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A estratégia de Trump contra a Rússia e a China

Posted: 07 Nov 2018 11:06 AM PST

Os Generais James Mattis (Secretário da Defesa) e Joseph Dunford (Chefe do Comissão de Chefes do Estado-maior)

Alfredo Jalife-Rahme*

A guerra na Síria mostrou que as Forças Armadas dos EUA perderam a sua superioridade em matéria convencional em favor da Rússia. O desenvolvimento por Moscovo de uma nova geração de vectores nucleares hipersónicos atestaria igualmente a ultrapassagem aos Estados Unidos em matéria nuclear. Procurando recuperar o seu atraso, o Pentágono pretende aproveitar-se —enquanto ainda é tempo— da sua superioridade quantitativa nuclear para impor as suas escolhas à Rússia e à China.

Si vis pacem, para bellumn [1]

A revista Foreign Affairs, do influente Council on Foreign Relations, acaba de expor cruamente o debate em curso sobre uma guerra nuclear que os EUA poderiam desencadear contra a Rússia e a China [2].

Antes de mais, surge um artigo de Elbridge Colby –um dos principais autores da Estratégia de Defesa Nacional do Pentágono [3], que proclama o fim da guerra efectiva contra o terrorismo e o retorno da concorrência entre as grandes potências– tendo como palavra de ordem estratégica : «se queres a paz, prepara-te para a guerra nuclear» [4].

Colby, o Secretário-adjunto encarregue da estratégia e do desenvolvimento da força, adverte : qualquer confronto com a Rússia e com a China poderia tornar-se nuclear se, no decurso de um combate mais duro, e tornando-se mais incerto, cada um dos combatentes seja tentado a sacar da sua espada nuclear para testar a determinação da parte adversa, para enfrentar o desafio, ou simplesmente para poder continuar o combate.

Segundo Colby, o melhor meio para evitar uma guerra nuclear é estar preparado para travar uma de carácter limitado (sic); e os EUA estão dispostos a realizar operações nucleares eficazes (sic), bem como limitadas.

André Damon, do sítio trotskista WSWS [5] retoma a análise sobre a ameaça de Trump em retirar os EUA do Tratado INF, sobre as Forças Nucleares Intermédias [6], que interdita aos EUA e à Rússia desenvolver misseis com alcance entre os 500 e 5. 500 km.

Damon considera que a ameaça de Trump põe em risco as vidas de milhões de pessoas na Europa e na Ásia Oriental, ao planear (planejar-br) um fogo cruzado contra Pequim e contra Moscovo. E, os EUA já não escondem o desejo de utilizar armas nucleares nos seus combates, onde não mais haveria nenhum limite, com o objectivo de vencer os «adversários».

Damon acrescenta que estes planos se realizam, em segredo, com a cumplicidade do New York Times e do Partido Democrata, o qual permaneceu quase em silêncio quanto às consequências e ao perigo de uma guerra mundial.

George Shultz, o poderoso Secretário de Estado sob a presidência republicana de Ronald Reagan, defende o INF: «nós devemos preservar este tratado nuclear», afirma [7].

Shultz salienta que as armas nucleares são uma ameaça para o mundo, e faz a justificada apologia da assinatura do Tratado, em 1987, por Ronald Reagan, o Presidente republicano de então, e pelo dirigente da ex-URSS Mikhaïl Gorbatchov [8].

Ele critica as ameaças de Trump de sair do INF, sob o pretexto de violações da parte da Rússia, e aproveita a ocasião para convidar outros países a juntarem-se aos signatários do Tratado, e a resistir à tentação dos EUA de desenvolver novos tipos de armas letais; ele propõe para isso, como etapa preliminar, uma reunião de especialistas dos EUA e da Rússia afim de debater eventuais violações.

À época, o Tratado havia suscitado um enorme cepticismo, mas George Schultz argumenta que era possível realizar «inspeções amplas in situ para verificar se todos os mísseis interditos haviam sido realmente eliminados». E já em 1992 cerca de 2. 700 mísseis tinham sido destruídos [9].

Shultz cita, a este propósito, uma frase chave do czar Vlady Putin proferida há um ano: «se me perguntam se o desarmamento nuclear é possível ou não, eu direi que sim, é possível. Deseja ou não a Rússia o desarmamento nuclear universal? A resposta é sim, ainda outra vez, se a Rússia o deseja, ela vai trabalhar para isso».

Shultz lembra que na Revisão da Posição Nuclear dos EUA [10], publicada em fevereiro passado, uma das citações era : «os EUA continuam comprometidos nos seus esforços para apoiar a eliminação global, em última instância, das armas nucleares, biológicas e químicas».

Os EUA reduziram as suas reservas nucleares num nível de 85%, desde o auge da Guerra Fria, e não instalaram novas capacidades nucleares durante mais de duas décadas» [11]. O antigo Secretário de Estado de Ronald Reagan conclui que este não é o momento de construir grandes arsenais de armas nucleares. É tempo de eliminar esta ameaça do mundo inteiro.

O pior seria acreditar que a Rússia e a China ficarão de braços cruzados.

Alfredo Jalife-Rahme* | Voltaire.net.org | Tradução Alva | Fonte La Jornada (México)

* Professor de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Nacional Autónoma do México (UNAM). Escreve artigos sobre política internacional no jornal La Jornada. Último livro publicado: China irrumpe en Latinoamérica: ¿dragón o panda? (Orfila, 2012).

Notas:

[1] «Se queres a paz, prepara a guerra»

[2] “What’s Inside. Nearly three-quarters of a century into the atomic age, it is sobering to consider how little we really know”, Gideon Rose, Foreign Affairs, November/December 2018.

[3] «La nueva estrategia de defensa del Pentágono entierra cualquier cooperación con Rusia», Sputnik, 20 de Enero de 2018.

[4] “If You Want Peace, Prepare for Nuclear War. A Strategy for the New Great-Power Rivalry”, Elbridge Colby, Foreign Affairs, November/December 2018.

[5] “US missile treaty withdrawal: “Prepare for nuclear war””, Andre Damon, WSWS, October 24, 2018.

[6] «Embajadora de EU en la OTAN amenaza a Moscú con una guerra. Afirma que los misiles rusos violan el tratado INF», Alfredo Jalife-Rahme, La Jornada, 7 de Octubre de 2018.

[7] “We Must Preserve This Nuclear Treaty”, George P. Shultz, The New York Times, October 25, 2018.

[8] “A Casa Branca prepara o regresso dos euro mísseis”, Manlio Dinucci, Tradução Maria Luísa de Vasconcellos, Il Manifesto (Itália) , Rede Voltaire, 28 de Outubro de 2018.

[9] “Factsheet INF Treaty: At a Glance”, Bureau of Arms Control, Verification and Compliance, US Department of State, December 8, 2017.

[10] «“Revisión de la postura nuclear” del Pentágono: EU contra Rusia y China», Alfredo Jalife-Rahme, La Jornada, 18 de Febrero de 2018.

[11] Nuclear Posture Review 2018. US Defense department, January 2018.

O subemprego está em alta na Alemanha

Posted: 07 Nov 2018 10:52 AM PST

Levantamento revela que um em cada cinco alemães recorre a empregos com salários de até 450 euros, muitas vezes para complementar a renda. Políticos da oposição acusam governo de financiar empresários gananciosos.

Novos dados do governo federal da Alemanha revelam que um em cada cinco cidadãos trabalha nos chamados “miniempregos”, nome dado no país a trabalhos informais que pagam salários de até 450 euros por mês.

O levantamento da Agência Federal de Empregos da Alemanha, divulgado neste sábado (03/11) pelo jornal Rheinische Post, demonstra que o número de alemães que recorrem a subempregos aumentou em 50 mil em apenas um ano. O estudo foi realizado a pedido de parlamentares do partido A Esquerda.

Na Alemanha, um país que se orgulha de seu baixo índice de desemprego, a quantidade de pessoas que possuem trabalhos regulares mas recorrem aos “miniempregos” para complementar seus rendimentos aumenta em número significativo.

Na última quarta-feira, um relatório divulgado pelo Departamento Federal de Estatísticas da Alemanha (Destatis) afirmava que 20% dos alemães estão ameaçados pela pobreza, enquanto o custo de vida aumenta em ritmo bem mais rápido do que os salários.

A reportagem do Rheinische Post afirma que, apesar da introdução do salário mínimo na Alemanha em 2015, os empresários continuam a obter vantagens com a isenção tributária sobre os trabalhos de remuneração menor do que 450 euros mensais.

Em março deste ano, 7,5 milhões dos 32,7 milhões de empregos que pagam contribuições para o sistema de bem-estar social foram classificados como subempregos. Isso representa um aumento de 35% em comparação com os números registrados há 15 anos. Além disso, cerca de 8,5% (2,8 milhões) das pessoas que possuem emprego em tempo integral também recorrem aos “miniempregos”, o que corresponde a um milhão a mais do que há 10 anos.

Os subempregos prevalecem especialmente entre os aposentados, cujos rendimentos mal cobrem suas despesas. Nos últimos seis anos, o número de pessoas nessas condições aumentou em 27%.

“O número de miniempregos aumenta enquanto os trabalhos regulares estão sendo substituídos”, afirmou a parlamentar Susanne Ferschl, do partido A Esquerda, cuja bancada de parlamentares no Bundestag (Parlamento alemão) requisitou a realização da pesquisa.

“As pessoas com nível de educação mais alto e que trabalham em subempregos não conseguem viver de seus rendimentos e dependem da ajuda do governo. O Estado, então, subsidia empresas que economizam em salários através dos miniempregos”, afirmou Ferschl.

Atualmente, o salário mínimo na Alemanha é de 8,84 euros por hora trabalhada, devendo ser aumentado para 9,35 euros em 2020. O ministro alemão do Trabalho, Hubertus Heil, defende que, após o novo valor passar a valer, o mínimo deve ser aumentado para 12 euros por hora num prazo mais curto.

RC/dw/afp | Deutsche Welle

Brasil | Bolsonaro e o controle da verdade

Posted: 07 Nov 2018 10:25 AM PST

Primeira análise de um discurso. Em curiosa tentativa de desconcertar o jornalismo, ex-capitão diz e desdiz, o tempo todo. Escolha sua própria verdade. Você finalmente será livre — para segui-lo

Ricardo Alexandre | Outras Palavras

“Jair Bolsonaro é evangélico”, afirmava um. “Não, ele é católico romano”, dizia o outro. “Não, eu vi o vídeo dele sendo batizado por um pastor da Assembléia”. “Mas eu vi uma entrevista na qual ele dizia que era católico”. “Mas quem fez o casamento dele foi o Malafaia”. “Mas ele continua sendo católico”.

Não eram minhas tias conversando no almoço de família. Era um comentarista político e um especialista em marketing político discutindo com o microfone ligado, sobre a religião do então candidato a presidente. Em um país em que 60% declara que “jamais” votariam em um ateu, a religião é fator fundamental também na identidade de um personagem público.

Pois até nesse ponto Jair Bolsonaro trabalha em regime de contrainformação. Sua religião é assunto tão envolto em fatos e versões que a Folha produziu um conteúdo para tentar esclarecer seu leitor (link nos comentários).

A tradição religiosa do presidente eleito é apenas um exemplo do que os americanos batizaram de “pós-verdade”. Dizer que ele é evangélico não seria uma mentira. Dizer que ele é católico também não é. Também não são verdades, são pós-verdades.

“Pós-verdade” foi a “palavra do ano” de 2016 segundo o dicionário Oxford, para designar algo “relativo a ou denotando circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influenciadores da opinião pública do que apelos à emoção ou crenças pessoais”.

Em outras palavras: se você acredita que Bolsonaro é evangélico, você vai ter quilos de vídeos, declarações e pastores para passar a vida compartilhando e comprovando o que você já acreditava; se pensa que ele é católico, também. É isso que importou na campanha de Donald Trump (quando a palavra “pós-verdade” foi inventada) e é isso que importa na comunicação de seu discípulo brasileiro, Jair Messias Bolsonaro.

No caso do brasileiro, ao ser abraçado por líderes neopentecostais como Silas Malafaia, Estevan Hernandes, Ana Paula Valadão e Edir Macedo, entrou na receita um componente bastante próprio dessa tradição do evangelicalismo brasileiro, perfeitamente compreendido pelos fiéis: a ênfase e a convicção são muito mais importantes do que o conteúdo. Em outras palavras, como e quão violentamente (ou defendemos algo) passou a ser a questão, muito mais do que está sendo dito. A jornalista Eliane Brum escreveu um artigo muito interessante a esse respeito, “Bolsonaro e a autoverdade” (link nos comentários).

Bolsonaro ditou completamente a agenda política de 2018. Concordo com Eduardo Jorge e Ciro Gomes, quando dizem que o capitão foi fruto direto do “nós contra eles” do petismo. Mas a novelinha de Lula candidato foi só uma patética tentativa de desviar o foco de quem sempre esteve no centro do palco: Jair Bolsonaro. Foi ele e seus filhos quem deram as cartas do noticiário o tempo todo, com declarações bombásticas, desmentidos e aparente bateção-de-cabeça. O ex-assessor de Donald Trump e líder do grupo de direita nacionalista The Movement, Steve Bannon, disse que essa “linguagem provocativa” é a tática ideal para alguém “conseguir ser ouvido em meio ao barulho”, chamar a atenção à margem de uma mídia que nunca o levou à sério. “Hoje, a política é, na realidade, uma narrativa midiática”. (Leia o link nos comentários).

Entretanto, eleito presidente, Jair Bolsonaro não parece satisfeito em apenas construir uma narrativa midiática. Ele, seus filhos e seus diretos continuam monopolizando a mídia, mas seu mais ambicioso controle não é mais sobre a imprensa; é sobre a verdade.

