álbum do lançamento de ontem do Contos da Imprudência.

álbum do lançamento de ontem do Contos da Imprudência.

Pedro Paulo Camara

Como o prometido é devido, partilho aqui a minha intervenção de ontem na cerimónia de apresentação do novo trabalho de Pedro Paulo Camara.

AMOR DA IMPRUDÊNCIA

Quando recebi o convite do Pedro Paulo Câmara para apresentar estes “Contos da Imprudência”, aceitei de imediato; não refleti, não gaguejei nem hesitei por um segundo. Senti a maior das determinações em fazer parte deste nobre episódio na caminhada literária de um grande amigo e escritor que admiro.
Porém, ao recostar-me da decisão, tive dúvidas. Receei não ser portador do índice de legitimidade mínima para empreender o desafio. Vacilei ao ponto de ler nas palavras do autor, logo no conto de abertura, intitulado Madrugadas, aquilo que eu senti naquele convite; e passo a citar: «uma mensagem dos Infernos dactilografada a pingos de chuva baça».
Afinal, quem sou eu — que pouco sei rimar — para enaltecer o trabalho de um poeta? E não um qualquer: várias vezes publicado, premiado, incluído em antologias, contribuidor em magazines, representante de revistas poéticas… e outros feitos.
Quem sou eu — que não domino a oratória — para falar de um homem que leciona por profissão, que todos os dias transmite conhecimento, enche salas, reúne comunidades, recita e coordena saraus! Até os poemas apontam-lhe as páginas e imploram:
— Declama-me!
Quem serei eu — que na escrita de conto dei apenas pinceladas — para exaltar o trabalho de quem prosa sem pincéis? Galardoado e honrosamente distinguido, dentro e fora, cá e lá, Pedro Paulo Câmara é um contista de poesia ou mesmo um narrador de contos poéticos. Talvez sejam rótulos ainda insuficientes, no entanto, para definir a pessoa, a meu ver. Pensando melhor, seria mais justo designa-lo por aquele-que-ainda-não-sabemos-definir. Ou ainda melhor: abandonar por completo esta ambição de defini-lo!
Afinal de contas, para nos definirmos, teríamos de nos perceber a nós próprios, ou seja, teríamos de entender o nosso cérebro. Mas, se o nosso cérebro fosse fácil de compreender, teria de ser tão básico, tão básico que nos tornaria tão estúpidos, tão estúpidos ao ponto de não o conseguirmos explicar. É fácil de entender, não é? Tão fácil de entender como o amor.
Ora, é exatamente para falar de amor que aqui estou. Calma! Não propriamente, porque também não sou autoridade na matéria, nem sei verdadeiramente o que é o amor. Analisemos o repto lançado nas palavras que recebi do próprio autor; e passo a citar: «Gostaria que proferisses uma comunicação (…) sobre o amor. O que é o amor?; amar será genético?; haverá a necessidade de amar?; o que é amar? há fronteiras no amor?; etc.» — fim de citação.
Et cetera?! Quer dizer, como se a discussão universal de “o que é o amor”, a que pensadores do mundo inteiro dedicaram as suas vidas, não fosse desafio suficiente; como se as mais debatidas dúvidas existenciais de “o que é amar” e “quais são as suas fronteiras” não representassem, por si só, matéria para dissertações, enciclopédias e congressos internacionais; e como se este simpático público não estivesse já a pensar no que vai ser o jantar e pudesse passar a noite aqui, em sacos-cama, a ouvir-me eternamente; Pedro Paulo Câmara acrescenta et cetera e, com isso, mata-me, encomenda o caixão e convida-vos a assistir à única missa em que eu irei de costas.
Contudo, com a aceitação deste repto, devo aprender a colocar de lado os queixumes e buscar uma definição de amor que caiba neste auditório — e antes da meia-noite, hora em que a autoridade passará a ser São Valentim.
A primeira tentação é de colarmos o amor à felicidade e afirmar que um é sinónimo do outro. Se um deles pudesse ser consequência do outro, podíamos recorrer a uma definição da felicidade para explicar o amor. Mário Glaab, por exemplo, disse: «para muita gente, a felicidade é como uma bola: as pessoas querem-na a todo o custo e, quando a possuem, dão-lhe pontapés». Há casos de amor assim, mas hoje não vamos defini-lo nestes termos.
