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Venezuela: Caracas acusa bancos portugueses de receberem ordens dos EUA

Posted: 15 May 2019 01:11 PM PDT

O ministro venezuelano das Relações Exteriores, Jorge Arreaza, acusou hoje os bancos de Portugal de estarem a receber ordens dos Estados Unidos da América, apesar de o seu homólogo português, Augusto Santos Silva, ter assegurado que são independentes.

“O chanceler (ministro dos Negócios Estrangeiros) de Portugal afirma que no seu país os bancos não recebem ordens do Governo português, mas é evidente que sim, obedecem a ordens do Governo dos Estados Unidos”, escreveu no Twitter Jorge Arreaza.

Segundo o ministro venezuelano, os bancos portugueses “bloqueiam de maneira criminosa os recursos” da população do país.

“Para os mal-informados, os mais de 1.500 milhões de euros bloqueados no Novo Banco, [em] Portugal, afetam todo o povo. Estão destinados à importação de medicamentos, vacinas, alimentos, matérias-primas industriais, sementes, fertilizantes”, adiantou.

O valor destina-se também a “tratamentos” contra a “malária, a sida e outras doenças crónicas, materiais hospitalares, compromissos com agências da ONU, peças para automóveis, salários de pessoal em serviço no estrangeiro, entre outros”.

Na última segunda-feira, em declarações aos jornalistas em Bruxelas, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Augusto Santos Silva, pronunciou-se sobre protestos ocorridos na semana passada junto ao Consulado-Geral de Portugal em Caracas, em que cerca de cinco dezenas de venezuelanos exigiram ao Governo português que desbloqueie, 1,543 milhões de euros que estão retidos no Novo Banco.

“Nós tivemos conhecimento da realização de uma manifestação frente às instalações da nossa chancelaria na semana passada. Temos também verificado ao longo destes meses declarações públicas hostis feitas por altos dirigentes do regime de Maduro […]. Damos o valor a essas declarações que elas merecem e também temos visto com muita preocupação que nas redes sociais da Venezuela se multiplicam declarações agressivas e até ameaças de retaliação contra os portugueses e contra os seus estabelecimentos”, declarou.

O ministro sublinhou que Portugal é “um Estado de direito, uma democracia política e uma economia de mercado” e, portanto, “os bancos não obedecem ao Governo”.

“Os bancos têm uma atividade que é regulada pela lei e pelas respetivas disposições regulatórias setoriais, têm uma entidade de supervisão e regulação, que é o Banco de Portugal, e os bancos mais importantes têm também uma entidade de supervisão a nível europeu, o Banco Central Europeu”, frisou, vincando que Portugal não tem “regimes nacionais de sanções ou medidas restritivas e aplica “as sanções que são decididas, nos termos próprios, pelas Nações Unidas ou pela União Europeia”.

Santos Silva disse ter conhecimento do “diferendo entre um banco português e os seus depositantes” e que esse diferendo, como é “natural num Estado de direito”, está já colocado em sede legal e judicial.

Em 17 de anei último, o Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, exortou o Governo português a desbloquear os ativos do Estado venezuelano retidos no Novo Banco, realçando que o dinheiro será usado para comprar “todos os medicamentos e alimentos”.

“Libertem os recursos [da Venezuela] sequestrados na Europa. Peço ao Governo de Portugal que desbloqueie os 1,7 mil milhões de dólares [cerca de 1,5 mil milhões de euros] que nos roubaram, que nos tiraram” e que estão retidos no Novo Banco, afirmou numa cerimónia com simpatizantes do regime.

Em 15 de aneiro último, o parlamento venezuelano, maioritariamente da oposição, aprovou um acordo de proteção dos ativos do país no exterior e delegou numa comissão a coordenação e o seguimento de ações que protejam os ativos venezuelanos na comunidade internacional.

Diário de Notícias | Lusa (ontem)

A sociedade síria e o laicismo

Posted: 15 May 2019 01:15 PM PDT

Thierry Meyssan*

Antes da guerra, a sociedade síria estava organizada de forma laica para permitir a mistura das numerosíssimas comunidades religiosas que a compõem. Todos os Sírios sofreram atrocidades cometidas pelos jiadistas (das quais os Europeus atiram hoje a responsabilidade para a República Árabe Síria). Muitos de entre eles viraram-se então para Deus. A prática religiosa passou de cerca de 20 % para 80 %. A comunidade cristã fiel a Roma emigrou em larga escala, enquanto que os ortodoxos permaneceram. Agora, os muçulmanos sunitas são ainda mais maioritários. Paradoxalmente, alguns dos seus imãs, esquecendo a retórica do Daesh (E.I.) e a resistência do país, designam hoje em dia os laicos como inimigos.

General sunita Hassan Turkmani concebera a defesa da Síria partindo dos seus habitantes [1]. Segundo ele, era possível que uns tomassem a defesa de outros e de conseguir empenhar cada uma das comunidades, com as suas características relações culturais, para que defendesse o país.

O que não era mais do que uma teoria, mas que acabamos de verificar que estava correcta. A Síria sobreviveu ao assalto da maior coligação (coalizão-br) da História humana, tal como na época romana ela tinha sobrevivido às guerras púnicas.

«Carthago delenda» (Destruam Cartago [2]), dizia Catão, «Bashar deve partir !» repetia Hillary Clinton.

Aqueles que continuam a pensar em destruir a Síria, sabem agora que precisam primeiro de aniquilar o seu mosaico religioso. Assim, difamam as minorias e encorajam alguns elementos da comunidade maioritária a impor o seu culto aos outros.

Acontece que a Síria tem uma longa história de colaboração entre religiões. No século IIIº, a rainha Zenóbia, que se revoltou contra a tirania ocidental do Império Romano e tomou a chefia de árabes do Egipto, da Arábia, e de todo o Levante, fez de Palmira [3] a sua capital. Ela cuidou não só em desenvolver as artes como em proteger todas as comunidades religiosas.

Em França, no século XVI, experimentamos terríveis guerras de religião entre dois ramos do cristianismo: o catolicismo e o protestantismo. Até à altura em que o filósofo Montaigne conseguiu imaginar relações interpessoais que nos permitem a todos viver em paz.

O projecto sírio, tal como o descreveu Hassan Turkmani, vai mais longe ainda. Não se trata simplesmente tolerar que outros, que creem no mesmo Deus que nós, o celebrem de uma maneira diferente da nossa. Trata-se de orar com eles. Assim, todos os dias, a cabeça de João Baptista era venerada na grande mesquita dos Omíadas ao mesmo tempo por judeus, cristãos e muçulmanos [4]. É a única mesquita onde muçulmanos oraram com um Papa, João Paulo II, junto a relíquias comuns.

Na Europa, após o sofrimento de duas Guerras Mundiais, os pastores de diferentes religiões pregaram que era preciso temer a Deus na terra e que se seria recompensado no além [5]. A prática religiosa aumentou, mas os espíritos desfaleceram. Ora, Deus não enviou os seus profetas para nos ameaçar. Trinta anos depois, a juventude, que queria emancipar-se desta restrição, rejeitou, bruscamente, a própria ideia de religião. O Laicismo [6], que era um método de governo para viver em conjunto, no respeito pelas nossas diferenças, tornou-se uma arma contra essas diferenças.

Tratemos de não cometer o mesmo erro.

O papel das religiões não é nem de impor a ditadura de um modo de vida, como fez o Daesh (E.I.), nem de aterrorizar as nossas consciências, como o fizeram os Europeus no passado.

O papel do Estado não é de arbitrar as disputas teológicas, e ainda muito menos de escolher entre as religiões. Tal como no Ocidente, os partidos políticos envelhecem mal no mundo árabe, mas desde a sua criação, o PSNS [7] e o Baath [8] entendiam fundar um Estado laico, quer dizer que garantisse a todos por igual a liberdade de celebrar o seu culto sem medo. Isso é que é a Síria.

Thierry Meyssan* | Voltaire.net.org | Tradução Alva

Na foto: Lugar de peregrinação judaica, cristã e muçulmana, o mausoléu de João Baptista na mesquita dos Omíadas de Damasco.

*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).

Notas:

[1] O General Hassan Turkmani (1935-2012) foi Chefe de Estado-Maior, depois Ministro da Defesa. Ele dirigia o Conselho de Segurança Nacional que foi dizimado por um mega atentado da OTAN, a 18 de Julho de 2012. Ele concebeu os planos de defesa da Síria.

[2] Cartago (na actual Tunísia) era uma colónia de Tiro (actual Líbano). Após a destruição de Cartago e o genocídio de todos os seus habitantes, Aníbal refugiou-se em Damasco. Roma perseguiu-o e ameaçou destruir também esta cidade. Finalmente, Aníbal rendeu-se e um tratado de não proliferação foi assinado. Por ele, a Síria não mais deixava de ter direito a criar elefantes de guerra, sendo que inspectores romanos podiam visitar o país para verificar o respeito pelo tratado.

[3] Palmira era uma capital próspera, situada na Rota da Seda ligando a capital chinesa Xi’an aos portos mediterrânicos de Tiro e de Antioquia. As destruições e as cerimónias de execuções capitais do Daesh no Teatro antigo de Palmira referiam-se a esse passado prestigioso.

[4] Na maior parte das culturas muçulmanas, as mesquitas estão reservadas aos fieis desta religião. Ora, jamais foi o caso da Síria onde os locais de culto de cada religião estão abertos a todos.

[5] A crença segundo a qual os Bons serão recebidos por virgens no Paraíso baseia-se no Alcorão. Mas é um erro de compreensão. este não foi escrito em árabe moderno, mas, sim numa língua mais antiga incluindo inúmeras expressões aramaicas.

[6] O Laicismo francês é um modo de governo progressivamente instaurado pelos reis da França que reivindicavam ser coroados pela Igreja Católica, mas recusavam que esta interferisse no seu reinado. No século XVI, Henrique IV uniu protestantes e católicos sob a sua autoridade católica (que Luís XIV pôs em causa). Os Estados Gerais de 1789 tentaram criar uma Igreja Católica de França, menos dependente de Roma. Mas a «Súmula» secreta do Papa Pio VI ordenou aos bispos abjurar a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão que haviam votado. Seguiram-se novas atrocidades, entre as quais a guerra da Vendeia. Só quando a monarquia de direito divino foi derrubada, é que foi possível no século XX proclamar a separação das Igrejas e do Estado, de acordo com o projecto político dos reis de França. Hoje, o laicismo é empregue a contra-senso pelos adversários do fenómeno religioso ou pelos do Islão.

