o casal que Salazar e Mao separou

«Aida Franco Nogueira mostra-me a foto dos avós maternos. Uma lindíssima jovem portuguesa e um atraente diplomata chinês, com o cabelo puxado para trás graças à brilhantina, que tinha vindo em missão a Lisboa. Otília Machado Duarte e Wang Shuyao. Conheceram-se numa festa, dançaram toda a noite, apaixonaram-se e casaram-se, alheios à diferença de culturas, embora ele ser católico tenha facilitado o sim. O retrato a preto e branco, agora protegido por uma moldura de vidro, exibe um pequeno rasgão, como que a relembrar que passou quase um século desde aquela inesperada paixão em Lisboa na década de 1920 que acabou por se transformar numa história trágica de separação, com a política a ter muitas culpas.

Apanhado na China pela invasão japonesa e pela guerra civil entre nacionalistas e comunistas, o casal teve de se separar. Wang foi mesmo preso, mas ainda conseguiu enviar Otília e as duas filhas, Vera e Teresa, para o Japão, como refugiadas. Seguiram-se décadas de separação, e Otília, professora de Francês, morreu sem nunca reencontrar o marido. Vera, a mais velha das filhas, foi quem um dia conseguiu ir a Xangai rever o pai, já muito frágil. Como o destino fez que a luso-chinesa se casasse com Alberto Franco Nogueira (que viria a ser ministro dos Negócios Estrangeiros), enquanto Salazar e Mao viveram e Portugal e a China estiveram de relações cortadas, nada pôde ser feito. Foi preciso acontecer o 25 de Abril e voltarmos a ter representação diplomática em Pequim para que uma filha e um pai separados há 35 anos se revissem.

“A minha mãe estava emocionadíssima com a viagem à China. Mas ela, com a dignidade habitual, nunca mostrou exuberância nos sentimentos, percebe? Nunca chorou, nunca riu, mas estava emocionada, claro! E eu, à pressa, arranjo dois álbuns das minhas filhas – o da Filipa foi um bocadinho maior porque ela já tinha 14 meses e mais fotografias do que a Joana que nascera havia três meses. A minha mãe levou em 1981 esses álbuns para mostrar as bisnetas. Ele nunca as conheceu, nem a mim”, conta Aida, sentada num sofá numa salinha cheia de fotografias de família, várias dos já três netos. Numa estante alguns livros de encadernação antiga que pergunto se eram do pai, advogado como ela, mas que afinal pertenceram ao avô paterno, juiz. A conversa é num sétimo andar no Restelo, no mesmo prédio onde Alberto Franco Nogueira e Vera Wang Franco Nogueira viveram.

Pai e filha falavam em mandarim

É um tema delicado de conversa para Aida. A voz por vezes embarga-se e os olhos chegam a lacrimejar. A mãe morreu há poucos dias, o pai faria 100 anos neste dia 17 (e vai haver uma cerimónia no Ministério dos Negócios Estrangeiros). Diz-me que quase tudo o que está a contar foi o que ouviu da mãe, que nem sempre sabe as datas certas. Agradeço-lhe ter aceitado contar o episódio do reencontro de Vera Wang (é assim que Aida acha que faz sentido a mãe ser referida nesta reportagem) com o pai chinês, depois de uma hesitação há quase três anos quando a contactei pela primeira vez depois de descobrir a comovente história no livro Em Torno da China, as memórias diplomáticas de João de Deus Ramos. Como primeiro diplomata português nessa Pequim capital da República Popular da China, chegado em 1979, João de Deus Ramos esteve com Vera e o pai. “Um senhor muito distinto, mas que evidenciava claramente que a vida tinha sido dura para ele”, relembra agora o embaixador, figura importante nas negociações para a transferência de Macau para a China em 1999.

“Nós nunca pudemos comunicar com o meu avô e o meu pai, sobretudo no período em que foi ministro, teve de ter todas as cautelas para não se fragilizar nem a ele nem ao país. Mas às vezes, chegadas não sei de onde, com imensos carimbos, recebíamos cartas do meu avô. Tinham conselhos para a minha mãe, mas não sei bem o quê, estavam em chinês. Eram baseadas na filosofia chinesa de vida”, relata Aida, que conta que a mãe falava cinco línguas, incluindo chinês e japonês. No livro de memórias, João de Deus Ramos diz ter conversado em francês com o antigo diplomata da República da China e que ficou surpreendido por pai e filha falarem em mandarim.

