1975 militares presos em Timor

CONTINUANDO…

Vou prosseguir com o depoimento do Major António Viçoso, Comandante, em 1975, do Agrupamento de Cavalaria de Fronteira, hoje, com o extrato com o título “As deambulações dos militares portugueses detidos”, pedindo a atenção para a forma como aqueles militares portugueses foram tratados, só porque se mantiveram apartidários :

“Perante o novo quadro da situação, de que apenas consegui dar conhecimento ao Comando Militar, no restabelecimento das comunicações com Ataúro, recebi ordens expressas para planearmos o nosso deslocamento para Atambua. Aí deveríamos solicitar o apoio das autoridades indonésias, para estabelecer contacto com os dirigentes da UDT já refugiados e, através do diálogo, tentar viabilizar a libertação dos 19 militares detidos em Batugadé. Posteriormente seríamos recolhidos por um avião português que, para o efeito, também se deslocaria a Atambua, com um representante do Governador, devidamente credenciado. Todos esses movimentos teriam sido devidamente autorizados pelo Governador de Kupang e pelo próprio Governo central, em Jacarta. O nosso deslocamento efectuou-se em 3 de Setembro. Contudo, imediatamente após a transposição da fronteira, fomos abordados e escoltados por militares indonésios, com a justificação de que seria para nossa protecção.
“Já em Atambua, depois de nos manterem retidos, durante várias horas, na sala de um pseudo-hotel, só a muito custo e após grandes insistências, conseguimos contactar o respectivo comandante militar. Surpreendentemente informou não poder satisfazer as nossas pretensões e que iríamos ser transportados para Kupang, por ordem das autoridades de Jacarta.
“Esse deslocamento ocorreu em 5 de Setembro. O aparato das forças, com as armas em riste, era tão grande que o sentimento, que nos invadiu foi o de que, a qualquer momento, nos iriam abater algures, naquele trajecto.
“Durante cerca de três dias, que durou a permanência em Kupang, mantiveram-nos sob constante vigilância e permanente coacção psicológica. Em primeiro lugar, com o argumento de que éramos responsáveis pelas mortes em Timor e do grande número de timorenses refugiados na Indonésia, ameaçaram que iríamos ser julgados em Jacarta. Depois disseram-nos que íamos ser repatriados para Portugal, chegando inclusivamente a entregar vistos de saída.Algumas horas depois, voltaram a informar que afinal já não poderíamos seguir viagem, porque era Domingo e nesse dia, a Garuda (companhia aérea da Indonésia) não efectuava voos…
“Insinuando que iriam promover o nosso transporte para Timor Leste, fomos igualmente submetidos individualmente a interrogatórios por elementos talvez pertencentes aos serviços de informação militares indonésios.
“Na manhã de 8 de Setembro (?), conduziram-nos numa vedeta da Marinha, que fez o transporte para Atapupo. A partir daí, seguimos em viatura até à fronteira e entregaram-nos a um grupo das forças da UDT, chefiado pelo ex-capitão Lino da Silva, que nos conduziu, sob ameaça de armas, para Batugadé. Mantiveram-nos isolados dos restantes 19 militares que também aí se encontravam sob detenção.
“Durante a permanência nessa localidade encenaram situações de fuzilamento e de julgamento popular, perante os principais dirigentes da UDT — Lopes da Cruz, irmãos Carrascalão, etc… Lembro que João Carrascalão, numa carta de 7-6-1976, quando decorriam já 10 meses de detenção, dirigida a ‘determinado oficial’, dizia, a terminar:
“(…) É natural que saiba quem eu sou, mas isso é o que menos importa. O Major Viçoso lembrar-se-á, com certeza, pois em Batugadé tive que o acusar de muita coisa, que nem eu próprio sabia.
“Um abraço amigo do (…)
“Mantiveram-nos detidos em Batugadé, durante cerca de uma semana e, posteriormente, mais dez dias, num acampamento nas imediações da fronteira, juntamente com grande número de refugiados civis. Em 25 de Setembro, na sequência de forte ataque das forças da FRETILIN, com fogo de morteiros sobre a zona do acampamento, levaram-nos compulsiva-mente debaixo de fogo para o interior do território indonésio, onde ficá-mos detidos mais cerca de dez meses, sob controlo das respectivas autori-dades Indonésias: nove em Atapupo e um em Atambua.
“Ostensivamente afirmaram que nos mantinham ali retidos sem o conhecimento de ninguém. Para os ‘olhos do mundo’ continuávamos sob o controlo da UDT e das restantes forças partidárias, que se tinham acolhi-do à sua protecção e aderido à política de integração de Timor Leste, até que Portugal reconhecesse oficialmente a legitimidade das suas posições.
(…) Seguia-se a descrição do sucedido até à invasão da Indonésia.

É espantosa a forma como estes militares, portugueses, foram tratados, não direi pelos indonésios, que estavam a fazer o seu trabalho, mas pelos dirigentes e elementos do partido que mais ligações tinha com Portugal. De estarrecer como o carácter de alguns seres humanos, de um momento para o outro, pode, velozmente, mudar… se é que, lá muito no fundo, não tinham já muitos ódios recalcados.

VOU CONTINUAR…

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Publicado por

chrys chrystello

Chrys Chrystello presidente da direção e da comissão executiva da AICL

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