LEMBRAR TIMOR 1989, FILME “ENTERRADOS VIVOS

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LEMBRAR TIMOR 1989
18 agosto 1989 ….josé ramos horta: JRH – Voltemos atrás e ao papel dos meios de comunicação social australianos. Tem havido inúmeras notícias provenientes de Timor-Leste, de fontes altamente credíveis e fiáveis. O bispo católico de Timor, monsenhor Belo, que vive em Díli, viaja através do país e tem conhecimento da situação, enviou recentemente uma carta ao Secretário-geral das Nações Unidas apelando para a intervenção do Secretário-geral para interceder junto da Indonésia para a realização de um referendo em Timor. Duramente criticou as violações de direitos humanos em Timor.

Essa carta foi altamente publicitada na Europa, no New York Times a cinco ou seis colunas. Eu posso referir Chrys Chrystello, que está aqui connosco hoje, ele é um jornalista português baseado em Sidney, e correspondente para a maior agência dos serviços noticiosos portugueses neste país, ele contactou a maior parte dos jornais australianos com esta carta. De facto, ele obteve a carta antes do Secretário-geral da ONU, e antes que qualquer outra pessoa em Lisboa e seria um “scoop” (uma caxa, um furo) para os jornais, mas ninguém se mostrou interessado. O “New York Times”, o “Washington Post” aceitaram-na, a carta faz parte dos registos do congresso norte-americano.

É por isso que o público na Austrália não sabe. (in INTRODUÇÃO AO FILME “ENTERRADOS VIVOS” NO PARLAMENTO AUSTRALIANO. citado em GABINETE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DE MACAU (REVISTA MACAU) agosto 1989. publicado em trilogia da história de timor…)

 

 

leia aqui extratos da trilogia sobre este tema

141. FILME SOBRE TIMOR NO PARLAMENTO AUSTRALIANO [1]

SIDNEY, 18 AGOSTO 89 LUSA) Ontem e hoje em Camberra realizaram-se sessões especiais com a exibição do filme de Gil Scrine “Enterrados Vivos – a história de Timor-Leste”. As sessões foram apresentadas pelo deputado trabalhista Tony Lamb, tendo estado presentes deputados, senadores e o embaixador português José Luís Gomes.

Durante estes dois dias os meios de comunicação australiana fizeram diversas entrevistas ao realizador do filme, Gil Scrine e a José Ramos-Horta da Convergência Nacionalista.

Naquelas entrevistas foi focada a autocensura imposta pelo governo australiano e pelos órgãos de comunicação social australianos ao assunto de Timor, e ao contraste dessa atitude face a outros focos de violações de direitos humanos no mundo.

No filme “Enterrados Vivos” são focados aspetos da diplomacia internacional, das pressões das grandes potências para não discutir o problema de Timor, da apatia diplomática da Austrália e da contra informação Indonésia.

A Lusa tentou entrevistar os principais porta-vozes da oposição para a diplomacia e negócios estrangeiros e estes bem como os do governo escusaram-se alegando que “o problema de Timor já não é assunto”. Esta é também a opinião de alguns órgãos de informação, os quais no entanto revelaram desconhecer a próxima visita do Papa e a carta que monsenhor Belo enviou a Javier Pérez de Cuellar secretário-geral da ONU.

Um total de seis entrevistas para a rádio e TV – nacionais e estaduais – o balanço da ação de Ramos-Horta e Gil Scrine depois de dois dias de intenso lobbying nos corredores do poder em Camberra.

Como nota curiosa numa sessão na galeria de imprensa do parlamento, o primeiro-ministro Bob Hawke, o ex-líder da oposição e outros políticos do governo e oposição foram presenteados com um bolo representando os 9 biliões de dólares que representa o superavit governamental dos últimos doze meses.

A recebê-los estavam não os habituais cronistas da TV e rádio mas Gil Scrine, Ramos-Horta, Jim Dunn (ex-cônsul da Austrália em Timor), o autor e outras personagens afetas à causa de Timor.

Hawke mostrando-se surpreendido perguntou: “caras novas?” tendo-lhe sido dito que se tratava apenas das pessoas que não queriam deixar morrer em silêncio o problema de “Timor enterrado vivo”. Hawke sorrindo afastou-se calmamente, recusando-se a confirmar se tinha estado presente na celebração do dia nacional da Indonésia que ontem se celebrou em Camberra.

142. ENTERRADOS VIVOS – NOVO FILME SOBRE A SAGA DE TIMOR-LESTE [2]

SIDNEY AGOSTO 89, GCS REVISTA MACAU) Em junho 1989, em Sidney teve lugar mais um festival internacional do filme com a apresentação de cerca de 300 películas de toda a parte do mundo. Filmes ocidentais de estúdio, filmes experimentais da Polónia, URSS e outros países do leste, filmes africanos, Sul-americanos e asiáticos, foram apresentados perante uma audiência diária de mais de duas mil pessoas durante os vinte e oito dias da mostra.

Se bem que não estivessem presentes peças portuguesas, um tema bem querido a Portugal foi focado numa produção de Gil Scrine dedicada a Timor-Leste com o título de “Buried Alive (Enterrados Vivos) “.

A película iniciou a sua distribuição pelos circuitos comerciais normais, tendo já sido adquirida pela cadeia nacional de TV australiana “ABC”, e pela cadeia de TV independente inglesa “ITV-4”, e trata-se de um filme a não perder.

As primeiras imagens dão um retrato da Lisboa dos anos 50, com percursos pela baixa citadina e curtas incursões às cenas tipicamente terceiro-mundistas do bairro alto, contrastando com o ar imponente das estátuas da Baixa e do marechal Carmona, sob o olhar aquilino e atento de Salazar.

Entremeado de discursos narrativos de jornalistas, políticos e sob a potente dialética de Noam Chomsky que perdura ao longo dos sessenta minutos, passa-se então para o mapa da Europa com o império colonial português sobreposto, dando a noção da vastidão do império.

Cenas de uma África negra dominada pelos colonos brancos sucedem-se até ao dealbar das lutas nacionalistas, cenas do mato, soldados portugueses feridos e mortos sendo evacuados, os discursos patéticos do velho regime, acompanhados de discursos condenadores da velha política colonial portuguesa, na ONU e noutros órgãos.

Uma passagem suave a uma ilha aparentemente desabitada, praticamente virgem de uma beleza inenarrável, dá-nos conta de que existia algures perdida no tempo e no espaço uma parcela colonial esquecida. Sim, era de facto Timor-Leste. A pompa da guarda nativa ao Palácio do Governo, o ritmo lento das ruas vazias centradas no núcleo comercial de Díli, dois quarteirões rodeados de ruas asfaltadas.

Danças tradicionais e a rica cor das “lipas” (panos tipo “sari” indiano enrolados à cintura) perde-se no branco e preto das imagens do ecrã. Cenas do mercado municipal de Díli, da célebre luta de galos e a película passa a ser colorida.

Um aparte curioso de um filme turístico dedicado ao mercado australiano, incitando-o a visitar um dos últimos paraísos do Pacífico, descrevendo Timor como uma terra onde há sempre alguém que fale Inglês, onde as mulheres são de uma extrema beleza e o povo afável.

Uma paródia superficial, descritiva de um Timor que só existia na mente dos produtores do anúncio turístico, da qual perduram na retina as brancas areias das praias e o colorido das lipas.

A narrativa assume agora um corte abrupto, ao passar do idílico Timor para o som e o visual das cenas sangrentas da resistência australiana e timorense contra a ocupação japonesa da 2ª Grande Guerra.

O comentário oportuno surge de veteranos australianos de que a Austrália talvez hoje fosse japonesa, não tivessem morrido mais de vinte mil timorenses a auxiliar os australianos.

Uma dívida de gratidão totalmente esquecida porque incómoda – alguém comentava.

Cenas pungentes de um documentário australiano da época (1943) mostrando a resistência antinipónica. Desta sequência passamos de uma guerra esquecida para uma revolução inesquecível com a emocionada voz de um locutor de rádio, narrando os acontecimentos do 25 de abril, algures na baixa lisboeta.

O filme segue então o percurso da revolução dos cravos, dos seus ideais e dos seus imediatos resultados.

O “gonçalvismo” é visitado sumariamente para nos explicar como do dia para a noite, os maiores anseios de independência das colónias foram oferecidos de mão beijada a Moçambique e às outras colónias. Os africanos nas ruas celebrando a sua independência e o comentador a acrescentar que foram momentos de pouca dura, dado o período conturbado que se viria a seguir.

Como nota positiva apenas o facto de a bandeira colonial ter sido substituída por um estandarte de povos independentes.

De novo a câmara se volta para o oriente exótico, lembrando que algo ficara por fazer. Timor havia sido esquecido. As imagens acompanham a formação dos principais partidos políticos em Timor, as manifs de rua, a primeira campanha de alfabetização na Ponta Leste e a primeira eleição democrática para um chefe de suco.

Curiosamente é mostrado o detalhe da urna de voto, um saco de palha de um metro de altura, dentro do qual estão outros dois mais pequenos, os quais porém não podem ser vistos senão pelos votantes, que se aproximam e deitam no respetivo saco a pedrinha de voto. Resultado da eleição: o chefe tradicional desde 1959 é substituído por outro de maior apoio popular.

João Carrascalão faz a sua análise da situação, então a partir deste momento o filme passa a centrar-se em torno de José Ramos-Horta que relata as aspirações dos timorenses naquela altura.

É a partir desta altura que o filme muda uma vez mais de velocidade. Passa-se para as cenas da guerra civil, os bombardeamentos no cais durante a tentativa de evacuação dos civis, seguida pela evacuação do governo de Lemos Pires o qual é posteriormente entrevistado no Ataúro.

As imagens sucedem-se, Carrascalão conta a sua visita a Jacarta e as falsas declarações dos indonésios. As tropas da Fretilin preparam-se então com as armas deixadas pelos portugueses.

A vacuidade dos pedidos de auxílio internacional, a hipocrisia dos australianos, com a visita do então primeiro-ministro Gough Whitlam a Suharto, a promessa de que a Indonésia jamais interviria no processo de Timor, os americanos a aumentarem as suas vendas de armamento ao regime indonésio.

As imagens mostram que já não há guerra civil, trata-se já de escaramuças nítidas das forças da Fretilin contra milícias indonésias. Os preparativos da invasão, a preparação para a defesa, os votos de luta até à morte contra o invasor indonésio.

O filme percorre as manchetes dos jornais, as declarações políticas em várias capitais do mundo, depoimentos vários de testemunhas ainda em Timor à data. A inoperância do regime português, a indiferença cúmplice australiana, a campanha denegridora dos timorenses como perigosos comunistas, os últimos preparativos para a invasão até à morte dos jornalistas australianos que testemunhavam em reportagem televisiva as forças invasoras antes de elas terem oficialmente declarado a sua intervenção.

A declaração fugaz da independência a 28 de novembro (1975) para o que seriam nove dias de libertação do jugo colonial.

O hastear da bandeira colonial, pela primeira vez em mais de 460 anos de colonização.

Passa-se depois para a visita do (então) presidente Ford a Suharto, em plena véspera da invasão, documentos secretos mostrando o conhecimento e o “aval” dado pelos americanos àquela.