Aida pede-me desculpa para atender um telefonema. Está a preparar a missa de 30.º dia da mãe. Durante a conversa o telefone dá sinal mais algumas vezes. Ainda há gente a querer apresentar condolências. Como mulher do mais emblemático ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar, Vera Wang era uma figura muito conhecida, mas a filha gosta que se lembrem dela não só como a viúva de Franco Nogueira mas também como a fundadora da Academia de Música de Santa Cecília. Mostra-me alguns álbuns de família. Num deles, de folhas já a soltar-se, está uma foto de Vera, talvez com uns 3 anos (nasceu cá em 1927).
Uma luso-chinesa em Tóquio

Depois de se casar em Portugal, o casal Wang foi para a Bélgica. Ele era diplomata da República da China, fundada por Sun Yat-Sen e depois presidida por Chiang Kai-shek. Na derradeira guerra civil chinesa, já depois da Segunda Guerra Mundial, o generalíssimo foi derrotado por Mao Tsé-tung e refugiou-se em Taiwan em 1949, onde continuou a reivindicar ser o legítimo governante de toda a China. Ainda hoje a pequena ilha aloja a República da China, mas os nacionalistas do Kuomintang estão na oposição e há um crescente sentimento independentista na população, que apesar de ser de cultura chinesa aprecia o sistema democrático que ali vingou depois da morte de Chiang. Os líderes de Pequim só admitem, porém, a solução da reunificação, como aconteceu com Macau, portuguesa desde o século XVI, e com Hong Kong, colónia britânica de 1841 a 1997.

Há num dos álbuns muitas fotografias de Aida, tiradas em Richmond Park, quando Franco Nogueira esteve colocado como diplomata em Londres no final dos anos 1950. Aproveito para pedir a Aida que me conte como se conheceram os pais, que é outra das histórias míticas da nossa diplomacia, durante muito tempo relembrada por quem fazia carreira no Palácio das Necessidades. Ri-se. É uma recordação feliz, que lhe agrada contar um pouco como terá ouvido tantas vezes contada pelo pai e pela mãe: “O meu pai é colocado no Japão em 1946, como representante de Portugal junto do alto-comando liderado pelo general MacArthur. Na altura os Estados Unidos ocupavam o Japão, que em agosto de 1945 se tinha rendido depois das bombas atómicas. Ele vai alojar-se em Tóquio no hotel onde viviam os estrangeiros não americanos. E ninguém fala nada que ele entenda e vice-versa. Mas percebem que é português e vão buscar a minha mãe. E aparece ela e a minha tia pequenina, com 10 anos ou coisa parecida. É no Japão que começa o amor deles e no Japão casam-se e ficam mais oito anos.” Mas faltava a autorização de Salazar para que um diplomata pudesse casar-se.

O sim de Salazar ao casamento

“Houve uma peripécia: o meu pai, como diplomata português, não podia casar-se com quem lhe apetecesse. A autorização estava difícil porque naquela altura o meu pai não tinha nenhum contacto com Salazar, não o conhecia. A autorização é pedida, mas demora. Salazar exigiu ver uma fotografia da minha mãe porque alguém terá dito que era uma jovem comunista, revolucionária e aventureira e que não devia ser dada a autorização. O Salazar, com aquela calma dele, pede para ver a fotografia e quando a viu autorizou o casamento. Simplesmente, a minha avó Otília estava, por causa da demora, a tratar da viagem de regresso a Portugal, dela própria e das filhas. A viagem veio e as três embarcaram para Portugal, a caminho primeiro de Macau e, num dos portos em que o navio atracou, chega de repente um telegrama com a autorização do casamento e a minha mãe pegou nas suas coisas e voltou para o Japão. Só vêm para a Europa oito anos depois. Regressam para um posto para Londres e ficam aqui pouco tempo – o tempo de eu nascer, porque eu nasci aqui. Depois foram para Londres, tinha eu 9 meses”, acrescenta Aida, hoje com 63 anos. Portanto, Vera, que saíra de Portugal com uns 3 anos, regressa mais de 20 anos depois. “Não tinha qualquer memória do que era Portugal e quando chega o português dela não era muito bom, apesar de já estar a melhorar. Mas o hábito dos meus pais era falar em inglês. Só mais tarde é que começaram a falar em português. E quando o meu pai se torna ministro dos Negócios Estrangeiros e ela acaba por ter um protagonismo público, aí já fala português corretamente.”

Ministro entre 1961 e 1969, com Salazar e depois, por pouco tempo, com Marcelo Caetano à frente do governo, Franco Nogueira teve de lidar com um período de grande isolamento internacional de Portugal, que se esforçou por contrariar, sobretudo junto dos países da NATO. No arquivo do DN são muitas as fotografias suas com líderes internacionais, destacando-se uma na Casa Branca com John Kennedy, a 7 de novembro de 1963, duas semanas antes do atentado em Dallas. Considerado um liberal na juventude, Franco Nogueira foi-se tornando mais conservador ao longo dos anos, mas mesmo Francisco Seixas da Costa, da geração de diplomatas que surgiu logo a seguir à revolução, reconhece o brilhantismo intelectual. E, diz ao DN, valoriza o antigo MNE por ter sabido rodear-se “para a “missão impossível” que fora defender o patético colonialismo tardio de Salazar, de muitos daqueles que eram, de facto, grandes funcionários das Necessidades, a esmagadora maioria dos quais viria a transitar, com escassos sobressaltos, para o tempo democrático”. Já o antigo ministro chegou a ser preso depois do 25 de Abril e Aida recorda-se de ser acordada em casa por militares com G3 em punho. “Senti o frio do cano da arma encostado à pele”, diz.

