O urso, o galo de crista e a catarse. JOÃO SIMAS

O urso, o galo de crista e a catarse.

Insisto no urso. Isso é que deveria ter sido a grande notícia. Um jornal da nova moda europeia deveria ter posto a seguinte notícia:
“Emigrante clandestino entra em Portugal de unhas afiadas e consome 50 quilos de mel sem pagar, destruindo colmeia no interior nordestino, andando a monte e fintando as autoridades.”
Se fosse um jornal humorístico talvez a notícia fosse outra:
“ Berardo ri dos deputados e dos papalvos a bandeiras despregadas, diz que é pobre e amante das artes e voltará a fazer o mesmo a bem da Nação”;
“Maduro diz que Portugal reteve mais de mil milhões de dólares no Novo Banco. “Olhó Maduro”. Querias? Querias!”
Uma televisão séria de uma nova religião dominante (qual Fátima, isso tem pouco interesse) diria:
“Nova injeção de capitais públicos no BES. Cidadãos responsáveis aplaudem e pedem mais. Têm a solidariedade das Ilhas Caimão, do Grão Ducado do Luxemburgo e da confederação Helvética”
Um jornal quase sério, daqueles que, no desespero, foram substituídos por tablets e a quem ninguém liga, poderia dizer:
“ O Banco de Portugal recebeu umas centenas de milhões de dividendos e o governo vai utilizá-los para financiar a economia alemã”.
Mas qual quê? O tema foi os professores. Foi a catarse! Parecia o dia da expiação dos pecados. Se fosse na Idade Média davam açoites a si próprios e caçavam uma bruxa. Hoje não. São mais cultos, mais instruídos, passaram pela escola. Daí centrarem-se nos professores e massacrarem os cidadãos portugueses até à hora de deita, e já bem adiantada. Não houve cão nem gato que não falasse, até o galo do campo, que não desse opinião baseada na opinião dos outros ou na contradição encenada ou vice-versa. Foi todo o dia, prolongando-se pela madrugada. Até se esqueceram da Venezuela, do Trump, do chinês e do russo e quase das opiniões sobre os árbitros de futebol! Só animais em vias de extinção não se pronunciaram: o urso lambão, o lince sorrateiro de orelhas pontiagudas e as cabras montesas e saltitantes do Gerês desfrutando as ervinhas da Primavera e pouco mais.
Entretanto António Costa, que não está ainda em vias de extinção, desta vez com ar sério, apareceu com a crista (no singular), canta de galo, passou com as suas legiões pelo Arco do Triunfo e pensa que o futuro vai ser sempre assim: “Veni, vidi, vici”. Também o outro disse isso e já cá não está, ao contrário do urso caminhante que estava extinto e regressou.
Foi uma espécie de dia de liturgia. Ao opinarem todos se lembravam daquele professor de 8º ano de Matemática que os punha a fazer contas, do professor de história de 9º que os mandava estudar as revoluções francesa e soviética e a quem eles chamavam uns nomes no intervalo, da professora de português que os punha a analisar o Padre António Vieira e o Fernando Pessoa (uns aborrecidos fora de moda: “vai chatear o Camões”!), a de ciências (a bruxa) e da outra professora que pôs o menino na rua por ter dado um apalpão na colega (como se não houvesse liberdade!). Alguns mais velhos, ainda recordam a bondade e os métodos da professora da escola primária que lhes dava umas reguadas e uns puxões de orelhas: mas esses eram merecidos e de qualquer forma já cá não estão. O que interessa são os que andam por aqui agora, já não são como antes e alguns nem deixam os nossos filhos divertir-se a fazerem o que querem: eu pago impostos para lá estarem, porque eu trabalho (a dar opiniões, “por supuesto”).
Hoje está tudo de ressaca e não há tempo para grandes investigações (nos outros dias também há dificuldades). O telejornal da uma abriu as notícias com mais uma entrevista com o “entertainer” Juan Gaidó que promete pela milésima vez que agora é desta.
Neste fim de semana bipolar parece que o urso está a fazer a digestão do mel, com a barriga ao sol e aproveitando o dia que o Senhor deu para descansar.

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Publicado por

chrys chrystello

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção e da comissão executiva da AICL