A película percorre depois as imagens terríveis da invasão, da mortandade, as campanhas no estrangeiro dos líderes nacionalistas tentando alertar o mundo para o que se estava a passar, sem que o mundo quisesse ouvir.

Entrevistas com diplomatas e governantes tentando agora depois destes anos todos, explicar que as suas atitudes de então eram justificadas face aos dados existentes à data.

Depoimentos vários de sobreviventes, a outra face da miséria no Jamor, e os percursos infindáveis de Ramos-Horta nas Nações Unidas e no comité de descolonização em Nova Iorque.

As forças nacionalistas a tentarem com o apoio dos países lusófonos africanos (PALOP’s) manterem a sua voz ouvida no deserto dos corredores do poder mundial.

Do outro lado da imagem, o da segunda colonização mostrando Suharto a inaugurar a televisão em Timor, a pompa militarista e opressora dos novos colonos, dispostos a tudo destruir e matar para justificar a sua injustificável invasão.

As imagens mostram as cerimónias de rua com mais bandeiras indonésias do que povo, caras indonésias e não timorenses aclamando o opressor.

A pretensa melhoria de condições de vida proclamada por Jacarta. As câmaras confrontando políticos, nacionalistas e diplomatas em Nova Iorque, Lisboa, Genebra, Camberra, Harare e Maputo. A falta de meios humanos e materiais para os nacionalistas manterem a sua pressão para que o problema não caia no esquecimento.

As comparações da cobertura jornalística mundial ao Camboja e a quase ignorância total sobre Timor. A incongruência do presidente Carter por se ter momentaneamente esquecido dos direitos humanos para aprovar nova venda de armamentos à Indonésia, para que esta pudesse aumentar a sua repressão em Timor.

As votações na ONU, as pressões sobre pequenos países para não votarem contra a Indonésia sob ameaças de cortes de apoio económico. Horta perambulando entre a ONU e o seu humilde apartamento em Nova Iorque.

Imagens potentes entremeadas de entrevistas e depoimentos de dezenas de personalidades. O filme termina com Ramos-Horta a sair ainda uma vez mais em busca de nova missão para que a voz do povo de Timor-Leste possa ser ouvida e não caia no esquecimento fácil dos fazedores de notícias.

As imagens bem entrelaçadas com depoimentos de inúmeras personalidades mostram bem o porquê do título: “Enterrados Vivos”. Um povo traído, que se recusou a ser vencido mas que jamais deixa de lutar e que quer a sua voz – apesar de enterrada – forte para que a ouçam.

Falamos com Gil Scrine relativamente a este documentário narrativo da saga dos timorenses. Gil apaixonou-se pela causa de Timor quando há cerca de quatro anos atrás se encontrou com Ramos-Horta nas Nações Unidas e daí surgiu a ideia deste filme, mais do que um documentário.

Depois, sem apoios financeiros foi a luta constante e o gasto de várias dezenas de milhar de dólares (milhares de contos) para concretizar o projeto de filmagens decorrendo de Lisboa, a Nova Iorque, Genebra, Sidney, Harare, Washington, Camberra, Perth e Darwin.

A apatia das autoridades portuguesas que até ao último momento não haviam autorizado a utilização de “Grândola vila morena” para tema da revolução, foram alguns dos milhentos obstáculos encontrados por Gil.

Para ele “não se compreende o silêncio e a apatia dos australianos face a Timor-Leste, salientando no entanto que obteve bastante apoio de jornalistas portugueses e de refugiados timorenses para a filmagem e narração.”

“Todos os povos podem beneficiar desta lição exemplar que o filme retrata, pois ela simboliza não só o termo do grande império colonial português, como a invasão e as manipulações das grandes potências contra a vontade soberana de um povo”.

José Ramos-Horta mostrou-se “satisfeito com o filme” acrescentando que está agora a ter início uma nova meta da sua carreira dado ter sido nomeado “diretor executivo do programa de estudos diplomáticos da faculdade de direito de Nova Gales do Sul”.

Nesta nova posição assumida oficialmente a partir de 1 de julho passado, Ramos-Horta pretende oferecer preparação e treino em diplomacia e política internacional aos povos indígenas da região, às minorias étnicas, e aos timorenses em áreas tão distintas como o direito internacional, direitos humanos, prática diplomática e de negociações.

O programa que recebeu o apoio unânime da academia estadual visa perspetivar os âmbitos de ação daqueles grupos nos meandros da política internacional.

Ramos-Horta é licenciado em relações internacionais com especialização em direito internacional público pela universidade de Colúmbia, onde espera completar o seu doutoramento dentro dos próximos anos. Anteriormente, foi investigador e conferencista na universidade de Oxford em 1988, tendo sido leitor/visitante do instituto superior de relações internacionais do Maputo, especializando-se em política externa desde 1980.

Está prevista para outubro a publicação do seu livro “Timor – amanhã em Díli”, que é uma versão atualizada do livro em Inglês “Funu – a saga inacabada do povo de Timor-Leste” publicado em Nova Jersey, EUA, em janeiro de 1987.

Prevê-se a presença para o lançamento deste livro de representantes políticos e diplomáticos da Austrália, Reino Unido, EUA, Japão e outros países.

Para Ramos-Horta este projeto fílmico de Gil Scrine não pode nem deve ser considerado como uma autobiografia inacabada, mas antes como um retrato incompleto que só estará completo quando os timorenses puderem regressar à sua pátria.

Até lá e como nos confirmava João Carrascalão recentemente “a luta continua e o inimigo é só um: a Indonésia”.

Recentemente o secretário de estado da imigração e das comunidades portuguesas, Dr. Correia de Jesus declarava em uníssono com o embaixador de Portugal, Dr. José Luís Gomes, “a minha casa é a vossa casa até que possam regressar à vossa”.

A data é incerta mas a vontade dos portugueses é a de os timorenses terem direito ao seu lar. Essa também uma das fortes imagens do filme, o segundo sobre a saga dos timorenses. Ambos realizados por australianos e nenhum ainda exibido em Portugal. O que motiva a questão de falta de interesse dos cineastas e produtores portugueses naquela saga? A outra questão é porque é que nenhum deles foi exibido em Portugal?

Será que tal como na Austrália onde “Timor já não é assunto”, Portugal e em especial a RTP pensam que “Timor mais vale esquecido do que relembrado?”

142.1. APONTAMENTOS SOBRE O FILME BURIED ALIVE [3]

SIDNEY AGOSTO 89, GCS REVISTA MACAU) “Enterrados Vivos” é um título bem apropriado para um filme relativo a um país onde a população tem estado fechada do contacto com o mundo exterior há mais de 13 anos. Com efeito passaram-se já quase 14 desde a invasão de Timor-Leste e ainda se sabe muito pouco sobre o que ali se passou quando as forças Indonésias invadiram em dezembro de 1975.

Até 1979/80 praticamente ninguém dos meios de comunicação social foi autorizado a penetrar no território, e desde então os poucos que foram autorizados fizeram-no debaixo de um rigoroso escrutínio das forças indonésias. Este embargo significa antes de mais que pouco material de ordem visual existe de Timor desde 1975, o que facilita os desmentidos da invasão e de subsequentes violações de direitos humanos.

A igreja católica em Timor-Leste considera que cerca de 200 mil pessoas pereceram desde a invasão Indonésia, quer diretamente como resultado da guerra quer indiretamente vitimadas pela fome e doenças. Em 1985 a Amnistia Internacional considerava que existiam 50 mil casos de desaparecimento de pessoas em Timor-Leste sem que para eles houvesse explicação.

A política indonésia de deslocar os habitantes de Timor das suas localidades tradicionais conduziu a um desmembramento dos laços rurais timorenses. As Nações Unidas continuam a recusar reconhecer a administração indonésia, dado que aos timorenses não foi concedido o direito à autodeterminação.

Pelo contrário, desde a era de Gough Whitlam sucessivos governos australianos apoiaram tacitamente os direitos da Indonésia sobre Timor-Leste, os quais culminaram em agosto de 1985 com o reconhecimento oficial pelo governo de Bob Hawke da soberania indonésia.

“Enterrados Vivos” é um importante novo filme, um dos primeiros que tenta de forma correta contar a história de Timor-Leste. Dividido em duas partes, o filme traça primeiro a história de Timor-Leste e depois segue a luta continuada das guerrilhas da Fretilin em busca da independência de Timor-Leste.

A Fretilin (Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente) era o mais popular dos três embrionários movimentos independentistas em 1975, à data da invasão indonésia e detinha o controlo da maior parte do país.

A segunda parte de “Enterrados Vivos” foca os esforços de José Ramos-Horta, que durante mais de dez anos foi o representante da Fretilin nas Nações Unidas, para trazer a saga do seu país às ribaltas mundiais.

142.2. CITAÇÕES, EXTRATOS DE DEPOIMENTOS DO FILME [4]

SIDNEY AGOSTO 89, GCS REVISTA MACAU)

“Uma coisa que me chocou deveras foi quando a bandeira portuguesa atingiu o solo pela primeira vez em mais de quatrocentos anos, porque então eu percebi que era o fim colonial de Timor… Eles estavam expostos a todos, de forma que alguém podia vir e tomá-los, dado não existir nunca o chamado vácuo de poder em nenhuma parte do mundo”

Major Sam Kruger (na reserva) residente em Díli, 28 nov. 1975.


“Nós fomos a Jacarta para nos encontrarmos com o presidente Suharto, mas claro que isso era impossível e acabamos por nos encontrar com o general Murtopo. Tivemos uma longa conversa com ele e ele foi perentório ao afirmar que Jacarta jamais permitiria um governo de esquerda em Timor… E então perguntamos-lhe “o que aconteceria se limpássemos a nossa casa?” E ele disse “estaremos a observar com muita atenção e pôs as mãos sobre a cara”…

João Carrascalão porta-voz da UDT (União Democrática Timorense)


“Nós estávamos sob uma intensa barragem de perguntas de homens que sabem que podem perecer amanhã e não conseguem entender porque é que o resto do mundo não se importa… E nós éramos aplaudidos por sermos australianos. Tudo o que eles querem é que as Nações Unidas saibam aquilo que aqui se está a passar…”

Greg Shackleton (HSV-7) na sua última reportagem em outubro 1975. No dia seguinte seria executado pelos indonésios em Balibó com mais outros quatro jornalistas australianos.


“… Quando eu ouvi “fogo” atirei-me para o chão e senti corpos a caírem em cima de mim, assim como se fossem folhas. Ouvi muitos gritos, pessoas a chamarem pela mulher e pela mãe, foi horrível”

Carlos Alfonso[5], sobrevivente do massacre durante a invasão Indonésia em 7 dezembro 1975.


“A história montou para nós observarmos uma experiência controlada neste caso. O massacre timorense ocorreu aproximadamente ao mesmo tempo que os massacres de Pol Pot. Em 1975 quando os Khmer Vermelhos mataram talvez uns milhares de pessoas, o jornal The New York Times, acusou-os de genocídio. Um grande ultraje público sobre os massacres de Pol Pot e para os quais ninguém tinha soluções nem podia intervir. Por outro lado, um silêncio total se abateu por entre inúmeras mentiras sobre as atrocidades praticadas em Timor e para as quais muito poderia ter sido feito, dado sermos responsáveis por elas. Tudo o que era preciso fazer era mandar parar os algozes…”

“Mais de 40 mil timorenses pereceram tentando proteger umas centenas de comandos australianos durante a segunda Grande Guerra e a Austrália respondeu apoiando a agressão e os massacres [da Indonésia] em Timor”.

