o despovoamento dos açores

ESTUDO ESTATÍSTICO COM BASE NUM ARTIGO DE TOMAZ DENTINHO

Estrutura populacional dos Açores deixa sete ilhas debaixo de água

São Miguel são duas ilhas. A Terceira estagnou. As restantes ilhas enterram-se. São conclusões de um estudo demográfico. O peso das bases militares parece ser determinante.

Os quadros e o gráfico que publicamos nesta edição e que têm por base um trabalho de Tomaz Dentinho publicado na edição de 2019 do boletim do IHIT – Instituto Histórico da Ilha Terceira, mostram a evolução da população dos Açores durante um século (1900-2011), permitindo tirar algumas conclusões sobre causas e consequências dessa evolução.
O caso de Santa Maria é exemplar na possível ligação entre movimento demográfico e bases militares estrangeiras. Com uma base militar norte-americana instalada nos anos quarenta, a ilha tem uma evolução populacional muito significativa nos anos subsequentes, que parece estar ligada primeiro ao funcionamento militar da base durante um período curto e depois ao movimento das escalas técnicas. A partir dos anos oitenta a população volta a entrar em declínio.
Na ilha Terceira, a chegada dos ingleses e depois dos norte-americanos à Base das Lajes na década de quarenta parece ter um efeito importante na estabilização, primeiro, e depois no crescimento da população. O peso relativo da população face ao todo regional aumenta de forma significativa sobretudo no concelho da Praia da Vitória, onde a base se localiza.
Seguindo o exemplo de Santa Maria, é de esperar que nos próximos censos (2021) a Terceira possa apresentar perdas relativas e mesmo absolutas de população, com particular incidência no concelho da Praia da Vitória, isto tendo presente o downsizing em curso na base.
No caso das Flores, a instalação da base francesa nos anos sessenta parece ter estabilizado a perda relativa de peso populacional, que se acentua a partir dos anos noventa, quando a base é encerrada.
ILHAS E MEIA…
A perda relativa de peso populacional permite perceber, por exemplo, um fenómeno extremo em São Miguel. Enquanto o peso da ilha cresce ao longo do século, surgem dois concelhos – Povoação e Nordeste – que parecem ser outra ilha, com perdas que se aproximam dos cinquenta por cento.
Ponta Delgada, Ribeira Grande e Lagoa parecem ser os beneficiários em termos populacionais, enquanto Vila Franca é um concelho estagnado.
A única ilha que apresenta um peso relativo mais ou menos estável é a Terceira. Nas restantes as perdas de peso relativo são extremas, por vezes aproximando-se dos cinquenta por cento.
São Jorge como que desaparece na análise por população residente no todo da região, um fenómeno de perda que é consistente ao longo do século. A Graciosa torna-se insignificante, tal como Flores e Corvo e também Santa Maria.
Pico e Faial apresentam uma situação surpreendentemente má, face aos dados sobre o turismo nessas duas ilhas. No entanto, a perda de peso relativo do Pico é mais grave do que a incidência do fenómeno no Faial.
Resulta claro deste trabalho de análise estatística que a perda de peso relativo, em termos populacionais, está a assolar todas as ilhas, exceto Terceira e São Miguel.
Enquanto a Terceira mantém alguma estabilidade, São Miguel, porém, dividiu-se em duas ilhas, surgindo Povoação e Nordeste como zonas em decréscimo relativo acentuado.
Em números absolutos, a população dos Açores apresenta perdas significativas, particularmente dos anos sessenta (327446 indivíduos) para 2011 (246772 indivíduos). Porém, mesmo que a referência seja o início do século XX, as perdas continuam significativas, uma vez que em 1900 os Açores tinham 256668 indivíduos.
Tanto o fenómeno de perda de população, como a distribuição relativa por ilhas e concelhos, continuam sem explicações convincentes. A emigração dos anos sessenta terá uma responsabilidade grande, mas a autonomia de 1976 não conseguiu recuperar a população total, como não conseguiu inverter a distribuição relativa por ilhas e concelhos, fenómeno que, pelo contrário, continua a aprofundar-se.
in, Diário Insular de 12 de Dezembro / 2019
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lusofonias.net

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção e da comissão executiva da AICL