Anarquia criativa: a Língua Portuguesa antes da ortografia  – Portal Vermelho

Coraçom, coraçon, corason. Hoje, parece impensável que essas três formas de escrever a palavra “coração” já tenham sido simultaneamente reconhecidas. Mas havia uma época – antes que as convenções ortográficas viessem “colocar ordem” na Língua Portuguesa – em que elas não apenas existiam como conviviam harmoniosamente em textos de estudiosos, poetas e nobres.

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Anarquia criativa: a Língua Portuguesa antes da ortografia

Coraçom, coraçon, corason. Hoje, parece impensável que essas três formas de escrever a palavra “coração” já tenham sido simultaneamente reconhecidas. Mas havia uma época – antes que as convenções ortográficas viessem “colocar ordem” na Língua Portuguesa – em que elas não apenas existiam como conviviam harmoniosamente em textos de estudiosos, poetas e nobres.

Historicamente, a popularização do uso da língua é a principal motivação para o estabelecimento de regras para a escrita Historicamente, a popularização do uso da língua é a principal motivação para o estabelecimento de regras para a escrita

Sem ortografia, a oralidade era registrada e transmitida de forma intuitiva e pouco sistematizada. A liberdade artística dos escritores residia não apenas na estrutura dos textos mas também em suas escolhas de como escrever determinadas palavras.

O processo de formalização de regras para a escrita, contudo, é muito mais antigo que a própria Língua Portuguesa – ou mesmo que sua língua-mãe, o latim. Há padronização nos caracteres em escritos milenares chineses. No Ocidente, a primeira reforma ortográfica conhecida aconteceu em 403 a.C., em Atenas – daí a origem da palavra: orthos e graphein, termos que, em grego, significam “correto” e “escrita”.

Os primeiros escritos da Grécia antiga apresentavam grandes variações entre os dialetos de cada cidade-Estado. Com a popularização dos trabalhos de Homero (Ilíada e Odisseia) e de Heródoto, o dialeto iônico ganhou força e prestígio. Assim, em 403 a.C., ele foi adotado como o idioma oficial pelo governo de Atenas.

Portugal, Brasil

Historicamente, a popularização do uso da língua é a principal motivação para o estabelecimento de regras para a escrita. No século 1 a.C., os romanos sistematizaram uma grafia correta para o latim, com base na pronúncia adotada em Roma, capital do Império. Dialetos regionais (que evoluíram para as diversas línguas românicas) poderiam se compreender mutuamente pela escrita, que, por outro lado, deixou de refletir pronúncias variadas.

Os primeiros documentos em Língua Portuguesa surgiram no século 12 e, até o século 16, o registro baseava-se essencialmente na sonoridade do termo na língua falada – a ortografia fonética. Havia, porém, muita confusão e incoerência: a mesma palavra aparecia com ou sem h (homem/omem) e letras eram intercambiadas sem muitos critérios (sabha = sabia), pois um mesmo som poderia ser representado de diversas formas. Ainda assim, apesar das imprecisões, a grafia desse português medieval era muito mais regular do que a que prevaleceu nos séculos seguintes.

Com o Renascimento, no fim do século 16, houve tentativa de aproximar as palavras portuguesas do que se imaginava serem suas origens nas línguas clássicas – a chamada ortografia etimológica. Surgiu, assim, uma grafia que se baseava em estudos de latim e grego e desconsiderava a evolução natural do idioma – dando origem a algumas consoantes duplas (commercio) e letras não pronunciadas (diphtongo, thesoura).

Essa convenção vigorou em Portugal até 1911, quando foi aprovada pelo governo uma ortografia simplificada (no Brasil, só adotada em 1931). Outros acordos ortográficos entre os países de Língua Portuguesa foram firmados no decorrer do século 20, sendo o mais recente – e controverso – em vigor no Brasil desde 2009.

Onde não há ortografia, até hoje

Embora pareça natural que todo idioma escrito seja cheio de regras, nem todas as línguas modernas passaram por essa padronização. Muitas nem sequer têm razão que a justifique. O alemão falado na Suíça, por exemplo, não tem ortografia-padrão, mesmo possuindo peculiaridades linguísticas que não encontram analogias no alemão tradicional. Parte de suas convenções de escrita é orgânica – criada com e a partir do uso recorrente e da adaptação da oralidade à escrita.

O cantonês, idioma oficial de Hong Kong e Macau e a 16ª língua em número de falantes no mundo, também não tem ortografia própria. Para a versão escrita, são utilizadas adaptações de caracteres do chinês e do mandarim. Em texto, os dois idiomas são inteligíveis, apesar de completamente diferentes na oralidade. Do mesmo modo, como muitos falantes da língua hindi também usam o inglês com regularidade, por vezes o alfabeto devanagari, do hindi, é “traduzido” para o romano, do inglês.

Falando em inglês, é um caso interessante. Não existe uma autoridade como a Academia Brasileira de Letras para determinar qual é a ortografia. O que surgem são sugestões de linguistas e dicionaristas, que acabam aceitas ou não pelo público. Noah Webster, o autor do dicionário com o mesmo nome, publicado em 1828, foi o responsável pela maioria das diferenças entre o inglês britânico e americano, ao mudar palavras como colour para color e centre para center.

Como apenas propostas modestas costumam ser aceitas, na prática o inglês usa uma ortografia obsoleta, datada da adoção da imprensa, no século 15. Daí maluquices como um o ter som de i em women, ou gh virar f em enough. Séculos atrás, essas eram pronunciadas como se escreve.

Fonte: Aventuras na História

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lusofonias.net

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção e da comissão executiva da AICL