Professor Noam Chomsky, Massachusetts Institute of Technology, USA


“No seu livro “A dangerous place,” Patrick Daniel Moynihan diz quase que com orgulho quão efetiva foi a sua função de inativar a ação da ONU em relação a Timor…ele confessa naquele livro ter tido instruções do departamento de estado para tornar ineficiente a ação da ONU em relação a tudo o que pretendesse fazer sobre a questão de Timor.”

José Ramos-Horta, representante de Timor-Leste nas Nações Unidas.


“José Ramos-Horta ex-jornalista timorense, e membro do comité central da Fretilin, como delegado para as relações internacionais, foi Secretário-geral da Fretilin em 1975 e na última década tem sido o representante daquele movimento nas Nações Unidas.

Atualmente é residente em Sidney onde está a estabelecer um curso de diplomacia internacional para os povos indígenas na universidade de Nova Gales do Sul. Ramos-Horta é um dos mais hábeis representantes de um movimento de libertação dentre todos os que já passaram pelos corredores da ONU, sendo capaz de demonstrar de forma vívida algumas das formas sob as quais aquela organização funciona de facto.”

Roger S. Clark, professor de direito, Universidade de direito de Rutgers em Camden.

142.3. PORQUE É QUE FIZEMOS O FILME “ENTERRADOS VIVOS” UMA EXPLICAÇÃO DOS CINEASTAS. [6]

SIDNEY AGOSTO 89, GCS REVISTA MACAU)

A Austrália tem as mãos manchadas de sangue timorense desde que as nossas guerrilhas saíram do (então) Timor português durante a segunda Grande Guerra. Cerca de 40 mil timorenses morreram às mãos dos japoneses como recompensa de terem apoiado os australianos.

Quando os portugueses abandonaram a sua mais remota colónia durante a guerra civil de 1975, os timorenses como era óbvio voltaram-se para a Austrália em busca de apoio. Nós traímo-los então e continuamos a fazê-lo agora.

A Austrália apoia a Indonésia a tentar retirar o assunto de Timor da agenda das Nações Unidas. Diplomatas australianos mantêm a mentira de que os indonésios estão a fazer maravilhas para os timorenses. A Austrália oficialmente reconhece Timor-Leste como sendo a 27ª província Indonésia. As Nações Unidas reconhecem Portugal como o administrador legal do território.

A Amnistia Internacional além de inúmeros e crescentes organismos internacionais de opinião pública condena a ocupação Indonésia de Timor-Leste. Democracias ocidentais tentaram esquecer e enterrar o assunto a fim de manterem as suas relações com o regime de Jacarta. Isto além de absurdo ‚ uma hipocrisia na qual os EUA e a Austrália estão particularmente envolvidos.

Juntamente com Fábio Cavadini, cinematógrafo e o redator Rod Hibberd tentei apresentar esta história numa perspetiva histórica e política, antes que o que aconteceu e continua a acontecer desapareça no orwelliano “buraco negro da história”.

Gil Scrine (produtor e codiretor)

142.4. NOTAS BIBLIOGRÁFICAS [7]

SIDNEY AGOSTO 89, GCS REVISTA MACAU)

Gil Scrine: produtor, codiretor e narrador. Como cineasta independente há catorze anos Gil trabalhou em Sidney e Melbourne, tendo realizado os projetos seguintes:

“The bad society” – documentário sobre o ex-tesoureiro federal Dr. Jim Cairns e vice-primeiro-ministro, e a sua filosofia de estilos de vida alternativos, culminando no festival do rio Cotter em 1976.

“Home on The Range” – documentário sobre as bases norte-americanas na Austrália e particularmente o papel da CIA na base de Pine Gap. O filme centra-se na queda do governo de Whitlam e nas alegações do espião norte-americano Chris Boyce. Este filme obteve o prémio de documentários no festival do filme, em Sidney 1982, categoria de documentários, e o “Boomerang” de prata do festival de Melbourne em 1982.

Gil colaborou ainda noutros filmes, tendo completado recentemente o filme “Estranhos no Paraíso (Strangers in Paradise) ” como coprodutor, codiretor e editor.

O filme “Enterrados Vivos” mereceu esta ano uma nomeação para o melhor documentário pelo Instituto do Filme Australiano.

143. CRONOLOGIA SUMÁRIA DA SITUAÇÃO DE TIMOR-LESTE [8]

143.1. INDEPENDÊNCIA E INVASÃO

Abril 74 O MFA destrona a ditadura em Lisboa e o processo de descolonização inicia-se
Maio 74 A ANP, partido oficial único do velho regime reorganiza-se como UDT.
A ASDT forma-se com base no grupo clandestino “core”
setº 74 A ASDT passa a Fretilin (frente revolucionaria para um Timor livre e independente)
out. 74 A Indonésia lança a operação “Komodo” para desestabilizar Timor
Dez 74 A Fretilin inicia campanhas de alfabetização e estabelece cooperativas no interior
JAN.º 75 Fretilin e UDT iniciam uma coligação pró-independente
Maio 75 A UDT abandona a coligação e sofre pressões da Indonésia para se opor à Fretilin
jun. 75 Portugal efetua negociações em Macau com a UDT e Apodeti (partido criado pelos serviços secretos da Indonésia), a Fretilin recusa participar em virtude de ser considerada como possível na agenda a integração com a Indonésia
Ago. 75 A UDT lança um golpe de estado destinado a eliminar a Fretilin.
A Fretilin recupera o controlo da situação e pede a Portugal (sem sucesso) que termine o processo de descolonização
setº Nov. As tropas Indonésias efetuam inúmeras incursões nas regiões fronteiriças
outº. 75 Cinco jornalistas australianos são executados pelas tropas avançadas Indonésias
28 novº A Fretilin declara unilateralmente independência
7 Dez.º A Indonésia invade Timor-Leste

143.2. APOIO DAS NAÇÕES UNIDAS E LUTA INTERNA

Dez 75 A Assembleia-geral da ONU exige a retirada Indonésia
Os quatro minipartidos pró integracionistas formam um governo provisório
O Conselho de Segurança condena unanimemente a invasão e instrui o Secretário-geral para enviar um representante especial a Timor
JANº – fev.º. O enviado especial da ONU visita apenas três cidades e nenhuma área dominada pela Fretilin
Abril 76 O Conselho de Segurança apela uma vez mais para a retirada das tropas Indonésias
setº – outº. Milhares de timorenses em campos de concentração
novº 76 e um relatório da igreja católica de Timor estima em 100 mil as vítimas da invasão
Dez 76 a Assembleia-geral recusa a integração e exige um ato de autodeterminação
Dez 77 a Amnistia Internacional acusa a Indonésia de não deixar a Cruz Vermelha atuar dentro de Timor-Leste

143.3. TRAIÇÃO INTERNACIONAL

jan.º 78 a Austrália reconhece “de jure” a integração de Timor
Fev.º. 78 o congresso norte-americano condena o incremento de fornecimento de armamento à Indonésia
Abr. 78 o Reino Unido vende oito aviões Hawke Aerospace de ataque ar-terra à Indonésia
jun. 78 a Austrália fornece aviões de reconhecimento “Nomad” à Indonésia
setº 78 jornalistas e embaixadores visitam Timor e mostram-se chocados com a fome e miséria e alta taxa de mortalidade em Timor-Leste
novº 78 cai a última grande base militar da Fretilin em Matebian
JANº – Mar mais campos de concentração estabelecidos em Timor
Maio 79 grande encontro de solidariedade mundial para com Timor-Leste
outº. 79 a Cruz Vermelha é autorizada a reentrar em Timor e um grande esforço a larga escala é efetuado para transportar alimentos e medicamentos
novº 80 documentos secretos da defesa e negócios estrangeiros australianos são divulgados para o período de 1968-1975 mostrando o grande apoio ocidental dado secretamente em meados de 1975 aos planos indonésios de anexação de Timor-Leste. Os documentos passam a ser proibidos pelo governo australiano.
Mar 81 conferência nacional organizada pela Fretilin elege Kay Rala Xanana Gusmão novo presidente da Fretilin
Maio 81 A Indonésia lança a operação “Segurança”
O tribunal permanente dos povos em Lisboa condena a Indonésia de agressão armada e de ter violado o estatuto da ONU em relação aos direitos dos povos à autodeterminação
jun. 81 a nomeada assembleia regional de Timor-Leste queixa-se ao presidente Suharto sobre a exploração, corrupção e flagrantes violações dos direitos humanos
setº 81 centenas de pessoas massacradas em Lacluta durante a operação “Segurança”. Milhares enviados para um exílio forçado na ilha do Ataúro.
setº 81 O partido trabalhista australiano adota uma política de apoio à autodeterminação do povo de Timor-Leste
Julho 83 a Amnistia Internacional expõe manuais e ordens de tortura Indonésias para Timor-Leste
Um grupo de 170 parlamentares europeus apela para a autodeterminação de Timor-Leste
setº 83 uma delegação parlamentar australiana a Timor-Leste apoia a integração enquanto um relatório do Senado rejeita a mesma
jan.º 84 a agência France Press em Jacarta revela a existência de falta absoluta de alimentos em Timor-Leste
fev.º. 84 a comissão dos direitos humanos da ONU acusa a Indonésia de violação dos direitos humanos em Timor-Leste
Mar 84 o presidente Eanes de Portugal convoca o Conselho de Estado para encontrar uma solução justa para o problema de Timor
jan.º 85 contacto via rádio estabelecido entre forças da Fretilin em Timor-Leste e Darwin
Mar 86 a UDT e a Fretilin reagrupam-se para nova campanha para a autodeterminação
jul. 86 o Parlamento Europeu exige à Indonésia que cesse a sua ocupação e apoia a autodeterminação de Timor-Leste
O parlamento português denuncia atos de genocídio em Timor-Leste
Abr. 87 primeira eleição para a assembleia provincial de Timor-Leste
Ago. 87 o comité de descolonização da ONU debate Timor-Leste
setº 87 o assunto de Timor-Leste volta à agenda da comissão dos direitos humanos
Mar 88 o parlamento Europeu apoia negociações entre Portugal e Indonésia para encontrar uma solução que assegure os direitos dos timorenses e da sua identidade cultural
Ago. 88 o comité de descolonização da ONU debate de novo o problema de Timor-Leste
setº 88 a Austrália e a Indonésia assinam um acordo para a exploração conjunta das reservas do mar de Timor
outº. 88 senadores e congressistas norte-americanos enviam uma moção ao secretário de estado George Schultz na qual manifestam a sua preocupação em relação a Timor-Leste
novº 88 Suharto visita Timor-Leste. Centenas de timorenses detidos.
Dez 88 a Indonésia concede estatuto total de província a Timor-Leste em paridade com as restantes