[7] O Partido Socialista Nacional da Síria (PSNS) foi fundado em 1932 por cinco pessoas, entre os quais o cristão Antoun Saadé e o pai do nosso antigo vice-presidente, o Príncipe Issa el-Ayoubi, para reunificar a Grande Síria dividida pela colonização europeia. Este partido, muito progressista, militou imediatamente pela igualdade dos sexos. Durante a sua luta contra o Império Francês, o partido caiu sob influência britânica. A propaganda israelita classificou-o de extrema direita, o que é completamente falso. Hoje, muitos intelectuais de Chipre, do Iraque, da Jordânia, do Kuwait, do Líbano, da Palestina e da Síria passaram pelo PSNS, mas não permaneceram. O próprio partido fragmentou-se em várias formações políticas.

[8] O Partido Socialista da Ressurreição Árabe, as Ba’ath, foi fundado em 1947 à volta do cristão Michel Aflek. Ele difere do PSNS não só porque ambiciona reconstituir a Grande Síria, mas, também em unificar todas as regiões de cultura árabe. Cada país árabe tem o seu próprio partido Ba’ath, federado no Ba’ath sírio. O Ba’ath iraquiano assumiu a sua independência com Saddam Hussein. Nos anos 80, o Ba’ath iraquiano rompeu com o laicismo, apoiou o Irmãos Muçulmanos e pregou o «retorno à fé». Este movimento contaminou outros partidos Ba’ath, dos quais alguns dirigentes se puseram ostensivamente a usar barbar e pôr véus às suas mulheres.

Porque Japão aumenta presença militar na zona marítima fronteiriça com China?

Posted: 15 May 2019 09:14 AM PDT

Fuzileiros navais em navios militares japoneses na sua zona marítima ao sudoeste são um novo fator irritante para a China, comentaram especialistas à Sputnik sobre uma notícia do jornal japonês Yomiuri.

O jornal japonês, citando fontes anónimas no governo, informou que nos navios de assalto anfíbios da classe Osumi havia até 300 fuzileiros da Brigada de Implantação Rápida Anfíbia. Eles estavam incorporados nas forças terrestres das Forças de Autodefesa do Japão, tendo a brigada sido apresentada em abril do ano passado.

O Yomiuri também informou que estas subunidades móveis poderão ser colocadas já no próximo ano nos navios militares com mais 8,9 toneladas de deslocamento. Estes navios são capazes de transportar até 8 helicópteros, assim como possuem na popa um convés especialmente equipado para colocar na água pequenas lanchas de desembarque.

Este não é o primeiro ano em que o Japão aumenta seu potencial militar na zona marítima do sudoeste, disse em entrevista à Sputnik China Yang Danzhi, especialista do Centro de Segurança Regional da Academia de Ciências Sociais da China.

[..] O Japão já implantou subdivisões de reação rápida nas suas ilhas localizadas no sudoeste. Por exemplo, já ocorreram vários incidentes à volta das ilhas Diaoyu (em chinês, ou ilhas Senkaku em japonês) que ameaçaram a segurança. No caso de desdobramento de forças de reação rápida, o Japão obteria a capacidade de efetuar ataques rápidos, opinou o especialista.

A implantação das forças de reação rápida nos navios de guerra do Japão praticamente nos diz que as forças de autodefesa do país estão adquirindo indícios agressivos, que estão mudando o conceito de seu desenvolvimento de defensivo para ofensivo. O desdobramento de forças de reação rápida terrestres em navios de guerra quer dizer que o potencial do Japão para intimidação e intervenção nos assuntos dos seus vizinhos e dos países localizados perto das suas fronteiras está aumentando.

O Japão tem disputas territoriais com a China. O país está mostrando constantemente sua vontade de proteger as ilhas Diaoyu (Senkaku), que considera como parte do seu território. As subunidades de fuzileiros têm como objetivo fortalecer seu potencial de contenção da assim chamada “agressão exterior”, disse o especialista do Instituto do Extremo Oriente Valery Kistanov.

“A maior ameaça, segundo o que reconhece oficialmente Tóquio, é a China com seu crescente poder militar e suas atividades navais, em particular em torno das ilhas Diaoyu. O aumento do potencial militar das Forças de Autodefesa do Japão explica-se com a alegada necessidade de proteger as suas ilhas meridionais, e também as ilhas disputadas de Diaoyu, de uma possível ‘agressão'”, opina Kistanov.

Anteriormente, o ministro da Defesa do Japão, Takeshi Iwaya, manifestou a sua preocupação com as ambições militares da China nesta região. Neste âmbito ele declarou que em março do próximo ano na ilha Miyakojima irão ser colocadas as versões mais modernas de misseis antinavio e também de misseis da classe terra-ar.

É evidente que a China não irá deixar o aumento das atividades militares do Japão perto das suas fronteiras sem resposta. O especialista pensa que o “fator americano” está criando um novo e poderoso estímulo à aproximação do Japão com a China. “Os EUA estão cumprindo uma política comercial muito dura, ofensiva e agressiva contra China e o Japão, por isso eles têm um motivo para se aproximar […] e reforçar as suas relações económicas”, acredita Valery Kistanov.

O especialista recorda que o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, esteve na China com uma visita, e é provável que o líder chinês Xi Jinping também irá visitar o Japão.

Sputnik | © AFP 2019/ JIJI PRESS

Trump se arriscaria em uma guerra que não pudesse vencer? Especialista explica

Posted: 15 May 2019 09:04 AM PDT

O secretário dos EUA, Mike Pompeo, inesperadamente decidiu comparecer a uma reunião entre os ministros das Relações Exteriores da União Europeia em Bruxelas para discutir a situação do Irão.

Durante as negociações, os integrantes pareceram discordar sobre o assunto em questão, com a chefe da política externa da UE, Federica Mogherini, instando Washington a moderar em meio ao aumento das tensões.

Pompeo, por sua vez, compartilhou a informação sobre a “elevação” das ameaças feitas pelo Irão, segundo seu representante.

Perante a situação, a Sputnik Internacional discutiu as tensões entre o Irão e os EUA com Sami Hamdi, editor-chefe do International Interest e consultor de risco geopolítico.

Ao ser questionado sobre qual seria a resposta da União Europeia em relação ao prazo dado pelo Irã para pôr em prática compromissos do acordo nuclear de 2015, Sami Hamdi afirmou que acredita que a UE peça mais tempo e com isso, rejeitará o prazo iraniano, entretanto, devido às eleições norte-americanas, a UE pode vir a optar por aguardar o resultado das eleições para se posicionar.

 

Além disso, o jornalista ressalta que, em caso de uma vitória democrata, é muito provável que recupere o acordo nuclear, o que iria suspender algumas das sanções impostas contra o Irão. Nesse caso, mesmo com opções limitadas, Teerão poderia aceitar a opção de esperar até as eleições nos EUA.

Com relação ao papel dos EUA em uma possível escalada após o envio de um grupo de ataque de porta-aviões norte-americanos, ele acredita que a política militar de Trump é obter aliados para lutar, e não tropas americanas.

Trump deu um sinal claro de sua arriscada abordagem à política externa ao tentar acabar com o conflito no Afeganistão através de negociações de paz.

Isso tudo devido ao fato de que os EUA não podem confiar na Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos ou Qatar como aliados para iniciar um combate. Dessa forma, sem aliados, os EUA temem se envolver em outro “Vietname”.

Além disso, o especialista ressalta que Trump convidou o Irão a retomar as conversas sobre um acordo nuclear e as sanções, isso ao mesmo tempo em que elevava a presença militar dos EUA na região. Provavelmente, os EUA utilizaram essa tática de intimidação para que o Irão retomasse as negociações.

Outro assunto em questão é a ameaça real de um ataque preventivo dos EUA ou do Irão em meio às ameaças bilaterais, e no ponto de vista de Sami Hamdi, o Irã não está preparado para arriscar uma guerra contra os EUA, bem como os EUA não estão preparados para uma guerra sem ter a certeza de que vencerá a batalha, principalmente pelo fato de que Trump sabe que não há um grande interesse internacional por uma guerra.

Já com relação ao interesse da UE em manter as relações comerciais com o Irão, mesmo perante as sanções norte-americanas, o especialista aponta que a UE acredita no acordo nuclear, entretanto, não acredita que a estabilização do sistema financeiro paralelo seja a solução e, por isso, os europeus preferem permanecer ao lado de Trump.

Sputnik | © Foto: IRNA

Surge a “Internacional Neofascista”?

Posted: 15 May 2019 03:39 AM PDT

Santiago Abascal, líder do espanhol Vox, ao chegar em um comício no dia 24 de abril

Extrema-direita cresce na Espanha, seguindo a cartilha de Trump e Bolsonaro: discursos virulentos, redes de fake news e demagógica negação da política. Levanta-se a suspeita: haveria uma articulação internacional que financia e promove a reação conservadora mundo afora?

Anne Applebaum, no El País Brasil

Amanhece na zona rural espanhola. Um homem caminha em câmera lenta, corre e pula uma cerca. Como em um filme de Hollywood, o homem atravessa um campo de trigo enquanto roça as espigas com as mãos. Ao fundo soa uma música enquanto uma voz narra: “Se você não ri da honra porque não quer viver entre traidores… Se você anseia por novos horizontes sem desprezar suas origens… Se você mantém intacta sua honradez em tempos de corrupção…”. Nasce o sol. O homem sobe um caminho íngreme, atravessa um rio e é pego por uma tempestade. “Se você sente gratidão e orgulho por aqueles que, de uniforme, guardam o muro… Se você ama sua pátria como ama seus pais…”. A música atinge o clímax, o homem está no topo da montanha e a voz culmina: “… você saberá que está conseguindo fazer a Espanha grande outra vez”. As últimas palavras que aparecem na tela são “Fazer a Espanha grande outra vez”.

