaz, professor catedrático de Vulcanologia, destacando a criação do primeiro posto sismográfico do país em São Miguel em 1902 e a primeira lista de erupções submarinas dos Açores, dando o exemplo da erupção de 1720 do banco D. João de Castro. “Foi ele quem descobriu essa grande erupção, que tem um historial muito interessante porque era a décima ilha dos Açores.”
Correndo-se o risco de a expressão “pioneiro” se banalizar, há outra área em que Afonso Chaves foi precursor: a da fotografia científica em Portugal, que serviu de extensão aos trabalhos de divulgação de centenas de espécies. “A fotografia servia uma função essencialmente de divulgação de registos de observação, o que, até então, era limitado ao desenho”, diz Conceição Tavares. O espólio de sete mil fotografias esteve remetido ao esquecimento durante décadas no Museu Carlos Machado até 2007, quando Victor dos Reis decidiu trazê-las para exposição — de que resultou no catálogo A Imagem Paradoxal: Francisco Afonso Chaves (1857-1926).
Nesta redescoberta de parte do legado de Afonso Chaves, além da vertente científica, para Conceição Tavares ficou evidente a “sensibilidade artística” e o “domínio das técnicas fotográficas”, como a estereoscopia.
Entre tantas áreas de em que teve projecção nacional e internacional, João Paulo Constância lembra a importância local de Afonso Chaves, sobretudo na museologia e na vida do Museu Carlos Machado, de que foi o segundo director durante 25 anos. O conservador da colecção de história natural daquele museu assinala que Afonso Chaves foi decisivo para assegurar a sobrevivência numa altura crítica da instituição, tendo também contribuindo para a colecção de história natural. “Através de exemplares ou publicações, foi uma figura essencial na história do museu.”

O legado

O busto de Afonso Chaves na entrada da delegação do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) nos Açores antecipa a designação de Observatório Afonso Chaves para a sede do IPMA na região. Além do observatório, a sua memória procura ser preservada pela Sociedade Afonso Chaves, fundada em 1932, seis anos após a morte do patrono. Desde então, a sociedade publica a revista Açoreana, que procura “reflectir sobre os Açores”, como explica o actual presidente António Frias Martins, professor catedrático de Biologia. “Tem uma missão dupla de investigação e divulgação da ciência e da ciência dos Açores”, diz, referindo que a sociedade também gere o único Centro de Ciência Viva nos Açores.
Apesar dos exemplos, a família do coronel Chaves acredita que a figura está “um pouco esquecida” e “merecia mais destaque”, por exemplo, nos “guias turísticos da região”. “Acho que não tem o reconhecimento devido”, diz João Luís Cogumbreiro: “As informações que chegam de fora são mais fortes do que as de dentro e, quando é assim, não estamos a cumprir o nosso dever perante o legado.” Conceição Tavares partilha da opinião. Se o legado científico está “bem tratado”, a figura é apenas recordada “num círculo muito restrito” de pessoas, diz. “Continuamos a fazer óptima meteorologia e óptima geofísica, mas a pessoa que pôs os Açores no mapa internacional destas questões está um bocadinho esquecida.”
É indesmentível o contributo de Afonso Chaves na história moderna da ciência portuguesa. Fez de todo o arquipélago objecto de trabalho: percorria todas as ilhas regularmente e, além de viver em São Miguel, passava longos períodos nas Flores e no Faial. A abrangência dos estudos pode ser resumida numa grande categoria: os fenómenos naturais da geografia dos Açores. “O fenómeno de sermos ilhasmar numa perspectiva científica”, descreve João Luís Cogumbreiro, o descendente, para quem ainda falta responder a uma “questão importante” sobre o seu trisavô: qual o maior contributo deixado por Afonso Chaves? “Era um homem muito focado no que hoje em dia se chama ‘ambiente e sustentabilidade’. Estava muito à frente, focado na ideia de que o que temos é para preservar e temos de saber o que temos para o conseguir preservar.” Encarou a ciência como uma “forma de servir as pessoas”.

(Rui Pedro Paiva – Edição Público Porto)

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Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção e da comissão executiva da AICL