Reflita comigo: qual a conexão do versículo bíblico que ele usou em seu primeiro pronunciamento como presidente (“Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”) com o conteúdo em si? Até onde vai minha capacidade de interpretação de texto (Leia a íntegra no link nos comentários), não há conexão nenhuma, a menos que você considere a possibilidade de estar diante de um homem se apresentando ele mesmo como a verdade ou, no mínimo, porta-voz da versão que deve ser entendida como a verdade.

Mas, como também está na Bíblia, na boca de Pôncio Pilatos, “O que é a verdade?” Será a verdade, captada em vídeo, do próprio Bolsonaro anunciando que Antonio Fraga iria “coordenar a bancada lá no Planalto” apesar de ser condenado por corrupção? Ou seria o mesmo presidente, no Twitter, escrevendo que “nossos ministérios não serão compostos por condenados por corrupção como foram nos últimos governos”? Seria o vice Mourão dizendo que Sergio Moro sabia do convite ao Ministério da Justiça desde a campanha? Ou o próprio Moro dizendo que não sabia? Seria Bolsonaro anunciando a fusão dos ministérios do Meio Ambiente e Agricultura ou ele voltando atrás? Ou ele anunciando novamente ou voltando atrás novamente? Seria a verdade dita por Paulo Guedes que o novo governo pretende criar uma “nova CPMF”? Ou o desmentido? Seria o filho explicando como fechar o STF? Ou o pai repreendendo “o garoto” no dia seguinte? Seria Mourão ao criticar o 13º ou Bolsonaro anunciando o 13º para o Bolsa Família? Seria Bolsonaro defendendo a liberdade de imprensa no “Jornal Nacional” ou ele caracterizando a Folha como “indigna” de receber as verbas publicitárias do governo no mesmo programa? Ou seria seu vice, algumas horas depois, dizendo que “a imprensa não é inimiga”?

Quem será que “vazou” o vídeo de Bolsonaro anunciando Fraga como ministro? Será que a Record, emissora do mesmo Edir Macedo que vem apoiando escancaradamente o presidente, levaria ao ar algo sem a aprovação de sua equipe? Se sim, porque tirou o vídeo de seus sites? E porque apenas depois da avalanche de críticas à nomeação de Fraga? Será que o próprio Bolsonaro solicitou o vazamento? Com qual objetivo? Testar a opinião pública para um ministro condenado por corrupção? Ou desnortear a cobertura da imprensa para a montagem de seu ministério?

Afinal, o que é a verdade?

A resposta de Bolsonaro à pergunta de Pôncio Pilatos está nas entrelinhas de seu tweet de alguns dias atrás: “Anunciarei os nomes oficialmente em minhas redes. Qualquer informação além é mera especulação, maldosa e sem credibilidade.” 24 horas depois, Bolsonaro dá a sua primeira entrevista coletiva barrando a entrada da Folha, O Globo, Estadão e agências internacionais. O próprio presidente tratou de obscurecer o que deveria ser esclarecido: “Não sei quem marcou isso (a coletiva)”, e nem quem havia mandado restringir os veículos.

Bolsonaro e sua equipe têm trabalhado incansavelmente em cristalizar na cabeça de seus eleitores que a imprensa tradicional brasileira é “especulação”, “fake news”, “indigna” e “sem credibilidade”. A verdade não surge mais da multiplicidade de pontos de vista e do debate entre diferentes vozes. “A verdade” é o que Bolsonaro disser. É essa a verdade que “vos libertará”. Libertará do lulopetismo, libertará da ameaça comunista, libertará da imprensa esquerdopata, da ditadura venezuelana.

Para um país com o índice de leitura do Brasil, soa como música: notícias apuradas por profissionais são “especulação”, “vamos esperar”, “isso é fake news”, “tem que acabar com essa imprensa mesmo”. Verdade é o que o Capitão disser em suas redes sociais. É o que Steve Bannon ensinou nos Estados Unidos: desacredite a imprensa o quanto você puder e mesmo que você admita em juízo que teve um caso extraconjugal com uma atriz pornô, seus devotos só acreditarão no que lerem em suas redes sociais. Imagine em um país como o Brasil, numa eleição construída em cima de memes e fake news, com uma imprensa em constante crise de recursos como a nossa. O que é a verdade?

Escolha a sua verdade. Ou melhor, deixe que o capitão escolha para você. Torça pelo fim da imprensa independente, em vez de torcer pelo seu aperfeiçoamento. Assim, como nos tempos do comandante Ustra, você não terá mais notícias de corrupção nem de corruptores nos jornais. Não terá nem jornais. E, segundo a interpretação que o nosso presidente deu para o versículo bíblico, finalmente será livre.

Livre para segui-lo.

Brasil | Bem-vindos à selva

Posted: 07 Nov 2018 07:15 AM PST

Pepe Escobar [*]

Está escuro no pico do meio-dia (tropical)

Jean Baudrillard definiu um dia o Brasil como “a clorofila do nosso planeta”. Contudo, um país tão amplamente associado em todo o mundo ao poder suave duma joie de vivre criativa acaba de eleger um fascista para presidente.

O Brasil é uma terra dilacerada. O antigo paraquedista Jair Bolsonaro foi eleito com 55,63% dos votos. Mas 31 milhões de votos foram de abstenção, ou brancos ou nulos, um autêntico recorde. Foram 46 milhões os brasileiros que votaram no candidato do Partido dos Trabalhadores, Fernando Haddad, professor e antigo prefeito de São Paulo, uma das gigantescas metrópoles do Sul global. O facto impressionante é que mais de 76 milhões de brasileiros não votaram em Bolsonaro.

O seu primeiro discurso, como presidente, exalava o sentimento de uma guerra santa degradada feita por uma seita fundamentalista entrelaçada com uma vulgaridade omnipresente e a exortação a uma ditadura de inspiração divina, como a via para uma nova Era de Ouro brasileira.

O sociólogo franco-brasileiro Michael Lowy descreveu o fenómeno Bolsonaro como uma “política patológica em grande escala”.

A sua ascensão foi facilitada por uma conjunção sem precedentes de fatores tóxicos, como o enorme impacto social do crime no Brasil, que levou a uma crença generalizada na repressão violenta como única solução; a rejeição concertada do Partido dos Trabalhadores, catalisada pelo capital financeiro, pelos latifundiários, pela agro-indústria e pelos interesses oligárquicos; um tsunami evangélico; um sistema de “justiça” que historicamente favorece as classes superiores e encarnado por juízes e procuradores com “formação” financiada pelo Departamento de Estado, incluindo o conhecido Sérgio Moro, cujo firme objetivo, durante a alegada investigação Lava Jato, contra a corrupção, foi enviar Lula para a prisão; e a total aversão à democracia de amplos setores das classes dirigentes brasileiras.

Isto tudo se vai amalgamando num choque radicalmente antipopular, “caído do céu”, neoliberal. Parafraseando Lenine, um caso de fascismo como a última fase do neoliberalismo. Afinal, quando um fascista vende um programa de “mercado livre”, todos os seus pecados lhe são perdoados.

O reinado da bancada BBBB

É impossível compreender a ascensão do bolsonarismo fora do contexto da Guerra Híbrida, extremamente refinada, que foi desencadeada no Brasil pelos suspeitos usuais. A espionagem da NSA – desde a gigantesca petrolífera Petrobrás até ao telemóvel da então presidente Dilma Rousseff – já era conhecida desde meados de 2013, depois de Edward Snowden ter revelado que o Brasil era o país mais espionado da América Latina.

A Escola Superior de Guerra, no Rio de Janeiro, rendida ao Pentágono, sempre foi favorável a uma militarização gradual – mas ininterrupta – da política brasileira alinhada aos interesses de segurança nacional dos EUA. O programa das principais academias militares norte-americanas foi adotado sem reservas pela Escola Superior de Guerra.

Os gestores do complexo industrial-militar-tecnológico do Brasil sobreviveram sem problemas à ditadura de 1964-1985. Aprenderam tudo sobre operações psicológicas com os franceses na Argélia e com os americanos no Vietname. Ao longo dos anos, evoluíram o seu conceito de inimigo interno; não apenas os proverbiais “comunistas”, mas a Esquerda no seu conjunto, assim como as amplas massas de brasileiros espoliados.

Isso levou à situação vigente de generais a ameaçar juízes, se libertassem Lula. O vice-presidente de Bolsonaro, ogeneralito Hamilton Mourão, chegou a ameaçar com um golpe militar se não ganhassem. O próprio Bolsonaro disse que nunca “aceitaria” a derrota.

Esta militarização progressiva da política combina perfeitamente com o caricatural Congresso Brasileiro BBBB (Bala, Boi, Bíblia, Banco).

O Congresso está praticamente controlado por forças militares, policiais e paramilitares; pelo poderoso lobby da indústria agrícola e mineira, com o seu objetivo supremo de pilhar totalmente a floresta amazónica; pelas facções evangélicas e pelo capital da banca/finanças. Comparem isso com o facto de que mais de metade dos senadores e um terço do Congresso enfrentam processos criminais.

A campanha de Bolsonaro usou todos os truques conhecidos para fugir a qualquer possibilidade de um debate na TV, fiel à noção de que discutir política é para perdedores, especialmente quando não há nada a debater.

Afinal, o principal conselheiro económico de Bolsonaro, o boy de Chicago, Paulo Guedes – atualmente sob investigação acusado de fraude de seguros – já tinha prometido “curar” o Brasil, servindo-se dos feitiços de sempre: privatizar tudo; eliminar os gastos sociais; acabar com as leis laborais e o salário mínimo; deixar o lobby do Boi saquear a Amazónia; e aumentar as armas nas mãos dos cidadãos a um nível superior ao estipulado pela Associação Nacional dos Rifles.

Não admira que The Wall Street Journal tenha classificado Bolsonaro como um normal “populista conservador” e “drenador do pântano-Brasil”; esta designação esquece os factos e ignora que Bolsonaro é um político menor que só conseguiu aprovar dois projetos-lei em 27 apagados anos no Congresso.

Enviem-me um WhatsApp para a Terra Prometida

Embora as grandes massas, muito mal informadas, tenham progressivamente tomado consciência dos golpes sujos da enorme campanha manipuladora de Bolsonaro no WhatsApp – uma saga tropical pós-Cambridge Analytica; e apesar de Bolsonaro afirmar, em direto, que os adversários só teriam duas opções depois das eleições de domingo, a prisão ou o exílio, isso não foi suficiente para deter o Brasil duma marcha inexorável para uma distopia, uma Teocracia Evangélica das Bananas militarizada.

Em qualquer democracia madura, um grupo de empresários – com contabilidade clandestina – que financiasse uma campanha de notícias falsas no WhatsApp, com múltiplos tentáculos, contra o Partido dos Trabalhadores e contra Haddad, o candidato de Lula, seria considerado um enorme escândalo.

O WhatsApp é extremamente popular no Brasil, muito mais do que o Facebook; por isso tinha que ser devidamente instrumentalizado nesta mistura brasileira de Guerra Híbrida ao estilo da Cambridge Analytica.

A tática foi totalmente ilegal porque foi financiada por doações à campanha, não declaradas, assim como doações de empresas (proibidas pelo Supremo Tribunal do Brasil desde 2015). A Polícia Federal do Brasil iniciou uma investigação que terá o mesmo destino da investigação que os árabes sauditas fizeram a si mesmos no fiasco daPulp Fiction em Istambul.

O tsunami de notícias falsas foi gerido pelos chamados bolsominions . São um exército voluntário de super leais, que castigam quem quer que se atreva a pôr em causa o “Mito” (é assim que se referem ao líder), enquanto manipulam conteúdos, sem interrupção, em memes, vídeos falsos virais e variadas expressões de ira do “enxame Bolso”.

Imaginem o escândalo de Washington se os russos interferissem nas eleições norte-americanos, usando as mesmas táticas que os EUA e as suas elites compradoras usaram no Brasil.

Esmagar o BRICS

Na política externa, naquilo que respeita a Washington, o Reichskommissar Bolsonaro pode ser muito útil em três frentes.

A primeira é a frente geoeconómica: obter a parte de leão das enormes reservas de petróleo das camadas pré-sal para os gigantes energéticos dos EUA.

Seria esse o requisito na sequência do golpe de misericórdia contra Dilma Rousseff, em 2013, quando ela aprovou uma lei destinando 75% das royalties do petróleo para o ensino e 25% para a assistência à saúde; uns significativos 122 mil milhões de dólares americanos ao longo de dez anos.

As duas outras frentes são geopolíticas: rebentar com o BRICS por dentro e levar o Brasil a fazer o trabalho sujo numa operação de mudança de regime na Venezuela, cumprindo assim a obsessão de Washington em esmagar o eixo Venezuela-Cuba.

Usando o pretexto da imigração em massa da Venezuela para a faixa brasileira da Amazónia, a Colômbia – elevada ao estatuto de parceiro fundamental da NATO e apadrinhada por Washington – pode contar com o apoio militar do Brasil para uma mudança de regime.

Depois, há a história importantíssima da China.

A China e o Brasil são estreitos parceiros no BRICS. A propósito, o BRICS agora fica reduzido a RC (a Rússia e a China), com grande desgosto de Moscovo e de Beijing, que contavam que Haddad seguisse as pisadas de Lula, que foi fundamental no reforço do peso geopolítico do BRICS.

Chegamos assim a um ponto de inflexão fundamental no golpe da Guerra Híbrida em curso, quando os militares brasileiros se convenceram de que o gabinete de Rousseff estava infiltrado de agentes dos serviços secretos chineses.

