Trinta anos a fabricar pastéis de nata, um símbolo de Macau.

QUANDO ESTIVE COM O 15º COLÓQUIO EM MACAU 2011 TIREI ESTAS FOTOS PARA AQUI RECORDAR

 

 

 

Trinta anos a fabricar pastéis de nata, um símbolo de Macau.

Andrew Stow abriu a sua primeira padaria, em Coloane, há 30 anos.

Se a ideia inicial era vender pão, foi o pastel de nata que mudou o negócio, acabando por se transformar num “símbolo tradicional de Macau”.

Quem nunca comeu um ‘pu shi dan ta’?

Noventa e três por cento dos turistas ouvidos num estudo realizado em Macau – quase todos chineses – consideram o pastel de nata como “um símbolo tradicional de Macau”.

Ou seja, em menos de 30 anos, o pastel de nata criado por Andrew Stow juntou-se a outros símbolos de Macau e é, hoje, uma marca identitária do turismo local.

No dia 15 de Setembro de 1989 abriu a primeira padaria Lord Stow’s, projecto de um inglês, farmacêutico industrial de formação, a residir em Macau há 10 anos.

Andrew Stow percebeu que não havia padarias em Macau, muito menos em Coloane, o local que escolheu, desde a primeira hora, para abrir o negócio.

Inicialmente, a sua ideia era produzir pão fresco para entregar nos supermercados, mas a ideia não vingou.

A principal razão teve a ver com o sucesso do ‘Portuguese egg tart’ (para os chineses, ‘pu shi dan ta’) que Stow disponibilizava.

No ano anterior, Stow e a mulher Margaret tinham ido a Portugal em lua de mel.

Em Lisboa, provaram o pastel de nata e isso mudou as prioridades do inglês.

O problema é que Andrew não tinha a receita – nem queria pedir que lha dessem.

Dedicou-se a experimentar e o que resultou foi o seu próprio pastel de natal (ver caixa).

O sucesso foi quase imediato.

Das 200 unidades que produzia diariamente passou em cerca de uma década para 10 mil, distribuídos pelas várias casas que abriu em Macau e pelos franchises, nomeadamente em Hong Kong, onde chegou em 1997.

Passaram a ser famosas as enormes filas à porta da loja de Coloane, da mesma forma que dezenas de outros pontos de venda, em Macau e em Hong Kong, começaram a produzir os seus próprios ‘egg tarts’, umas vezes identificados como ‘Portuguese’, outras nem por isso.

Quem nunca comeu?

Em 2017, Chak Hoi Tong foi fazer um mestrado em Estudos Interculturais Português/Chinês a Portugal e escolheu como tema o “Pastel de Nata –Marco da Gastronomia de Macau”.

O objetivo era “esclarecer realmente se o doce mais tradicional português se tornou, após pequenas modificações na sua confeção, no doce mais icónico no ramo do turismo de Macau”.

A aluna constata que a comercialização de uma versão híbrida do pastel de nata português, mas adaptada aos sabores orientais, recebe centenas de turistas e prospera como símbolo cultural de Macau, mas para chegar a esta e outras conclusões produziu um inquérito que foi respondido por cerca de 200 turistas.

Os principais resultados mostram que, quando questionados sobre o pastel de Macau, 98,4% afirmou já ter provado esta iguaria, tendo tomado conhecimento sobre ela através de amigos (67,7%), pela internet (18,8%) e pela televisão (13,5%).

Mas a qual pastel de nata se referem os turistas participantes?

O inquérito revela que 49,5% associam ao pastel de nata de Macau, enquanto 44,8% associam ao pastel de nata português.

Só 2,6% não conhece os pastéis de nata.

A seguir, a mestranda quis perceber qual era a aceitação por parte destes consumidores: 54,7% responderam quer “muito bom”, 35,9% consideraram apenas como “bom” e 9,4% avaliaram-no como “mediano”.

É neste contexto que surge a questão da associação à identidade de Macau: 92,7% das pessoas entrevistadas consideram o pastel de nata como um símbolo tradicional de Macau, contra apenas 7,3% que não o consideram simbólico. Já agora, 69,3% dizem ter comprado para oferecer como lembrança.