Estudos de radiologia, mais concretamente de ressonância magnética funcional, vieram comprovar que as pessoas apaixonadas ficam com o circuito da recompensa demasiadamente ativo e o córtex pré-frontal quase desligado. Acontece que o córtex pré-frontal é o responsável pela nossa capacidade de raciocinar e de tomar decisões elaboradas. Se a paixão nos torna incapazes de raciocinar e de decidir, fica então explicado que o amor cega-nos.
Da neurologia, chegam-nos explicações de que o centro do prazer, situado atrás dos olhos, é sensível à dopamina. Ora, a dopamina é um neurotransmissor associado à felicidade, à satisfação e à paixão, mas também ao consumo de drogas. Isto significa que a sensação de fazer amor pode ser confundida com a de fumar substâncias; ou que estar apaixonado pode resultar nos mesmos sintomas de quem bebeu em demasia; vem igualmente explicar o porquê de ser tão difícil separarmo-nos da pessoa amada: porque estamos viciados. Conclui-se então que o amor é um vício.
Robert Sternberg, um psicólogo nascido nos Estados Unidos da América, idealizou a teoria sobre o amor que me parece satisfazer até os mais exigentes, uma espécie de triângulo conceptual com três vértices: paixão, intimidade e compromisso. Se pensarmos bem, cada dimensão isolada não significa amor. O que é uma relação de apenas paixão? O que é o compromisso sem nenhum dos outros? Quando muito, o amor vazio. Juntemos paixão e intimidade, e teremos o amor romântico. Juntemos paixão e compromisso, e teremos o amor fugaz. Juntemos intimidade e compromisso, e teremos o companheirismo. Somemos os três vértices, e teremos o amor consumado.
Ainda insatisfeito com estas aceções, e tendo em mãos a leitura dos “Contos da Imprudência”, procurei melhores definições nas palavras do próprio autor. Uma espécie de chapada de luva branca que desejei. Quanto à sensação de amar, por exemplo, poderíamos inferir que, e passo a citar: «existem comichões agradáveis, aquelas em que nos contorcemos enquanto suplicamos que parem e ordenamos, por entre dentes, que continuem».
Digam-me se não é uma belíssima analogia? Os poetas são os melhores filósofos; aliás, eu diria que os poetas deviam governar, pois são os que melhor conhecem a ambiguidade das coisas.
Quanto ao amor interrompido, escolhi a seguinte frase do autor: «A interrupção tinha o sabor de faca romba que dormita no balcão depois de cortar meia dúzia de cebolas roxas».
Respondendo à provocação do Pedro Paulo Câmara “haverá necessidade de amar?”, escolho um excerto de Sob asas, outro dos “Contos da Imprudência”, que passo a citar: «As criptomérias ladeiam a Lagoa Azul e a Lagoa Verde em sintonia íntima. Será que alguém, algum dia, choraria por mim ao ponto de criar uma lagoa de rara beleza? Serei eu, algum dia, merecedor de tal dilacerado sentimento? Será um qualquer alguém, num algum desigual dia, louco o suficiente para se esvair por amor?». Define necessidade, não acham?
E por falar na magia das Lagoas, comparemos agora a proeza de amar com uma cruzada pelo Túnel das Sete Cidades, dando uso às seguintes palavras do contista: «Não seria a primeira vez que o atravessaria em plena escuridão, tateando o meu caminho, encostado à parede irregular e sentindo, sob os meus pés, poças de água estagnada». Definição claríssima de amar.
Caríssimos convidados e leitores, aqui presentes para assistir à cerimónia em que se abre ao mundo “Contos da Imprudência”, uma noite riquíssima em palavras. Lembrando que as palavras são as ferramentas dos escritores, pensemos: se uma imagem vale mais do que mil palavras, a palavra “amor” valerá mais do que mil imagens!
Aposto que as vossas mentes estão a explorar túneis, a brincar com os ecos e a ver a luz, ao fundo. Amar pode mesmo ser andar às escuras; caminhar à chuva; escalar uma montanha; descer um rio sinuoso; ou saltar de paraquedas. Mas pode trazer dissabores, perda e dúvida. Vejamos um exemplo nas palavras de Pedro Paulo Câmara: «Já não sei sentir, ou o que sentir. A minha língua já não sabe o que expressar, ou como se expressar. O meu pensamento está toldado e os meus ouvidos não estão dispostos a escutar o meu próprio grito mudo». Amor também é confusão.
Amar pode ser doença, ver e ouvir coisas, uma espécie de psicose. Voltemos ao texto: «Ausculto a tua voz em cada onda que morre contra o cais e que renasce em cada recuo da mãe-maré. E sinto, ainda, o teu toque em cada gota de chuva que pousa na minha pele e que escorre, serenamente, lentamente pelos poros do meu corpo. E sensorio o teu perfume quente em cada peça de roupa que se apresenta nas vitrinas».