Apesar disso, a China mantém-se o principal parceiro comercial do Brasil – à frente dos EUA, com um comércio bilateral que atingiu 75 mil milhões de dólares no ano passado. Além de ser um consumidor ávido de bens brasileiros, Beijing já investiu 124 mil milhões de dólares em empresas brasileiras e em projetos de infraestruturas desde 2003.

Guedes, o boy de Chicago, reuniu-se recentemente com diplomatas chineses. Bolsonaro vai receber uma delegação chinesa de alto nível, logo no início do seu mandato. Durante a campanha, repetiu várias vezes que “a China não está a comprar no Brasil, a China está a comprar o Brasil”. Bolsonaro pode tentar um surto de sanções contra a China à moda mini-Trump. Mas tem que ter em atenção que o poderoso lobby da indústria agrícola tem lucrado imenso com a guerra comercial entre os EUA e a China.

É garantido um enorme suspense na cimeira do BRICS em 2019, que se realizará no Brasil: imaginem um Bolsonaro durão frente a frente com o verdadeiro patrão, Xi Jinping.

Então, o que pretendem realmente os militares brasileiros? Resposta: a “Doutrina de Dependência” brasileira – que é uma verdadeira mestiçagem neocolonial.

A certo nível, a liderança militar brasileira é desenvolvimentista, orientada para a integração territorial, fronteiras bem patrulhadas e uma “ordem” interna, social e económica, perfeitamente disciplinada. Simultaneamente, acredita que tudo isso deve ser feito sob a supervisão da “nação indispensável”.

Os líderes militares consideram que o seu país não tem conhecimentos suficientes para lutar contra o crime organizado, para defender a segurança cibernética e a segurança biológica, e, no que se refere à economia, para dominar totalmente um estado mínimo, aliado a uma reforma fiscal e à austeridade. Para o geral da elite militar, o capital privado estrangeiro é sempre uma benesse.

Uma consequência inevitável disso é ver os países latino-americanos e africanos como untermenschen [seres inferiores – N.T.]: uma reação contra a ênfase de Lula e de Dilma na União das Nações Sul-Americanas (UNASUR) e uma integração energética e logística mais estreita com África.

Não se pode descartar um golpe militar

Apesar disso, há dissidência militar interna – que pode abrir uma via para a remoção de Bolsonaro, um mero fantoche, em benefício duma coisa real: um general.

Quando o Partido dos Trabalhadores estava no poder, a Marinha e a Força Aérea ficaram muito satisfeitas com projetos estratégicos como um submarino nuclear, um jato supersónico e satélites lançados por foguetes made in Brasil. Veremos qual será a sua reação no caso de Bolsonaro abandonar totalmente estes avanços tecnológicos.

O problema fundamental pode vir a ser se há uma ligação direta entre a nata das academias militares brasileiras; os “generais dependentistas” e as suas técnicas de operações psicológicas; as diversas fações evangélicas; e as táticas pós-Cambridge Analytica de que a campanha Bolsonaro se serviu. Será uma nebulosa que congrega todas estas células ou será uma rede frouxa?

A melhor resposta provém de Piero Leirner , especialista em antropologia da guerra, que realizou uma profunda investigação nas Forças Armadas brasileiras e me disse: “Não há uma relação prévia. Bolsonaro é um pós-facto. A única ligação possível é entre determinadas características da campanha e as operações psicológicas (psyops) “. Leirner sublinha: “A Cambridge Analytica e Bannon representam a infraestrutura, mas a qualidade de informações – enviar sinais contraditórios e depois aparecer uma resolução como terceira via, isso é uma estratégia militar dos manuais de operações psicológicas da CIA”.

Mas há brechas. Leirner considera o arco de forças díspares que sustentam Bolsonaro como uma “bricolage” que, mais tarde ou mais cedo, se desintegrará. E a seguir? Um general sub-Pinochet?

Bolsonaro não é Trump. Porquê?

Em The Road to Somewhere; The Populist Revolt and the Future of Politics , David Goodhart mostra que a força motora por detrás do populismo não é o amor fascista duma nação radical. É a anomia – um sentimento duma vaga ameaça existencial que a modernidade coloca. Isso aplica-se a todas as formas de populismo de direita no Ocidente.

Assim, temos a oposição entre “alguns locais” e “quaisquer locais”. Temos “alguns locais” que querem que a democracia da nação seja confinada apenas às etnias nacionais, sem que a cultura nacional seja contaminada por influências “estrangeiras”.

E temos “quaisquer locais” que habitam o vórtice pós-moderno, sem raízes, do multiculturalismo e das viagens internacionais de negócios. Estes são uma minoria demográfica – mas uma maioria nas elites políticas, económicas, educativas e profissionais.

Isso leva Goodhart a fazer uma distinção fundamental entre populismo e fascismo – ideológica e psicologicamente.

A distinção legal comum encontra-se na lei constitucional alemã. O populismo de direita é “radical” – portanto, é legal. O fascismo é “extremo”, portanto é ilegal.

É errado rotular Trump de “fascista”. Bolsonaro foi rotulado pelo Ocidente de “o Trump tropical”. O facto é que Trump é um populista de direita – até com algumas políticas que poderão ser caracterizadas como de Velha Esquerda.

Os registos revelam Bolsonaro como um tipo racista, misógino, homofóbico, defensor das armas, favorecendo um Brasil branco, patriarcal, hierárquico, hétero-normativo e “homogéneo”; um absurdo numa sociedade profundamente desigual, ainda devastada pelos efeitos da escravatura e em que a maioria da população é de raça mista. Além disso, historicamente, o fascismo é uma Solução Final burguesa radical com vista à aniquilação total da classe trabalhadora. Isso torna Bolsonaro um fascista total.

Trump ainda é mais moderado do que Bolsonaro. Não incita os seus apoiantes a exterminar literalmente os seus opositores. Afinal, Trump tem que respeitar o enquadramento duma república com instituições democráticas muito antigas, mesmo que defeituosas.

Isso nunca aconteceu com a jovem democracia brasileira – em que um presidente pode comportar-se como se os direitos humanos fossem uma conspiração comunista em conluio com a ONU. As classes trabalhadoras brasileiras, as elites intelectuais, os movimentos sociais e todas as minorias têm toda a razão para recear a Nova Ordem. Nas palavras de Bolsonaro, “serão banidos da nossa pátria”. A criminalização/desumanização de qualquer oposição significa, literalmente, que dezenas de milhões de brasileiros não valem nada.

Falem com Nietzsche

A refinada Guerra Híbrida em curso no Brasil, que começou em 2014, teve um ponto de inflexão em 2016 e culminou em 2018 com a destituição de uma presidente; a prisão de outro presidente; o esmagamento da Direita e do Centro-direita; e à moda de uma pós-política enlouquecida por esteroides, abriu o caminho para o fascismo.

Mas Bolsonaro é um vazio medíocre. Não tem a estrutura política, os conhecimentos, para não falar da inteligência em ter chegado tão longe, a partir do nada, sem um sistema de apoio de informações super complexo, de alta tecnologia, transfronteiras. Não admira que seja um queridinho de Steve Bannon.

Em contraste, a Esquerda – tal como na Europa – mais uma vez ficou presa no modo analógico. De modo algum, qualquer frente progressista, especialmente neste caso, tal como foi constituído na décima primeira hora, podia combater com êxito o tsunami tóxico da guerra cultural, da política de identidade e das notícias falsas micro-dirigidas.

A Esquerda perdeu a batalha importante. Pelo menos, agora já sabem que isto é a doer, uma guerra total. Para destruir Lula – o prisioneiro político mais importante do mundo – as elites brasileiras tiveram que destruir o Brasil. Nietzsche continua a vencer; o que não nos mata torna-nos mais fortes. A vanguarda da resistência global contra o neofascismo como o estádio mais avançado do neoliberalismo mudou-se para sul do Equador. No pasarán.

[*] Jornalista, brasileiro, correspondente do Asia Times com sede em Hong-Kong. O seu último livro é 2030 .

O original encontra-se em Consortium News . Tradução de Margarida Ferreira.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

São Tomé | O Pêndulo Imperfeito e o Caos

Posted: 07 Nov 2018 05:57 AM PST

Adelino Cardoso Cassandra* | Téla Nón | opinião

Podemos considerar, de ponto de vista simbólico, as eleições legislativas que se realizaram no dia 7 de outubro, em S.Tomé e Príncipe, tendo em conta os acontecimentos políticos, anteriores e posteriores à realização das mesmas, como um autêntico plebiscito informal para a escolha de dois caminhos, totalmente opostos, que o pais deveria trilhar nos próximos tempos.

Por um lado, teríamos, caso o ADIregressasse ao poder, o caminho de consolidação do processo de asfixia da democracia e, por outro lado, caso a oposição ganhasse as referidas eleições percorreríamos um caminho alternativo oposto, ou seja, o de aprofundamento da democracia.

O conteúdo político, em termos de mensagem eleitoral e praxis, durante toda a campanha eleitoral, e posteriormente, tanto por parte do ADI como dos partidos da oposição, denunciavam este dualismo polarizador inultrapassável.

Não recordo de nenhum outro contexto eleitoral no país, mesmo em 1990 quando a constituição foi ratificada em referendo, em que os campos, poder e oposição, estiveram tão distantes, tendo como suporte reivindicativo a defesa da liberdade e da democracia como bandeira eleitoral.

É óbvio que isto também teve reflexos, como seria de esperar, na recomposição do nosso sistema político-partidário e em termos de mobilização eleitoral, como resposta ao propósito governamental do ADI de asfixia da nossa democracia, com o objetivo de travar esta deriva autoritária.

Formou-se uma coligação, pré-eleitoral, entre o PCD, a UDD e o MDFM que ganhou contornos mais abrangentes, pós-eleitoral, incluindo o MLSTP na sua composição.

Por outro lado, a mobilização eleitoral foi grande, contribuindo para baixar a abstenção para níveis históricos no país, mesmo num contexto de escassez, material e financeira, manifestada pelos partidos da oposição.

Isto quer dizer que, entre a continuação de uma deriva autoritária e asfixiante e o resgate e defesa do Estado Democrático de Direito, a maioria da população de S.Tomé e Príncipe escolheu a segunda alternativa e correu para as mesas de voto em salvação da democracia.

E isto foi tão evidente que, mesmo após as eleições, a população manteve-se vigilante, controlando todos os passos e procedimentos do atual Tribunal Constitucional do ADI, tendo em conta casos de recurso contencioso enviados para o referido tribunal, em contradição com acórdão anterior do mesmo tribunal, decorrente das deliberações da assembleia de apuramento eleitoral geral.

Podemos concluir, pelo menos duas coisas, tendo em conta os resultados destas eleições.

Em primeiro lugar que a defesa da liberdade e, consequentemente, da democracia, depende sempre das populações. As pessoas poderiam, sempre, preferir o caminho do ADI, de asfixia dos pilares da nossa democracia tendo em conta, até, os meios, materiais e financeiros, anormalmente exagerados, utilizados por este partido político nestas eleições em contraposição com a escassez de meios demonstrada pelos partidos da oposição. O povo escolheu a democracia em detrimento do autoritarismo, ou seja, escolheu não legitimar, eleitoralmente, um caminho cujo objetivo era a tentativa titânica de criação de condições de asfixia da democracia.

A segunda conclusão que podemos tirar destas eleições é que o edifício da democracia é uma construção extremamente difícil e duradoura, tendo em conta, até, a nossa situação económica e sociocultural, e sujeita aos condicionalismos institucionais prevalecentes bem como das características dos políticos que escolhemos para nos representar. Por isso mesmo é que se torna, cada vez mais importante, a fiscalização permanente sobre as decisões dos nossos políticos e sobre o estado das nossas instituições.

Por tudo isto, não faz muito sentido, e até acho que se trata de um exercício analítico esotérico, a tentativa, por parte do próprio presidente da república e de alguns protagonistas políticos do ADI, de criação de condições para a emergência de uma suposta coligação entre esta força política – o ADI – e qualquer outro partido da oposição porque, o que estava em jogo, nestas eleições, não era somente a apresentação e discussão de projetos de sociedades alternativos ou a reivindicação de um reposicionamento geoestratégico do país ou, ainda, a apresentação de medidas sectoriais avulsas para a resolução dos nossos principais problemas. Era algo muito mais estruturante. O que estava em causa era muito mais do que tudo isto: era a própria democracia, ratificada constitucionalmente em referendo de 1990, que, nos tornou, naquele contexto temporal e histórico concreto, um caso singular entre os cinco países africanos lusófonos.

E, neste âmbito, não se pode negociar nem tolerar estados de alma, porque não se pode ser democrata às segundas, quartas e sextas e, posteriormente, déspota às terças, quintas e sábados. A democracia pressupõe crença, convivência diária e costumes, perspetivados sob a inspiração de valores éticos, políticos e jurídicos e os nossos representantes têm de ser os primeiros a criar condições para o seu aprofundamento e consolidação paulatina.

O ADI acredita piamente, entre outras coisas, que: a existência de um consenso político-partidário mínimo para a instauração de um Tribunal Constitucional Autónomo é uma chatice; as tropas de choque podem ser chamadas para expulsar os deputados da oposição do interior da Assembleia Nacional; os juízes do Supremo Tribunal de Justiça podem ser exonerados e aposentados compulsivamente quando decretam uma sentença contra os interesses do referido partido; os deputados podem ser revistos por tropas estrangeiras que entram e permanecem no país sem autorização da Assembleia Nacional; a censura na rádio e televisão pública pode permanecer indefinidamente como propósito de defesa de interesses políticos governamentais e o presidente da república, ao contrário daquilo que é a sua principal função constitucional, deve patrocinar, sucessivamente, soluções políticas especiais, em defesa de um partido político, neste caso o ADI, em violação flagrante do principio da igualdade de tratamento entre todos os partidos políticos.

