A GREVE, E DEPOIS DR PARDAL?

« (…) É interessante tentar a esta luz compreender como a luta de uma classe (ou um setor, no caso o dos motoristas de matérias perigosas) que exige unidade, determinação, sacrifício e ação coletiva, se revê num dirigente cujo perfil é exatamente o oposto da própria natureza do mundo que representa.

No caso destes motoristas, estão em causa condições de trabalho duras e o seu principal líder assume uma vida de capa de revista de famosos e alega ter uma atividade como advogado de renome internacional, o que lhe assegura, segundo o próprio, um escritório de enorme sucesso mundial. O seu aspeto bem cuidado nada tem de ferrugem, antes está mais próximo do glamour.

A forma de luta adotada – uma greve de abastecimento de combustível por tempo indeterminado – visa criar tal impacto na vida da comunidade que obrigaria por pressão do governo a Antram a ceder.

Ora, no domínio da luta política é necessário e obrigatório ter em conta as armas do patronato e, no caso presente, ainda as do Governo, que tentou a conciliação e, não o conseguindo, certamente usaria os poderes de que dispõe, e que são imensos. Todos se recordarão do impacto da greve de abril. E seria de supor que o Governo não se deixasse surpreender.

Obriga ainda a refletir o sentido que leva o sindicato de motoristas de matérias perigosas a não se rever na CGTP ou UGT e a identificar-se com um líder cujo perfil está a léguas da realidade de quem conduz camiões e autotanques.(…)»

[Domingos Lopes. “Público”, 14/08]

PUBLICO.PT
Uma sociedade comandada por valores em que o futuro não conta vive do imediatismo. Uma greve por tempo indeterminado ou é um êxito imediato ou um desastre.
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lusofonias.net

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção e da comissão executiva da AICL