E da necessidade de amar e de ser amado, selecionei este trecho: «Eu mereço ter alguém ao meu lado quando a chuva esmurra a janela do meu quarto; quando os trovões esmagam os meus ouvidos; quando os relâmpagos cegam o meu olhar (…); Eu quero ser aquele que sabe onde estão as tuas chaves pela manhã. (…) Eu quero ser aquele a quem tu ligas quando o teu carro começa a fazer barulhos desconhecidos no meio de um descampado sem luzes. (…) Eu quero ser aquele que acende velas perfumadas nas vésperas da tua entrada porta adentro».
Quanto ao amor carnal, apreciemos o seguinte arrojo do autor: «nenhuma outra consegue a firmeza das tuas coxas, a doçura dos teus dedos gélidos e finos no fundo do meu abdómen, o odor dos teus sovacos que sabem a tangerina, o veludo da tua língua a passear-se nos meus lóbulos».
E para terminar, a repugnância — e passo a citar: «A casa de banho privativa do senhorio rude e barrigudo encosta-se à minha cabeceira. Prefiro mil vezes que vá conspurcar gaseificando o ar de todo o bairro, do que me visite durante a manhã, antes do almoço, com as mãos calosas, ásperas, miolos de bolacha espraiados nos seus cantos, e um odor gigantesco a tabaco de mascar desusado que me tolda o discernimento».
Ilustres convidados, ainda insatisfeitos com estas definições de amor? Pois, digo-vos o que já concluíram: o amor não se pode definir de uma maneira só; não se apresenta com a mesma fórmula para todos. Cada qual experiencia-o de maneira diferente. Se querem mesmo saber o que é o amor, tornem-se pais e avós e abracem os vossos filhos e netos, tornem-se filhos e abracem os vossos pais e avós, beijem os vossos irmãos, telefonem aos vossos amigos, escrevam a quem está longe, aconcheguem os vossos animais de estimação, ajudem um doente a erguer-se, aproximem-se de um estranho, deem a mão a um colega no trabalho, apaixonem-se por quem tanto desejam, deixem-se levar pela loucura, sintam a cegueira e tornem-se estúpidos.
Pedro Paulo Câmara afirma que: «os sentimentos não se vendem, nem se compram; brotam de nós como a criptoméria brota da terra, por vezes, mesmo lutando contra um solo quase infértil». Afortunados são os que o leem. Os leitores de Pedro Paulo Câmara adquirem coisas impensáveis: o direito a respirar no vácuo; a capacidade de ver na cegueira; bilhetes para um universo paralelo; e uma maior compreensão da condição humana.
Em diferentes géneros literários.
Pedro Paulo Câmara é um narrador de prosas poéticas, como em “Cinzas de Sabrina”, onde invoca o tema apaixonante da ilha que apareceu e desapareceu. Também o amor nos pisca o olho, às vezes.
Pedro Paulo Câmara é um poeta; mas concebe muito mais do que consonâncias e rimas; como a poesia o merece, ele rasga o próprio peito, extirpa o coração, espartilha-o entre folhas brancas e dá-nos de presente. O verdadeiro papel de embrulho é a capa-e-contracapa, bonita de se ver, por sinal, mas é um logro; um véu para não lhe vermos o sangue derramado — o mesmo sangue que nos passa a correr nas veias por transfusão de sentimentos, depois de o lermos.
Nesta fusão de “Contos da Imprudência”, Pedro Paulo Câmara revela um lado cortante; põe a nu o nosso paradoxo e a capacidade de sermos implacáveis. Para demonstrar isso, veste os narradores de amantes, prostitutas, assassinos, negligenciados e arrependidos —extremismos, no que toca ao amor próprio. Coloca amor nas descrições e crueldade nas ações; além de trancar os finais com chave de ouro, deixando-nos boquiabertos com a acutilância. O autor está de parabéns pelo arrojo depositado nestes jogos amorosos viciantes, aqui possivelmente equiparados ao mistério da morte.
Mas fiquem sabendo que o contrário da morte não é a vida. O contrário da morte é o nascimento. A vida é o que permeia, como as páginas brancas de um livro, no meio da capa e da contracapa.
De igual forma, o contrário do amor não é o ódio. O ódio gera atração: atração negativa, mas uma força, a força dos laços fracos — ou fortes. O amor é o que nos preenche a vida. O amor é vida. O amor são as palavras timbradas naquelas páginas brancas, entre o nascimento e a morte. São as palavras da imprudência.
Muito obrigado.