‘Macau egg tart’

Andrew morreu em 2006 (um ano antes recebeu do Governo uma distinção pelo mérito no desenvolvimento turístico) e deixou o negócio à sua irmã e à filha.

Ambas têm prosseguido o caminho de duas formas: a expansão para fora de Macau (e há franchises em vários pontos do sudeste asiático) e a manutenção da qualidade do produto proposto há 30 anos aos consumidores.

Vendem-se centenas de milhares de ‘Portuguese egg tarts’ todas as semanas em centenas de locais de Macau, mas não são exactamente iguais aos do Stow’s, garantem as sucessoras.

A ex-mulher de Andrew, Margaret, também continuou ligada aos pasteis de nata, tendo conseguido colocar o produto na Kentucky Fried Chicken, a maior cadeia de ‘fast food’ na China.

“Se Andrew soubesse o sucesso que ia ter, tinha-lhe chamado tarte de ovo de Macau”, disse a filha Eileen, em 2012, quando o antigo ministro da Economia de Portugal, Álvaro Santos Pereira, revelou que gostaria que existisse um franchising internacional de pastéis de nata.

A diferença está na crosta e no açúcar

Chak Hoi Tong analisou e identificou, na sua tese, as várias diferenças entre os pastéis de nata “à moda Portuguesa” e o pastel “à Stow”.

Massa:

“Na receita portuguesa, a massa folhada deve ser crocante e estaladiça. A cor da massa deve ser amarelada, sem manchas ou queimaduras. Na base deve ver-se uma espiral desenhada devido à disposição, em tubos, da massa na forma. Já o pastel macaense tem uma massa de consistência mais mole, menos quebradiça, razão pela qual nem sempre se observam as marcas em espiral na base. A massa é também descrita como menos oleosa.”

Crosta:

“Na nata portuguesa é essencial que existam manchas pretas, pois demonstra que estiveram em cozedura o tempo necessário e na temperatura correta (380 -420 ºC). Já no pastel de Stow, ela apresenta uma coloração clara, brilhante e homogénea. Esta é resultado de uma cozedura mais branda (200 –390 ºC)”.

Creme:

“O característico creme de nata português deve estar homogéneo, bem ligado, mas não em pudim. O creme do pastel macaense tem uma consistência igualmente homogénea, mas mais gelatinosa”.

Sabor:

“O doce português tem um sabor mais discreto a ovo. A raspa de limão deve ser uma nota leve no creme, sem que se sintam as raspas do limão. É geralmente acompanhado por canela em pó. A iguaria macaense tem um sabor mais intenso a ovo e é consumida sem adição de especiarias”.

Açúcar:

“Apesar do pastel de nata ser um doce, o sabor do açúcar não deve sobrepor-se ao sabor de natas ou leite. Contudo, em Macau, o teor de açúcar sentido no pastel de nata é menor”.

Temperatura:

“O pastel de nata português deve estar à temperatura ambiente, sendo o seu consumo aconselhado após 2 horas da cozedura. Em Macau, o pastel “à Stow” é consumido quente, acabado de sair do forno, ou mantido sob aquecimento”.

Chak Hoi Tong conclui que “existem similaridades entre as duas iguarias, justificadas pela sua ancestralidade comum.

No entanto, a adaptação aos gostos e paladares locais trouxeram divergências entre as duas receitas”.

Estas notas da mestranda são confirmadas por algumas respostas do inquérito: 75,9% considera que os pasteis portugueses são realmente diferentes dos macaenses.

Cem por cento considera o pastel português mais doce, 86,4% dos indivíduos que provaram os dois doces sentiram na versão original Portuguesa o sabor de canela e limão e 68,2% dos inquiridos acha que a textura do recheio do pastel Macaense é mais gelatinosa e semelhante a um pudim.

Cem por centro acha que a tarte macaense tem a sua própria identidade.

https://pontofinalmacau.wordpress.com/…/trinta-anos-a-fabr…/

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Publicado por

CHRYS CHRYSTELLO

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção e da comissão executiva da AICL