Victor Rui Dores recensão “Com Navalhas e Navios”, do Urbano Bettencourt

 

caro Chrys

De regresso ao Faial, apresso-me a enviar, em anexo, a recensão que acabo de escrever sobre “Com Navalhas e Navios”, do Urbano Bettencourt, e que gostaria que divulgasses no site das Lusofonias. Pode ser?
Obrigado e um abraço de mar

Victor Rui Dores

 

 

Com Navalhas e Navios

ou a poética insulada de Urbano Bettencourt

Cavaleiro andante por amor à literatura, Urbano Bettencourt tem vindo a reabilitar a palavra poética e o sentido mágico do poema em furtivas edições de livros. Neste poeta encontramos o rigor e a busca incessante da palavra exata, única e essencial. A sua escrita, insulada e melancolizada, assenta numa arte poética do equilíbrio formal, da economia do verso bem urdido, da musicalidade aliterativa e da demanda de uma linguagem depurada. Depuração é, aliás, a palavra-chave para se perceber a poesia de Urbano, ele que leva praticamente 50 anos de escrita poética e de poesia publicada.

Possivelmente também por esta circunstância, acaba de ser editado o livro Com Navalhas e Navios (Companhia das Ilhas, 2019), que reúne a poesia (quase) toda deste autor que vive entre a ilha e a viagem. Podemos agora ler, em 160 páginas, o “best of” poético deste picaroto que tem feito um percurso sempre ascendente, pois que, dotado de um profundo saber literário, tem a policiá-lo um grande sentido crítico e de exigência. Isto explica o intenso trabalho que este artesão de palavras, sempre em busca de novas significações, coloca na elaboração dos seus textos.

Com avisado Prefácio de Carlos Bessa, Com Navalhas e Navios dá-nos a (re)descobrir uma poesia de ilhas, lugares, memórias, sombras, afetos e estados de alma. Uma poesia ligada às raízes ancestrais da expressão poética no horizonte da cultura europeia. Isto é, uma poesia da civilização do sul, da expressão erótica, da emoção e da razão. Poesia que é também de denúncia e renúncia (admiráveis os poemas relacionados com a Guerra Colonial) e que age, reage, sonha, pensa, sente e questiona as mitologias do quotidiano. Uma poesia que evoca acontecimentos, pessoas e que estabelece diálogos com outros autores, havendo ainda a considerar alguma ironia q.b. num e noutro poemas.

Assumindo a dupla condição de “marinheiro com residência fixa” e de viajante que argutamente observa o real, Urbano Bettencourt – também narrador de mérito e ensaísta de primeiríssima água – é a indiscutível qualidade da sua poesia.

Horta, 08/10/2019

Victor Rui Dores

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lusofonias.net

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção e da comissão executiva da AICL