40 anos/Timor-Leste: As históricas ligações aéreas com Timor-Leste e o voo do “Dilly”

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Uma das histórias que gostei de escrever nas últimas semanas.

40 anos/Timor-Leste: As históricas ligações aéreas com Timor-Leste e o voo do “Dilly”

*** Por António Sampaio, da agência Lusa ***

Díli, 20 nov (Lusa) – Na tarde de 18 de novembro de 1999 o capitão Sérgio Vicente aterrou, no aeroporto de Baucau, segunda cidade timorense, um Airbus 320 da Air Macau, o primeiro avião português a viajar para Timor-Leste em mais de 24 anos.
A bordo desse voo histórico vinham 67 refugiados timorenses e ajuda humanitária direta para o Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT).
Foi a primeira vez que um avião português aterrou em Timor-Leste desde 1975, quando um voo especial chegou a Díli para transportar famílias dos militares portugueses que ainda estavam no território e alguns estudantes timorenses que iam para Portugal.
Histórica, a viagem de 1999 entre Macau e Timor-Leste simbolizou o que foi uma relação constante entre as duas presenças portuguesas na Ásia.
Por coincidência foi também a um 18 de novembro, mas desta vez de 1934, que outro avião, numa outra viagem, muito mais difícil e ainda mais histórica ligaria Díli e Macau: o “Dilly”, com a sua tripulação de dois, o piloto Humberto da Cruz e o mecânico António Lobato.
Mas a história do “Dilly” e da sua viagem de 268 horas e 25 minutos e de mais de 42.670 quilómetros começa antes, a 25 de outubro de 1934, quando um aparelho De Havilland DH 85 Leopard Moth (um monoplano com cabine fechada e um motor Gipsy Major, de apenas 130 cavalos) sai da Amadora para a primeira viagem aérea entre Lisboa e Díli.
O regresso à Amadora só ocorreria a 21 de dezembro, concluindo o que foi um dos maiores feitos da aviação portuguesa, especialmente pelo facto de o avião ser relativamente frágil.
Nunca, até esse momento, um avião português tinha chegado tão longe, sobrevoando três continentes e realizando 50 aterragens, numa viagem custeada pelos portugueses e que teve o “patrocínio moral” do jornal O Século.
Uma longa viagem de 14 dias, na ida, que atravessou o norte de África, com paragens em Argel, Tripoli, Bengasi e Tobruk, na Líbia, continuando pelo Médio Oriente com passagem por Gaza (Palestina) e Bassorá (Iraque).
As etapas seguintes levaram os dois aventureiros ao atual Paquistão e à India, com escalas em Jask, Karachi e Allahabad, antes da entrada no sudeste asiático com paragem em Akyab, Banguecoque, Prachuab, Singapura, Surabaia e Rambang.
O “Dilly” – só foi batizado já em Timor-Leste – aterraria em Díli (no antigo aeroporto que é hoje parte do complexo da Presidência da República) a 07 de novembro, acolhido com grande entusiasmo por quem o esperava.
“Os indígenas de Timor são mais dóceis e subordinados do que geralmente se acredita (…) Não existia já um português em Timor há tantos anos que a nossa força naquelas ilhas é nula, pois a força que existe é tirada deles mesmos”, escreveria depois Humberto da Cruz.
O regresso, a 13 de novembro, foi por outra rota, com o “Dilly” a fazer ainda três paragens em Timor-Leste (Bobonaro, Lautem e novamente Díli) antes de regressar a Portugal, com mais uma longa viagem de 14 dias e paragens em Surabaia, Batávia, Singapura, Taiping, Hanói e Macau, onde aterra na Areia Preta a 18 de novembro.
No dia seguinte viaja até à Taipa e Coloane, de onde continuou para Hong Kong, Hanói, Banguecoque, Akyab, Calcutá, Allahabad e Goa, aterrando aqui a 01 de dezembro, dia da Restauração Nacional.
Seguem-se paragens em Bombaim, Diu, Karachi, Jask, Ziarat, Bushire, Brasa, Bagdad, Cairo, Bengazi, Tripoli, Tunis e Oran, com a chegada à Amadora a 21 de dezembro.
“A bordo do ‘Dilly’ chegaram no dia 21 do mês findo à Amadora, o tenente Humberto da Cruz e o sargento-mecânico Gonçalves Lobato, que completaram brilhantemente o ‘raid’ Lisboa-Macau-Timor, com passagem pela Índia Portuguesa e Macau num total de 40.700 quilómetros. Lisboa fez-lhe o caloroso acolhimento a que tinha direito”, escreveu em janeiro de 1935 a revista “Ilustração”, com fotos dos autores da façanha.
Natural de Coimbra, Humberto da Cruz – que pilotou o “Dilly” na ligação história Lisboa-Díli-Lisboa (viagem que lhe valeu a segunda condecoração da Torre e Espada como piloto excecional) era piloto da então Aviação Militar desde 1928.
A sua primeira viagem de destaque foi a que realizou entre 30 de dezembro de 1930 e 21 de fevereiro do ano seguinte na rota Lisboa-Guiné-Angola-Lisboa.
O seu companheiro de viagem a Timor-Leste, António Lobato, natural de Lisboa, foi mecânico do capitão Plácido de Abreu, acompanhando esse ás da acrobacia em viagens aos Estados Unidos.
Registos dão conta de que Humberto da Cruz definiu um conjunto de regras para Lobato durante o voo a Timor, a começar por “não ser preguiçoso e levantar-se à alvorada às 04:30 da madrugada” e até “não ultrapassar o tempo de 15 minutos para tomar ar em frente ao hotel”.
O hotel, aliás, que só abandonava no dia do voo sem nada ver ou visitar nas localidades onde foi parando.
Lobato morreria três anos depois, num acidente no aeródromo de Viseu.
A viagem ficaria imortalizada num livro da autoria do próprio Humberto da Cruz mas também porque “inaugurou” o correio postal aéreo entre Macau e Lisboa: várias cartas e um postal onde se pode ler em português e inglês: “Comemorativo do 1.º Périplo aéreo do Império Colonial Português, feito pelos aviadores Tenente Humberto da Cruz, piloto e 1.º Sargento Gonçalves Lobato, mecânico. Vôo Macau – Goa – 27/11/934”.
“Quási na hora da largada foram-nos entregues dois pacotes de cem cartas, cada, com envelopes especiais e devidamente selados. Um, dirigido a Gôa e, o outro, a Lisboa. Alguém tivera a feliz ideia de aproveitar o avião para dar um início experimental ao correio entre colónias e entre Macau e a Metrópole”, escreveu o piloto.
“Em cada um dos pacotes vinham duas cartas para os tripulantes do ‘Dilly’ e, assim, em Gôa e em Lisboa, tivemos a satisfação de receber, quási à nossa chegada, cartas de Macau que nos eram dirigidas e que nós tínhamos trazido”.
“Os envelopes ficarão, pelos seus dizeres e pelos seus gráficos e desenhos, não faltando a barra nacional verde-vermelha, a atestar para sempre, na posse dos colecionadores, êsse primeiro transporte de correio aéreo feito por um avião português”, nota.

ASP // EL
Lusa/Fim

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lusofonias.net

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção e da comissão executiva da AICL