143.4. 1989 – A LUTA CONTINUA

jan.º explosão num paiol em Díli
Padre Fernandes depois de 14 anos na Austrália anuncia o seu regresso a Macau
fev.º. Ex-embaixador australiano Bill Morrison demonstra a sua solidariedade com as tropas indonésias
Gov. de Timor, Mário Carrascalão desmentiu atentado bombista em Díli e ameaças de que estaria prestes a ser substituído.
A Austrália e a Indonésia anunciam melhoria das relações diplomáticas bilaterais
Morte de Moisés do Amaral presidente da comissão política da UDT
Stuart Hume, novo embaixador australiano em Lisboa declara que o assunto de Timor está encerrado e que cabe aos portugueses a responsabilidade de o resolver
Mar 89 Ali Alatas visita a Austrália e enterra o problema de Timor sem oposição dos jornalistas australianos
Maio 89 criado subgrupo de apoio a Timor-Leste dentro do âmbito do comité para um Pacífico independente e não nuclear
Documentário sobre australianos na segunda guerra em Timor passado na TV australiana
Bispo de Díli pede intervenção de Pérez de Cuellar sobre situação em Timor
jun. 89 estreia particular do filme “Enterrados Vivos”
Estudantes timorenses pedem asilo nas embaixadas do Vaticano e do Japão em Jacarta
jul. 89 nova antestreia do filme “Enterrados Vivos” na Universidade de Tecnologia de Nova Gales do Sul
Try Sutrisno comandante-chefe das FA’s Indonésias visita Austrália
Ago. 89 estreia de “Enterrados Vivos” em Melbourne
Comité dos 24 reúne sobre Timor com presença de timorenses, japoneses e parlamentares de todo o mundo

144. CAMBERRA VÊ FILME SOBRE TIMOR-LESTE [9]

144.1. APRESENTAÇÃO NO PARLAMENTO[10]

SIDNEY AGOSTO 89, ORIGINAL PUBLICADO PELO GCS – GABINETE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DE MACAU – REVISTA MACAU)

144.2. TONY LAMB, MHR, MP, PARTIDO TRABALHISTA –

“Antes de mais quero agradecer a presença aqui de Gil Scrine, produtor do filme, de José Ramos-Horta e de Chrys Chrystello, vindos de Sidney para esta apresentação aqui no parlamento australiano. Aproveito para lembrar que existe um paralelo entre a situação da Estónia, Lituânia e Letónia e a de Timor-Leste, é a de que há dois anos ninguém pensava ser possível falar de autonomia.

Poderemos imediatamente considerar como duvidosas quaisquer declarações indonésias sobre a forma de plebiscito ocorrido naquele território. Ainda recentemente numa carta enviada ao Secretário-geral da ONU, Pérez de Cuellar, o bispo de Díli, monsenhor Belo declara que como chefe da igreja católica e responsável pelas almas de Timor declara-se adepto de um processo de descolonização de Timor-Leste a realizar através de um referendo nacional sob os auspícios da ONU, a fim de que o povo de Timor possa ser ouvido em relação ao seu futuro.

Até agora esse povo não foi consultado, apenas a Indonésia declara que o povo já escolheu livremente a sua opção como sendo a da integração.

Portugal por seu lado quer resolver o problema mas entretanto as pessoas continuam a morrer como cidadãos e como nação.

É sobre isto que o filme se debate e por isso sendo esta a primeira razão vos aconselho a ver bem este filme. Uma segunda razão será a de existir uma profunda relação australiana com os acontecimentos, a nossa proximidade, a nossa relação geopolítica para com o país mais perto de nós, sem podermos esquecer as dívidas da segunda Grande Guerra para com os timorenses, que constituíram a segunda linha de defesa deste país, e sem a qual teríamos sucumbido.

Temos agora 60 parlamentares e senadores no grupo de apoio a Timor-Leste o que continua a ser menos dos que os 200 senadores e congressistas norte-americanos que expressaram recentemente a sua preocupação sobre o território.

Eu já vi este filme e estou desapontado com alguns críticos que disseram que isto não passa de uma tentativa de fazer de José um herói. Como José vos dirá ele pode ser a figura central porque lhe dá continuidade desde o tempo anterior à invasão até hoje e eu presto-lhe a minha homenagem pelo papel complexo que ele desempenhou, mas recuso-me a considerar o filme como um empolamento do ego, e sinto-me triste por alguém ter tentado menosprezar o filme por essa razão. Trata-se de um filme inesquecível e memorável e tenho a certeza de que vão apreciar vê-lo.

Depois desta introdução, dou as boas-vindas a Gil que apresentará a figura principal deste filme José Ramos-Horta.

144.3. GIL SCRINE – PRODUTOR DO FILME:

Obrigado Tony, obrigado a todos por terem vindo, penso que devo dizer apenas algumas palavras sobre as razões porque fiz este filme, como aliás já hoje me perguntou um jornalista do “Camberra Times”. Devo dizer que acho a pergunta hipócrita e quero explicar porquê. Como sabem Timor-Leste está a 400 km a norte de Darwin, e trata-se de uma guerra escondida como este folheto que está à entrada vos pode explicar melhor. Timor está escondido dos olhos do mundo porque a Indonésia isolou o país nos últimos 14 anos.

No entanto jornalistas australianos, e produtores de cinema, comentadores e fabricadores de opinião pública escolheram porém a via mais fácil e continuam a esconder tal guerra. Tenho muitos colegas no mundo do cinema que passam a vida a correr para a América central para cobrir as guerras ali. É muito popular defender os direitos humanos em outras partes do mundo, mas não é popular defendê-los na nossa região.

Gostaria de mencionar Shirley Shackleton [viúva de um dos seis jornalistas australianos abatidos pelos indonésios] que estava presente no lançamento deste filme em Melbourne e que me mostrou um artigo que ela escrevera para o “Sydney Morning Herald” sobre o massacre em Tian An Men e obviamente fazendo a comparação lógica, porque é que Bob Hawke não chorou por Timor. O editor dos artigos de fundo do Sydney Morning Herald evidentemente recusou-se a publicar o artigo, ela telefonou-lhe repetidas vezes a fim de saber porquê, e finalmente ele disse-lhe “bem, Shirley, dou-te 180 milhões de razões” [população Indonésia].

Parece-me a mim que a Austrália como nação tem sido subserviente por muito tempo. Creio que temos de ver bem a nossa psicologia nacional, para vermos porque é que continuamos a esconder esta guerra, porque trabalhamos com os indonésios e os ajudamos a esconder esta guerra, este crime contra a humanidade em Timor-Leste.

A resposta dada àquele jornalista do “Camberra Times” é autoexplícita: não há filmes nem documentários, logo parece normal que alguém fizesse tal filme. Outros produtores perguntaram-me “mas como é que vais fazer um filme sobre uma terra onde nem sequer podes ir?” Eu deparei com essa mesma questão quando comecei a pesquisar para fazer o filme e vi que havia toda uma intensa luta conduzida por pessoas como José Ramos-Horta nas arenas internacionais. Foi então que me dediquei a mostrar a hipocrisia, o genocídio, a terrível tragédia de Timor-Leste através do trabalho diplomático das forças da Fretilin. Trata-se assim de um filme feito sobre a guerra do papel, a guerra da propaganda, não verão muita evidência no filme da guerra “quente” que ainda hoje decorre no terreno em Timor-Leste e isso é uma consequência de que já seis jornalistas morreram ali e seria muito perigoso para um produtor de cinema australiano, pegar nas suas câmaras e começar a passear por toda a parte, seríamos rapidamente detetados.

Sem mais introduções gostava de apresentar José, que foi a minha inspiração para o filme, e concordo com o comentário de Tony e José também concordará de que ele não quer ser visto como a personagem central do filme, mas como qualquer necessita de uma personagem central para conduzir o veio das ideias através do mesmo, e eu não podia desejar ninguém melhor do que José Ramos-Horta para representar o personagem central.

144.4 JOSÉ RAMOS-HORTA –

Obrigado a todos por terem vindo, concordo totalmente com o que Tony e Gil disseram de que eu não queria ser a personagem central. Quando há alguns anos atrás o Gil me abordou em Sidney para fazer o filme, eu tinha duas hipóteses dizer sim ou não. Acedi deixando-o filmar-me em Manhattan, em Nova Iorque, nos meus encontros nas Nações Unidas, etc. E daí algumas pessoas poderem dizer que se trata de um empolamento do ego. Não é e eu até nem estava totalmente satisfeito com o filme, lembro-me até de que por vezes tive de usar alguns truques com o Gil para que ele me não filmasse.

Quando eu ia da 88ª rua para as Nações Unidas, normalmente ia de autocarro, pois não tinha meios de ir de táxi e Gil filmar-me no autocarro e eu disse-lhe não eu não vou de autocarro vou de táxi e ele não conseguiu filmar-me no autocarro porque eu estava envergonhado de ser filmado no autocarro com as câmaras a focarem-me.

Foi uma experiência dolorosa para mim ter sempre uma câmara atrás de mim a focar as minhas atividades, mas por outro lado era meu dever e obrigação utilizar todos os meios ao meu alcance para divulgar a luta do povo de Timor e a sua tragédia.

Penso que Gil fez um ótimo trabalho em especial na frente diplomática. Algumas pessoas podem assumir conclusões negativas sobre a mensagem do filme de que se trata de uma causa perdida depois de 13 ou 14 anos nas Nações Unidas, o que atingimos? Se entendermos que os processos diplomáticos nunca são nem fáceis nem rápidos eu assumiria que muito se conseguiu.

Os militares quando invadiram Timor em 1975 pensavam que tudo estaria resolvido numa questão de semanas. O general Benny Murdani e Ali Murtopo pensaram que a resistência estaria aniquilada dentro de semanas e que no máximo dentro de um ou dois anos nas Nações Unidas o assunto deixaria de estar na agenda. Em julho deste ano quando eu estava em Lisboa o Secretário-geral da ONU voou para Lisboa para conversações de alto nível com o governo português. O vice-presidente Dan Quayle na sua recente visita à Indonésia discutiu o problema dos direitos humanos em Timor-Leste com o presidente Suharto.

O Papa vai a Timor-Leste em outubro deste ano, há quem pense que ele vai ali para encerrar o assunto de Timor-Leste. O facto da sua ida a Timor representa que o assunto não se desvaneceu da sua agenda. Quando o Papa foi convidado pelos indonésios para visitar a Indonésia ele insistiu em que só iria se uma visita a Timor-Leste fosse incluída. O Parlamento Europeu adotou recentemente resoluções em relação ao problema de Timor-Leste por maioria absoluta, o congresso norte-americano, mais de metade do congresso adotou resoluções em relação a Timor-Leste e assinaram petições para o presidente dos EUA em relação ao problema de Timor-Leste.

O Parlamento Europeu adotou resoluções em relação a Timor-Leste, o embaixador norte-americano Vernon Walters ainda tão recentemente como fevereiro deste ano numa análise das mais completas dos EUA sobre o assunto declarou que os EUA apoiariam uma solução política para o problema. Isto para mim significa que o assunto de Timor-Leste está bem vivo na agenda mundial.

Nós conseguimo-lo depois de muitos e muitos anos de luta, mas não fui só eu nem só a Fretilin e os seus representantes, tratou-se também do esforço de muitas outras pessoas, tais como Jim Dunn, Tony Lamb, o congressista Tony Horne, o senador Dave Durhenberger (republicano) e tantos outros na Europa e no resto do mundo.

Uma coisa porém devo dizer e dar ênfase, tal como já fiz com muitos australianos que encontrei ao longo dos anos ”não menosprezem a nossa determinação ou a determinação dos portugueses”. Portugal é uma nação com mais de 800 anos, com uma grande história e sentido da história e um grande sentido de responsabilidade para com Timor-Leste.”

