1840, 1872 ou 2020. As infraestruturas portuárias nos Açores sempre foram uma questão fulcral no desenvolvimento económico e social do Arquipélago, sobretudo agora em plena era da globalização.
Estamos e estaremos sempre dependentes do exterior, mas importa reflectir em que pontos podemos ou devemos ser mais auto-suficientes. Esta é também uma questão de sustentabilidade e de Autonomia.

O excerto é de Ferdinand Fouquet, um cientista que visitou por duas vezes os Açores e que descreve as ilhas com o olhar atento e maravilhado de um naturalista do Século XIX.
Os magníficos registos encontram-se neste livro, tradução do Instituto Açoriano de Cultura, com um belo prefácio do Professor Victor-Hugo Forjaz.

“Em 1840, o número de caixas de laranjas enviadas de São Miguel para Inglaterra era somente de 60000 a 80000; em 1850 tinha subido para 175000 (caixas antigas), e no ano passado foi de 600000 (caixas novas). Anteriormente, o transporte era confiado exclusivamente aos veleiros, mas actualmente já uma metade dele é feito por barcos a vapor. O preço do frete até Londres por este meio é de 7,50 francos por caixa e tudo nos leva a pensar que um preço tão elevado tenda a diminuir. Os barcos a vapor encarregados deste serviço fazem oito viagens para Inglaterra entre 15 de novembro e finais de abril. Cada um deles importa em média 5000 caixas. A aplicação deste sistema de navegação constitui um grande progresso, pois o mar que rodeia os Açores está por vezes tão mau durante o Inverno que um veleiro carregado de laranjas só chega a Londres já com a maior parte da carga deteriorada. Há sensivelmente dez anos que, frente a Ponta Delgada, se trabalha na construção de um cais, atrás do qual as embarcações podem já abrigar-se em caso de mau tempo, mas só um barco a vapor pode sair deste refúgio com vento de sudoeste, que infelizmente é o vento dominante, e não é raro que um veleiro já completamente carregado deva esperar semanas, com grave prejuízo para a sua mercadoria, até que um céu mais favorável lhe permita partir. Antes da edificação do cais quase não havia ano que não fosse marcado por acidentes. Ao longo de todo o tempo exigido pelas operações de carga, o comandante do barco devia vigiar atentamente os sinais precursores de uma tempestade e, com frequência, tinha de interromper os trabalhos e dar o sinal de fuga, sob pena de ir naufragar contra a longa linha de falésias de São Miguel. Actualmente, acontecimentos deste tipo já não são de recear e, dado que o comércio de laranjas dos Açores se tornou muito menos aleatório do que noutros tempos, os diversos custos podem ser estimados de uma forma mais segura. Em suma, hoje em dia pode-se dizer que uma laranja de São Miguel, transportada para as bordas do Tamisa no mês de janeiro, custa entre 3 a 4 cêntimos ao comerciante que a adquirir.”

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