Se os partidos da oposição, todos sem exceção, andaram quatro anos a lutar contra estes atropelos à democracia, sem resultados, condescendência ou compreensão do ADI, e transformaram este ato na sua principal bandeira eleitoral, como é que estarão, agora, em condições de fazer uma coligação com o próprio ADI para formação de um novo governo da república, tendo como suporte diferenciador e antagónico uma questão tão estruturante?

Como é que o próprio presidente da república pode patrocinar uma coisa desta sabendo-se que, ele mesmo, como árbitro e supervisor do nosso sistema político, nunca fez nada para impedir ou minimizar o ímpeto asfixiante e avassalador do ADI sobre os pilares do nosso edifício democrático, apesar de sucessivas chamadas de atenção por parte dos referidos partidos da oposição e da própria sociedade civil?

Não basta, por isso, ao ADI, pedir, agora, desculpas ao povo, por erros de governação. De que erros se tratam? De erros relacionados com opções e decisões políticas legitimas que tomou? De erros relacionados com atropelos à democracia?

Se os erros em causa estão relacionados com opções e decisões políticas legitimas que o ADI tomou, então, este perdão encerra ingenuidade, dissimulação ou um truque extemporâneo que possa dar algum conforto político, agora, ao partido em causa, porque a política é arte de se fazer o possível, de acordo com as convicções ou interesses ideológicos em presença e as condições existentes. O ADI, como maior partido, pelo menos eleitoralmente, do nosso sistema político-partidário, não pode andar a arrepender-se das decisões políticas que toma, legitimamente, porque isto mina a credibilidade e a confiança do referido partido e do próprio sistema político junto do eleitorado. Se os partidos políticos passam a vida a tomar decisões políticas legitimas e, depois, arrependem-se, considerando-as um erro, o eleitorado deixa de acreditar neles.

Se, pelo contrário, os erros em causa, estão relacionados com atropelos à democracia, então, a situação parece-me mais grave, ainda, porque o ADI tinha, objetivamente, consciência deles, até pelo facto ter sido alertado pela oposição e a própria sociedade civil quando os praticou, e não se preocupou com as consequências de tal propósito que incluem, eventualmente, a prática de ilegalidades com o único propósito de se manter no poder.

Perguntar-se-á, então: e o presidente da república que patrocinou, objetiva ou subjetivamente, estas ilegalidades e manteve-se, sempre, ao lado do referido partido, apesar de sucessivas chamadas de atenção por parte dos partidos da oposição e da própria sociedade civil também vai pedir desculpas ao povo? Ele não será, neste momento, um ativo tóxico, sem autoridade e independência no cargo que ocupa, aos olhos da maioria da população Santomense, enfraquecendo, de forma quase irreversível, a instituição que representa?

Por tudo isto, acho muito improvável e até indesejável, a existência de condições, neste momento, para que o ADI venha a fazer parte de uma eventual coligação governamental, envolvendo qualquer partido da oposição, até, pelo facto de, se tal acontecer, uma parte significativa das pessoas que votaram nestas eleições, nos referidos partidos, poderem sentir-se traídas com tal propósito porque estes votos parecem representar um caráter estratégico ou útil, de mudança, tendencialmente dirigido para impedir ou rejeitar qualquer deriva autoritária no país.

Por outro lado, a viabilização de um suposto governo do ADI, contando com o respaldo e aprovação do presidente da república e apoio político, na Assembleia Nacional, de eventuais deputados da oposição, principescamente comprados como se faz num mercado moderno de escravos, poderia colocar em causa, no limite, o maior pilar da nossa democracia representativa. E é isto que eu, ultimamente, ouço, da parte de alguns simpatizantes e militantes do ADI, de forma encapotada e envergonhada, quando sugerem que a atual oposição, em bloco, apesar de múltiplas manifestações públicas, escritas e verbalizadas, de entendimento em torno de um acordo de governação que os une, deveria provar este propósito político na Assembleia Nacional.

Se tal facto (um governo da ADI com deputados comprados da oposição), contudo, vier a acontecer, o epicentro da contestação e revolta popular deslocar-se-á, rapidamente, das imediações do ADI para a presidência da república e o país entrará num processo de instabilidade política e social imprevisível. Não será mesmo isto que o ADI quererá?

Tenho dificuldades, contudo, em compreender esta estratégia, tendo em conta as condições, política e socioeconómica, prevalecentes no país, e não é crível que a tentativa de resolução desta hipotética instabilidade, com recurso a um novo ato eleitoral, num contexto temporal de curto prazo, traga vantagens significativas para o ADI.

Vivemos, neste momento, provavelmente, desde a instauração da democracia no país, o período mais difícil da nossa vida comunitária e uma parte das causas da manifestação destas dificuldades está diretamente relacionada com as armadilhas que o ADI montou, durante os quatro anos da legislatura anterior, com o propósito de abalar os alicerces da nossa democracia, como se de um pêndulo programado, milimetricamente, se tratasse, com o objetivo de continuarem a usufruir de um poder, quase absoluto, durante décadas.

O problema, todavia, é que qualquer instrumento ou sistema, na linguagem de uma Ciência como a Física, reage de acordo com as condições iniciais existentes. Um pêndulo, não seria exceção. Determinada a inclinação e a velocidade inicial do referido pêndulo, bem como as variáveis como o atrito e gravidade, o ADI interiorizou a ideia de que saberia e controlaria em todos os instantes, a localização do pêndulo e que todos os movimentos do referido instrumento seriam previsíveis.

Só que o pêndulo que o ADI utilizou era imperfeito e desprezaram, como tal, o papel de outras variáveis no referido instrumento o que determinou o caos que estamos, momentaneamente, a viver e que ninguém sabe como controlar.

*Adelino Cardoso Cassandra

Angola | Não chega ser sério

Posted: 07 Nov 2018 05:23 AM PST

O antigo primeiro-ministro angolano (hoje quadro superior da Sonangol por escolha pessoal do Presidente João Lourenço) Marcolino Moco acredita que os conflitos em África poderiam ser resolvidos com uma maior representatividade das diversas etnias e regiões nos governos, o que não acontece devido à herança dos Estados europeus.

Marcolino Moco, que apresentou em Lisboa um resumo em inglês do seu livro de 2015 “Angola: Estado-nação ou Estado etnia política?” (“Angola in Africa: Nation-state or political-ethnicity”), explicou que o seu livro apresenta uma “teoria para explicar a razão dos conflitos nos países africanos, com o exemplo de Angola”.

A sessão consistiu ainda num “relançamento” da edição portuguesa, que não teve sessão de apresentação por razões políticas.

“Naquela altura, como era ‘persona non grata’ do regime de José Eduardo dos Santos”, Presidente angolano entre 1979 e 2017, nunca nominalmente eleito, “não podia fazer o lançamento nem em Angola, nem aqui, em Portugal, porque toda a gente tinha medo de estar ligada à minha pessoa”, disse.

Compreensivelmente Marcolino Moco mete no mesmo saco toda a gente, esquecendo-se que nem toda a gente tinha medo de estar ligada a ele. Aliás, muitos do que nessa altura não tinham medo de estarem com Moco, hoje têm medo de estar com ele.

Segundo o autor, a razão pelos conflitos deve-se à semelhança com as formas de gestão europeias, herdadas durante os períodos de colonização.

“A principal razão [destes conflitos resulta] de o Estado africano, de uma forma, ter copiado a estrutura das antigas metrópoles, e por isso não corresponder à verdadeira realidade africana, em que os Estados são compostos por populações que ainda não estavam totalmente integradas numa nação”, explicou o antigo primeiro-ministro de Angola, militante do MPLA e político de confiança do novo Presidente, acrescentando que “há uma pluralidade de etnias e de regiões com interesses próprios, mas os Estados são essencialmente centralizados”.

O autor relembra que a divisão dos países em África foi feita de uma forma “artificial” durante a Conferência de Berlim (1884-1885), “juntando vários povos, várias etnias, debaixo das mesmas fronteiras muito rapidamente”.

Para Marcolino Moco, que também foi o primeiro secretário-executivo da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), a solução passa por uma representação obrigatória destes grupos nos órgãos de gestão dos Estado, e pela existência de “órgãos muito representativos de todas as etnias e regiões, onde pessoas de todas as etnias e todas as regiões se vejam representadas, independentemente de quem ganhou as eleições”.

O autor acredita ainda que a influência dos Estados europeus nos sistemas de administração africanos leva a que haja “demasiada” centralização e se ignore o problema da diversidade étnico-regional.

“As pessoas não querem que se fale nisso enquanto é uma realidade que nos corrói, cria guerra, golpes de Estado”, referiu, assinalando ainda a “pouca vergonha” que é a alteração das Constituições por chefes de Estado, que o fazem para evitar que “protagonistas de outras etnias os possam incomodar e impedir de ter uma boa vida”.

Sobre a colonização, o antigo primeiro-ministro acredita que os Estados africanos devem seguir em frente.

“A colonização trouxe elementos positivos, como a própria modernização de África (…). Não vamos passar a vida a lamentar-nos em relação àqueles aspectos negativos que conhecemos. Vamos pegar nos aspectos positivos ligados à presença europeia, juntá-los aos valores positivos que também já existiam nas sociedades tradicionais, e vamos tocar para a frente”, sugeriu Marcolino Moco.

Os efeitos da presença chinesa em África também é algo que levanta preocupação ao antigo dirigente angolano.

“Já estamos a senti-los. Primeiro, porque culturalmente temos uma identidade em que o pilar europeu é fundamental, é essencial. Faz parte. Este recurso massivo à presença oriental complica-nos algumas coisas (…) e nós estamos a adormecer sobre algumas coisas, porque da China vêm já pedreiros, carpinteiros, então nós orientamos os nossos netos para todos serem universitários, todos serem intelectuais. Depois saem das universidades e não têm lugar”, referiu Marcolino Moco.

Para o antigo secretário-executivo da CPLP, o pan-africanismo deve ser reforçada.

“África tem de se reencontrar, tem de voltar à ideia do Nkrumah [ganês forte activista do pan-africanismo]. Não talvez um Estado único, mas mais coordenado nas questões económicas, políticas e culturais. E depois convencermos a Europa que não deve continuar a trabalhar só no sentido de nos retirar o recurso. É preciso que os recursos sejam trabalhados na própria África, e isso é vantajoso até para a Europa, para prevenir a situação da migração massiva”, concluiu.

O prémio de João Lourenço

No dia 12 de Janeiro, o Presidente da República, João Lourenço, justificou a nomeação (escolha, prémio de consolação) dos ex-primeiros-ministros Lopo do Nascimento e Marcolino Moco para administradores da Sonangol por serem uma “referência” no país.

A posição foi assumida pelo chefe de Estado no Palácio Presidencial, em Luanda, durante a cerimónia de posse dos ex-políticos como administradores não executivos da Sonangol, liderada desde Novembro de 2017 por Carlos Saturnino, depois de João Lourenço ter exonerado Isabel dos Santos.

Na ocasião, o chefe de Estado classificou ambos como “figuras de destaque da vida política angolana”, justificando com isso a nomeação que fez e que, convenhamos, mais parece um prémio de consolação, quase uma condecoração a título póstumo político.

“Figuras que desempenharam as mais altas funções no aparelho do Estado, são por isso uma referência na sociedade angolana e, a exemplo do que se faz também em outros países, não pretendemos desperdiçar a experiência que têm, a reputação que têm, para continuarem a servir o país noutras áreas, fora da política”, afirmou João Lourenço.

E, assim, se ficou a saber que é um prémio “fora da política”. Uma prateleira, necessariamente dourada, para que nada mais façam do que dar o nome e o prestígio a um governo, mesmo sabendo-se que poderiam ser eventualmente muito mais úteis como reserva moral e ética de um país em que faltam referências de estadistas que pensem pela própria cabeça.

Em declarações aos jornalistas no final da cerimónia, Marcolino Moco, que regressa desta forma à vida pública não política após o afastamento e após anos de contestação ao regime de José Eduardo dos Santos, assumiu que será um “conselheiro” da administração da petrolífera estatal.

“Conselheiro” é um eufemismo (exactamente isso, uma figura de estilo com que se disfarçam as ideias desagradáveis por meio de expressões mais suaves) para satisfazer o ego de todos aqueles que preferem ser assassinados pelo elogio do que salvos pela crítica.

“A primeira coisa que eu vou querer saber do presidente da Sonangol é porque é que temos esta crise de distribuição do combustível, particularmente no interior do país”, afirmou Marcolino Moco, referindo-se aos sucessivos casos conhecidos publicamente de postos de combustíveis sem gasolina ou gasóleo e querendo, dessa forma, mostrar que não é o que eles esperam que ele seja: um verbo-de-encher.

Em Novembro de 2017, Marcolino Moco assumiu-se surpreendido com a “coragem” do novo Presidente da República, afirmando que as decisões conhecidas visam “criar um mínimo de governabilidade” num poder “atrelado aos pilares de uma casa de família”.

A posição do advogado e histórico militante do MPLA, forte crítico da governação de 38 anos do ex-Presidente José Eduardo dos Santos, surgiu num artigo divulgado então, pelo próprio.

“É verdade que João Lourenço me surpreende pela coragem e rapidez; mas surpreso andei eu todos estes anos a ver um país a ser montado à volta de uma família única, quando só se ouviam louvores de tribunas e painéis de entidades notáveis”, criticou ainda o advogado que durante 1992 e 1996 foi primeiro-ministro de Angola, na Presidência de José Eduardo dos Santos.