Eu avistei-me recentemente com o presidente português, Mário Soares em fevereiro deste ano tivemos uma longa discussão e eu perguntei-lhe “Sr. Presidente acredita naquilo que está a fazer para Timor-Leste ou está a fazê-lo apenas por formalidade?” E a sua resposta foi a melhor que já ouvi de alguém e veio do coração, ele disse-me “eu estive exilado 30 anos e sei o que representa lutar por uma causa”.

O presidente Mário Soares é altamente considerado na Europa e em Washington, como o é o primeiro-ministro Cavaco e Silva. Portugal é um membro da CEE, da NATO e pelas minhas discussões em Portugal, acredito que os portugueses estejam a considerar o assunto muito seriamente.

A Austrália não deve menosprezar Portugal em relação ao “Timor Gap”, tal como os americanos não menosprezam e é por isso que Dan Quayle levantou a questão de Timor-Leste em Jacarta, os europeus também não menosprezam e eu penso que será nos melhores interesses da Austrália utilizar os seus bons ofícios discreta e subtilmente para persuadir a Indonésia para trabalhar seriamente com o Secretário-geral da ONU para a realização de eleições gerais em Timor-Leste.

Tudo o que pedimos é que se realizem eleições gerais em Timor-Leste supervisionadas pela ONU. O que estamos a pedir [será demasiado?], já alguém disse à Austrália que não deveria ter eleições na Austrália? Será que as eleições são antidemocráticas, inaturais? Não deverá haver eleições na União Soviética, ou na África do Sul? Porque é que a Austrália exige eleições para a África do Sul e inclusive até impõe sanções e não pede algo que é apenas natural: “eleições para que o povo de Timor-Leste possa decidir”.

Eu apelo aos amigos da Indonésia, hoje é o dia nacional da Indonésia, aqueles que apoiam a Indonésia por uma ou outra razão deviam dizer-lhe: nós apoiamos a Indonésia e acreditamos que estão certos e esse tal de José Ramos-Horta e a Fretilin não significam nada, a independência não passa de um falso projeto da Fretilin, vocês não têm nada a temer, vamos fazer eleições em Timor-Leste, supervisionadas pela ONU, pelos países da Commonwealth, parlamento australiano ou norte-americano e decerto que 100% das pessoas de Timor-Leste – a acreditarmos na propaganda indonésia – decidiriam votar a favor da integração e este problema seria resolvido de uma vez por todas.

Porque será que a Austrália adota sanções contra a África do Sul relativamente ao apartheid e parece ter dificuldades em relação a Timor-Leste? É isto que eu não entendo. Se alguém no ministério dos estrangeiros – tenho grande respeito pelo meu amigo Dick Woolcott e digo-o sem cinismo, tenho um imenso respeito pelo seu intelecto e por muitas outras pessoas no MNE, mas queria que eles ou alguém nos mass média ou nos meios académicos me convencessem que a nossa exigência para eleições é uma exigência desmesurada ou inatural e nessa altura eu desistirei, mas antes convençam-me de que aquilo que pedimos está errado.

Isto é tudo o que tenho para dizer, e uma vez mais não nos subestimem, tais como aos Polacos, Húngaros, Alemães do leste, os povos do Báltico, e os chilenos e sul-africanos.

145. TRANSCRIÇÃO DA ENTREVISTA DE JOSÉ RAMOS-HORTA COM PRU GOWARD DA RÁDIO ABC CAMBERRA

CAMBERRA dia 18 agosto 89

PG – Então vocês pretendem recuperar a vossa terra?

JRH – Eles [indonésios] apossaram-se de todas as terras, tal como estão a fazer agora, ocupando os melhores talhões, apossando-se dos locais de culto dos timorenses que viveram ali nas montanhas durante séculos e séculos e isto são questões muito básicas, para além da questão de independência ou outras.

PG – Porque é que não podem negociar um acordo com eles para a recuperação das terras, pois como disse isso é quase tão importante como a independência? Assim negoceiam com eles o direito a viverem onde sempre viveram e aceitam viver em território indonésio?

JRH – Nós não estamos em busca disso, estamos apenas a pedir o direito a conduzir eleições livres, não é nada fora deste mundo pedir a realização de eleições.

PG – Essas eleições seriam independentes de existir ou não um governo local?

JRH – Isso permitiria ao povo de Timor-Leste decidir se quer a integração na Indonésia e permanecer nessa situação, ou se preferiam a independência ou alguma forma de ligação a Portugal.

PG – Preferia ir então para Portugal?

JRH – Não, eu preferia poder regressar a um Timor independente.

PG – Claro, mas se tivesse a opção?

JRH – Se tivesse de escolher entre Portugal e a Indonésia depois de 14 anos de ocupação brutal da Indonésia, claro que terei de dizer que preferia um milhão de vezes mais ir para Portugal.

PG – O que é que os portugueses dizem?

JRH – Têm sentimentos bem fortes em relação a Timor-Leste, ainda recentemente me encontrei com o presidente Mário Soares, uma pessoa de tremenda integridade e respeito na Europa e nos EUA e algo que ele me disse durante a conversação: “eu estive exilado mais de 30 anos, lutei contra a ditadura em Portugal sei quão importante é lutar por uma causa e nunca deixaremos de lutar por Timor-Leste”.

PG – Quão português é Timor-Leste, quanto sangue português existe lá?

JRH – Muito pouco, de facto a presença portuguesa em Timor-Leste era mínima, talvez mil portugueses. Ao contrário de Angola e Moçambique [em África] onde a presença portuguesa era mais repressiva, os portugueses em Timor-Leste se de alguma os podemos acusar é de negligência.

PG – Quão português é você?

JRH – Sou parte timorense e parte português, nasci em Timor, a minha mãe é de Timor e o meu pai era de Portugal, um dissidente que foi deportado para Timor-Leste e na segunda Grande Guerra juntou-se às forças australianas aliadas para lutar contra os japoneses em Timor. Ele fez parte do exército australiano tal como o meu avô, juntando-se aos australianos para lutarem contra os japoneses

PG – Cresceu em Timor-Leste mas viveu em Portugal?

JRH – Nunca vivi em Portugal, cresci em Timor e vivi nas montanhas até terminar o ensino secundário quando vim viver para Díli, a capital, de resto vivi sempre nas montanhas e estava em contacto permanente com as gentes.

PG – Pratica a religião hindu?

JRH – Não e a maioria da população de Timor é católica, hoje em dia rondando entre os 75 e 80%.

PG – Nas vilas e montanhas mantêm-se?

JRH – Animistas, não há hinduísmo ou islamismo em Timor exceto uma ou duas centenas de pessoas que ali se fixaram há duzentos anos.

PG – Então de acordo com o que disse existe uma preferência por Portugal, mas então como é que estou errada a sugerir que isto é equivalente à Queenslândia pedir a secessão do resto da Austrália, e dizer não queremos manter-nos unidos, queremos preservar a nossa cultura e identidade, não gostamos do resto da Austrália. Como é que isso é diferente?

JRH – Bem, eu consigo entender que o resto da Austrália queira ver-se livre e obter a secessão da Queenslândia, mas no caso de Timor-Leste e Indonésia, o que se passa é que Timor-Leste nunca foi parte da Indonésia. O mesmo se passa na Papua Nova-Guiné. Seguindo esta lógica, porque é que a PNG quereria ter a secessão do resto da Indonésia? O resto da ilha, a outra metade é já indonésio. Mas podemos dizer o oposto, a Papua Ocidental (Irian Ocidental) é parte da PNG porque é que a Irian Ocidental há de ser parte da Indonésia em vez de ser da PNG? Faria mais sentido porque a Papua e a PNG são muito semelhantes.

PG – Mas de certo modo a Indonésia como país não existe, é uma coleção de ilhas todas com certas diferenças, mas é um país por razões estratégicas e de eficiência.

JRH – Claro, tem toda a razão ao dizer que a Indonésia é um estado artificial e não uma nação estado, nascida das chamadas Índias Holandesas, e aquilo que a Indonésia hoje é uma criação dos holandeses. Por esta mesma razão existem imensos movimentos separatistas na Indonésia, na Sumatra do Norte, na Irian Ocidental, nas Molucas e Celebes que não gostam do monopólio de poder e da economia pelos povos de Java. Timor-Leste nunca foi parte das Índias Holandesas, foi sempre português por mais de 500 anos e antes disso nunca fez parte da Indonésia, e dos reinos e impérios de Java, existentes entre o século VII e X. De facto se formos até antes do período colonial, Timor-Leste nunca fez parte daquilo que hoje se chama a República Indonésia. Nunca teve nenhuma forma de associação com o resto da Indonésia.

PG – Qual é a densidade populacional de Timor hoje?

JRH – Agora mesmo de acordo com as estatísticas Indonésias – e sinto-me grato por me ter feito esta pergunta.

PG – Sei a que ela conduz…

JRH – 640 mil de acordo com estatísticas indonésias, em 1975 de acordo com estatísticas portuguesas aproximadamente 680 mil. A taxa de crescimento de Timor-Leste foi de cerca de 2%, seguindo uma evolução normal a população de Timor hoje deveria ser de 900 mil, em vez disso e de acordo com as estatísticas indonésias é de 630 mil

PG – Então pensa que os indonésios estão a declarar menos do que existem na realidade?

JRH – Não o que digo é que isso confirma que dezenas de milhares de timorenses morreram, foram mortos, morreram como resultado da guerra, das evacuações forçadas do mato, como resultado da falta de cuidados médicos e de execuções sumarias. Tudo isto está bem documentado pela Amnistia Internacional e por centenas de testemunhas oculares quer na Austrália quer em Portugal.

PG – Então que evidência tem que a administração central indonésia pretende inundar Timor-Leste com indonésios de outras ilhas?

JRH – A minha evidência baseia-se no governador de Timor-Leste, Mário Carrascalão o qual declarou que a população de Díli, a capital, é de cem mil pessoas. No tempo dos portugueses a população era de menos de 30 mil, desses 100 mil metade é indonésia. A maior parte das posições nos serviços públicos em Timor hoje são preenchidas por indonésios quer em Baucau e em Lospalos onde os militares comandam. Há colonos em sítios tais como na Maliana vindos da Sumatra e de Bali. Se formos ao mercado [municipal] de Díli, claro que para um jornalista australiano todos parecem timorenses ou indonésios, dado serem todos parecidos. Os mercados que impressionam qualquer jornalista que ali vá estão monopolizados por negociantes de Sumatra, Bali e outras partes da Indonésia não por timorenses.

PG – Então já há uma invasão de indonésios e haverá muitos que são mortos pelos habitantes locais?

JRH – Tem havido casos de violência em Díli, na capital, em protesto contra a ocupação indonésia.

PG – Mas você não vai ganhar isto, trata-se mais de uma cruzada pessoal que não irá ter resultados?

JRH – Hoje estou muito mais confiante do que antes.

PG – De facto…?

JRH – Decerto e posso assegurar que nos próximos anos as coisas se modificarão.

PG – Como?

JRH – Quem acreditava que a União Soviética pudesse mudar, quem imaginava que Lech Walesa pudesse tomar as rédeas do poder? Quem o podia imaginar há 5 ou 2 anos atrás? Nas Filipinas, Ferdinand Marcos está hoje em Honolulu em vez de estar em Manila, a Coreia do Sul mudou…

PG – Mas o que mudou em Timor-Leste ou na Indonésia que possa mudar isto?

