Ana Monteiro · Perdidos no verdadeiro Halloween

Ana Monteiro
56 mins ·
Perdidos no verdadeiro Halloween

Há uns bons anos passou na televisão uma série que me manteve “colada” ao ecrã durante várias temporadas. Isto na era pré-gravações automáticas em que não existia um botão que permitia “viajar” facilmente pelos últimos 7 dias.
A série “Lost” (Perdidos) girava à volta de um grupo de sobreviventes de um acidente de aviação que se encontravam numa ilha repleta de experiências enigmáticas. Uma delas, uma Escotilha, onde um morador solitário seguia escrupulosamente um protocolo que consistia em digitar uma sequência de números a cada 108 minutos e carregar um botão (“A partir do momento que o alarme soa, vocês têm 4 minutos para digitar o código ou algo de terrível acontecerá”; nem eles – nem os espectadores – fazem ideia do que poderá acontecer, mas decidem acreditar e seguir as instruções. Fazem turnos e, sem falta, continuam a carregar o botão que pode manter a ordem das coisas).
Ontem, ao ler o “Living Planet Report 2018” da WWF lembrei-me do tal “botão” do Lost, não no sentido em como bons selvagens podem ser condicionados a um novo comportamento mas no conforto que é haver um mecanismo que faz mover o mundo de forma infalível. Esse mecanismo chama-se Natureza.
Segundo o relatório ontem anunciado, as populações mundiais de peixes, aves, mamíferos, anfíbios e répteis diminuíram 60% (soletrem devagar: s-e-s-s-e-n-t-a por cento) entre 1970 e 2014.
Nas zonas tropicais da América do Sul e Central, as perdas chegam aos 89%.
Estes números deveriam fazer soar todos os alarmes da Terra. Imaginei que hoje, ao ligar a televisão, todos os canais estariam a noticiar tamanha catástrofe; estava convicta de que nas capas dos jornais de hoje aparecesse um 60% em letras garrafais e berrantes como nos dias em que o Benfica vence o Futebol Clube do Porto. Esperei discursos políticos e a criação de um sindicato do Ambiente. Imaginei que as publicações do relatório nas redes sociais teriam mais “likes” do que uma foto de um prato de chicharros.
Eu estava claramente errada. Este mau presságio não abalou, nem um centímetro que fosse, a trajectória fútil da humanidade.
60% às tantas não é assim tanto. Certamente fui eu que me tornei pessimista.
Imaginemos então que 60% da nossa família é exterminada ou 60% dos nossos colegas de trabalho ou da nossa equipa de futebol. Ou 60% dos vizinhos da nossa rua. Ou 60% de todas as nossas opções consumistas – da cerveja ao telemóvel.
Imaginemos agora que 60% de toda a Humanidade se extingue e os 40% que sobram têm de manter a “máquina” a funcionar de forma mais ou menos digna. Precisamos de alguém que cultive alimentos, de alguém que saiba fazer pão pão, de professores que eduquem as nossas crianças, de médicos que nos diagnostiquem e nos curem algumas doenças. Com apenas 40% não poderemos exigir muitas especialidades; teremos de nos contentar com generalistas e esperar que consigam fazer o melhor que puderem.
Os ecossistemas encontram-se assim amputados em 60% das suas capacidades, muitas delas desconhecidas para nós mas todas elas importantes para a nossa sobrevivência e para a sobrevivência do Planeta.
Por exemplo, um terço da produção alimentar mundial depende de polinização – por 20 mil espécies de abelhas, centenas de outros insectos e até mesmo de vertebrados como alguns pássaros e morcegos. Todas estas espécies se encontram em risco de extinção.
A Natureza é portanto o “botão” que mantém o equilíbrio do Planeta e da Vida (esta parece uma frase destinada a crianças do primeiro ano, mas não estou certa de que todos tenham assimilado esta ideia).
A culpa do extermínio destes 60% é nossa. De todos nós e do nosso consumismo desenfreado: agricultura intensiva, degradação dos solos, sobrepesca, desperdício de alimentos, alterações climáticas, todas as formas de poluição, sobre exploração de recursos naturais e energia, etc, etc, etc.
A culpa desta aniquilação em massa é também fruto da nossa crescente visão descartável de tudo o que nos rodeia e da nossa facilidade em desculpar a irresponsabilidade ambiental das pessoas e instituições.
Quando ouço responsáveis políticos apregoarem medidas que aumentam o conforto das pessoas penso se a palavra “conforto” também não estará em vias de extinção. Não me parece que nada de “confortável” possa advir do encurtamento ou desaparecimento de ecossistemas.
Não será também “confortável” ter um discurso radical ou disseminar o pânico generalizado mas creio que a fase das mezinhas e dos paninhos quentes já passou. Precisamos de medidas urgentes e concretas, de pactos de governação a longo prazo que incluam todos os quadrantes políticos.
Este é o maior desafio da Humanidade e está a passar-nos ao lado. Se não despertarmos para uma nova forma de consciência, espera-nos uma eterna noite de Halloween com muitos mortos-vivos, bruxas mercenárias de recursos, vampiragem e outras estranhezas.
O ser humano não consegue substituir-se ao “botão” que mantém a ordem das coisas nem possui um comando de um qualquer equipamento “Smart” que permita recuar no tempo e recuperar todos os anos de destruição infligida à Natureza. Mas o ser humano pode reaprender e encontrar-se.

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