GOVERNO PS AÇORES -RETRATO EM ROSA SÉPIA- PEDRO GOMES

RETRATO EM ROSA SÉPIA

1. O líder parlamentar do PS, Francisco César, concedeu uma grande entrevista ao “Açoriano Oriental”, na passada segunda-feira, na qual diz o óbvio quanto à governação nos Açores, de acordo com a narrativa corrente do Partido Socialista:

há crescimento económico, os problemas de financiamento da saúde estão a ser enfrentados e a actuação do Governo Regional na área da educação tem dado bons resultados, No plano da relação política e parlamentar, o PS assume-se como o campeão do diálogo: com a oposição ou com os parceiros sociais.
A entrevista pretende, não apenas fazer um balanço da governação dos Açores, em vésperas do fim da sessão legislativa, mas enunciar um discurso político para a campanha das próximas eleições legislativas, que já começou. Fica claro que o PS/Açores vai valorizar a relação política com António Costa, insistindo na ideia de que a manutenção dum governo socialista em Lisboa é benéfica para os Açores, omitindo que há um largo contencioso com a República que não foi resolvido durante esta legislatura.
2. O Dr. Francisco César perdeu uma oportunidade para demonstrar o espírito reformista do qual afirma que o PS não pode “abdicar”. A entrevista é apenas uma longa justificação dos actos governativos e das opções do PS/Açores nas áreas de governação mais fragilizadas – saúde, educação e economia – muito embora tenha ignorado os transportes aéreos e marítimos, cujas políticas conduziram a desastre anunciado, com consequências dramáticas para a economia dos Açores. Nas duas páginas de jornal, o espírito reformista está ausente, não se percebendo que novas propostas o PS apresenta à sociedade açoriana, mesmo nas áreas escolhidas para a defesa das políticas do executivo regional, que replicam as referências que o Presidente Cordeiro utilizou no discurso do Dia da Região.
3. Mesmo na defesa da governação, um espírito reformista impõe – para ser credível – que se assumam os erros políticos, de estratégia ou nas opções tomadas. Para dar um exemplo, a propósito da educação, as palavras de Francisco César são elogiosas e não reconhecem que ao fim de vinte e três anos de governação socialista, que corresponde quase a uma geração, os resultados obtidos são muito modestos. Tão modestos que levaram este Governo a adoptar um programa específico de combate ao insucesso escolar, num reconhecimento implícito de que o insucesso é um grave problema no sistema educativo dos Açores, bastando para o confirmar, um olhar sobre os resultados obtidos pelos nossos alunos nos exames nacionais, ou sobre os lugares ocupados pelas nossas escolas nos rankings da educação.
A admissão do erro ou do fracasso político pressupõe humildade, qualidade que está arredada do discurso dos mais altos responsáveis socialistas nos Açores, não sendo o Dr. Francisco César uma excepção. Se é certo que oposição não faz tudo bem e que erra quando não elogia boas medidas tomadas pelo Governo Regional, também é verdade que um poder e uma maioria cheios de si próprios e que apenas procuram consensos em questões menores, acabam por suscitar uma desconfiança cada vez maior no nos eleitores, em particular nos mais jovens. O elogio da obra feita não apaga o fenómeno da erosão eleitoral do PS e do desgaste da governação, já evidente em muitas áreas sectoriais ou políticas do Governo Regional dos Açores.
Esta entrevista foi uma oportunidade perdida.
(Publicado a 19 de Junho de 2019, no Açoriano Oriental)

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