O slogan é a versão espanhola do “Make America Great Again”. O homem é Santiago Abascal, e isto, é claro, é uma propaganda do Vox, o partido político que mais cresce na Espanha. Nas eleições gerais de 2016 — o ano do vídeo —, o Vox, com seu nacionalismo espanhol de macho alfa e cinematográfico, não conquistou uma única cadeira. Pouco depois, um site espanhol publicou um artigo que perguntava: “Por que ninguém vota em Santiago Abascal?”. Mas em 28 de abril deste ano, o apoio ao Vox entre o eleitorado passou de 0% a 10%: ganhou 24 deputados no Congresso. Sua ruidosa presença na campanha eleitoral ajudou a impulsionar a participação a um de seus níveis mais altos em anos, já que os espanhóis estavam ansiosos para apoiar o Vox ou votar contra.

Como isso aconteceu e o que isso tem a ver com o caso de Donald Trump? A velocidade da explosão do Vox é, em muitos aspectos, uma história exclusivamente espanhola, marcada por uma reação nacionalista a uma crise separatista regional, pelo crescimento da polarização e da fragmentação do que costumava ser um sistema bipartidário. O colapso econômico de 2009 reduziu a confiança nos partidos políticos tradicionais e levou a uma forte reação da extrema esquerda. O Vox é o contragolpe.

 

No entanto, sua história também pertence a uma visão mais global e ampla das estratégias de campanhas tradicionais e digitais desenvolvida pela extrema direita europeia e pela direita alternativa norte-americana (alt-right) que agora é usada em todo o planeta. O uso das redes sociais para agudizar a polarização, os sites criados especificamente para alimentar narrativas polarizadas, os grupos privados de fanáticos que compartilham teorias da conspiração, uma linguagem que enfraquece deliberadamente a confiança em políticos e jornalistas “convencionais”: tudo isto também ajudou o partido que quer “fazer a Espanha grande outra vez” abandonar a periferia e se tornar conhecido. Ao que se deve acrescentar que conta com financiamento em parte de origem estrangeira que não lhe chega diretamente, mas é canalizado através de organizações com as quais compartilha opiniões, uma forma de financiamento político que é familiar aos norte-americanos, mas nova na Europa.

Em março e abril, pouco antes das eleições de 28 de abril, fiz algumas viagens a Madri para conversar com militantes do Vox e outras figuras, incluindo ex-líderes do PP, de centro-direita, e do PSOE, de centro-esquerda, os dois partidos que dominaram a política nacional durante três décadas desde a Transição. O sentimento na capital espanhola era um pouco como o que havia em Londres logo antes do referendo do Brexit ou como o de Washington antes da vitória de Trump. Tive uma forte sensação de déjà-vu: mais uma vez, uma classe política estava prestes a ser atingida por uma onda de ira.

No outrora previsível mundo da política espanhola, isso representa uma mudança considerável. Em 2018, jornalistas e analistas espanhóis perguntavam por que, na Espanha, ao contrário da França e da Itália, não havia partidos de extrema direita. Muitos supunham que o fantasma da ditadura de Franco, que culminou apenas nos anos setenta, era o responsável por essa “exceção espanhola”. Enquanto ninguém politicamente ativo hoje na França ou na Alemanha lembra de Vichy ou dos nazistas, uma grande quantidade de espanhóis lembra hoje do nacionalismo ostentoso de Franco, que nos comícios usava o lema “Arriba Espanha!” e, por essa razão, sempre o rejeitaram.

Mas durante o ano passado, o Vox quebrou esse tabu. Em sua conta no Twitter, Abascal publicou uma série de tuítes que começou na primavera de 2018 e continua até hoje. Cada tuíte tem um link de um vídeo ou de uma fotografia de um recinto repleto de gente. Os tuítes mais recentes têm a hashtag #EspañaViva e comentários eufóricos. Esses tuítes mais os constantes ataques do partido às “falsas” pesquisas de opinião dos meios de comunicação “parciais” tinham um propósito: fazer com que qualquer seguidor do Vox sentisse que fazia parte de um movimento enorme. Abascal fala de um “movimento patriótico de salvação da unidade nacional” e, de alguma forma, era isso.

Alimentado por separatismos

O vice-secretário do Vox, Iván Espinosa de los Monteros, vem de uma rica família da nobreza espanhola. Quando o Vox ataca “as classes dominantes”, refere-se aos meios de comunicação e às classes políticas, não à alta burguesia ou a sua classe empresarial. Ainda mais importante é o fato de que Espinosa é um usuário especialista em redes sociais, assim como sua esposa, Rocío Monasterio, que também é política do Vox.

Eu segui os dois no Twitter durante um tempo e notei o quanto eram eficientes criando espetáculo. Por meio do Twitter, Espinosa convocou um protesto público quando uma universidade de Madri, sua alma mater, cancelou uma conferência que ele faria. Monasterio acumulou milhares de likes por declarar que iria boicotar qualquer mobilização relativa ao Dia Internacional da Mulher e depois por tuitar um vídeo em que enfrentava feministas irritadas manifestando-se com imagens de mulheres e homens de mãos dadas.

Espinosa também é responsável pelas “relações internacionais” do partido, e a mensagem principal que quis me transmitir foi sobre a natureza excepcionalmente espanhola do Vox. Tomando o café da manhã em um café em Madri que, segundo disse, não fica longe de sua empresa imobiliária, afirmou que o Vox tinha muito pouco em comum com outros partidos europeus de “ultradireita”. “O Vox é frequentemente e facilmente associado a outros partidos e a coisas novas que estão acontecendo em outras partes do mundo… mas não é realmente verdade.”

Em vez disso, argumenta que o Vox surgiu em grande parte por causa do fracasso da Espanha em lidar com seus prolongados conflitos regionais. Abascal, ex-membro do Partido Popular (PP, de centro-direita), é natural do País Basco. Seu pai, também político do PP, era amplamente conhecido como alvo do ETA, o grupo terrorista basco. Por essa razão, afirma ter uma pistola Smith & Wesson consigo o tempo todo, um hábito inusual na Espanha que fez com que ganhasse o carinho de uma pequena minoria de proprietários de armas. No entanto, a crise da secessão catalã, iniciada em 2017, foi o que colocou o Vox no centro da política espanhola. José María Aznar, ex-presidente do Governo de centro-direita, me disse que o Vox era “uma consequência da inação do Governo durante o golpe de Estado da Catalunha”, e quase todos com quem falei em Madri disseram mais ou menos o mesmo.

A Catalunha é uma província rica, onde muitos dos seus habitantes falam uma língua diferente, o catalão. A região tem uma longa história e alguns velhos ressentimentos datam de vários séculos. Depois que as forças lideradas por Franco venceram a Guerra Civil e impuseram uma ditadura, qualquer indício de separatismo catalão foi severamente reprimido. Em contraste, a Constituição espanhola de 1978 concedeu a autonomia não só à Catalunha e ao País Basco, cujo movimento separatista tinha uma ala terrorista, mas a todas as comunidades espanholas. Desde então, gerou-se uma discussão constante sobre a relação entre o Governo central e as comunidades autônomas. Em 2017, o Governo regional da Catalunha, estreitamente controlado pelos separatistas, decidiu realizar um referendo sobre a independência. O Tribunal Constitucional o declarou ilegal. Uma clara maioria de catalães boicotou o referendo –um evento emocionante, arruinado pela brutalidade policial– mas os que votaram escolheram a independência.

No caos posterior, o Senado autorizou a imposição de um Governo direto sobre a Catalunha e convocou novas eleições nessa comunidade. Alguns líderes separatistas fugiram para o exílio, enquanto outros foram presos e levados a julgamento. Na Espanha se permite que advogados particulares sejam coacusadores durante os processos judiciais públicos. O Vox aproveitou essa legislação para entrar com uma ação contra os separatistas. Na prática, isso significou que, durante o julgamento público amplamente televisionado, o “advogado do Vox” e o secretário-geral do partido, Javier Ortega Smith, estiveram presentes junto aos promotores do Governo.

Para um pequeno partido que defende a unidade espanhola, se opõe à autonomia regional e quer proibir os partidos separatistas e prender o presidente catalão, é difícil pensar em uma maneira mais eficaz de evocar emoções fortes ou provocar uma forte reação contrária. Quando o Vox organizou um de seus comícios em Barcelona nesta primavera, Ortega Smith chamou o Governo catalão de “organização criminosa”. No entanto, a maioria da cobertura da mídia se concentrou nos anarquistas que atiraram pedras, queimaram barricadas e protestaram violentamente contra os visitantes “fascistas”. Em outras palavras, foi outra vitória de imagem para o Vox. Abascal tuitou uma fotografia de si mesmo consolando uma mulher que havia sido ferida nas manifestações. Espinosa fez o mesmo. Ironicamente, se mostrar como “vítimas da brutalidade” foi a mesma estratégia com a qual os separatistas catalães procuram ganhar apoio nacional e internacional.

“Não têm ideias”

A Catalunha não foi o único assunto espanhol que ajudou o Vox. Assim como outros novos partidos europeus (não necessariamente de direita), como o Movimento 5 Estrelas na Itália, o Vox selecionou uma série de assuntos subestimados cujos adeptos tinham começado a se colocar em contato e se organizar na Internet. Em geral, os movimentos políticos bem-sucedidos costumavam ter uma única ideologia. Agora, algumas vezes, combinam várias. Pensemos no processo de uma gravadora que quer criar uma nova banda pop: faz um estudo de mercado, escolhe o tipo de rostos condizentes com a pesquisa e então apresenta a banda ao público que lhe é mais favorável. Os novos partidos políticos são assim: agora se podem agrupar diferentes temas, reempacotá-los e depois comercializá-los usando o mesmo tipo de mensagens direcionadas que se sabe que funcionaram em outros lugares.

A oposição ao separatismo catalão e basco, ao feminismo e ao casamento igualitário, à imigração, especialmente a muçulmana; a ira contra a corrupção; o tédio com a política tradicional; um punhado de temas, como a propriedade de armas e a caça, com os quais algumas pessoas se importam profundamente, enquanto outras nem sabem que existem; uma pitada de apelos libertários, talento para a zombaria e um leve ar de nostalgia, embora não se saiba exatamente do quê: todos esses ingredientes foram usados para a criação do Vox. Na maior parte, esses temas pertencem ao campo da política de identidade, não ao da economia. Espinosa se refere a eles como questões que se opõem à “esquerda”, não em referência apenas ao partido de ultraesquerda marxista Podemos, mas também ao PSOE, de centro-esquerda, ao menos em sua mais recente encarnação. Especificamente, ele designa o Governo socialista que controlou a Espanha entre 2004 e 2010, sob o mandato do presidente José Luis Rodríguez Zapatero, que aprovou uma série de leis para flexibilizar as restrições sobre o aborto, o divórcio e o casamento igualitário, e para estender proteções especiais, incluindo julgamentos em tribunais especializados — que Espinosa chama de “tribunais de homens” — para as vítimas da violência doméstica. Descreve essas iniciativas como “todas as leis que Zapatero pôde conceber para atacar a família, o bastião do conservadorismo”.

