O “ainda” da Secretária
Há umas semanas, ouvi a Secretária Regional dos Transportes produzir, pomposamente, uma frase notável.
Revelava a governante à imprensa os esforços desenvolvidos pelo executivo a que pertence para abastecer a ilha das Flores dos bens essenciais que, ainda hoje, faltam naquele pedaço ocidental. Lá foi falando de aluguer de navio, etc e tal, quando um jornalista mais insolente fez a pergunta óbvia: quando chegam as coisinhas à ilha?
Foi aí que a Senhora Secretária foi explícita: “Ainda não mandamos nas condições meteorológicas”…
De início, meio atordoado, pensei em indignar-me. Tratar-se-ia de mais um exercício de arrogância de quem representa a força política que detém o poder nos Açores há quase vinte e quatro anos (metade do tempo que durou a ditadura em Portugal).
São cada vez mais as impaciências dos nossos governantes. Perguntas naturais mas inconvenientes parecem-lhes atrevidas. Qualquer interpelação que levante a mínima suspeita sobre as suas competências de mando é respondida com altivez, no rosto expressões de enfado.
A arrogância sempre foi característica notória de quem detém o poder absoluto, tenham sido reis, sejam ainda presidentes de países que vivem em regime ditatorial ou governantes de países ou regiões em que está instaurada a ditadura da democracia. Eles é que mandam e prontes, não há mais conversa…
Estava eu nestas cogitações, a exaltar-me por dentro cada vez mais, quando reparei no “ainda”. Se não estivesse na frase o “ainda”, cabiam aqui todas as supra deixadas lamentações sobre as atitudes arrogantes de quem manda.
Imaginemos a resposta sem o “ainda”. Quando vai haver abastecimento à ilha das Flores? “Não mandamos nas condições meteorológicas”, teria respondido a Secretária. Poderia haver ali um toque de soberba, tipo “ainda não somos Deus”. Mas também poderia ser tomada a resposta como um exercício de humildade, do género “estamos nas mãos de Deus, mais propriamente de São Pedro, que ditará no futuro breve se o vento dá tréguas e o mar se acalma”.
O “ainda” muda tudo. Quer dizer a Secretária que “por enquanto” o Governo não manda nas condições meteorológicas. Mas que está a trabalhar nisso. Que devemos manter a esperança. Se não for nesta legislatura há-de ser nas próximas.
Resolvidas estão todas as outras questões nas quais o governo manda: transportes aéreos (a SATA está como nunca esteve); barcos de transportes de pessoas e mercadorias (longe vai o tempo em que tínhamos de alugar). Pode, então, o Governo passar para outro nível – mandar no tempo que vai fazer. Lá ficou a promessa. Que, como todas as outras, será para cumprir, nem que seja nos próximos 24 anos…
Ai sossego futuro, meu Povo. Livres ficaremos dos Lorenzos, frentes frias e outros que tais. Os portos ficarão da maneira como foram construídos até à eternidade. E até o turismo crescerá a olhos vistos, pois poderemos escolher o tempo consoante os gostos. Coisa brasileira para os amantes de praia, chuva a valer para quem gosta de fazer trilhos a apanhar com ela nas ventas…
Tenhamos paciência, até lá. Vivemos, ainda, um tempo em que florentinos e corvinos não têm nada nas prateleiras para comprar, mas um avião da Força Aérea aterrou cheio de gente importante e suas comitivas para dobrar o ano. Antes tivesse levado batatas para as consoadas ocidentais. Cumprir-se-ia melhor Portugal, na sua parte mais afastada da Europa…
António Bulcão
(publicada hoje no Diário Insular)