Já Lopo do Nascimento, que foi primeiro-ministro entre 11 de Novembro de 1975 (proclamação da independência) e Dezembro de 1978, além de secretário-geral do MPLA, partido no poder, criticou em 2017, antes das eleições gerais de Agosto, a continuidade de José Eduardo dos Santos na presidência do partido.

“Acho que não será uma boa coisa se ele se mantém como presidente do MPLA, porque gera um poder bicéfalo”, disse Lopo do Nascimento, numa entrevista em Março.

Em todo este processo, Marcolino Moco claudicou, desiludiu, ajoelhou-se e, por isso, teve de rezar junto do altar agora ocupado (apesar da fraude eleitoral que Moco sabe ter existido) por João Lourenço.

Fomos todos enganados. Fomos. No dia 7 de Janeiro de 2017, Paulo de Morais (Professor Universitário, ex-candidato às eleições presidenciais em Portugal e Presidente da Frente Cívica) escrevia aqui no Folha 8:

“É com homens como Marcolino Moco que Angola tem de arrancar para um outro futuro. Só homens amantes mais do seu povo do que do poder ou dinheiro, poderão desviar Angola do percurso suicida em que se encontra esta comunidade colectiva. Angola necessita de uma Perestroika à africana, liderada por um novo Gorbatchov que mude o rumo político deste que é um dos mais belos e ricos países do mundo. Esta mudança de rumo tem de ter lugar sem violência ou guerra, sob a tutela de uma comissão internacional do tipo da “Verdade e Reconciliação “que Mandela instituiu na África do Sul.

Cabe a pessoas com vontade, vigor e perseverança e autoridade política encontrar os caminhos do futuro de Angola. Marcolino Moco, face às posições críticas que vem tomando face ao poder vigente, e a par dos mais desassossegados do MPLA, não pode virar as costas a este desafio.”

Infelizmente, por muito que volte a dizer que “caiu que nem um patinho”, Marcolino Moco virou as costas ao desafio, virou as costas ao Povo.

“Não posso atestar que o partido está a mudar. O que estou a fazer é para que amanhã não seja acusado de que me abriram a janela e eu não aceitei, é só isso. Nesta altura dou o benefício da dúvida ao candidato do partido”, afirmou Marcolino Moco no dia 21 de Agosto de 2017.

Questionado na altura sobre se admitia voltar a trabalhar directamente com o MPLA, e com João Lourenço, num eventual cenário de renovação da governação de Angola, Marcolino Moco não afastou a possibilidade: “Responder liminarmente a essa pergunta não posso. Haverá certamente aproximações, mais conversas. Ele felizmente garantiu-me essa abertura, a iniciativa foi dele, não foi minha. E, das conversas que tivemos, se ninguém as interromper, nós poderemos chegar a uma saída, a uma conclusão”.

Uma aproximação que, insistia Marcolino Moco, surgiu como benefício da dúvida quando o partido está em renovação, com a saída de José Eduardo dos Santos.

“Nunca quiseram saber das minhas críticas, pelo contrário. Recebi ameaças, o isolamento perante muitas pessoas. Agora, a testar o estrago que foi feito, há uma aproximação repentina à minha pessoa. Uma aproximação que eu não posso recusar, numa altura em que o candidato do partido já não é o mesmo”, disse.

Após encontros com João Lourenço que descreveu como “breves mas significativos”, Marcolino Moco conclui com o aviso: “Tenho 64 anos e não passo cheques em branco a ninguém. Voto na nação angolana, que ainda não está completa”.

Alguém (ainda) acredita em Marcolino Moco? Em tempos, muito recentes, escrevemos que Marcolino Moco “é uma das mais prestigiadas figuras de Angola, sobretudo da Angola que todos desejamos e que um dia destes floresça”. Não floresceu. Aceitar um cargo não executivo na Sonangol é sinónimo de que tudo não passou de uma quimera, bonita enquanto durou o sonho.

Folha 8 com Lusa

Angola | “As pessoas estão a fazer muita confusão com relação a Operação Resgate”, diz a polícia

Posted: 07 Nov 2018 05:12 AM PST

Decorre a partir desta terça-feira (06.11.) a Operação Resgate em Angola que visa pôr fim às transgressões administrativas e acabar com a criminalidade. A Polícia garante que a operação foi antecedida por um estudo.

O diretor do gabinete de comunicação da Polícia de Angola, o comissário Orlando Bernardino, disse nesta terça-feira (06.11), em entrevista à DW África que a Operação Resgate, que “decididamente” começou no país, visa essencialmente fazer as pessoas cumprirem as leis de Angola e não impeça nenhuma atividade a quem esteja legal administrativamente.

Questionado pela DW África sobre as denúncias e acusações dos alegados maus tratos praticados pelas autoridades angolanas aos cidadãos estrangeiros, o comissário Orlando Bernardino disse o seguinte:

Orlando Bernardino (OB): As pessoas estão a fazer muita confusão com relação a Operação Resgate. A Operação Resgate é uma operação que vai ser inserida fundamentalmente no combate a criminalidade e combater a criminalidade tem a vertente de combater as transgressões administrativas que se podem transformar em crimes. Elas têm duas vertentes: uma, é o combate às transgressões administrativas e à criminalidade. O combate vai permitir que as instituições que lidam com questões administrativas fiscalizem o cumprimento daquilo que são os procedimentos administrativos que existem por parte dos cidadãos. E depois, tem uma vertente que é de combater a criminalidade. As pessoas que cometeram crimes obviamente são levadas aos órgãos judiciais para que se despoletem os procedimentos judiciais para o efeito.

DW África: Pode explicar-nos de uma maneira mais clara como é que se materializa esta operação no terreno? Porque ela começou hoje e gostaríamos de saber como é que está a ser feita?

OB: No terreno se manifesta por sensibilização dos cidadãos, apelo aos cidadãos para que cumpram aquilo que são as posturas administrativas que existem ao nível dos municípios e a nível das cidades, é fundamentalmente isso. Fazer com que os cidadãos percebam que estão a incorrer em transgressões administrativas e apelar no sentido de mudarem de atitudes e mudarem aquilo que é a forma como exercem algumas atividades, no caso dela não estiver correta. E no que diz respeito ao combate ao crime, naturalmente, é orientar as operações no sentido de desmantelar grupos de pessoas que se dedicam ao cometimento de crimes.

DW África: Sabemos que essa campanha foi lançada oficialmente a 30 de outubro e começa hoje, dia 6 de novembro, “decididamente”, segundo as autoridades. O que quer dizer “decididamente”?

OB: É uma ação de sensibilização contínua. A operação prossegue, enquanto continuam as ações de sensibilização. O objetivo não é de impedir quem quer que seja de exercer as atividades que exerce, mas sim de apelar e sensibilizar as pessoas no sentido de cumprirem aquilo que são normas, posturas administrativas e leis. Se tu exerces uma atividade que não está legal tens que a legalizar. Se tu entendes que não tens condições para a legalizar e de exercer a atividade conforme manda a lei, não exerça essa atividade. O que se passa aqui, quando o despacho do ministro do Interior disse “decididamente”, é porque de forma decidida os órgãos da administração pública, que na verdade são os que estão a coordenar essa operação com a polícia nacional, vão fazer de tudo para que os cidadãos, numa primeira fase, percebam a necessidade que há de cumprirem com os preceitos legais para o exercício de qualquer atividade ao nível das nossas cidades. E, obviamente, a necessidade de termos uma organização de salubridade pública ao nível das nossas cidades. E depois, obviamente, é questão de combate ao crime… quem comete um crime obviamente é levado para que os órgãos judiciais tratem que se cumpra a legalidade.

DW África: Qual é o balanço preliminar que a polícia faz da operação que começou nesta terça-feira?

OB: Ainda é cedo para fazer um balanço. A Operação mal começou, nós queremos é que os cidadãos compreendam e acatem aquilo que são as orientações, a sensibilização que está a ser levada a cabo e até lá entendemos que haverá da parte dos cidadãos uma compreensão daquilo que é necessidade de termos as nossas cidades mais arejadas, mais organizadas e naturalmente sem crimes, que é um dos grandes focos dessa operação, que é também o combate a criminalidade, por isso, ainda é muito cedo. Mas também entendemos que tem havido da parte dos cidadãos uma compreensão da necessidade que há de termos as nossas cidades mais organizadas e obviamente, no âmbito do cumprimento da lei e do respeito para com terceiros para que se possa viver com mais saúde e naturalmente com mais segurança.

DW África: Esta operação foi definida com base nalgum estudo feito previamente com participação de alguns sociólogos ou antropólogos?

OB: Quando é realizada tem como base um estudo, um levantamento que é feito. E com base nesse estudo faz-se a operação. Há um levantamento, conhecemos quais são os problemas, a sociedade sabe quais são os problemas e obviamente mediante um levantamento feito e do conhecimento que se tem da situação, tratar de fazer a operação. É preciso só sublinhar que a operação não é da Polícia. A operação é conjunta entre os órgãos de administração local, os órgãos de administração principais, os órgãos administrativos no sentido de um controlo do cumprimento das posturas administrativas por parte dos cidadãos que têm atividades e nós, naturalmente, órgãos da polícia, aparecemos como braços dos órgãos de administração que vão fazer as inspeções de todo o tipo de atividade. Não se está a proibir ninguém de exercer seja qual for a atividade. Toda gente pode exercer a sua atividade desde que seja dentro dos preceitos legais, como acontece em qualquer país do mundo.

Nádia Issufo | Deutsche Welle

Nova taxa de electricidade para aumentar a rede agita moçambicanos

Posted: 07 Nov 2018 05:06 AM PST

Moçambicanos preparam-se para pagar uma nova taxa de eletricidade, cujo valor ainda não se sabe, mas que já está a ser alvo de críticas por parte dos consumidores.

Os moçambicanos terão de apertarainda mais o cinto. Vem aí a nova taxa de electricidade, que deverá ser aprovada no final deste mês de novembro pelo Conselho de Ministros.

A nova taxa está incluída na proposta de revisão da Lei de Eletricidade, que está no processo de auscultação pública.

O Governo quer que esta taxa financie o alargamento da rede elétrica, para que todos os moçambicanos tenham acesso à energia até 2030, segundo a diretora do Gabinete Jurídico do Ministério dos Recursos Minerais e Energia, Marcelina Joel.

“Eventualmente essa taxa também, alguma percentagem dela, para além de atender a questão da expansão, irá atender a essa questão de iluminação pública. Então a adição dessa taxa não é arbitrária, é mesmo para responder a uma situação que nos preocupa hoje”.

Consumidores contra nova taxa

A taxa de eletrificação deverá ser paga pelos consumidores singulares, que constituem 90 por cento dos clientes da empresa pública, Eletricidade de Moçambique. E são estes consumidores que se sentem sacrificados com a nova taxa.

Alcino Manhiça, marceneiro, queixa-se de ter que pagar uma taxa pela má qualidade de energia. “Primeiro é a qualidade. Há cortes frequentes de energia. Por causa dos cortes, chegamos a perder os eletrodomésticos. Eu tenho um contador que, quando a energia é fraca, corta a corrente. Agora, aumentar a taxa sem qualidade nada significa para mim”.

Qualidade é fraca

Amália Chiango, comerciante, também diz não fazer sentido que seja paga a taxa de energia, porque a qualidade é muito fraca.

“Se a alguém tem geleira tende comprar mais. Não é fácil ter congelador e geleira porque para usar é difícil devido a qualidade. Há muitos produtos que se estragam dentro do congelador. Vai ser difícil, porque mesmo para assistir a televisão é difícil. As lâmpadas? Vale a pena ter vela”.

Para Joaquim Carlos, funcionário do Estado, as taxas que os moçambicanos estão a pagar resultam da dívida pública.

“Há várias situações que motivam que a vida seja complexa. Primeiro devido a questão da dívida pública, que é um dos aspetos que colocou este cenário e além disso as próprias políticas orçamentais que têm a ver com salários, então isso tem tido uma má contribuição para a sociedade moçambicana”.

Em Moçambique apenas cerca de 30 por cento da população, estimada em 28 milhões de habitantes, tem acesso a energia elétrica.

Romeu da Silva (Maputo) | Deutsche Welle

Organização timorense considera “muito perigosas” alterações a lei de atividades petrolíferas

Posted: 07 Nov 2018 04:58 AM PST

Díli, 06 nov (Lusa) – Uma organização timorense considerou hoje “muito perigosas” propostas de alterações legislativas que o parlamento está a estudar para facilitar a compra de uma participação no consórcio do Greater Sunrise, especialmente a eliminação do visto prévio da Câmara de Contas.

“Muitos acreditam que a verdadeira razão por detrás desta alteração é remover a supervisão do Tribunal de Contas, não só dos contratos petrolíferos, mas também dos contratos de empréstimo e outros contratos para a condução das operações petrolíferas que serão assinados à medida que o projeto Sunrise avance”, refere a organização La’o Hamutuk.

“Alguns políticos de Timor-Leste tornaram-se impacientes com os requisitos de governação e transparência escritos nas leis de petróleo do Estado”, sustenta.

O Parlamento timorense começou hoje a estudar alterações legislativas para permitir que o Estado concretize, através da sua petrolífera Timor Gap, a compra de 350 milhões de dólares pela participação da ConocoPhillips no consórcio do Greater Sunrise.

Em causa estão alterações à lei das atividades petrolíferas para remover um limite de 20% à participação máxima que o Estado pode ter em operações petrolíferas, criando igualmente uma exceção ao regime de visto prévio da Câmara de Contas.