Constrangido durante uma década de tentar qualquer contacto com a China comunista enquanto chefiava a diplomacia do Estado Novo, já em 1979, quando João de Deus Ramos se instalou em Pequim, nada impedia Franco Nogueira de aceitar ajuda dos antigos subordinados (como era o caso do encarregado de negócios com cartas de gabinete) para tentar encontrar o sogro. E foi assim que chegou a licença das autoridades chinesas para a viagem de Vera Wang. Mao já morrera e Deng Xiaoping estava prestes a iniciar as reformas económicas, mas ainda era uma China pobre aquela que a luso-chinesa vai encontrar quando viaja em 1981, lá ficando um mês.

“A minha mãe contou-me algumas coisas bastante chocantes. Aliás, quando fez a mala ela sabia que o pai não tinha nem dinheiro nem roupa nem casa, não tinha nada, porque na China era assim, tinha um fato para o verão, um fato para o inverno, um pijama para o verão e um pijama para o inverno, acabou”, relembra Aida. Que prossegue com o relato daquilo que viu e ouviu: “Era arriscado, mas mesmo assim, à cautela, levou algumas peças, uma camisa, umas calças, um pijama, mas nada de valor. Levou três ou quatro peças de roupa. Levou aquilo com que podia ajudar o pai sem ser ostensiva, sem ser revistada e presa também. Depois, para não ser muito ostensiva, teve muito cuidado nas roupas que levou, umas simples calças e uma blusa, de uma cor só. Mas sentiu a mudança dos tempos. Apesar de tudo ela sentiu que a ajudaram, se eles não quisessem que ela fosse lá não deixavam.” Foi mais ou menos um mês que a filha passou na China com o pai. Conta ainda Aida que o avô tinha voltado a casar-se e que tinha uma filha jovem, engenheira. E que “ter conseguido ser professor, depois de todas as humilhações sofridas pelos letrados durante a Revolução Cultural, significava que se tinha conseguido reerguer”. Mostra-me mais algumas fotos da mãe. “Era bem bonita, não era?” As fotografias respondem por si, mas quem conheceu Vera Wang fala também de uma autoridade natural. João de Deus Ramos recorda-se de um jantar em Lisboa em 1968, na legação da República da China, em que “a mulher do ministro, num tom firme mas cândido”, o aconselhou “a usar os pauzinhos chineses”. E recorda que Salazar tinha grande admiração por esta pequena luso-chinesa de personalidade forte a ponto de se “darem como deus com os anjos”, sublinha o antigo administrador da Fundação Oriente.

Hoje com 76 anos, o nosso diplomata pioneiro em Pequim diz que se recorda bem do pai de Vera, que surgiu vestido tão pobremente que pediu desculpa. Pediu para ver os livros de João de Deus Ramos “e confessou que há muito não via tantos livros ocidentais”. A ida à capital foi uma exceção, pois a maior parte do tempo foi passada em Xangai, onde, sublinha Aida, a mãe foi obrigada a procurar um hotel pois não a deixaram ir para a casa onde o pai vivia.

A despedida de pai e filha foi definitiva ao fim daquele mês de reencontro e muitas emoções. Wang Shuyao, que já deveria andar na casa dos 80, morreu “talvez uns cinco anos depois”, diz Aida, que passou a receber cartas em inglês. Numa delas, que me relê em voz trémula, o avô aconselha-a “a viver perto da água e a olhar para o mar”.

A notícia da morte “veio com fotografias dele morto. Alguém comunica, não se sabe bem quem, eu pelo menos não sei. Alguém comunica e manda umas dez fotografias da cerimónia em que ele está morto numa bancada de pedra.” Não é coisa para se pôr num álbum de família, mas Aida conta que estão guardadas, “muito bem guardadas”.»

DN.PT
Vera Wang era filha de um chinês e de uma portuguesa. Com o pai preso na China, refugiou-se no Japão. Conheceu lá Franco Nogueira, futuro MNE de Salazar, e casaram-se. Só depois do 25 de Abril conseguiu rever o pai. Quem conta agora a história é Aida, a filha.
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Publicado por

CHRYS CHRYSTELLO

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção e da comissão executiva da AICL