Up Magazine – TAP Portugal » Porto Formoso, Açores – Nem tanto ao mar, nem tanto à terra

ON DEC 1, 2013 IN EMBARQUE IMEDIATO | 3 COMMENTSLevámos Amaya Sumpsi até à ilha de São Miguel para estrear junto das personagens principais o documentário que ali realizou ao longo de oito anos. Com os pescadores da pitoresca vila de Porto Formoso viajámos no tempo e, de regresso ao presente, abrimos os olhos para algumas das mais belas paisagens do planeta.Cheio que nem um ovo, o barracão das festas é um contentor de emoções. Uns choram, outros riem, outros desatam a bater palmas espontaneamente. Por vezes, faz-se um silêncio profundo e até as crianças se aquietam de olhos presos na tela vendo desfilar os barcos de pesca, as gentes da terra e os testemunhos dos pescadores, homens simples esculpidos nas ondas do mar, homens sábios com a vida que esgrimem argumentos, consoante interesses e meras opiniões, ora a favor, ora a desfavor da construção do porto de pesca de Porto Formoso.Já lá vão dois anos desde que o polémico porto foi inaugurado, alterando para sempre a paisagem que dá nome à terra e que permanecia quase intocada há 500 anos. E é sobre isso mesmo o documentário Meu Pescador, Meu Velho que a espanhola Amaya Sumpsi quis estrear em primeira mão neste pedaço de paraíso à deriva no Atlântico: a ilha de São Miguel, nos Açores. Sobre isso e sobre um tema atual, o desenvolvimento sustentado, a eterna guerra entre o que permanece, mantendo a genuinidade dos lugares, e o que se transforma, em nome do progresso, formatando o mundo num estereótipo. Certo é que, desde que Amaya aqui chegou, em 2005, muito mudou em Porto Formoso.Mas hoje é dia de festa em honra de Nossa Senhora da Graça, a padroeira, e no barracão adjacente às festas, ao lado da quermesse – recheada de bibelots indecifráveis – César é herói por um dia. “Ó meu rapaz, tu falaste muito bem”, dizem-lhe, e ele, ao lado da namorada, ora incha de orgulho, ora encolhe os ombros de vergonha. Estranhamente, o aplauso ao documentário é unânime. E não há quem se chateie com os pontos de vista antagónicos apresentados. César aparece várias vezes, desfiando redes no cimo de um monte e dizendo de sua justiça. Sobre Porto Formoso e sobre este mundo, “o que temos”.Lá fora, as modinhas regionais e os hits pimba, já vão fazendo esquecer a polémica construção do porto – “a gente acaba por se habituar, não é? Qualquer dia ninguém se lembra de como isto era antes”. E cá dentro, põem-se mesas e desfilam petiscos bem temperados e bem regados, brinda-se ao futuro, que o passado, esse já está registado pelo olhar de uma madrilena que veio para os confins do mundo e se apaixonou pelas paisagens, pelas pessoas, e pelas suas vidas.Na rota do cháOs nossos cicerones deste fim-de-semana, Amaya Sumpsi e Eduardo Ventura, conheceram-se há dez anos aqui mesmo em São Miguel (ela veio estudar através do programa Erasmus, ele dava aulas) e do seu projeto conjunto de vida já nasceram, entre outras coisas, uma filha, Mia, e este documentário. Enquanto nos conduzem por estradas que desembocam em horizontes de infinito para, a seguir, serpentearem sinuosamente entre muros de pedra à beira mar, em direção à costa norte da ilha, vão-nos apontando lugares e recapitulando histórias.No bairro do Caranguejo, o bairro dos pescadores de Rabo de Peixe e um study case sociológico, os esforços de integração resultaram em curiosos arruamentos. “Podem ser pobres, mas não lhes falta imaginação”, ri-se Eduardo, enquanto pasmamos perante casas totalmente personalizadas, ao contrário do que é comum encontrar-se num típico bairro social. As fachadas estão pintadas ao gosto do freguês, com cores garridas (verde, amarelo, vermelho, rosa choque) e ostentam nichos com santos da devoção, corações sagrados, cabeças de cavalo em cerâmica e até esfinges egípcias, evocando civilizações distantes num quotidiano feito das agruras do mar e das redes de pesca. “As pessoas aqui são diferentes”, justifica Amaya, enredando-nos num aceso debate sobre a dialética inclusão/exclusão.Não fosse o poder da paisagem que se alcança a partir do miradouro de Santa Iria ter-nos tirado o pio e continuaríamos a discussão. Mas o que se contempla do alto desta falésia impõe silêncio. O necessário para abrir os pulmões, respirar fundo e agradecer a dádiva ao criador, uma prece pela natureza que, quando é assim, de um belo quase supra terreno, nos eleva a alma.Com a alma lavada e o espírito renovado, é tempo de alimentar o corpo e não há melhor sítio para o fazer em Porto Formoso do que o restaurante Maré Cheia, o do Carlinhos, que na altura em que Amaya começou a filmar Meu Pescador, Meu Velho era a tasca de serviço à produção. Como tudo em redor, evoluiu, e pelas mesas enfeitadas com motivos marinhos, passam agora as melhores lapas grelhadas do mundo, uma sopa de peixe e deliciosos bocas negras e enxaréus grelhados, “há sempre peixe da época”, acompanhados por arroz de lapas, pimentas da terra e cebola curtida (marinada em vinagre de vinho tinto e especiarias).Vamos a pé até à vizinha praia dos Moinhos que, depois das obras para cons

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Publicado por

CHRYS CHRYSTELLO

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção e da comissão executiva da AICL