O objetivo, como explicou hoje aos jornalistas Xanana Gusmão, representante especial de Timor-Leste para os assuntos do Mar de Timor, é retirar os 350 milhões da compra da participação Conoco do Orçamento Geral do Estado de 2019, atualmente a ser preparado, considerando o valor um “investimento” financiado diretamente pelo Fundo Petrolífero (FP).

A organização considera as propostas de alterações “muito perigosas”, em particular por considerar que “a maioria das empresas e credores legítimos querem ficar longe dos projetos do gasoduto de Sunrise e de Tasi Mane”.

Trata-se, considera a organização de “enfraquecer a governação para facilitar a compra” da participação no consórcio, alterando uma lei de 2005 promulgada depois de “extensas consultas” e que tem proporcionado “boa governação, transparência e controlos” sobre a contratação de petrolíferas desde então.

A organização nota que na sua breve análise da emenda proposta, a Divisão Parlamentar de Apoio ao Plenário (DIPLEN) considera que “com base nas evidências disponíveis, não é possível identificar e quantificar os custos financeiros resultantes da aprovação” das alterações.

“Acreditamos que os custos são demasiado elevados e pedimos ao Parlamento que rejeite as alterações propostas”, sustenta.

Na nota divulgada hoje, a La’o Hamutuk considera que a alteração à lei surge porque os atuais credores do país “não estão interessados em emprestar dinheiro para o projeto Tasi Mane”, que inclui o gasoduto do Greater Sunrise e uma refinaria, entre outras infraestruturas, na costa sul.

Isso, considera, torna “provável que Timor-Leste procure o financiamento dos vários milhares de milhões de investimentos na China, o que gerou preocupações sobre as “armadilhas da dívida”.

“Noutros países, incluindo o Sri Lanka e Angola, as dificuldades em reembolsar empréstimos da China aumentaram a pobreza, reduziram a democracia e sacrificaram a soberania nacional, consequências que remontam à crise global da dívida ao FMI e ao Banco Mundial no final dos anos 1990”, refere.

A organização sustenta que “muitas das negociações e concessões em relação aos projetos Tasi Mane e Sunrise foram realizadas sem transparência pública, prestação de contas ou supervisão pelas agências governamentais responsáveis”.

Numa altura em que “os líderes de Timor-Leste pedem milhares de milhões de dólares do tesouro nacional para projetos com retornos financeiros, económicos ou sociais duvidosos, estes controlos e contrapesos são ainda mais essenciais”, sustenta.

“Muitos países que dependem da extração de petróleo foram amaldiçoados por desperdiçar o dinheiro de seu povo em projetos mal concebidos, razão pela qual é crucial ter uma análise especializada de contratos de projeto realizada por agências estatais que não têm interesse pessoal em persegui-los independentemente dos custos e benefícios”, defende.

“Embora ainda não saibamos quantos milhares de milhões de dólares serão gastos nos projetos Sunrise e Tasi Mane (incluindo o serviço da dívida e possível incumprimento), os custos para a responsabilidade fiscal, democracia e prestação de contas são claros”, refere.

ASP // PJA

MAIS NOTÍCIÁRIO EM Timor Agora

Portugal | Assoem-se ao guardanapo

Posted: 07 Nov 2018 04:44 AM PST

“Sede cruéis sobretudo com as crianças, as mulheres e os velhos.” A frase está numa carta difundida como sendo de Rosa Coutinho, alto-comissário de Angola no pós-25 de Abril, ao então líder do MPLA, Agostinho Neto, em 1974. Nesta, relatando as orientações de uma reunião secreta com o PCP, o português incitaria o destinatário a criar uma campanha de terror contra a população branca, matando e pilhando.

Fernanda Câncio | TSF | opinião

Em 2008, António Barreto, indignado, escreveu sobre a carta no Público. Ferreira Fernandes e Pacheco Pereira desenganaram-no: trata-se de uma fabricação, publicada em 1975, num jornal sul-africano.

“Tão de encomenda, tão destinada a suscitar a repulsa, como absurda”, diz Pacheco Pereira sobre a alegada carta. Mas, mesmo assim, enganou gente durante 33 anos. E, provavelmente, continua a enganar – um exemplo da renitência das ‘fake news’. Há muitos outros: a acusação a Mário Soares de ter pisado ou cuspido a bandeira portuguesa numa manifestação em Londres, em 1973, aquando de uma visita oficial de Marcelo Caetano ao Reino Unido; muito mais recente, a “notícia”, surgida, durante a campanha das legislativas de 2005, num site brasileiro, sobre a orientação sexual do então líder do PS, José Sócrates, e a sua relação com um actor, reproduzida, em manchete, num jornal português, O Crime.

O uso de falsidades e falsificações no combate político está, então, longe de ser uma novidade entre nós. Antes chamava-se desinformação, assassinato de carácter, campanha negra; agora chama-se ‘fake news’.

A invenção, difundida num site que se faz passar por noticioso, de que António Costa iria processar um fotógrafo por ter captado uma deputada do PS a pintar as unhas no parlamento, inscreve-se pois numa longa tradição. A de invenções estúpidas, muitas vezes inverosímeis, mas, que, incrivelmente, funcionam. Porque há quem nelas queira crer; porque alimentam um ódio pré-existente; porque o ódio não quer saber de factos.

Nada de novo então, nem nas mentiras nem nos mentirosos nem nos que neles querem crer – apenas nova a forma como as mentiras chegam às pessoas, como se propagam.

Novo é também que as pessoas estão a deixar de procurar informação no jornalismo, e o jornalismo estar a parecer-se cada vez com o que era suposto combater.

Os próprios jornais, mesmo os ditos sérios, dão há anos guarida, quer sob a forma de opinião quer acoitando comentários sem filtro, a acusações não consubstanciadas, a puras calúnias e vis insultos, naturalizando e tornando aceitável, no espaço público, a degradação do discurso.

Agora podemos mandar as mãos à cabeça, dizer que a democracia está em perigo – e está – e pedir leis para combater isto.

Mas quais leis? As que os tribunais não aplicam, por se ter consagrado a noção de que tudo se pode dizer em nome da liberdade de expressão?

Como diria Vasco Graça Moura, agora assoem-se a este guardanapo.

– A autora não escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

“A Opinião” de Fernanda Câncio, na Manhã TSF

Portugal | Uma startup da decência

Posted: 07 Nov 2018 03:31 AM PST

Há crianças a receber tratamento de quimioterapia nos corredores e as enfermarias não têm condições de higiene. Unidade pediátrica Joãozinho funciona há quase uma década em contentores.

Pedro Ivo Carvalho | Jornal de Notícias | opinião

Já sei o que vão dizer-me: não comparemos o incomparável. Pois eu não consigo deixar de comparar, porque o país é o mesmo. E as prioridades políticas são o que nos definem como nação. Por isso, vou comparar. De que nos serve projetar Portugal, de forma tão alegremente pomposa, no mundo das novas tecnologias se continuamos a ser incapazes de encontrar uma solução urgente que impeça que crianças com cancro continuem a ser tratadas em contentores provisórios e impróprios? De que nos serve gastar 110 milhões de euros de dinheiros públicos para garantir a Web Summit até 2028 se não temos a capacidade de aplicar o mesmo grau de compromisso na construção de um espaço físico definitivo (que custa um quinto desse valor) para acolher famílias e menores da Região Norte numa nova ala pediátrica do Hospital de S. João?

Não comparemos o incomparável, já sei. Lamento, mas tem de ser. Porque este país bipolar é um reflexo das opções políticas, não do acaso. E o que está a acontecer neste vergonhoso processo é um retrato vivo da inércia e gigantismo da Administração Pública, de burocracias espúrias e dramas concursais ininteligíveis. Do empurrar com a barriga. De juras de amor vãs. Do mesmo pecado (da) capital de sempre. Tudo oco. Andamos nisto há sete anos. Sete. Na melhor das hipóteses, crianças e pais vão ficar pelo menos até 2020 esquecidos nesses contentores. Até podemos aceitar que não seja juridicamente possível fazer a obra por ajuste direto, mas é certamente possível que, até ao desenlaçar do nó, se encontre uma solução melhor do que a atual. E isso só está ao alcance do hospital ou, no limite, de uma ordem da ministra. Ou do primeiro-ministro. Ou de uma palavra mais incisiva do sempre afoito presidente da República. Será que vamos ter de criar uma startup da decência para otimizar o sentido do ridículo? Em caso afirmativo, tenho uma sugestão: shameonyouportugal.com.

* Diretor-adjunto do JN

Os EUA e o Hospital de São João, o SNS e os “casos” de serrar presunto

Posted: 07 Nov 2018 03:17 AM PST

Os Democratas (ma non tropo) tiraram vantagem nas eleições realizadas ontem para a Câmara dos Representantes, deixando os Republicanos com uma derrota muito pouco significativa. Mas que não. Nada disso parece ser a realidade, preferindo apresentar os resultados como uma derrota estrondosa dos Republicanos, consequentemente de Trump. Certo é que só internamente veremos alguns resultados dessa dita derrota. Na política externa quase tudo ficará na mesma e Trump com as capacidades de virar o mundo ao contrário e sacudi-lo como melhor aprouver. Esta é a realidade. O resto faz parte dos habituais espetáculos made in USA com o apoio da comunicação social global, esses prestadores de serviços (os que são) de dúbio profissionalismo independente e realista. Há ainda os que fazem as cabeças do mundo, chamados analistas ou fazedores de opinião. A choldra é a mesma. Uns quantos irão mostrar-nos a “coisa” como ela é. Temos de procurá-los e estar atentos ao que na realidade acontece pelo mundo. Isto para os que não são vivenciados e a habitar os EUA – que é a maioria dos que planetariamente fazem parte deste mundo.

Preconizávamos ontem aqui que, grosso modo, para o mundo tudo continuaria na mesma após as referidas eleições. Fossem qual fossem os resultados de ‘vitória poucochinha’ dos Democratas. Estamos cá para ver que assim será. Tudo como antes das políticas de Trump no exterior, mais coisa menos coisa. E é isso que nos interessa. Claro que há a possibilidade futura de Trump não ser reeleito (daqui por dois anos) e então sim, algo poderá vir a ser diferente, para melhor para o mundo. Mas não será com a senhora Clinton que tem muito para contar com o apoio conhecido que deu aos terroristas do Daesh e afins. Aquela mulher pode vir a ser mais perigosa para o mundo que Donald Trump. O futuro o dirá e sustentará esta tese ou virá desmenti-la. A ver vamos.

De Portugal pouco há dizer. A modorra está instalada e inventam-se “coisas e casos” para ser notícia. Os jornalistas andam a serrar presunto enquanto outros nos tentam manipular com empolamentos de assuntos como Tancos e outros de variedade ‘tuti fruti’. Até na TSF andam com as questões a ser quase de lana caprina, como ontem com Tancos, hoje com as crianças com cancro no hospital de São João, assistidas em contentores limítrofes ao edifício do hospital. E pergunta a TSF, hoje, no programa de Manuel Acácio, Fórum: “Concorda com a forma como o Governo está a tratar o problema do Hospital de São João?

Até aqui a questão não está de modo a pegar-se por ponta. Mas na rádio o que se ouve é “Concorda com o facto de as crianças com cancro no Hospital de São João estarem a ser tratadas em contentores?” Quando a pergunta devia de ser efetuada sem subterfúgios – até nem intencionais mas que podemos considerar assim.

E se a questão fosse? Concorda com os hospitais tratarem e manterem em internamento em contentores os doentes? Todos, não só as crianças do São João, daqui ou dali.

O que acontece é que a saúde está num caos. Não só devido ao governo de Costa mas sim de outros anteriores, do PSD, CDS e do PS. O plano é entregar aos privados os hospitais e tudo que lhes possa dar lucro. Como, por exemplo, nos EUA. Evidentemente que Costa e o seu governo, nem a nova ministra da Saúde, vão conseguir devolver aos portugueses o sistema de saúde que possuímos há uns bons anos atrás enquanto os abutres dos interesses privados mantiverem lobies e muito boas relações com os partidos e os políticos que ao fim e ao cabo decidem dos destinos da Nação Lusa.

Evidentemente que a situação das crianças no São João merecem toda a atenção e usufruírem de instalações e tratamentos do SNS que lhes dispensem toda a dignidade e bom profissionalismo, mas não são só eles que estão a ser desprezados em instalações hospitalares e do SNS em Portugal. Fale-se disso e resolva-se. Talvez acabando com as tais “boas relações” com os privados e aplicando os milhões cobrados sistematicamente aos portugueses com todo o rigor na sustentação de um SNS digno e de alta qualidade. Merecemos.

Fora de cena quem não é de cena. Entra a seguir Martim Silva com o Curto do Expresso. Boa terça-feira que na volta cá os esperamos. (CT | PG)

Bom dia este é o seu Expresso Curto

A depressão Beatriz e a pressão sobre Trump

Martim Silva | Expresso

Bom dia,

À hora a que me deitei, já estavam a começar a ser contados os votos em alguns dos estados dos Estados Unidos, mas noutros ainda se estava a votar. Os norte-americanos foram esta terça-feira a votos para umas eleições intercalares (escolha de congressistas, senadores e governadores) em que se jogava muito do que vai ser a política norte-americana nos próximos anos.

À hora em que termino esta newsletter, minutos antes de lhe chegar à caixa do correio esta manhã, o ponto de situação é este:

Os Democratas recuperaram o controlo da Câmara dos Representantes, que era dominada pelos Republicanos. Mas estes mantiveram, e ainda ampliaram a maioria que detinham no Senado (a câmara alta do Congresso).