Zapatero também reabriu o debate sobre o questionamento da história, aprovando uma Lei de Memória Histórica que, entre outras coisas, condenou formalmente o regime franquista e eliminou os símbolos franquistas dos espaços públicos. Isso foi uma novidade para a Espanha: durante as duas primeiras décadas depois da transição democrática, os Governos espanhóis simplesmente se esquivaram do assunto. Para o Vox, esse assunto é uma mera nuance e não uma questão fundamental, pelo menos em público. No entanto, a exigência de ter “liberdade para falar sobre a nossa história” é uma frase que Abascal usa nos comícios.

Espinosa afirma que o “extremismo” do Governo de Zapatero mais o extremismo dos separatistas, junto com o fracasso posterior da centro-direita para combatê-los, é o que justifica a posição do Vox: “Ninguém questiona a nação em outros lugares, ninguém questiona suas instituições básicas, sua bandeira, seu hino, seu presidente, suas instituições democráticas, seu Tribunal Supremo”. Espinosa ilustra seu argumento usando dois saleiros. “Olhe”, diz, colocando os dois juntos, “estas são as políticas espanholas nos anos oitenta e noventa”. E “aqui” — coloca um garfo a várias polegadas de distância — está a Espanha atual: “Levada para a extrema esquerda. O centro e a direita não reagem, não contra-atacam. Não têm ideias”.

Esse tipo de linguagem não só enfurece os separatistas, mas também aqueles que se identificam com a centro-esquerda. Como também enfurecem as provocações do Vox. Em dezembro, antes das eleições locais na Andaluzia, Abascal postou um vídeo de si mesmo montando um cavalo, recriando a “reconquista” medieval da Espanha diante da ocupação muçulmana, ao ritmo da trilha sonora de O Senhor dos Anéis. Em outra ocasião, o partido criou um vídeo que mostrava uma notícia falsa anunciando a imposição da lei islâmica na Andaluzia e a transformação da Catedral de Córdoba em uma mesquita. Cada uma dessas ações causou uma reação contrária. Mais retuítes para o Vox, mais fúria do outro lado. Espinosa sabe disso. “Somos parte dessa polarização? Infelizmente o somos. Não estou dizendo que não…”. No entanto, do seu ponto de vista, “a esquerda” é a extremista, não o Vox.

Espinosa fala um excelente inglês — passou parte da infância nos Estados Unidos e frequentou a Escola de Negócios da Universidade de Northwestern — e, ocasionalmente, tuíta nesse idioma. Muitas vezes entrou no Twitter para atacar a cobertura da imprensa estrangeira sobre o Vox, especialmente quando compara o partido com grupos de extrema direita da França e da Itália. Uma vez felicitou ironicamente um jornalista do Guardian por sua “história politicamente correta”. Tem a mesma queixa sobre a imprensa espanhola. “Parabéns ao EL PAÍS”, escreveu recentemente, “por ser capaz de incluir as expressões ‘ultraconservador’, ‘ultranacionalista’ e ‘extrema direita’ em apenas cinco parágrafos. Goebbels os admiraria”.

A verdade é que houve inúmeros contatos entre o Vox e outros partidos políticos de “extrema direita” europeus. Em 2017, como mostra a conta do Vox no Twitter, Abascal se encontrou com Marine Le Pen, a líder francesa de extrema direita. Na véspera da eleição, ele tuitou seu agradecimento a Salvini, o líder da extrema direita italiana, por seu apoio. Abascal e Espinosa foram recentemente a Varsóvia para uma reunião com líderes do partido governista polonês, nativista [que favorece os nativos de um país] e antiplural, e Espinosa também apareceu na Conferência de Ação Política Conservadora, em Washington.

Mesmo assim, Espinosa está certo quando minimiza esses encontros públicos, considerando-os como reuniões de cortesia. As relações importantes entre o Vox e a extrema direita europeia, bem como com a alt-right norte-americana, estão se desenvolvendo em outro lugar.

“Restaurando a ordem natural”

Os nacionalistas de extrema direita ou os partidos nativistas na Europa raramente trabalhavam juntos até recentemente. Ao contrário dos sociais-democratas europeus, que sempre compartilharam uma visão de mundo, ou inclusive dos democratas-cristãos de centro esquerda europeus, que desde os anos cinquenta foram o verdadeiro motor que impulsionou a União Europeia, os partidos nacionalistas, arraigados em suas próprias histórias particulares, costumavam estar em conflito quase por definição. A extrema direita francesa nasceu dos debates sobre Vichy e a Argélia. A extrema direita italiana foi historicamente moldada pelos descendentes intelectuais de Mussolini, incluindo sua própria filha. As tentativas de confraternização sempre terminaram afundando por velhas controvérsias. A extrema direita da Itália e da Áustria, por exemplo, romperam relações recentemente depois que começaram a discutir — acaba sendo engraçado — sobre a identidade nacional do Tirol do Sul, uma província no norte da Itália onde se fala principalmente alemão.

Há pouco isso começou a mudar. A extrema direita europeia encontrou um grupo de temas com os quais todos podem estar de acordo. A oposição à imigração, especialmente muçulmana. A promoção de uma visão de mundo socialmente conservadora. Dito de outra forma: o desagrado com o casamento igualitário ou com os taxistas africanos é algo que até austríacos e italianos, em desacordo sobre a localização de sua fronteira, podem compartilhar.

Os vínculos e conexões são visíveis na Internet. Entre os que analisaram a ascensão do Vox, encontra-se uma firma de análise de dados de Madri chamada Alto Data Analytics. Especializada na aplicação de inteligência artificial na análise de dados públicos de sites como Twitter, Facebook, Instagram e YouTube, entre outras fontes, a Alto elaborou há pouco vários mapas coloridos sobre as interações dos espanhóis nas redes, com o objetivo de identificar campanhas de desinformação que buscassem distorcer as conversas digitais. Os mapas mostraram três conversas polarizadas e periféricas, ou seja, “câmaras de ressonância”, cujos membros praticamente só conversam entre si: a conversa sobre a autonomia da Catalunha, a conversa sobre a extrema esquerda e a conversa sobre o Vox.

Não foi uma surpresa, como tampouco foi descobrir que a maioria dos “usuários com atividade anormalmente alta” — bots ou pessoas reais que publicam constantemente e talvez recebendo algum pagamento por isso — faziam parte dessas três comunidades, especialmente a do Vox, que reunia mais da metade deles. Poucos dias antes das eleições, o Instituto para o Diálogo Estratégico (ISD, em inglês) — uma organização britânica que rastreia o extremismo na Internet na qual trabalho como conselheira e colaboradora — descobriu uma rede de quase 3.000 “usuários com atividade anormalmente alta”, que haviam bombardeado o Twitter no ano passado com cerca de 4,5 milhões de mensagens anti-islâmicas e pró-Vox. As origens da rede não são claras, e não se sabe quem a financia. Inicialmente, foi configurada para atacar o Governo de Nicolás Maduro na Venezuela, mas o objetivo mudou após o ataque terrorista de Barcelona em 2017. Nos últimos anos, a rede se concentra em histórias atemorizantes de imigração cuja intensidade aumenta gradualmente. Parte do conteúdo promovido são materiais extraídos de redes extremistas, e quase todos são alinhados com as mensagens publicadas pelo Vox. Em 22 e abril, por exemplo, uma semana antes das eleições espanholas, a rede postou no Twitter imagens daquilo que seus membros descreviam como uma revolta num “bairro muçulmano na França”, quando o que mostravam, na verdade, era um protesto recente contra o Governo na Argélia.

A Alto e o ISD perceberam também outra singularidade: os simpatizantes do Vox, sobretudo os “usuários com atividade anormalmente alta”, têm muitíssimas probabilidades de publicar conteúdos e materiais de um grupo de fontes muito específico: um conjunto de sites conspirativos, em geral criados pelo menos há um ano, e às vezes administrados por uma única pessoa, que publica grande quantidade de artigos e títulos muito partidários.

Curiosamente, a equipe da Alto encontrou os mesmos tipos de sites na Itália e no Brasil nos meses prévios às eleições de 2018, nos dois países. Em ambos os casos, os portais começaram a publicar material partidário — na Itália sobre a imigração, no Brasil sobre corrupção e feminismo — durante o ano prévio à votação. E serviram para alimentar e amplificar vieses ideológicos antes mesmo que fizessem parte da política convencional.

Na Espanha há meia dúzia de portais como esses, alguns profissionais e outros claramente feitos por aficionados. Alguns, de origem desconhecida, parecem ter sido criados sob medida: um dos portais mais obscuros tem exatamente o mesmo estilo e disposição que um portal brasileiro pró-Bolsonaro, quase como se ambos tivessem sido desenhados pela mesma pessoa. No dia anterior às eleições espanholas, sua notícia principal foi uma teoria conspirativa: George Soros, o judeu milionário nascido na Hungria que tem sido representado como o demônio pela extrema direita na Europa, ajudaria a orquestrar uma fraude eleitoral. Soros não era uma figura muito conhecida na Espanha até que o Vox o incluiu no debate.

Do outro lado da balança está o DigitalSevilla, que em geral informa sobre a Andaluzia, e o CasoAislado, que publica constantemente histórias sobre imigrantes e crimes. Ambos parecem administrados por equipes muito reduzidas e financiadas pelo sistema de publicidade do Google. Aparecem com muita frequência na câmara de ressonância do Vox. O dono do DigitalSevilla — segundo o EL PAÍS, um homem de 24 anos sem experiência como jornalista — produz manchetes que comparam a presidenta do Partido Socialista da Andaluzia com a “mulher malvada de Game of Thrones”, em ocasiões, conseguiu atrair mais leitores que os jornais tradicionais. Espinosa me disse que o dono do CasoAislado é “um sujeito que simpatiza conosco, um aficionado. Garanto que não pagamos para nenhum deles.”