Ponta Delgada, 13 de fevereiro de 2020

Pedro Almeida Maia

2 hrs

Eis o álbum do lançamento de ontem do Contos da Imprudência.

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Pedro Paulo Câmara lançou o seu mais recente livro “Contos da Imprudência”, na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, no dia 13 de fevereiro.

Medo e Mito. Morte e Amor. Solidão e Desesperança. Talvez Medo e Mito, informes e famintos, alicercem o Amor ou a Solidão. E talvez tanto um como outro tenham garras e forças suficientes para rasgar o ventre e a alma de cada ingénuo humano. Desfazemo-nos no vagar dos dias e compomo-nos de Imprudências que se amontoam ao entardecer. Em Contos da Imprudência, forças titânicas assumem o controlo – e o destino- de cada personagem, reflexo de mil homens e mil mulheres sem opção, desarmados.

Disponível na Livraria Letras Lavadas, em Ponta Delgada e a partir da loja online: https://www.letraslavadas.pt/destaque/contos-da-imprudencia/

Agradeço, profundamente, a presença de parte do executivo da Junta de freguesia de Ginetes, a minha terra, nas pessoas do seu presidente André Pavão e da sua secretária Manuela Medeiros, bem como a presença do presidente da assembleia de freguesia.
Por lapso, imperdoável, não o listei nas entidades presentes (e por isso peço desculpa). Talvez tenha sido atraiçoado pela montanha de afetos, pela pressão, ou por os considerar como amigos. Mas a eles, o meu muito obrigado! É sempre uma honra ter a nossa terra connosco. A minha terra sabe que eu estou sempre com ela e por ela.

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Junta de Freguesia Ginetes

17 hrs

A JFGinetes vem por este meio felicitar o escritor e poeta Ginetense Pedro Paulo Câmara pelo lançamento do seu livro intitulado Contos da Imprudência, votos de muito sucesso.
JFGinetes_13_02_2020

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Citação retirada da apresentação do livro “Contos da Imprudência”, de Pedro Paulo Camara, ontem na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, por Almeida Maia.

🛒 Poderá adquirir o novo livro de Pedro Paulo Câmara, “Contos da Imprudência”, na nossa livraria no centro de Ponta Delgada, ou na nossa loja online, na seguinte ligação: https://www.letraslavadas.pt/destaque/contos-da-imprudencia/

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Pedro Paulo Câmara lançou o seu mais recente livro “Contos da Imprudência”, na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, no dia 13 de fevereiro.

M


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Publicado por

lusofonias.net

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção e da comissão executiva da AICL

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