JRH – As ditaduras da esquerda e da direita entram em colapso face ao povo que exige democracia. Um novo regime democrático na Indonésia semelhante ao da Coreia do Sul e das Filipinas…

PG – Então a sua função é a de assegurar a instituição de uma democracia em Java?

JRH – Não, o que pretendo é manter o assunto nas manchetes falar com os líderes da oposição indonésia e democratas, para ter a certeza de que o regime do país muda naquele arquipélago.

PG – E manter a certeza de que estão fora do vosso alcance?

JRH – Claro

PG – Ramos-Horta obrigado pela sua presença aqui e estamos certos de que é bem-vindo o filme “Buried Alive” agora chegado a Camberra.

146. 18 AGOSTO 1989 RDP (COMENTÁRIO SOBRE AS CENAS ATRÁS DOS BASTIDORES)

147. ENTREVISTA DE GIL SCRINE (GS) E JOSÉ RAMOS-HORTA (JRH) COM A RÁDIO 2XXX (X)

CAMBERRA 18 AGOSTO 1989)

X – Temos hoje connosco Gil Scrine produtor, codiretor, narrador, sonoplasta e editor do filme “Enterrados Vivos” e José Ramos-Horta, o representante da Fretilin nas Nações Unidas. Boa tarde a ambos. Para começar com Gil, que fez tanta coisa neste filme, o que me baralha sempre sem saber como foi possível obter tanta energia, como é que ficaste envolvido na produção e na ideia de fazer este filme?

GS – O meu maior ímpeto como australiano deriva da leitura do livro de Jim Dunn [“Timor, um povo traído”] e senti esta sensação profunda de vergonha como australiano de que tínhamos vendido os timorenses. Se estudarmos a história do passado vemos que os esforços australianos na segunda Grande Guerra, em que basicamente ocupamos a sua ilha e como resultado mais de 40 mil timorenses morreram como recompensa japonesa de o haverem feito.

Mas não foi só isso, quando chegou a altura de haver autodeterminação neste pequeno território pouco desenvolvido do império português, parecia lógico que justiça seria possível para este povo, e que tivesse o direito à autodeterminação e todos nós no início da década de 70 apoiávamos Gough Whitlam e pensávamos que a história faria justiça aos timorenses. Parecia então que o governo australiano poderia apoiar os timorenses. Embora ele sempre dissesse no parlamento seria melhor que eles se integrassem na Indonésia mas tal só se deveria passar depois de ter havido um ato de autodeterminação, o que soava como uma contradição mas todos fomos na cantiga pois Gough era um grande líder para a justiça social e causas semelhantes.

Mas quando chegou a altura a Austrália abdicou totalmente dos timorenses tal como eu mostro no filme com uma pergunta a Richard Woolcott [então embaixador australiano em Jacarta] que basicamente diz num despacho para Gough “Se e quando a Indonésia invadir nós deveremos fazer o melhor possível para publicamente mostrarmos a nossa compreensão pela atitude indonésia”.

Penso ser muito claro que isso indica uma relação entre o governo e os meios de comunicação social, pois de outra forma não seria possível reduzir o interesse público na Austrália a menos que haja um entendimento entre o governo e a comunicação social?

Isto também mostra que as pessoas no ministério dos estrangeiros tinham uma agenda secreta relativa aos interesses nacionais australianos de que a Austrália seria melhor servida se fosse ao encontro desta invasão brutal e creio que há muita gente hoje em dia no parlamento capaz de dizer que os timorenses foram abandonados, mas a maior parte deles não está disposta a vir a público e dizê-lo. Tudo isto combinado põe um ónus moral nos produtores de cinema independentes que não se sentem constrangidos por superiores hierárquicos.

Muitos outros produtores independentes têm-se concentrado na situação da América Central ou nas Filipinas, por que não ver uma situação que se passa tão perto de nós? As guerrilhas da Fretilin até são fisicamente parecidas aos sandinistas com os seus longos cabelos e insígnias: é impossível esquecer esta semelhança que nas suas dramáticas conotações deveria levar-nos a olhar naquela direção e estudar a luta ali existente.

Eu deparei com um vácuo total em relação a Timor-Leste. O próprio José Ramos-Horta fez um minifilme penso que em 1977 do qual eu utilizei algum material de arquivo para o meu filme. Até eu fazer o meu filme isso era tudo o que havia em relação a Timor.

X – Que dificuldades houve e estamos certos de que as financeiras foram as maiores, mas por exemplo a apatia e isso é demonstrado no filme em relação a Timor-Leste. Que dificuldades houve, as pessoas perguntavam que filme, porquê e para quê?

GS – Claro que houve disso, mas quando por exemplo eu telefonava para os sindicatos deparava com esta espécie de memória esquecida de Timor e pelo telefone davam-me bastante apoio. Claro que no fim muito pouco dinheiro veio dos sindicatos mas senti este sentimento de culpa que estava lá e veio à tona quando se falava no assunto. As pessoas devem ter dito este tipo é louco mas merece algum apoio. Por outro lado o que interessava também para fazer este filme era descobrir porquê esta apatia em relação a Timor. Será ele fruto da nossa maneira de ser humana que tem de esquecer isto ou foi de alguma forma manipulada? Foi depois de ler Noam Chomsky em relação ao assunto que comecei a encontrar algumas respostas.

X – Chomsky atinge um ponto alto ao demonstrar como a comunicação social é manipulada por estes enormes interesses e corporações. Isto sem ter visto o filme mas baseado nas notas de apresentação demonstra que não só na Austrália, mas na América e na Inglaterra e no resto do mundo o assunto de Timor foi enterrado.

GS – Penso que ninguém tem de ter um alto nível intelectual para entender isto como Chomsky me disse a certa altura numa entrevista que não está no filme, claro que muita gente dirá “para entender isto é preciso ser-se um académico ou ter estudos em comunicação social para se entender este assunto tão complexo”, mas pelo contrário qualquer pessoa pode pensar que um grande jornal do grupo Fairfax ou Murdoch tem contactos estreitos com o governo a toda hora e muitas vezes dependem do governo para obterem as suas vendas de anúncios. Claro que a nível mundial o mesmo se passa e os donos de meios de comunicação social estão em contacto íntimo com departamentos de estado, ministérios de estrangeiros e outros.

Trata-se de uma relação simbiótica e isto é importante entender-se para depois termos uma janela sobre a qual olhar para o assunto de Timor. Posso recordar uma experiência recente em que um jornalista do grupo Murdoch incluiu um tema na lista diária sobre Timor-Leste. Quando o redator devolveu a lista dos artigos a tratar nesse dia o assunto sobre Timor tinha sido assinalado com o comentário “isto já não é notícia”. Isto é um bom exemplo da forma como o assunto de Timor é gerido pelas pessoas que dominam a comunicação social. São os redatores que são capazes de manipular as notícias dessa forma.

X – Isto é espantoso, aliás pode-se ver sentando-se no clube de imprensa em especial em Camberra e ouvi-los falar sobre as notícias que não saem … esta censura seletiva e redatorial que foi bem demonstrada no filme. A este respeito gostaria de falar com José Ramos-Horta, para as pessoas que nada sabem da Fretilin, que nada sabem do passado, pode-nos exemplificar o seu envolvimento e narrar os factos?

JRH – Primeiro, Timor-Leste era uma colónia portuguesa durante cerca de 500 anos até 1975 quando foi invadida pela Indonésia. Em 1974, depois de 50 anos de ditadura em Portugal o Movimento das Forças Armadas depôs a ditadura e começou um processo de descolonização que traria a independência de Moçambique, Angola e outras colónias africanas. Pela mesma lógica Timor-Leste iria ser independente no verão de 77 ou 78, data para a qual se previa a realização de eleições em outubro 1976. Dos três maiores partidos a maior parte [a Fretilin e a UDT] queria a independência e havia um minipartido, chamado Apodeti que queria a integração com a Indonésia, mas a Apodeti não dispunha de mais de uma centena de elementos em todo o país. Era óbvio que uma maioria do povo de Timor-Leste, totalizando 680 mil à data queria a independência.

Depois de 500 anos de dependência colonial era apenas lógico e natural que o povo de Timor-Leste que não tinha qualquer relação com a Indonésia ao longo dos séculos, não quisesse ser colonizado por outra potência estrangeira. É um insulto à inteligência e à dignidade de um povo dizer “Bem agora que os portugueses saíram, vamos enviar-vos para serem escravizados e colonizados por outra potência”. É uma visão condescendente, paternalista e racista típica da Austrália, quando alguns jornalistas e políticos decidem que já que os portugueses vos não querem depois de 500 anos, os 670 mil timorenses devem ir para a Indonésia.

A propósito quem são os indonésios? São os javaneses, serão eles superiores aos timorenses, aos Papuas Ocidentais. Nós não pensamos assim, temos centenas de anos, milhares de anos de história, uma cultura impressionantemente rica, bem como uma história e rituais e era lógico que os timorenses de uma forma geral quisessem a independência e a Fretilin nada mais representava do que uma expressão deste desejo de liberdade e independência.

Claro que não foi a Fretilin quem inventou a palavra independência, ela esteve sempre na mente das gentes, não numa forma moderna de estado soberano, mas durante séculos eles controlaram e governaram o interior, nas vilas e aldeias, com uma relação de respeito mútuo pelos portugueses.

De facto se algo pode ser dito em relação aos portugueses é de que o seu regime colonial foi um regime benigno. O pior que poderemos dizer é que se tratou de um regime negligente, mas esta negligência de séculos foi extremamente útil para os timorenses que viviam nas montanhas.

Noventa por cento dos que viviam nas montanhas foram deixados à sua sorte, sem serem tocados ou afetados pelos portugueses. Os portugueses por exemplo não foram para o mato e liquidaram todos, ao contrário do que os primeiros colonos fizeram na Austrália. Eu lembro-me dum francês, não tenho a certeza se era o presidente Mitterrand ou o primeiro-ministro quando houve um debate com a Austrália em relação à Nova Caledónia, disse “se tivéssemos feito como os australianos não haveria hoje problemas na Nova Caledónia”.

O mesmo se passa em relação a Timor, quando ouvimos racistas como Gough Whitlam e Peter Hastings tentando culpar os portugueses, bem deixemo-nos disso, não creio que os portugueses precisem de lições em relação a harmonia racial por parte da Austrália. Se virmos o Brasil em que cerca de 80% da população é mestiça, se virmos Cabo Verde na África Ocidental onde 80% são de raça mista, vejamos Angola e Moçambique, bem creio que os portugueses não precisam de conselhos.

Claro que não estou aqui a defender o poder colonial português, mas acho hipócrita, quando ouvimos jornalistas australianos, académicos e políticos culparem os portugueses sobre o que se passou em Timor-Leste, porque é a Indonésia que está a ocupar Timor-Leste há 15 anos. Resumidamente, a maioria esmagadora das pessoas de Timor ainda hoje apoiam a independência e se eles tivessem de escolher entre a Indonésia e Portugal, penso que não erro se disser que a esmagadora maioria preferiria um milhão de vezes Portugal aos “ditos irmãos” da Indonésia.