Os norte-americanos reconhecerão sites desse tipo: funcionam de formas não muito diferentes das utilizadas pelo InfoWars e o Breitbart, os portais infames e enviesados que operaram da Macedônia durante a campanha presidencial dos Estados Unidos, e pelas páginas do Facebook criadas pela inteligência militar russa. Todos eles produzem notícias carregadas, conspirativas e polarizadoras com manchetes indignantes, prontas para serem enviadas às câmaras de ressonância. Às vezes, esses sites e as redes que os promovem na Europa trabalham de maneira coordenada. Em dezembro, as Nações Unidas reuniram os líderes mundiais para discutir a migração numa cúpula não muito pretensiosa que produziu um acordo com poucos compromissos: o Pacto Mundial para uma Migração Segura, Ordenada e Regular. O acordo recebeu pouca atenção da mídia. Mas a Alto descobriu que, na véspera da reunião, cerca de 50.000 usuários publicaram no Twitter teorias da conspiração sobre o convênio, centenas deles alternando francês, alemão, italiano e, em menor medida, espanhol e polonês. Com um funcionamento similar ao da rede espanhola que promove o Vox, esses usuários promoveram material de portais conspirativos, usando imagens idênticas, com links entre si e retuítes feitos de diversos países.

Uma rede internacional semelhante começou a operar após o incêndio da catedral de Notre Dame, em Paris. O ISD rastreou milhares de publicações de pessoas afirmando terem visto muçulmanos “comemorando” o incêndio, assim como outras de pessoas que publicavam rumores e fotos pretendendo provar que o fogo havia sido provocado. O CasoAislado montou uma publicação quase de imediato, declarando que “centenas de muçulmanos” comemoravam o incêndio, com uma imagem em que parecia que pessoas com sobrenomes árabes publicavam no Facebook emoticons sorridentes sob as fotos do incêndio. Poucas horas depois, Abascal expressou pelo Twitter seu rechaço a aquelas “centenas de muçulmanos” e usou a mesma imagem, embora vinculando-a com uma publicação do teórico da conspiração da direita alternativa dos EUA, Paul Watson. Este, por sua vez, identificou o ativista francês de extrema direita Damien Rieu como a fonte.

“Os islamistas, que querem destruir a Europa e a civilização ocidental, comemorando o incêndio de #NotreDame”, escreveu Abascal. “Levemos isso a sério antes que seja tarde.”

Esse mesmo tipo de memes e imagens se expandiram pelos grupos de seguidores do Vox no WhatsApp e no Telegram. Incluíam, por exemplo, um meme em inglês que mostrava Paris “antes de Macron” com a Notre Dame ardendo, e outra “depois de Macron” com uma mesquita em seu lugar; assim como uma notícia em vídeo — sobre outro incidente sem relação com Notre Dame — que detalhava detenções e a descoberta de um carro com bombas de gás perto do lugar do incidente. Foi o exemplo perfeito de como a alt-right, a extrema direita e o Vox propagaram a mesma mensagem ao mesmo tempo, e em múltiplos idiomas, para tentar motivar as mesmas emoções em toda a Europa, a América do Norte e outros lugares.

Esses grupos também têm conexões fora da Internet. Tendo em vista o apelo gerado pelos problemas sociais, criaram-se organizações pan-europeias que usam um modelo norte-americano de financiamento e promoção. Uma delas é a CitizenGo, fundada em Madri em 2013. A CitizenGo é o braço internacional da HazteOir.org, uma organização espanhola criada há mais de uma década. Segundo Neil Datta, secretário do Foro Parlamentar Europeu sobre População e Desenvolvimento e autor de um relatório sobre a direita cristã europeia, a CitizenGo integra uma rede maior de organizações europeias que procuram “restaurar a ordem natural”: eliminar os direitos dos homossexuais, restringir o aborto e os métodos anticoncepcionais e promover uma agenda explicitamente cristã. Essa rede compila listas de e-mails e se mantém em contato com seus seguidores. Eles dizem que chegam a nove milhões de pessoas.

Apoio internacional

O conselho da CitizenGo inclui Brian S. Brown, o cofundador norte-americano da Organização Nacional para o Casamento, e Alexey Komov, da divisão russa do Congresso Mundial de Famílias (WCF, em iglês). Komov tem sido associado ao empresário russo Konstantin Malofeev. Na prática, ele atua como vínculo entre Malofeev e a direita religiosa norte-americana. O líder da CitizenGo, Ignacio Arsuaga, aparece com frequência em eventos pan-europeus, incluindo a reunião em março do Congresso Mundial de Famílias em Verona, na Itália. De acordo com o portal do WCF, entre seus participantes estivam Salvini, ministro do Interior do Governo da Itália e líder da Liga Norte (de extrema direita), assim como um grupo de políticos húngaros, um alto sacerdote russo e até sua alteza Glória, princesa de Thurn e Taxis (aristocrata alemã).

Segundo o grupo de pesquisa não governamental OpenDemocracy, Darian Rafie, líder de uma organização norte-americana chamada ActRight, também assessora a CitizenGo e ajuda a mantê-la financeiramente. (Para contextualizar um pouco: a página do Facebook da ActRight faz piada da presidenta da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, e pergunta constantemente quanto o presidente Barack Obama pagou para matricular sua “filha maconheira” na Universidade Harvard). Rafie disse a um repórter da OpenDemocracy que tinha “arrecadado muitos fundos” para Trump. Contatos desse tipo não são incomuns: a OpenDemocracy identificou outra dezena de organizações dos EUA que financiam ou apoiam ativistas conservadores na Europa. E não só por lá: Viviana Waisman, da Women’s Link Worldwide, organização de direitos humanos e da mulher com sede em Madri, me contou que costuma se deparar com a linguagem da CitizenGo pelo mundo inteiro. Entre outras coisas, a organização popularizou a expressão “ideologia de gênero” — um termo inventado pela direita cristã e usado para descrever uma grande variedade de temas, da violência doméstica até os direitos dos homossexuais— na África e na América Latina, além da Europa.

Na Espanha, a CitizenGo ganhou fama estampando lemas provocadores em ônibus que percorrem as cidades. As mensagens irritam as pessoas e atraem muita atenção para a CitizenGo e para o Vox. As coincidências entre ambos não são um segredo: nos últimos anos, a organização entregou seu prêmio anual a Abascal, Ortega Smith e outras pessoas que agora são políticos do Vox, assim como a ativistas católicos e ao líder iliberal húngaro Viktor Orbán.

No período prévio às eleições de abril — as primeiras em que o Vox se mostrava como uma formação com chances eleitorais —, o dinheiro, a rede e o talento da CitizenGo mostraram-se muito úteis. Como já havia feito, a organização lançou a campanha “Vote em valores”. Desta vez, os ônibus foram pintados com frases que buscavam menosprezar os líderes de partidos que não fossem o Vox. O grupo criou um site com listas mostrando quais partidos estavam de acordo com seus “valores”, deixando claro que o único que tinha valores era o Vox.

Trata-se de um padrão conhecido na política norte-americana. Assim como nos EUA é possível apoiar os Comitês de Ação Política (PAC, em inglês), que geram publicidade em torno dos temas defendidos por determinados candidatos, agora os norte-americanos, os russos e a princesa de Thurn e Taxis também podem fazer doações para a CitizenGo e, assim, apoiar o Vox. Esse modelo de financiamento não tem sido muito utilizado na Europa. Na maioria dos países, o financiamento político tem limitações. Em alguns deles (não na Espanha), o financiamento externo é proibido. Um grande alvoroço foi gerado ao redor da organização The Movement, de Stephen K. Bannon, que se estabeleceu na Europa para ajudar os candidatos de extrema direita a vencer as eleições. No entanto, embora muitos europeus provavelmente não tenham percebido, os estrangeiros que querem financiar a extrema direita europeia podem fazer isso há muito tempo. O último relatório da OpenDemocracy diz que Arsuaga informou a um jornalista que o dinheiro dado ao seu grupo poderia “indiretamente” apoiar o Vox, já que “hoje” estão “totalmente alinhados”. O dinheiro que organizações como a CitizenGo gastam nas eleições importa menos que as campanhas que organizam nos meses que antecedem esses pleitos. Como disse Arsuaga ao repórter da OpenDemocracy, “ao controlar o entorno dos políticos, você acaba controlando-os também”. O que realmente importa é a batalha pelos valores nos meios de comunicação, na educação, nas instituições culturais e, acima de tudo, nas redes sociais. A Europa, incluindo os países que antes buscavam o consenso — Holanda, Alemanha e agora a Espanha — começam a se parecer mais com os EUA, onde a batalha pelos valores se transformou numa guerra aberta.

Entendendo os vínculos da extrema direita

Quando perguntei a Rafael Bardají sobre o vídeo “Fazer a Espanha grande outra vez”, ele sorriu: “Essa ideia foi minha. Foi uma espécie de piada do momento.” Bardají se uniu ao grupo dirigente do Vox pouco depois de Espinosa e Abascal. Como eles — e como a maioria no partido —, é um ex-membro do PP que acabou desiludido com o centrismo e a moderação. Trabalhou com Aznar no início dos anos 2000 e ficou conhecido como o assessor que mais pressionou para que a Espanha se unisse à invasão dos EUA ao Iraque.

Por isso é considerado “neoconservador”, embora não se saiba ao certo o que isso significa no contexto espanhol. Bardají também ganhou o apelido de Darth Vader, algo que o diverte (colocou a foto do vilão de Star Wars no Twitter). “Fazer a Espanha grande outra vez”, explica, “foi uma espécie de provocação… A intenção era irritar a esquerda um pouco mais.” Este, claro, é um conceito muito familiar. “Faça isso porque ofende o establishment.” “Humilhe os progressistas.” Um clássico sentimento breitbartiano. Sim, Bardají conhece Bannon. E os dois têm um amigo em comum. Mas Bardají acha engraçada a relevância que as pessoas dão para esse fato. Os jornalistas espanhóis, me disse, “dão a Bannon uma importância que ele não tem.”