Com isto, pode dizer-se que a política norte-americana volta a equilibrar-se, deixando a Administração de Donald Trump de ter mãos livres e caminho aberto na prossecução das suas políticas e na concretização da sua agenda.

E o que significa isto para as Presidenciais norte-americanas de 2018? Será que há algum democrata que possa fazer face a Trump? São questões que ficam no ar mas a que já se procura de alguma forma dar resposta. Aqui na redação do Expresso verdadeiramente não dormimos (não falo de mim mas dos colegas que aqui ficaram a noite toda para lhe contar ao pormenor o que se passa do outro lado Atlântico) para lhe garantir a melhor cobertura das eleições.

O Pedro Cordeiro, editor de Internacional do Expresso, percebe muito disto. E no site do jornal titula “Onda democrata? Sim. Avassaladora? Nem por isso”.

Deixem-me citar várias frases do texto dele que acredito que ajudam de alguma forma a resumir bem o que se passou na última noite e o que isso significa.

1. “Veredicto do eleitorado é ambíguo, reflexo talvez da polarização em torno do chefe de Estado, como sugeriu a CNN, mas a noite foi de dano controlado para a Casa Branca.”

2. “A nova relação de forças na câmara baixa permitirá à oposição travar projetos polémicos de Trump e investigar casos que o envolvem e dá força ao procurador Robert S. Mueller, que averigua as ligações entre a campanha do milionário em 2016 e as interferências do regime russo no processo eleitoral.”

3. “Para derrotar Trump em 2020, os democratas terão de fazer mais do que dois anos de oposição pela negativa.

4. “Não há um favorito, do lado democrata, para desafiar Trump. Estrelas ascendentes como Andrew Gillum, Stacey Abrams e Beto O’Rourke foram batidas nas urnas e perderam gás”

5. “Houve vitórias históricas em nome da diversidade: Rashida Tlaib (Michigan) e Ilhan Omar (Minnesota) serão as primeiras representantes muçulmanas no Congresso”

6. “O conservador Tennessee manda pela primeira vez uma mulher para o Senado, a republicana Marsha Blackburn, e o Colorado terá em Jared Polis o primeiro governador homossexual de sempre nos Estados Unidos.”

Agora olhemos para alguns dos textos e análises da imprensa norte-americana que me chamaram a atenção:

Este é o texto resumo da noite eleitoral feito pelo New York Times. E aqui ficam os gráficos mostrando os resultados quer para a Câmara dos Representantes, quer para o Senado.

No Washington Post apontam-se vencedores e derrotados da noite eleitoral. E escreve-se sobre como depois desta eleição, Trump, que fez onze comícios nos seis últimos dias, se prepara para arrancar com a sua máquina de campanha no início do ano, apostado em fazer do “Make America Great Again”, do confronto e do discurso divisivo o caminho para a sua reeleição.

Na Vox escreve-se que para o voto popular na Câmara dos Representantes ter caído tanto para o lado Democrata, numa altura de crescimento económico e de baixo desemprego, isso quer dizer que houve aqui uma forte penalização política contra Trump.

Aqui se explica em termos concretos matérias em que pode haver evolução e mudança imediata. Pelo simples facto de deterem a maioria da Câmara, os Democratas podem fazer avançar investigações muito delicadas para Trump, e que até agora estavam bloqueadas, como o acesso aos dados fiscais do Presidente, matérias relacionadas com a Rússia e ligação com a Administração, ou ainda a atuaçao americana com o regime saudita (altamente questionada depois do assassímio de Jamal Khashoggi).

Do lado Democrata, Beto O´Rourke perdeu a corrida para o Senado pelo Texas, para o Republicano Ted Cruz, mas tornou-se provavelmente uma das grandes esperanças para o partido nas presidenciais dentro de dois anos. Se verá se o que não chegou para conquistar os texanos chega para tornar o país azul (cor associada aos Democratas, por oposição ao vermelho dos Republicanos).

Nancy Pelosi, que deverá tornar-se a ‘speaker’ da Câmara dos Representantes, cujo controlo é retomado pelos Democratas ao fim de oito anos, falou na chegada de “um novo dia à América” e na “reposição dos mecanismos de ‘checks and balances’ para a Administração Trump”. Os Republicanos têm a Casa Branca e o Senado mas contam agora com uma força para lhes fazer frente em matérias como o Medicare e o Medicaid.

Quanto a Donald Trump propriamente dito, manteve um curioso silêncio durante toda a noite. Limitou-se a um tweet a dizer “Tremendous success tonight. Thank you all!”

Aqui se explica como os media norte-americanos foram desta vez bastante mais prudentes a anunciar vencedores e grandes tendências. Tudo por estarem escaldados com o que aconteceu em 2016, em que em muitos estados norte-americanos foram dando como certa a vitória de Hillary Clinton, para depois terem de corrigir o tiro. Agora, imperou a prudência.

OUTRAS NOTÍCIAS

Cá dentro,

No Parlamento estão a decorrer as audições com os vários ministros no âmbito do debate sobre o Orçamento do Estado para 2019. Ontem tivémos duas estreias, no feminino.
A nova responsável pela Saúde, Marta Temido, prometeu aos deputados uma solução rápida para o caso da oncologia pediátrica no Porto, garantindo que não dormirá tranquila enquanto não resolver o problema.

Já Graça Fonseca, ministra da Cultura, não fugiu à polémica do IVA das touradas e afirmou no Parlamento que “todas as políticas têm na sua base valores civilizacionais e as civilizações evoluem”.

No Público de hoje, Manuel Alegre escreve uma “Carta aberta a António Costa”, contra o fanatismo do politicamente correcto”. Fala, nomeadamente, de touradas (assunto em que já criticou a ministra da Cultura) e de caça.

Responsáveis da associação ambientalista Quercus resolveram vender um conjunto de terrenos na zona do Tejo Internacional a uma associação de caça. Claro que se meteram num molho de brócolos, com críticas e petições à mistura.

Ontem foi dia de Comissão Política no Expresso. Esta semanao podcast de política do jornal tratou de polémicas como Tancos e as faltas de José Silvano.

Sobre Tancos, a temperatura política continua a subir e ontem Marcelo Rebelo de Sousa voltou a falar do assunto, pela enésima vez nos últimos dias, com um discurso sobre ditadura militar e coisas do género.

E como este é um assunto em que há bastantes mais perguntas que respostas, nós resolvemos juntar mais algumas. E escrevemos sobre as questões que os deputados devem fazer a António Costa caso este vá depor ao inquérito parlamentar que para a semana deve avançar.

José Silvano é o secretário-geral do PSD, que foi apanhado a faltar a marcar presença em sessões plenárias do Parlamento a que faltou. Ontem Ferro Rodrigues veio dar esclarecimentos sobre o assunto. E o próprio Silvano também divulgou um comunicado, em que não esclareceu grande coisa.

Quem não se lembra das pastilhas Gorila… Pois, parece que a empresa que as faz está com problemas. Leia aqui o artigo.

A Volkswagen vai contratar 300 pessoas para novo centro de inovação em Lisboa

Dois militares da GNR agredidos em Campo Maior receberam assistência hospitalar

Uma guarda prisional de 32 anos morreu esta terça-feira de manhã durante o treino de tiro anual

WEB SUMMIT

Christopher Wylie é o homem que ajudou a revelar o escândalo que envolveu a empresa de Mark Zuckerberg e a Cambridge Analytica. Ontem esteve no evento e foi muito crítico: “O Facebook sabia desde o início e não fez nada”.

Há mais de mil startups em busca de financiamento. Esta peçada SIC fala disso e conta o caso de uma empresa que já por lá passou noutra edição e qual o resultado que conseguiu.

Meia dúzia de homens, 120 mulheres e um debate sobre o que eles e elas estão dispostos a fazer. Porque aqui também se falou de igualdade.

Lá fora,

Foram detidas seis pessoas por suspeita de planearem ataque “violento” contra Macron

Oposição venezuelana anuncia protestos de rua em 13 dos 24 Estados do país

Potencial jurado afastado do julgamento após pedir autógrafo a“El Chapo”

Ministro do Líbano pede desculpa após afirmar que “o Egito é um país sujo”

Rússia expõe-se a novas sanções dos EUA devido a armas químicas

UE recusa taxa digital antes de 2021. Ministros das Finanças europeus não chegaram ainda a acordo sobre o novo imposto digital para as gigantes tecnológicas

Livreiros unem-se em protesto contra plataforma de venda de usados da Amazon

Está confirmado. Existem mais duas ‘luas’ em órbita em redor da Terra

A NASA divulgou o primeiro vídeo da Terra feito a partir do espaço em resolução 8k.

DESPORTO

Ontem, o FC Porto despachou os russos do Lokomotiv de Moscovo na quarta jornada da fase de grupos da Liga dos Campeões. A crónica da partida pode ser lida aqui.

Mas sobre clubes russos não pode mesmo deixar de ler mais este texto do Football Leaks, mais um consórcio internacional de jornalismo de investigação, dedicado aos meandros mais sujos do mundo da bola. Este texto, dizia, fala precisamente sobre como o estado russo, através de empresas que controla, apoia e financia os maiores clubes da Rússia, permitindo que estes violem as regras do fayr play financeiro estabelecidas. Ou seja, permitindo que façam batota fora do campo.

E ontem, nem de propósito, foi detido pelas autoridades francesas o magnata russo que é dono do Mónaco. Mónaco que também perdeu na jornada desta terça-feira da Champions.

Hoje, quarta, é a vez do Benfica jogar com o Ajax. E amanhã, na Liga Europa, o Sporting defronta o Arsenal. Os dois clubes de Lisboa não têm andado de grande saúde e estas partidas são importantes para a sua manutenção nas competições europeias.

OPINIÃO

Daniel Oliveira: E se os promotores da justiça mediática fossem julgados pelos seus crimes?

Henrique Raposo: Não endeusem a Web Summit

Ricardo Costa: Não festejem já uma derrota de Trump

O QUE ANDO A LER

Há seguramente mais de uma década, um amigo meu, o Francisco Trigo de Abreu, então um jornalista com alma de escritor, tinha-me recomendado uma biografia do Garrincha que, dizia, era maravilhosa. Eu, que me fui habituando a seguir muitas das suas sugestões literárias, não li o livro na altura, mas a dica ficou algures cá dentro alojada no cérebro. Quando agora a Tinta da China por cá editou finalmente o “Estrela Solitária – um brasileiro chamado Garrincha”, de Ruy Castro, originalmente lançado no Brasil em 1995, comprei-o sem hesitar.

Há uns dias terminei-o. Como se costuma dizer, ‘de papo cheio’. Obrigado Ruy Castro (e obrigado Francisco, já agora). Este vai direitinho para o top dos livros do ano e uma das melhores biografias que já li. A história de Garrincha, um dos maiores futebolistas do país que maior número de maiores futebolistas já teve, contemporâneo de Pelé. O ídolo das pernas tortas. A vertiginosa ascensão e não menos vertiginosa e dolorosa queda do Manuel de Pau Grande, ídolo da torcida do Botafogo, amante de sexo e alcoólico incorrigível.

Para si, que lê esta newsletter, permita-me esta recomendação: leia o “Estrela Solitária”. Não interessa se é amante de futebol. Basta que seja de páginas escritas com o toque mágico dos que nos conseguem faer sonhar com as palavras.

Termino esta newsletter como comecei. Com uma depressão. Com uma espécie de depressão diferente. Esta chama-se Beatriz e estamos a senti-la por cá. Malvada da Beatriz que nos vai trazerchuva e vento até à próxima semana.

Boas leituras e tenha uma excelente quarta-feira. Com o Expresso, onde quer que esteja.

A China, Israel e o Médio Oriente

Posted: 07 Nov 2018 01:31 AM PST

Em dois anos a China passará a controlar a indústria agroalimentar, a alta tecnologia e as trocas internacionais israelitas. Os acordos com Israel podem alterar completamente a geopolítica regional.

António Abreu | AbrilAbril | opinião

Segundo o conhecido analista das questões do Médio Oriente, Thierry Meissan, a China passará a controlar nos próximos dois anos o essencial da indústria agroalimentar israelita, da sua alta tecnologia e das suas trocas internacionais, devendo seguir-se entre as partes um acordo de comércio livre, em que único sector importante da economia israelita fechado ao capital chinês é o do armamento.

E concluiu, a partir de elementos bem fundamentados, que a geopolítica regional daria uma grande volta por causa disso e do «Plano de Paz» norte-americano.

Quanto a nós essa conclusão é, porém, precipitada.

No Outono de 2013, a China tornou público o projecto de criação de vias de comunicação marítimas, e sobretudo terrestres, através do mundo, para as quais desbloqueou somas colossais, tendo logo começado a concretizá-las.

O vice-presidente da China, Wang Qishan, em digressão pelo Próximo Oriente, há alguns dias, esteve quatro dias em Israel1 onde assinou acordos que confirmam essa sua grande presença na economia de Israel. Este projecto visa exportar os seus produtos segundo o modelo da antiga «Rota da Seda», que, do século II ao XV, ligava a China à Europa através do Vale de Ferghana, do Irão e da Síria.

Tratava-se, nessa época, do transporte de produtos de cidade em cidade, de modo que em cada paragem eram trocados por outros, de acordo com as necessidades dos comerciantes locais. Pelo contrário, hoje em dia, a China ambiciona vender directamente na Europa e no resto do mundo.

Wang lembrou que Israel foi o primeiro país do Oriente Médio a reconhecer a República Popular da China (numa altura em que a União Soviética tinha sido o primeiro país a reconhecer o estado de Israel).

