OSVALDO JOSÉ VIEIRA CABRAL · Brincar com as famílias açorianas

Brincar com as famílias açorianas

Quando um governante falha, deve ter a humildade de pedir desculpa.
Quando um governante se compromete com uma população inteira e não consegue cumprir, não deveria prometer de novo a mesma medida como se fosse a primeira vez.
Este tem sido um pouco o padrão da governação destes últimos anos nos Açores, com a agravante de que, à medida que se aproximam mais umas penosas eleições regionais, voltarmos a ouvir promessas ao desbarato há muito anunciadas e a verter bafio.
A área da Saúde, por mexer com todos nós, tem sido uma vítima da desorganizada governação regional.
No dia 21 de Janeiro de 2014, o então Secretário Regional da Saúde (do primeiro governo de Vasco Cordeiro), Luís Cabral, anunciou o seguinte, a propósito de médicos de família para todos: “Com os 14 internos que temos em formação, apenas seria possível em 2018 ter uma cobertura assistencial completa. Aquilo com que nós contamos, e por isso a definição da data de 2016, é a possibilidade de captarmos alguns internos em formação noutras ilhas ou no continente, ou contratar médicos já especialistas”.
Chegados a 2016 não houve médicos de família para todos.
A 21 de Novembro de 2016, outro Secretário Regional da Saúde, Rui Luís, anunciou, mais uma vez, sobre o mesmo assunto: “Será necessário garantir a cobertura total da população por médico especialista em Medicina Geral e Familiar, situação que prevemos atingir em 2018”.
Estamos em 2019.
Nem médicos de família para todos, nem um pedido de desculpa por não terem cumprido.
Na passada semana, em pleno parlamento, mais uma Secretária da Saúde a aviar mais uma promessa: “será em 2020”!
A gente ouve estas coisas e o que vem à mente de cada família é que estão a brincar connosco.
Já não bastavam as longas listas de espera para cirurgias, escondidas agora nas gavetas bolorentas da Secretaria da Saúde, as passas do Algarve que cada doente sofre, por estas ilhas fora, à espera de um médico especialista, ou o reembolso atempado das deslocações atribuladas dos doentes, temos também o corropio de Secretários da Saúde a ver quem acerta primeiro numa promessa de várias legislaturas.
Uma espécie de totoloto da Saúde…

DOENÇA CONTAGIANTE – Esta história de prometer e não cumprir, como todos sabemos, é uma doença contagiante na política.
Podia contar aqui montanhas de exemplos. É só abrir os jornais da época.
(Estamos todos em pulgas à espera do que irá dizer Vasco Cordeiro quando descobrir que as contas da SATA não batem com o que ele prometeu no parlamento regional). Adiante.
Por agora vai mais esta: a 12 de Setembro de 2017 o então azarado Ministro da Defesa, Azeredo Lopes, na euforia de uma visita ao seu homólogo americano, no Pentágono, tratou de anunciar a criação de um Centro de Segurança Atlântica na Base das Lajes, um “projecto ambicioso” inserido em “novas ideias para valorizar aquele que é, de facto, um enorme activo para a segurança atlântica”.
Era “um novo capítulo” para a Base das Lajes e para os Açores, recheado de coisas boas e inovadoras.
Exactamente dois anos depois, um governo que não consegue instalar um radar meteorológico nestas ilhas, como é que poderia instalar um Centro de Segurança de todo o Atlântico?
Tudo isso com a cobertura do nosso Governo Regional e de Vasco Cordeiro, que veio logo secundar o ministro, todo contente: “Acho que é uma proposta lógica e perfeitamente concretizável. Vem no sentido da valorização da ilha Terceira e da valorização da importância estratégica dos Açores”.
Tantos foguetes e ninguém para, dois anos depois, apanhar as canas, tal e qual o anúncio da famigerada nova cadeia de Ponta Delgada, a tal da bagacina escorregadia, com este Governo Regional a “acompanhar de perto o trabalho que está a ser feito” e enaltecendo o facto de o Governo da República estar “a cumprir” com aquilo que consta do Plano de Revitalização Económica da Ilha Terceira.
No próximo ano continuará a revitalização… eleitoral.

FICAR COM OS LOUROS – Como vemos, há governantes que gostam de prometer o que depois não cumprem.
Mas há também os que gostam de chamar a si os feitos dos outros.
Foi o que aconteceu, na semana passada, com a jovem Secretária dos Transportes, certamente arredada da complicada e refinada história da liberalização aérea para os Açores, “imposta” por um Secretário de Estado em Lisboa e “aceite” – a muito custo -, pelo nosso governo, que tinha apresentado uma proposta minimalista e bafienta no mundo da aviação.
O texto que propuseram então, ao contrário do que diz a agora secretária dos Transportes, “fechava” ainda mais o mercado, pois desvirtuava o princípio que estava subjacente à liberalização, de que os toques mínimos em cada rota, e em cada período IATA, teriam que ser cumpridos pelo conjunto das operadoras, e não por todas elas, como está vertido no capítulo dos mínimos para cada rota.
O que enviaram, então, era muito similar ao que se tem para as OSP das cargas marítimas, o que redundou num oligopólio muito protegido, contra o qual alguns se bateram, mas quem manda são “os donos disto tudo”.
Um governo que não consegue gerir uma companhia de aviação, como é que teria engenho para inovar com a liberalização?

Setembro 2019
Osvaldo Cabral

(Diário dos Açores, Diário Insular, Multimédia RTP-A, Portuguese Times EUA, LusoPresse Montreal)

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Publicado por

CHRYS CHRYSTELLO

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção e da comissão executiva da AICL