uma morte escusada

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Doce Segredo

“O Alberto tem 48 anos.

O Alberto trabalha na construção civil.

O Alberto não é nenhum analfabeto, mas também não é a pessoa mais culta do mundo.

O Alberto é uma pessoa simples que trabalha seis dias por semana para que os filhos tenham uma vida melhor que a dele.

O Alberto, certo dia, sentiu uma dor no peito muito forte, como nunca tinha sentido antes.

O Alberto nem sequer gosta de ir ao Hospital, mas nesse dia sentiu que tinha de ir.

O Alberto teve de esperar trinta minutos pela triagem, porque antes dele estava a Jéssica, de 22 anos, que foi à praia e apanhou um escaldão. E o Tomás, de 19 anos, que vomitou uma vez há duas horas, estava à sua frente. E a dona Ermelinda, de 78 anos, que tem uma dor nas costas há três meses. E o Sérgio, de 38 anos, que teve uma dor de cabeça ligeira que entretanto passou. E a Sandra, de 52 anos, que mediu a tensão e ficou preocupada porque a máxima e a mínima estavam muito juntas. E o senhor Adérito, de 68 anos, que comeu demasiado ao almoço e agora tem a glicémia alta. E a Tatiana, de 18 anos, que achou que estava grávida, quis fazer o teste na urgência e que armou uma peixeirada quando não gostou da pulseira que recebeu. E o pai da Tatiana, que paga o ordenado à enfermeira da triagem. E o tio da Tatiana, que vai fazer uma espera ao segurança que não o deixou entrar. E a mãe da Tatiana, que vai chamar a CMTV.

O Alberto, quando chegou a vez dele, estava agarrado ao peito e a transpirar muito.

O Alberto não soube explicar bem os sintomas que tinha mas a enfermeira percebeu que ele não estava bem.

O Alberto foi levado para a sala de reanimação da urgência.

O Alberto fez um electrocardiograma, que confirmou o diagnóstico de enfarte agudo do miocárdio.

O Alberto, pouco depois, entrou em paragem cardio-respiratória.

O Alberto acabou por falecer apesar de todas as tentativas de ressuscitação que foram tentadas.

O Alberto podia ainda estar vivo se os restantes utentes não abusassem do serviço de urgência.

Não sejas como a Jéssica, nem como o Tomás, nem como a dona Ermelinda, nem como o Sérgio, nem como a Sandra, nem como o senhor Adérito, nem como a Tatiana e a sua família.

Hoje foi o Alberto. Amanhã podes ser tu.”
Autoria da página Pérolas da urgências
#perolasdaurgencia
Imagem meramente ilustrativa retirada da Internet

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