As suas mercadorias, porém, já não são as sedas e especiarias exóticas mas sim produtos acabados, idênticos aos dos europeus e, muitas vezes, de qualidade superior. A rota comercial transformou-se agora numa verdadeira autoestrada. Se Marco Polo ficou deslumbrado pelas sedas do Extremo Oriente, sem equivalente em Itália, Ângela Merkel está em pânico com a ideia de ver a sua indústria automóvel esmagada pelos concorrentes chineses. Os países desenvolvidos terão, pois, ao mesmo tempo, de negociar com Pequim e preservar as suas indústrias do choque económico decorrentes dessa concorrência.

Esta visita do Vice-presidente chinês, a Israel, à Palestina, ao Egipto e aos Emirados Árabes Unidos visa desenvolver a «Nova Rota da Seda», que está a apresentar algumas dificuldades.

A China, ao exportar maciçamente a sua produção, irá assumir o lugar que o Reino Unido, primeiro sozinho e depois com os Estados Unidos, ocuparam desde a revolução industrial, tendo estabelecido esse domínio comercial sobre o resto do mundo.

No decurso da Segunda Guerra Mundial, Churchill e Roosevelt assinaram a Carta do Atlântico, através da qual os Estados Unidos entraram na guerra.

Querem fazer agora algo de semelhante em relação à China?

O Pentágono produziu em 2013 um projecto visando criar um estado entre o Iraque e a Síria para interromper a rota da seda entre Bagdade e Damasco. O Estado Islâmico foi encarregue dessa tarefa. Os chineses mudaram o traçado da Rota e acordaram com o Egipto um investimento na duplicação do Canal de Suez e na criação de uma vasta zona industrial perto do Cairo. O traçado pelo Egipto foi validado pela Administração Obama. Washington autorizou a duplicação do Canal de Suez (já operacional) e a criação de uma vasta zona industrial, que está em construção.

A Administração Trump terá autorizado também o traçado por Israel.

Com fins idênticos de criar dificuldades, o Pentágono montou uma «revolução colorida» na Ucrânia para cortar a Rota europeia, e ainda distúrbios na Nicarágua para criar obstáculos à construção de um novo canal ligando os oceanos Pacífico e Atlântico.

Apesar da importância, sem precedentes, dos investimentos chineses na Nova Rota da Seda, até atendendo a paralelos históricos, o projecto actual não está de antemão garantido, como o próprio Meyssan reconhece. Que seria importante para um acréscimo de poderio por parte da China e para a redução ou eliminação de tensões na região, depois da Síria, com apoio da Rússia, ter vencido a guerra, que começou «colorida» em 2011 e terminou num ninho de terrorismo alimentado por várias potências.

Num passado recente, a China investiu no Médio-Oriente com o objectivo de se abastecer de petróleo. Construiu refinarias no Iraque, que foram destruídas pelo Estado Islâmico e pelas forças ocidentais que fingiam combater os islamitas.

Os laços entre Israel e a China datam do mandato do Primeiro-ministro israelita, Ehud Olmert, cujos pais fugiram dos nazis para se instalarem em Xangai. O antecessor de Benjamin Netanyahu tentou estabelecer relações fortes com Pequim, mas esse projecto fracassou depois de ter apoiado um dos grupos de piratas na Somália, encarregado por Washington de perturbar o tráfego marítimo russo e chinês à saída do Mar Vermelho.

Desde 2016, a China está a negociar com Israel um acordo de livre comércio. Neste contexto, o Shanghai International Port Group comprou a concessão de exploração dos portos de Haifa e Ashdod, o que fará com que, em 2021, a China controle 90% do comércio israelita. A Bright Food adquiriu já 56% da cooperativa dos kibutzes Tnuva, e poderia aumentar a sua participação, de tal modo que a China poderia controlar o essencial do mercado agrícola israelita. O fundador da loja «em linha» Alibaba, Jack Ma, que veio a Telavive incluído na delegação oficial chinesa, não escondeu a sua intenção de comprar muitas start-up israelitas para lhes incorporar a sua alta tecnologia.

O antigo director da Mossad, Ephraim Halevy, próximo dos Estados Unidos, sublinhou que o Conselho de Segurança Nacional jamais havia deliberado sobre estes investimentos. Eles haviam sido decididos unicamente segundo uma lógica de oportunidade comercial. Para Meyssan, coloca-se a questão de saber se Washington autorizou, ou não, esta reaproximação entre Telavive e Pequim.

Parece pouco provável que Pequim tenha concluído um acordo secreto com Washington para este novo traçado da Rota da Seda. A história mostrou que a administração norte-americana tudo fez, e continua a fazer, para atingir outras grandes potências concorrentes. Uma aliança sino-americana seria, a curto e médio prazo, favorável a Pequim, mas depois ela conduziria à eliminação subsequente da Rússia e da própria China.

Israel continua a matar palestinianos e a bombardear a Síria. Isso vai ou não continuar?

Os acordos entre a China e Israel podem alterar completamente a geopolítica regional. Até aqui, Pequim era um parceiro comercial de Israel (excepto em matéria de armamento) e político do Hamas (que dispõe de uma representação em Pequim). De modo idêntico, a China fornecia mísseis ao Hezbollah libanês. No que estará a ser discutido entre ambos, a partir de agora, o Hamas e o Hezbollah deixarão de poder atacar alvos rodoviários, ferroviários e portuários israelitas sem entrar em conflito com a China. Recordemos, por exemplo, que o Secretário-geral do Hezbollah, Sayyed Hassan Nasrallah, havia explicado que, em caso de ataque israelita ao Líbano, ele poderia bombardear o material nuclear armazenado em Haifa, valorizando com isso o facto de, em função disso, «dispor» da sua própria «bomba atómica».

Está por esclarecer que contrapartidas Israel cederia no sentido de acabar com a guerra contra os palestinianos e com os controlos e os muros que dificultam muito uma vida normal da Palestina. E se cessariam as pressões sobre o Líbano, e se Israel obteria dos EUA o fim das sanções sobre o Irão.

Estas decisões podem contribuir para alterar também a geopolítica mundial. O acordo sino-israelita supõe a autorização de Washington.

A estratégia comercial chinesa pode modificar profundamente o sentido da Parceria da Euroásia alargada, concluída entre a China e a Rússia, e que serve hoje em dia de fundamento à aliança entre estes dois países. É de supor que a Rússia esteja a acompanhar o processo, encarando eventuais alterações geopolíticas.

De tudo isto se poderá concluir também este novo curso parece revelar haver acordos entre os EUA e a China, apesar da escalada mútua nas tarifas aduaneiras entre ambos.

Se este projeto chegar ao seu termo, todos os países do Médio-Oriente se teriam que reposicionar podendo isso arrastar idênticos movimentos noutros Estados do mundo.

Em 27 de Outubro passado, o Ministro dos Negócios Estrangeiros do Omã, Yousuf bin Alawi, intervindo nos encontros de Manama (Bahrein), apelou aos outros dirigentes árabes para reconhecerem o Estado de Israel. O soberano hospedeiro do encontro, o Rei Hamed bin Issa Al Khalifa, deu-lhe o seu apoio. No dia seguinte, o Sultão Qaboos, do Omã, enviou uma delegação a Ramallah (Palestina) para levar uma carta ao Presidente Abbas.

Noutras frentes de conflito no Médio Oriente prosseguem outros movimentos.

Síria

A Cimeira quadripartida de Istambul sobre a Síria serviu para clarificar as propostas políticas russas, mas acabou por não decidir nada. Moscovo empenhou-se em argumentar com os seus parceiros turcos, franceses e alemães, mas os aliados de Washington arrastam-se a digerir a sua derrota e a tirar conclusões que não sejam a queda do presidente sírio e uma nova constituição, com um desenho que não conhecemos.

Desde o acordo russo-americano de Helsínquia, em Julho passado, parece que o Presidente Donald Trump tenta retirar as suas tropas da Síria, enquanto o Pentágono insiste em mantê-las afim de não deixar a Rússia decidir sozinha o futuro do país.

Iémen

Falando em 30 de Outubro de 2018 no Instituto de Paz dos EUA, o Secretário da Defesa, James Mattis, anunciou a sua intenção de terminar a guerra no Iémen em 30 dias. Deu a entender, numa longa entrevista na televisão saudita Al-Arabiya, que a sua missão é ajudar a Arábia Saudita a sair do ninho de vespas onde se meteu. O Iémen, como o Afeganistão, sempre resistiu aos invasores e nunca poderia ser ocupado. A Arábia Saudita tem apoiado um ditador isolado no seu país e bombardeado os rebeldes houtis e as populações que o rejeitam, massacrando-as e estando à beira de provocar uma catástrofe humanitária, com várias componentes.

Arábia Saudita

Pequim tornou-se, igualmente, o principal comprador do ouro negro da Arábia Saudita. E, assim, construiu neste Reino o gigantesco complexo petrolífero de Yasref-Yanbu por 10 mil milhões de dólares.

Tal como referi em artigo anterior, para outras situações, são tendências, e não mais que isso, que podem não se verificar pela natureza predadora, historicamente comprovada, de várias das potências referidas, que ainda alimentam as desigualdades na população mundial, o domínio de povos e a degradação dos seus meios ambientais, e que internamente em cada uma exploram os trabalhadores. e lhes vão retirando direitos que foram conquistas civilizacionais e desrespeitadoras das Cartas e tratados das Nações Unidas.

1.A comunicação social israelita destacou a visita, ver, por exemplo, o artigo do The Times of Israel. Já o The Epoch Times (EUA), jornal conservador e anticomunista da comunidade sino-americana, preferiu dar relevo às ameaças, para os EUA, da cooperação económica e militar sino-israelita.

Foto: Washington Examiner (Etienne Oliveau/Pool Photo via AP)

Democratas conquistam Câmara dos Representantes: EUA; “será um novo dia”

Posted: 07 Nov 2018 01:13 AM PST

A líder democrata na Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, assegurou que “será um novo dia” para o país depois de o seu partido conquistar a maioria naquele órgão do Congresso dos EUA aos republicanos nas eleições intercalares norte-americanas.

Pelosi, que deverá ser a presidente da Câmara dos Representantes dos EUA depois de oito anos nas mãos dos republicanos, destacou que a conquista dos democratas não deve ser vista pelo prisma das diferenças partidárias, mas como uma vitória “para conservar os valores constitucionais” dos Estados Unidos.

“Com esta nova maioria democrata, vamos honrar os valores de nossos pais fundadores”, sublinhou a congressista da Califórnia no seu discurso de vitória.

As declarações de Pelosi surgem depois do Presidente dos Estados Unidos ter classificado a noite eleitoral de um “tremendo sucesso”, numa reação ao facto de os resultados darem aos republicanos o controlo do Senado por mais dois anos, que contraria as expetativas dos democratas de uma onda anti-Trump que lhes garantisse uma maioria.

Em algumas das eleições intercalares nos Estados Unidos está em jogo a real base de apoio do Partido Republicano do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, numa votação em que são escolhidos congressistas, senadores e governadores em 36 estados.

Lusa | em Notícias ao Minuto

Ex-secretário do Tesouro norte-americano alerta para cortina de ferro económica

Posted: 07 Nov 2018 01:07 AM PST

Pequim, 07 nov (Lusa) – O antigo secretário do Tesouro norte-americano Henry Paulson advertiu hoje para a perspetiva de uma “cortina de ferro económica” entre a China e os Estados Unidos, apelando a ambos que trabalhem para resolver as disputas comerciais.

O responsável máximo pelo Tesouro dos EUA durante a administração de George W. Bush avisou que a guerra comercial entre Pequim e Washington está a “chegar a um ponto de não retorno”, durante um discurso na conferência Bloomberg New Economy Forum, em Singapura.

“A região [asiática] deve hoje estar preocupada com a transformação de uma competição estratégica saudável numa guerra fria em grande escala”, disse Paulson, que era secretário do Tesouro quando implodiu a crise financeira global, em 2008.

O Presidente norte-americano, Donald Trump, impôs já taxas alfandegárias de até 25% sobre 250 mil milhões de dólares de importações oriundas da China. Pequim retaliou com taxas sobre bens importados dos EUA.

Em causa está a política de Pequim para o setor tecnológico, nomeadamente o plano “Made in China 2025”, que visa transformar as firmas estatais do país em importantes atores globais em setores de alto valor agregado, como inteligência artificial, energia renovável, robótica e carros elétricos.

Os EUA consideram que aquele plano, impulsionado pelo Estado chinês, viola os compromissos da China em abrir o seu mercado, nomeadamente ao forçar empresas estrangeiras a transferirem tecnologia e ao atribuir subsídios às empresas domésticas, enquanto as protege da competição externa.

Bruxelas ou Tóquio partilham das mesmas queixas.

O governo norte-americano acusa ainda Pequim de expansionismo militar, violação de liberdades civis e religiosas e até de interferência nas eleições norte-americanas, visando penalizar a administração de Donald Trump.

Henry Paulson disse que pôr em causa décadas de progresso nas relações comerciais entre a China e os Estados Unidos acarreta grandes impactos económicos.

“Temo que partes importantes da economia global estão a fechar-se ao comércio e investimento”, disse.

“E agora vejo a perspetiva de uma cortina de ferro económica, que irá erguer novas barreiras em cada lado e romper com a economia mundial como a conhecemos”, acrescentou.

Washington deu alguns sinais positivos, nas últimas semanas.

Trump disse no início do mês que teve uma “conversa muito boa” por telefone com o homólogo chinês, Xi Jinping, sobre questões comerciais e a Coreia do Norte.

O Departamento de Estado anunciou ainda conversações de alto nível com Pequim, sobre segurança, em Washington, para esta sexta-feira.

Henry Paulson prevê, ainda assim, “um longo inverno nas relações sino-norte-americanas”.

JPI // SB

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