X – José, isto é uma versão que aqui não ouvimos muito nos mass média. A explicação indonésia daquilo que se passou é que de facto todos os mortos desde 76 e 77 foram vítimas da guerra civil entre timorenses.

JRH – Não posso crer que quer membros do governo quer membros da comunicação social possam acreditar nessa propaganda indonésia. Talvez o admitam em público mas creio ser exagerado esperar que alguém acredite nisso. O que se passa em Timor hoje é uma guerra, basta falar com algum das centenas de refugiados na Austrália e em Portugal, alguns deles chegados há apenas algumas semanas, que podem testemunhar que 99,9% da população se opõe à Indonésia. Entidades timorenses que no passado em 1974 e 75 pensavam que a integração com a Indonésia era a melhor opção estão hoje escondidos nas montanhas e alguns foram até assassinados pelos indonésios. João Martins um líder proeminente da Apodeti, um professor primário, foi envenenado há apenas alguns meses e ele era um dos intelectuais que propugnava a integração na Indonésia. Nos últimos anos porém mudou e tornou-se bastante vocal e foi envenenado. O mesmo aconteceu com outros, assassinados pelos indonésios.

Quem em Timor hoje quer a integração com a Indonésia? Contam-se pelos dedos, sabemos quem são e onde vivem. Meia dúzia deles e é tudo. Por essa razão a Indonésia não aceita um ato de autodeterminação ou eleições livres. Se é verdade aquilo que a Indonésia diz que aquilo que se passa em Timor é o resultado de uma luta de guerrilhas instigada pela Fretilin, e se é verdade que a maioria da população prefere os indonésios, então pareceria lógico que a Indonésia aceitasse eleições livres para Timor-Leste.

A Austrália exige eleições livres na África do Sul, ainda há semanas ouvi um debate sobre sanções contra a África do Sul e no qual o senador Gareth Evans e outras pessoas exigiam o poder para a maioria na África do Sul e a realização de eleições, sanções, etc. por causa do apartheid, então porque não [pedir o mesmo para] Timor-Leste? É como Gil disse, as pessoas estão excitadas sobre o que se passa na América Central, centenas de milhares de quilómetros de distância, mas não estão interessados naquilo que se passa em Timor a apenas 400 milhas a norte de Darwin. Porque não exigir a realização de eleições na Indonésia?

X – Isto parece típico do governo australiano sempre a tentar ser visto como se estivesse a proceder corretamente, mas em relação a Timor-Leste é como se esperassem que todos se esquecessem que está ali.

JRH – Deixe-me também dizer-lhe que tendo lidado com membros governamentais australianos por mais de 15 anos, porque a primeira vez que vim à Austrália tentar obter apoio para a causa de Timor foi em 1974, sem um avo nos meus bolsos quando cheguei a Darwin, e era o começo da nossa campanha. Eu basicamente já desisti da Austrália. Claro que compete ao público australiano estimular um debate e impor mudanças em relação a Timor. Para mim a Austrália tornou-se irrelevante no caso de Timor-Leste. Depois de terem reconhecido a integração de facto e de jure na República Indonésia, a Austrália perdeu a oportunidade de preencher seja que papel for em relação a Timor-Leste. O que quer que Gareth Evans diga ou queira. Se ele tentar fazer algo de bom será apreciado, doutra forma será esquecido.

O assunto de Timor-Leste está já na agenda do congresso norte-americano, no parlamento Europeu em Estrasburgo, na CEE em Bruxelas e se bem que pareça um assunto morto e enterrado na Austrália não o foi no resto do mundo. Algumas vezes fico impressionado com os sentimentos patrióticos de jornalistas australianos e académicos que de facto pensam que a Austrália é o centro do universo. Que se nada se passar em Camberra nada se passa na Europa ou nos EUA. Aprecio isso e creio que toda a gente deveria ser patriótica, mas o facto é que geograficamente a Austrália está numa posição infeliz, pois tanto quanto se tente mudar o globo não conseguirão colocar a Austrália no centro do universo. Podem por os EUA no centro, depende como se olhar para o mapa, se virarmos o mapa de pernas para o ar teremos a África no centro em vez da Europa e vice-versa. A Austrália será muito mais difícil, exige muita imaginação para tal.

O facto de os australianos serem ignorantes, apáticos, os chamados académicos e peritos da universidade nacional australiana [ANU] que se fazem passar por académicos neutrais e independentes, embora muitos sejam consultores da Bakkim [serviços secretos indonésios] e do governo indonésio, mas de facto o assunto de Timor-Leste está bem vivo no resto do mundo. No congresso norte-americano, o vice-presidente dos EUA, Dan Quayle levantou a questão de Timor-Leste com o presidente Suharto da Indonésia. Fê-lo porque existe pressão do congresso norte-americano, do papel cada vez maior que Portugal está a desempenhar, e os EUA têm de tomar em consideração a posição de Portugal, como membro da NATO (OTAN), da CEE.

O Papa irá visitar Timor-Leste em outubro e vai lá porque Timor é um assunto importante. Quando os indonésios o convidaram [o Papa] a visitar a Indonésia em 1986 ele recusou, por causa de Timor. Eles convidaram-no de novo e desta vez resolveu aceitar desde que a visita seja extensiva a Timor-Leste. Claro que aguardámos para ver o que ele fará ali. Mas o simples facto de ter incluído Timor na visita mostra a extrema importância que Timor tem. Isto prova que o assunto não está esquecido, mesmo que os negócios estrangeiros [australianos] não queiram falar do assunto, mesmo que o Canberra Times ou outros meios de comunicação social não queiram falar disto e nós estamos bem confiantes de que o assunto será mantido nas manchetes e teremos mais apoio internacional.

X – José, o seu passado profissional cremos ter sido como jornalista.

JRH – Comecei muito novo a ter de ganhar a vida como jornalista num fraco jornal em Timor, depois fui deportado para Moçambique na África Oriental onde trabalhei como correspondente de um jornal local, cobrindo a guerra entre os portugueses e os guerrilheiros em Moçambique e era correspondente para a TV em Timor [onde não havia televisão].

X – A razão pela qual fiz esta pergunta é que através do filme há uma ênfase muito especial na perceção dos factos e em especial dos meios de comunicação social. O filme está dividido em duas partes, uma primeira que leva até aos acontecimentos de 1975, e os australianos estavam preocupados então com a morte dos jornalistas, depois a forma como a imprensa relata – ou melhor – não relata os acontecimentos em Timor deixou-me uma impressão muito forte.

GS – Penso que uma das razões porque eu quis fazer disso um dos temas centrais do filme e do título deve-se a esta apatia de que falávamos há pouco. Não acredito que os australianos tenham esquecido Timor-Leste, penso antes que lhes foi dito para esquecerem pela sua omissão dos meios de imprensa e da televisão. Como resultado fico francamente espantado com a ignorância de alguns comentadores australianos. Ainda esta manhã uma jornalista perguntou ao José sobre o seu budismo ou hinduísmo. Esta mesma comentadora deve saber segundo presumo – que a Solidariedade na Polónia é altamente católica, ela sabe isso mas desconhece tudo sobre os timorenses. É extraordinário quando se pensa no assunto. Faz parte da nossa história e da nossa perceção na Austrália como parte da Europa, o que é pelo menos insólito, considerarmo-nos um enclave colonial da Inglaterra.

X – Parece também existir uma componente racial que pode ser manipulada na comunidade em relação ao que se passa em Timor-Leste. Essa pequena ilha com todos aqueles estranhos seres de cor. Isso leva ao facto de só ser relevante o que se passa no parlamento em Camberra ou talvez até mesmo em Washington. O outro lado da medalha será o daquelas pessoas que não têm à sua disposição uma estação de rádio ou um jornal ainda sentem profundamente o problema de Timor-Leste. O José tinha razão há momentos, porque todos os governos de Fraser, Whitlam, Hawke negligenciaram totalmente o assunto em troca da ligação com a Indonésia e EUA. Existe uma restrição profunda a nível político e geopolítico, Gil qual o seu comentário?

GS – Penso que é verdade, obviamente a Indonésia é um amigo da confiança dos Estados Unidos no Sudeste Asiático e depois da derrota no Vietname do Sul – e aquela imagem do helicóptero tentando levantar do telhado da embaixada americana em Saigão está bem gravada na mente de todos como sendo a pior hora da América, a ignominiosa derrota da América no Vietname do Sul provavelmente implicou que a Indonésia teria de ser protegida a todo o custo, e como o José diz no filme, Timor-Leste não era relevante nem para russos nem para americanos, mas o importante era essa perceção de ser a Indonésia o último bastião contra o comunismo no Sudeste Asiático, uma espécie de último dominó.

Depois do golpe [1965] que depôs Sukarno e instalou Suharto, pelo menos 500 mil indonésios no arquipélago foram massacrados numa guerra fratricida, em que velhas dívidas foram saldadas. Como se pode admitir que os indonésios venham depois acusar os timorenses de fazer o mesmo? É abominável. Contudo isso provou aos americanos que a nova clique de generais que iria reger Jacarta daí para a frente eram brutais e ditatoriais logo eram de confiança.

Estive na Indonésia em 1984/85 estudando o idioma e tentando fazer um filme sobre a Papua Ocidental além do de Timor e falei com tantos indonésios quanto possível e achei incrível encontrar nos mercados de Satiga [Java Central] grandes posters de indonésios membros do PKI [Partido Comunista Indonésio] e alertando a população de que aqueles eram perigosos assassinos e que se fossem vistos deveriam ser executados de imediato. Esta mentalidade brutal contra o comunismo é histórica na Indonésia.

Ao mencionar Timor de novo surge a histeria pois a Fretilin é conotada como sendo comunista e a qual se fosse deixada em liberdade tomaria de assalto toda a Indonésia e permitiria que o PKI tomasse de novo as rédeas do poder na Indonésia, e claro que isto tem todo o apoio do departamento de estado [norte-americano] e todos sabemos a subserviência da Austrália, historicamente subserviente, primeiro pela Grã-Bretanha e depois pela América do Norte e agora ao que parece pela Indonésia. Porque somos tão subservientes? Creio que teremos de prestar atenção a isto pois no fundo pode representar a nossa queda final.

X – Todo este assunto de subserviência manifesta-se nas mais variadas formas. José como representante – tantos anos – nas Nações Unidas decerto observou toda uma vasta gama de jogos e complôs e eu estou a recordar-me da cena em que Moynihan [embaixador dos EUA na ONU] se mostra satisfeito por ter apagado o entusiasmo na discussão do assunto de Timor e garantindo que alguns países do terceiro mundo votassem de acordo com os interesses americanos. Será isto, com base na sua experiência, aquilo que frequentemente se passa com países do terceiro mundo cujos representantes deveriam apoiar a Fretilin e Timor e são forçados a abster-se ou votar contra?