Não está claro se Bannon, ex-diretor do Breitbart e ex-diretor de estratégia do presidente Trump, influenciou Bardají ou vice-versa. Bardají me disse que teve a oportunidade de visitar a Casa Branca logo depois da vitória de Trump. Disse-me que estava em contato com o conselheiro de Segurança Nacional Michael Flynn e com seu sucessor, H.R. McMaster, e discutiram sobre a primeira visita de Trump à OTAN, bem como sobre o discurso que faria em Varsóvia, aquele em que enfatizou a necessidade de defender o mundo cristão do islamismo radical: “A aspiração de civilizar, o modo pelo qual o Ocidente deve se defender…, estávamos completamente em sintonia”, disse-me Bardají. O número de muçulmanos espanhóis hoje é relativamente baixo — a maioria da imigração espanhola vem da América Latina — e o dos EUA é ainda menor. Mas a ideia de que a civilização cristã precisa se redefinir diante do inimigo islâmico tem, é claro, uma ressonância histórica especial na Espanha, como nos Estados Unidos pós-11 de setembro e pós-Iraque.

Há outros aspectos que revelam que o Trumpworld e o Vox são simbióticos. Bardají, que diz também conhecer Jason Greenblatt, o negociador da Administração Trump no Oriente Médio, tem laços de longa data com o Governo israelense. Bardají me disse que em 2014 organizou para o Vox a visita de um assessor de relações públicas de Israel: “Eu o trouxe da equipe que venceu as eleições para Netanyahu”. Nesse mesmo ano, o primeiro candidato derrotado do Vox para o Parlamento Europeu, Alejo Vidal-Quadras Roca, recebeu uma generosa doação — de mais de 800.000 euros, divididos entre dezenas de doações individuais — da Organização Mundial dos Mujahidin do Povo Iraniano (MEK), uma organização/culto iraniano que se opõe à República Islâmica. O MEK tem uma reputação ambígua em Washington — foi classificado como organização terrorista em algumas ocasiões —, mas tem alguns aliados: tanto o conselheiro de Segurança Nacional John Bolton quanto o advogado de Trump Rudolph W. Giuliani fizeram discursos em seu evento anual em Paris. Esses vínculos compartilhados entre o Vox e a Administração Trump não sugerem uma conspiração, mas sim interesses e amigos em comum há anos. Mais do que qualquer outra coisa, são pessoas que veem que têm inimigos em comum e conseguiram adotar com o tempo uma visão similar do mundo. Assim como Espinosa, Bardají reconhece a polarização da política espanhola e, além disso, pensa que é algo permanente: “Estamos entrando em um período em que a política está se tornando algo mais, é uma guerra com outros meios — não queremos ser assassinados, queremos sobreviver… Acredito que agora na política quem ganha leva tudo. Não é um fenômeno exclusivo da Espanha”.

Bardají diz que, até agora, o Vox foi pequeno demais para orquestrar muita propaganda, e muito menos fazer parte de um movimento internacional: “Fomos um partido pequeno com um orçamento limitado”. Espinosa disse o mesmo, como fez Vidal-Quadras, que me disse que o dinheiro do MEK acabou quando ele deixou o partido. Foi um reconhecimento pessoal por suas lutas passadas. Não há razão para não acreditar neles.

Mas o fato é que muitos outros, na Europa e nos Estados Unidos, têm pressionado e promovido os temas que se tornaram a principal agenda do partido. Como o ex-presidente Aznar disse, o Vox é uma “consequência”, embora não apenas, do separatismo catalão. É também consequência do trumpismo, dos sites de conspiração, das campanhas digitais da alt-right e da extrema direita internacional e, especialmente, da reação conservadora que vem se desenvolvendo em todo o continente há anos.

De certo modo, é a maior das ironias: nacionalistas, antiglobalistas, pessoas céticas em relação às leis internacionais e muitas outras organizações agora trabalham juntos, rompendo fronteiras, por causas comuns. Compartilham contatos. Obtêm dinheiro dos mesmos fundos. Aprendem com os erros uns dos outros, copiam o vocabulário uns dos outros. E estão convencidos de que, juntos, algum dia, vencerão.

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Assange revolucionou o jornalismo e a elite nunca o perdoará

Posted: 15 May 2019 03:21 AM PDT

Robert Bridge [*]

Privado de asilo pelo Equador e procurado pela Suécia e pelos EUA por crimes duvidosos, o fundador da WikiLeaks, Julian Assange, é um dos homens mais perseguidos do planeta, o preço que tem de pagar pela sua devoção à verdade numa era de enganos.

Quando se considera a verdadeira finalidade do jornalismo, resumida pela falecida repórter americana Helen Thomas como “procurar a verdade e aplicar pressão constante sobre os nossos líderes até obter respostas”, torna-se mais compreensível quão inestimável é Julian Assange para antiga profissão. Isto também explica porque algumas pessoas consideram-no uma ameaça profunda.

Nestes tempos cínicos, quando muitos jornalistas estão contentes por servirem como porta-vozes para os poderes instalados, este modesto australiano ocupava-se a expor a superpotência americana quanto a questões relativas a crimes de guerra, tortura e corrupção em alto nível.

Aquela implacável busca da verdade, sem se importar com os riscos pessoais que envolvia, explica porque este jornalista de 47 anos e programador informática está hoje sujeita a tanta fúria e perseguição patrocinada pelo Estado.

Na verdade, a simples perversidade da Embaixada equatoriana de revogar seu asilo humanitário, permitindo dessa forma que as autoridades britânicas prendessem Assange, será recordada como um dos dias mais negros dos anais do jornalismo. E a situação promete piorar. O destino do co-fundador da WikiLeaks pende na balança, com responsáveis britânicos a decidirem se sim ou não o extraditam para os EUA. Uma vez ali, ele poderia enfrentar a pena capital.

Enquanto isso, a Suécia reabriu um processo contra Assange por causa de uma alegação de violação em 2010, um processo em que o sistema legal britânico tem sido acusado de interferência flagrante.

O que isto demonstra é que as potências ocidentais estão determinadas a ensinar uma dura lição para qualquer outra pessoa que considerasse praticar o bom e tradicional jornalismo, para não mencionar a ética, o que é exactamente o que Assange e a WikiLeaks têm estado a fazer. Mas o heroísmo e a bravura não começam e terminam magicamente com Julian Assange. De facto, os heróis reais desta tragédia que se desdobra são os muitos denunciantes –Chelsea Manning, Edward Snowden e William Binney, para mencionar apenas alguns – que assumiram grande risco pessoal ao revelarem milhões de documentos classificados num esforço para provar que alguma violação da lei havia ocorrido ou ainda estava a ocorrer.

Como compensação pelo seu sacrifício pessoal, o qual quase sempre resulta em pesado tempo de prisão, os denunciantes só pedem que os media revelem a informação de modo a que a sociedade civil possa responder consequentemente. Mas os media mainstream parece ter perdido o seu apetite pela confrontação com oestablishment. Na verdade, como poderiam eles não perder quando o próprio establishment possui os media, aferrolhados para o obedecerem ao pé da letra? E se eles possuem os media, então é lógico que eles possuam os repórteres, os quais nada têm em comum com pessoas como Julian Assange.

Hoje, há um tipo muito particular de jornalistas que os media mainstream preferem; pessoas que têm um grande ponto fraco nos seus corações e cérebros quanto a sangue e violência não provocada. Tome-se por exemplo Brian Williams, da MSNBC, o qual em 2017 chamou de “belo” o lançamento de um míssil contra a Síria a partir de um navio da US Navy. Ou o apresentador da CNN Fareed Zakaria que, ao comentar o mesmo ataque de míssil, disse: “Penso que Donald Trump tornou-se presidente dos Estados Unidos na noite passada”. Será a abertura de agressão militar contra um estado soberano o que é preciso hoje para ganhar o apoio dos media mercadores da morte?

Na verdade, os media afastaram-se muito daquele momento dourado em 13 de Junho de 1971 quando o New York Times publicou os 47 volumes do Pentagon Papers, os documentos top secret que revelavam o processo de tomada de decisão na Guerra do Vietname, porque, nas palavras do editor do Times, Arthur Ochs Sulzberger, “o povo ter o direito de saber”.

Compare-se agora aquele apelo ético ao julgamento com o modo como Julian Assange, um jornalista com muitos prémios acumulados, está a ser maltratado hoje exactamente pela mesma publicação quando ela o liga, sem qualquer prova, ao assim chamado escândalo do “Russiagate”, indubitavelmente a mais fantástica teoria da conspiração a captar a imaginação do público desde a Guerra do Iraque. O Reino Unidos contribuiu com a sua parte para enlamear e silenciar Assange, cortando-o da Internet na Embaixada equatoriana após o tweet dele a dizer que a Grã-Bretanha estava empenhada numa “propaganda de guerra” contra a Rússia.

Pessoalmente, acredito que o que está a acontecer em relação a Julian Assange e à WikiLeaks é apenas o último capítulo da “herança” dos media mainstream a tentarem reafirmar o poder e influência que têm estado a perder desde há muitos anos. De facto, a fundação da WikiLeaks em 2006 podia ser encarada como um momento decisivo na moderna história dos media, o ano em que Assange ajudou a revolucionar o trabalho de jornalistas em todo o mundo nos seus esforços para sujeitar autoridades públicas a responsabilizarem-se pelas suas acções.

Contudo, é importante recordar que o nascimento da WikiLeaks não ocorreu num vácuo. Mais ou menos ao mesmo tempo, plataformas de media sociais como o Facebook começaram a aparecer em cena como vanguarda dos geradores de notícias, opinião e informação, como fontes de notícias alternativas internacionais, as quais davam aos consumidores de notícias fontes adicionais de informação vital.

Embora a lógica e o senso comum nos diga que mais informação é naturalmente uma vantagem, pois permite às pessoas tomarem decisões melhor informadas, nem tudo é excitante na paisagem dos novos media, como o lamentável caso de Julian Assange pode confirmar.

Hoje, quaisquer pessoas com espírito aberto, qualquer indivíduo idealista que espera proporcionar um espaço informacional melhor informado e menos concentrado, são encarados como os inimigos de uma tecnocracia rastejante que tem como objectivo trazer todas as notícias e informações para debaixo do seu domínio. Para os monstros do universo dos media, não há qualquer outra opção excepto maior controle uma vez que esta é a única realidade que eles sempre conheceram. E com a tecnologia disponível agora à sua disposição, incluindo a manipulação de algoritmos para controlar o que o público pode ver, o trabalho jornalístico de pessoas como Julian Assange é mais crítico do que nunca. Nada menos do que a verdade está em causa.

14/Maio/2019

Ver também:

https://twitter.com/wikileaks

[*] Jornalista, americano, foi editor-chefe de The Moscow News, é co-autor do livro Midnight in the American Empire, @Robert_Bridge

O original encontra-se em www.rt.com/op-ed/459324-assange-elite-journalism-sweden/

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

Fogos em Portugal: Desastre terreno e aéreo que custa muitos milhões

Posted: 15 May 2019 02:15 AM PDT

Se vem aqui rebuscando apontamentos e acontecimentos relacionados com as ditas Eleições Europeias desiluda-se, não daremos para esse “peditório”. Haverá os que argumentarão que decidimos mal porque a direita avança por toda a UE e também em Portugal. Não analisamos assim.

Ao longo de décadas vimos a direita fascizante representada na Europa e também em Portugal, só que de ano para ano estão mais descarados(as) e dão asas à sua ideologia porque nem sequer os consideram fascistas mas sim neoliberais. Mas fascistas é o que eles(as) são e é aquilo que perseguem e tudo fazem para impor. Na Europa e no mundo. Pronto, lamentamos que não o possamos servir mas sobre “europeia” de campanha rasca, subterrânea e de esgoto não faremos nem uma referência a partir de agora, nem sabemos se votaremos nessas (mal)ditas cujas alcateias de políticos do tipo chulos do Cais do Sodré de antanho demonstram com garbo as suas baixezas e trampas que comportam nos cérebros e nas línguas…

Fogos. Temos de referenciar algo muito mais importante para Portugal e para os portugueses. A hecatombe de Pedrógão e lugares próximos e semelhantes, assim como a serra algarvia de Monchique, por exemplo, estão vivas nas nossas memórias. Foram e são os fogos. Também a maioria de semblantes espantados cabem neste cardápio de catástrofes quando assistimos à “guerra” de políticos sabujos que fizeram cortes cegos na segurança contra fogos e que agora se armam em prostitutas sérias e descascam no atual governo, deixando para trás as responsabilidades que têm em imensas falhas que deram e darão lugar a catástrofes maiores e menores.

 

Não que o atual governo seja exemplar nesse e noutros setores, não é. Perito na impecabilidade foi e é a entregar milhares de milhões à banca. Nisso é que todos os governos do bloco central e ilhargas apostaram e têm sido competentíssimos. O de Costa também aplica a mesma “escola”… mas diz-se de esquerda. E existem imensos papalvos a acreditar nisso. Provavelmente até Costa acredita nisso quando se olha pela manhã ao espelho, apesar de sabermos que quem se governa em Portugal são as grandes corporações e certos e incertos “filhotes” do espectro político-partidário que mantém vivaço o tal bloco central, amigo de uns quantos a fazerem fortunas, em prejuízos das populações, dos trabalhadores, do povo ou ralé que é a sustentação deste país e desses tais dignos personagens do tipo chulos do Cais do Sodré.

E é disso que a talhe de foice vamos pôr a lavrar seguidamente. Notícia da Lusa na TSF, sobre meios aéreos… Falta dizer que aquilo é um grande negócio e que amiúde se ouve palrar sobre incêndios inesperados que surgem após passagens de aviões e outras “aves” que voam. Não custa acreditar se olharmos para o panorama de vigaristas e criminosos que nos assolam com esquemas que só depois de desmascarados nos permite cair de quatro na realidade…

As elites em Portugal e pela UE estão podres, purificá-las só se arderem. Como as matas, como as florestas, como os animais apanhados nos fogos, as casas, as pessoas.

Fogos em Portugal pela canícula são um permanente desastre terreno e aéreo… mas a alguns dará milhões. Pelo menos milhares, se forem muitos os “premiados”. Que ardam também. E neste termo “arder” queremos dizer realmente que desapareçam.

Redação PG

Incêndios: Só 21 dos 38 meios aéreos previstos estão disponíveis este mês

No dia em que o risco de incêndioaumenta consideravelmente, o Governo assumiu não ter todos os meios aéreos que estavam planeados. O número total de aeronaves previstas estará apenas preparado em junho, segundo estimativas do Governo

O dispositivo de combate a incêndios deste ano prevê 38 meios aéreos disponíveis a partir desta quarta-feira, mas só 21 vão estar operacionais. O Governo estima que em junho todos os meios aéreos estarão aptos para utilização.

À TSF, o Ministério da Defesa assumiu que há 35 meios aéreos adicionais e ainda três helicópteros do Estado, que dependem do aval do Tribunal de Contas. No entanto, o Executivo salientou que, de 15 de maio de 2018 para o mesmo dia deste ano, há mais 13 aeronaves à disposição.

A Diretiva Operacional Nacional, que estabelece o Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais (DECIR) para este ano, indicava que a fase de reforço de meios “nível II”, que decorre até 31 de maio, teria disponível 38 meios aéreos, inclusive um helicóptero da Força Aérea, que será ativado em caso de necessidade para coordenação aérea.

No entanto, faltam 17 aeronaves, cuja disponibilização “depende do cumprimento do Código dos Contratos Públicos e da emissão do visto prévio do Tribunal de Contas para cada um dos contratos”, disse à agência Lusa fonte do Ministério da Defesa Nacional (MDN), e sustentou que existe “a expectativa de que os meios aéreos possam estar disponíveis o mais rapidamente possível”.

A mesma fonte precisou que a partir desta quarta-feira estão disponíveis 20 meios aéreos, cujos contratos de aluguer foram feitos em 2018, pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, e que se prolongam até este ano, a que se adiciona o helicóptero da Força Aérea, num total de 21.

A fonte do MDN adiantou que estão ainda operacionais outros dois meios aéreos alocados em 2018, mas o contrato só permite que fiquem disponíveis a partir de 1 de junho.

Os meios aéreos que estão dependentes do cumprimento do Código dos Contratos Públicos e da emissão do visto prévio do Tribunal de Contas são os três helicópteros ligeiros do Estado e as 35 aeronaves adicionais alugadas este ano.

Segundo o MDN, o contrato plurianual (2019-2022) relativo aos três helicópteros do Estado foi assinado a 16 de abril, e enviado ao Tribunal de Contas a 22 do mesmo mês, quando se iniciou a execução do contrato “logo após a emissão do visto, estimando-se que aconteça em junho”.

O Ministério da Defesa Nacional adianta que os contratos dos 35 meios aéreos alugados este ano, cujo contrato se estende até 2021, e que vão integrar o DECIR, devem ser enviados esta quarta-feira para o Tribunal de Contas.

A mesma fonte esclareceu que os procedimentos para a locação dos 35 meios aéreos adicionais terminaram dentro dos prazos inicialmente previstos, sendo que nenhum dos nove lotes a concurso ficou deserto.

“De acordo com o Código dos Contratos Públicos, terminou na semana passada o período para a apresentação dos documentos de habilitação e o envio das garantias bancárias para os contratos referentes a cada um dos noves lotes”, referiu.

O MDN frisou que “a execução dos contratos inicia-se logo após a emissão de cada um dos vistos, estimando-se que estejam igualmente disponíveis em junho”.

O Governo espera que, “gradualmente, e, a partir de junho, estejam disponíveis e operacionais todos os meios aéreos previstos no DECIR 2019”, além de garantir que “tomará todas as medidas ao seu alcance para que haja meios suficientes e prontos para atuar quando necessário”.

O dispositivo de combate a incêndios conta este ano com 61 meios aéreos, inclusive um helicóptero para Madeira, mais cinco do que em 2018.

Este ano, a Força Aérea assume pela primeira vez a gestão e o comando dos meios aéreos de combate a incêndios rurais.

O Ministério da Defesa Nacional referiu ainda que a locação dos meios aéreos adicionais para o DECIR de 2019 corresponde, na íntegra, à proposta apresentada pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, e que é o ano com “o maior dispositivo” de aeronaves de combate a incêndios”.

TSF com Lusa

Portugal | Comissão avalia em 5.000 milhões as rendas excessivas no setor elétrico

Posted: 15 May 2019 12:49 AM PDT

A comissão parlamentar de inquérito avalia em cerca de 5.000 milhões de euros as rendas excessivas no sistema elétrico, resultado da política de sucessivos governos do PS, PSD e CDS, muitas vezes ao arrepio dos alertas das entidades reguladoras.

“A primeira conclusão da Comissão de Inquérito é a da existência de rendas excessivas no Sistema Elétrico Nacional, identificadas como uma sobre-remuneração dos ativos de vários agentes económicos presentes na cadeia de valor da produção, transporte e comercialização da energia elétrica em Portugal”, lê-se no relatório final que hoje será votado na comissão parlamentar de inquérito ao pagamento de rendas excessivas aos produtores de eletricidade.

De acordo com o documento a que a Lusa teve acesso, “esta tese ficou inteiramente consolidada na generalidade das audições realizadas, com poucas exceções, pese as opiniões diversas sobre o seu valor, a sua origem e a própria noção de renda excessiva”.

“A dimensão das rendas excessivas é avaliada pela comissão de inquérito em cerca de 5.000 milhões de euros”, refere o relatório, que incorpora várias alterações à versão preliminar, considerando ser “necessário que o poder executivo e os reguladores tomem as medidas necessárias à sua completa eliminação”.

 

Dos 5.274 milhões de euros identificados, segundo o documento, 4.063 milhões de euros são prejuízos para os consumidores e 1.211 milhões de euros para o Estado, sendo a prorrogação do prazo da concessão de Sines à EDP (951 milhões de euros) e o sobrecusto da produção em regime especial (810 milhões de euros) as que apresentam um peso maior no total.

Segundo o relatório final, redigido pelo deputado do BE Jorge Costa, “as rendas excessivas, qualquer que seja a sua origem e natureza, não são fruto do acaso ou de simples ou complexas operações à margem das leis pela EDP e outros operadores do sistema elétrico”.

Pelo contrário, “resultaram de decisões políticas e administrativas do poder político, enquadradas por uma estratégia económica e energética bem definidas e conhecidas, traduzida em legislação e outros atos regulamentares do Estado, nomeadamente legislação regulatória permissiva e favorável aos interesses do capital privado”.

“Acrescente-se decisões e medidas, muitas vezes ao arrepio dos alertas e propostas das entidades reguladoras, como a ERSE [Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos] e a AdC [Autoridade da Concorrência]”, adianta.

Segundo o documento, nos processos de privatização da EDP e de liberalização do mercado, “foi gravemente subvertido, por opção política deliberada, o princípio constitucional de subordinação do poder económico ao poder político, antes se verificando precisamente o contrário, com o poder económico a determinar o que o poder político deveria fazer”.

“Cabe registar em síntese que estes comportamentos de profunda promiscuidade e subordinação do poder político ao poder económico — bem evidenciadas em sucessivas audições na comissão — se traduziram inevitavelmente em vultuosos prejuízos para o Estado e o interesse público”, refere.

O relatório considera ainda que a demissão de dois secretários de Estado da Energia – Henrique Gomes do Governo PSD/CDS e Jorge Seguro Sanches do Governo PS – foi “a consequência inevitável de cada um, à sua maneira, levar a cabo um processo de saneamento das rendas excessivas, afrontando os interesses económicos poderosos do setor da energia”.

Notícias ao Minuto | Lusa

Portugal | PS e Bloco pedem atenção do Ministério Público a declarações de Berardo

Posted: 15 May 2019 12:37 AM PDT

Os deputados João Paulo Correia (PS) e Mariana Mortágua (BE) pediram hoje a atenção do Ministério Público (MP) sobre a audição parlamentar ao empresário Joe Berardo, tendo os restantes partidos remetido o assunto para o relatório final.

Em declarações à Lusa no parlamento, o vice-presidente da bancada parlamentar do PS disse esperar “que o Ministério Público atue” relativamente aos empréstimos concedidos ao empresário, especialmente “naquilo que diz respeito à Caixa, que é um banco público”, bem como na questão da Associação Coleção Berardo, que “merece o escrutínio da Assembleia [da República] e a investigação do MP”.

“Contamos que o MP tenha estado muito atento à audição da passada sexta-feira, e que essa audição tenha fornecido bons elementos para o MP continuar a desenvolver a sua investigação”, disse João Paulo Correia.

O responsável parlamentar do PS ressalvou, no entanto, que “o inquérito parlamentar não se pode substituir à Justiça e ao Ministério Público”.

 

Ideia semelhante foi partilhada por Mariana Mortágua (BE), que sobre a questão da Associação Coleção Berardo, acrescentou que “é uma das matérias que é preciso investigar” de forma “aprofundada”, pois é um caso “em que são alterados os estatutos à revelia dos credores e em que há um aumento de capital sem comunicar aos credores”.

Segundo Joe Berardo, os títulos da Associação Coleção Berardo, que foram entregues aos bancos como garantia de empréstimos e que valiam 75% da associação, perderam valor num aumento de capital feito posteriormente, à revelia dos bancos credores.

Da audição de sexta-feira não se compreendeu quanto é que, de momento, os bancos credores detêm na Associação Coleção Berardo.

“Já houve um pedido para um reforço de informação sobre os estatutos e sobre todo este processo, para que seja enviado à comissão, e todas as conclusões da comissão serão enviadas ao MP e, portanto, eu penso que isto deve ter uma sequência ao nível do MP”, disse à Lusa Mariana Mortágua.

Os outros partidos foram mais comedidos na sua referência ao Ministério Público, com o PCP, pela voz do deputado Duarte Alves, a dizer que “está a ponderar todos os instrumentos que estão à sua disposição”, mencionando ainda os documentos prestes a ser recebidos.

Pelo CDS-PP, a deputada Cecília Meireles centrou a sua declaração à Lusa no requerimento feito hoje pelo seu partido, que pediu “acesso aos documentos respeitantes à Associação Coleção Berardo, para perceber, afinal, qual é a situação da associação e qual é a situação da coleção”.

Sobre o Ministério Público, a deputada disse que é uma questão “para se ponderar na altura do relatório final” da comissão, uma vez que ainda estão a ser recebidos documentos.

Já pelo PSD, o deputado Duarte Marques também remeteu uma eventual comunicação ao Ministério Público para o relatório final, mas disse que “houve muitas dúvidas que foram confirmadas” na audição a Berardo.

Notícias ao Minuto | Lusa | Foto: Global Imagens

Portugal | Quem fez Joe Berardo?

Posted: 15 May 2019 12:23 AM PDT

Mariana Mortágua | Jornal de Notícias | opinião

José Berardo integrou um exclusivo grupo de banqueiros e gestores que cresceram à sombra do privilégio da finança nos anos da farra bolsista, que construíram fortunas com créditos bancários e rendas do Estado, que beneficiaram do beneplácito geral e da estreita cumplicidade dos meios políticos do bloco central (em que se inclui o CDS).

Zeinal Bava, Hélder Bataglia e José Berardo, todos condecorados pelos seus méritos empresariais. Berardo, no pico da crise acionista do BCP, chegou mesmo a ser considerado pelo comentador Marcelo Rebelo de Sousa a figura empresarial do ano. Uma lista de personalidades que poucos contestaram, e os que se atreveram foram acusados de “preconceito ideológico” contra banqueiros e seus derivados. Uma lista que não pára de aumentar, e à qual podemos acrescentar outros nomes, como o de Ricardo Salgado ou de Nuno Vasconcellos, da Ongoing. Uma lista que saiu muito cara ao país.

O processo de ascensão social e económica de Berardo está ligado ao Estado. Por um lado, a Caixa emprestou mais de 300 milhões para a compra de ações do BCP. Por outro, o Estado aceitou financiar a coleção de quadros de Berardo, pagar as despesas da sua manutenção, e expô-la numa das mais prestigiadas montras culturais do país, valorizando-a. Durante anos o Bloco criticou esse protocolo e questionou o seu preço para as contas públicas, sem sucesso.

 

Em 2016, já depois de ser pública a penhora de 75% dos títulos da ação Coleção Berardo por três bancos, o Ministério da Cultura renovou o protocolo com a Coleção, afirmando publicamente que não tinha conhecimento de qualquer penhora sobre as obras. Pela mesma altura, José Berardo e o seu advogado punham em prática um golpe jurídico para chamar novos acionistas (por si controlados, suponho) à Associação Coleção Berardo, diluindo a posição dos bancos credores. E como se tudo isto não fosse mau demais, o Estado ainda aceitou perder a opção que tinha de comprar a Coleção a um preço fixo determinado em 2006, tendo agora que se sujeitar à chantagem de Berardo e ao preço de mercado de obras que valorizam graças ao CCB e ao investimento do Estado.

Pelo meio, cumpre dizer que a Fundação José Berardo não pagou impostos pelos lucros que fez em Bolsa porque é, imagine-se, uma IPSS.

As burlas têm de ser julgadas, as dívidas têm de ser cobradas, e os ex-administradores punidos em caso de irregularidades ou gestão danosa. Mas tudo parece pouco para aplacar o sabor amargo da injustiça, num país que insiste em desconfiar mais de pobres que de banqueiros charlatões.

*Deputada do BE

No país dos assassinos | Conan com pipocas e o ‘festi’ que não vale

Posted: 14 May 2019 11:38 PM PDT

Na noite passada realizaram mais um dos ditos festivais da eurovisão, estranhamente Israel passou a fazer parte da Europa por uma questão de propaganda e sabemos lá o que mais.

Aquele ‘festi’ vale o que vale. Nada. Portugal lá foi para o país que assassina aos molhos palestinianos, sem se fartar, recorrendo aos canhenhos dos nazis que vitimaram milhares ou muito mais que isso, dos seus antepassados por serem judeus. Porém os que sobreviveram não aprenderam nada acerca da importância da vida e da sua inviolabilidade, pelo visto até concordam com genocídios desde que não sejam eles a serem vítimas mas sim os povos que moram a seu lado ou outros que mesmo à distância os incomodem ou porque lhes dê na criminosa gana.

Voltando ao representante português no dito ‘festi’ que não vale. Dizem que até cantou bem mas que não alegrou os que tiveram a tarefa de votar. O artista é português mas deu ares (e dá?) de vir de outro planeta. Também o nome artístico nada tem de português: Conan… Talvez se trate de alguém que na infância ficou apanhado pelo astro filmico com esse nome, parece que um herói da tela e da BD. Preparem-se, porque talvez apareçam por aí mais artistas com nomes do tipo Katsushiro, Limpópo e etc.

 

Sem desprimor para o respeito que o artista – tão bem ‘artilhado’ na foto – merece, nada podemos dizer da sua qualidade porque nunca o ouvimos nem vimos, só o achamos esquisito, talvez até ridículo. E essa sensação vai do nome que escolheu às vestes tão estranhas e feiosas. Porém, gostos não se discutem e a importância do tal festival já foi uva que deu vinho. Pena que haja quem perca tempo com aquela coisa, como se estivéssemos nos tempos fascistas de Salazar e mais e melhor não houvesse para poder desfrutar.

No fim de contas, para abreviar, há opinião de que Conan foi bom na sua interpretação festivaleira e bem representou Portugal. Disso há prova no Instagram em “apipocamaisdoce” (que raio de nomes com que tropeçamos), como podem confirmar na mensagem junto à imagem estranha de vestes de além mundo. Que no inicio também ninguém gostava do António Variações… Olhem que isso não aconteceu assim. De todo. Era estranho, mas cativava. E a sua qualidade era soberba, como ainda podem confirmar. Não parece que este Conan se fique por aí, tão extraterrestre, estranho e de vestes feiosas.

Cada um tem a sua opinião. Talvez por isso possam vir a admirar-se se este Conan não desaparecer do mapa das inclusões das editoras, das produtoras, TVs, da comunicação social rosa e azulinha bebé. Os mais idosos, quase a baterem as botas, o que pode deixar é uma mensagem de encorajamento ao Conan e a propor que seja mais moderado nas vestes, menos chocante, menos de outro mundo, menos do “antigamente”. Sim, porque não são ‘prafrentex’. Nem pó. Ah, e mude de nome, credo. Osiris (só) até nem é tão mau…

Saúde e êxitos futuros para o Conan e todos os outros Conans é o que se deseja. Perder ou ganhar aquele dito festival não tem importância porque ele não é mesmo nada importante. Até é bolorento. Credo!

Redação PG

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Publicado por

chrys chrystello

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção e da comissão executiva da AICL