JRH – Claro que sim, por exemplo no caso do Vanuatu, o governo de Walter Lini foi sempre bastante apoiante de Timor, em 1982 houve um debate crucial, Vanuatu era um dos principais proponentes da resolução de Timor na Assembleia-Geral e a meio dos debates o embaixador australiano Lance Joseph, o assistente de Dick Woolcott, disse abertamente que se Vanuatu continuasse a apoiar a questão de Timor a Austrália cortaria o auxílio económico ao Vanuatu. Primeiro este tipo de ameaça nunca é feito desta forma direta, dado que Lance Joseph excedeu o seu papel, e Vanuatu não mudou o seu voto. Debati depois este problema com Dick Woolcott, e se Lance Joseph parece mais um adepto de futebol do Liverpool em Inglaterra sempre pronto para uma cena de pancadaria depois de umas cervejas, ao contrário Dick Woolcott é um diplomata refinado, e apesar das enormes diferenças que nos separam trata-se de uma pessoa razoável e urbana, extremamente inteligente. Eu costumava dizer-lhe que ele era um pragmático artístico que deveria ter vivido no século XVIII e ser o tutor do príncipe em vez de Maquiavel. Isto digo-o não como uma ofensa mas em reconhecimento do seu pragmatismo como diplomata de carreira.

Enquanto Lance Joseph é uma personagem rude e crua que em frente de um embaixador de outro país ameaça um pequeno país em relação a Timor. Não vejo a necessidade de a Austrália ter de recorrer a isto. Nós não pedimos à Austrália que nos apoie dado que não quer, se a Austrália se quiser manter afastada do assunto tudo bem, no caso de 1982 a Austrália foi deveras destruidora indo de país em país, fazendo lobbying nalguns países em favor da Indonésia. Isto não me agrava muito porque a Austrália não tem grande influência na ONU, os países africanos e da América Latina e da Europa estão-se nas tintas para a Austrália, mas os pequenos países da região são influenciados.

Existe ainda um outro fator, acho muito pouco dignificante para a Austrália este tipo de atitude. Imagine por exemplo o embaixador norte-americano na ONU à caça de votos para apoiar as Honduras… É indigno e prova como a Austrália é capaz de descer a esse ponto envolvendo-se no assunto e tentando obter votos a favor da Indonésia e se calhar a Indonésia nem lhes pediu nada! Mas querem ser vistos como bons e amigos, para que os generais fiquem amigos dos diplomatas australianos, uma posição mais típica dos servos nos séculos XVIII e XIX na China, fazendo vénias e quase partindo a espinha diante do imperador chinês.

X – Trata-se quase de uma criança que está desesperada por agradar em todas as ocasiões…

GS – Lamento mas nós somos um bocado assim

X – José, no filme menciona que no seu papel na ONU é importante manter uma certa visibilidade, ser visto e falar com diferentes representantes, e para si quando há votações ganhar uma moção pode não representar muito, mas perdê-la é terrível.

JRH – Bem o que eu disse é que ganhar uma moção pode não trazer grandes alterações em relação à situação no terreno mas perdê-la é muito triste. Para qualquer país seja para Timor ou para a Indonésia. Abertamente eles podem afirmar que não faz mal, mas depois de terem lançado centenas de diplomatas muitos meses antes da votação e delegações de alto nível para todas as partes do mundo, delegações militares, de negócios, diplomáticas para lutarem contra a nossa resolução, é embaraçoso perder, os estados nação são altamente sensíveis em relação a resoluções que os aponte em relação a um determinado assunto, seja abusos de direitos humanos ou outros. Há prestígio e orgulho nacional envolvidos ao oporem-se a serem criticados nas Nações Unidas, desta forma qualquer resolução na ONU é importante por estas razões. Perder é neste caso um importante recuo na nossa luta.

X – Qual a situação agora na ONU em relação a Timor-Leste, já mencionou a CEE e o congresso americano, outras entidades que dão apoio a uma resolução do problema, infelizmente que ainda não se passa o mesmo na Austrália, mas em relação à ONU o que se passa?

JRH – O assunto esteve na agenda desde 1975, em 1982 uma resolução crucial foi adotada a resolução 37/30 que apelava para a intervenção do Secretário-geral para iniciar conversações intervindo pessoalmente neste assunto. Em consequência o Secretário-geral tem tentado encontrar soluções e aproximar as partes envolvidas, os portugueses, nós e os indonésios. Trata-se de uma tarefa extremamente difícil, um processo doloroso e lento.

Os indonésios aceitaram conduzir negociações. Um ponto que talvez tenha passado desapercebido ao público em geral: os indonésios sempre disseram que Timor-Leste era parte da república da Indonésia como 27ª província, pelo que se tratava de um assunto interno que estava fora do mandato das Nações Unidas. Contudo, ao aceitarem sentarem-se à mesa das negociações com os portugueses em frente da ONU, isto significa que eles retrocederam e pelo menos parcialmente ab-rogaram parte da sua soberania sobre Timor-Leste para as Nações Unidas, aceitando que as Nações Unidas tinham de facto um papel a desempenhar em relação a Timor-Leste. Isto foi uma vitória para nós. Eles podem dizer que Timor-Leste é parte da Indonésia, mas de facto ao concederem sentar-se e debater o assunto eles abdicaram daquela afirmação reconhecendo que Timor é ainda um assunto sob a responsabilidade da ONU.

Em julho quando me encontrava em Lisboa, o Secretário-geral deslocou-se a Lisboa para discutir com o presidente português. As negociações têm-se mantido em Nova Iorque e em Genebra com vista a levar a Timor uma larga delegação parlamentar portuguesa, cerca de 50 pessoas incluindo parlamentares jornalistas e técnicos para estudar a situação no território. Tudo isto faz parte de um esforço genérico com vista à realização de eleições em Timor.

X – Entretanto a Fretilin continua a lutar de várias formas, e embora não seja conhecida e publicitada a luta diplomática ela mantém-se.

JRH – Voltemos atrás e ao papel dos meios de comunicação social australianos. Tem havido inúmeras notícias provenientes de Timor-Leste, de fontes altamente credíveis e fiáveis. O bispo católico de Timor, monsenhor Belo, que vive em Díli, viaja através do país e tem conhecimento da situação, enviou recentemente uma carta ao Secretário-geral das Nações Unidas apelando para a intervenção do Secretário-geral para interceder junto da Indonésia para a realização de um referendo em Timor. Duramente criticou as violações de direitos humanos em Timor.

Essa carta foi altamente publicitada na Europa, no New York Times a cinco ou seis colunas. Eu posso referir Chrys Chrystello, que está aqui connosco hoje, ele é um jornalista português baseado em Sidney, e correspondente para a maior agência dos serviços noticiosos portugueses neste país, ele contactou a maior parte dos jornais australianos com esta carta. De facto ele obteve a carta antes do Secretário-geral da ONU, e antes que qualquer outra pessoa em Lisboa e seria um “scoop” (uma caxa, um furo) para os jornais, mas ninguém se mostrou interessado. O “New York Times”, o “Washington Post” aceitaram-na, a carta faz parte dos registos do congresso norte-americano.

É por isso que o público na Austrália não sabe. Quando eu vi Bob Hawke a chorar na TV em relação à China, eu não fui cínico e considerei-o muito sensível, seria bom que todos os outros países tivessem líderes capazes de chorar por tragédias como aquela, mas ele chorou porque viu nos ecrãs da televisão o massacre de estudantes e crianças em Tian An Men, se os meios de comunicação social australianos fossem mais investigativos para preencherem o seu papel de revelar a verdade perante o público, quebrando o bloqueio indonésio, creio que o governo talvez mudasse de atitude.

Eu culpo mais a comunicação social do que o governo. É fácil para os mass media convidarem-me a criticar o governo australiano mas eu culpo-os mais a eles do que ao governo. Outro exemplo que ainda ontem Jim Dunn narrou. Jim Dunn um ex-cônsul em Timor e uma autoridade em relação a Timor, recentemente foi convidado a apresentar um programa na rádio ABC sobre direitos humanos em geral, o diretor da ABC suspendeu o programa depois de Jim Dunn ter dito que era obrigado a mencionar Timor naquele programa e isso afetaria as relações com a Indonésia. Não é isto muito pior do que a censura na URSS de Brezhnev e Estaline?

GS – Uma vez mais a subserviência…

X – Falando do filme “Enterrados Vivos” e esta entrevista está quase tão longa como o filme, uma imagem que me impressionou do filme é a do camião do The New York Times com o slogan “todas as notícias que são apropriadas para publicação”... Parece-me que os jornais e camiões australianos também deveriam ter uma daquelas frases.

GS – Penso que o New York Times é vítima de um anacronismo daquele slogan, que têm utilizado desde há 120 anos e nessa altura representava a retidão moral, o que quereria dizer então não publicamos nenhuma porcaria ou imoralidade…

X – Outra cena é uma reconstrução em que a mulher de alguém [11] vai à porta e vê um ombro largo e pensam que é a polícia. Porque decidiu reencenar essa imagem?

GS – Porque era importante para dar ênfase à dramática mudança do fim da era colonial, tal como ocorreu em Lisboa numa certa data. O fim do fascismo, o fim de repórteres tais como Adelino Gomes sendo molestados, e o recomeço da sua vida profissional. Durante o fascismo ele estava proibido de trabalhar. Queríamos mostrar como esse dia histórico começou.

X – Antes de terminar devo dizer que me parece uma luta muito solitária, José?

JRH – Toda a gente me diz isso, mas de facto a minha vida é tudo menos solitária, e nunca fui um mártir. A minha vida em Nova Iorque nunca foi solitária, onde tenho imensos amigos e dos bons, tenho amigos nos EUA e na Europa e ao longo desta luta por Timor encontrei centenas de pessoas maravilhosas, de crianças a adultos em todas as partes do mundo e ensinaram-me muito em termos de solidariedade humana. Mas não! Não é uma vida solitária. Eu não sou como Henry Kissinger que disse “eu sou o cowboy solitário e isso causou um escândalo nos EUA, porque ele via-se como o único arquiteto da política externa dos Estados Unidos. Eu não sou o único arquiteto da luta de Timor, há inúmeros outros envolvidos de uma forma ou outra. O que se passou é que quando o Gil foi a Nova Iorque fazer o filme eu estava sozinho naquela altura.

GS – O filme era para ser bem diferente e centrado na resolução da Assembleia-geral em que haveria 4 ou 5 timorenses vivendo num pequeno apartamento em Nova Iorque e cada um indo em diferentes direções em busca de apoios para a luta de Timor, uma espécie de cinema verité, essa a intenção original que eu planeara e ainda penso que deva ser feito um dia, o que se passou é que a resolução foi adiada em 1985 e 86 e não pude fazer o filme todo duma vez. Penso que se houver uma decisão em 1990 talvez então seja a altura de fazer esse filme.

X – Obrigado foi ótimo falar convosco hoje.

148. GIL SCRINE INTRODUCES HIS MOVIE

CAMBERRA 18 AGOSTO 1989) This movie is about a hidden war on Australia’s backyard, 400 km north of Darwin. It could have been on our own backyard, a few metres away from us and yet we would not have known about it.

Like in George Orwell’s “1984”: “what we do not know or hear about won’t hurt us.”

There are people in this country and in the govt interested in keeping you from knowing about this. You might even be interested but they do not want you to.

Of course we live in a democracy otherwise this might have been called censorship.

The people who control the mass media in Australia, in collusion with the govt from Gough to Fraser to Hawke decided it was in our national interest to silence this war and concentrate instead in faraway events, like the Tian an Men square event, the Chinese occupation of Tibet or the South African occupation of Namibia. All foreign and far-flung occupations but no mention of the closest of them all:

The Indonesian brutal occupation of East Timor: a country only freed from colonialism for nine days, between their declaration of independence from the Portuguese and the murderous invasion by the Indonesians.

Unbeknown to some of you there is a guerrilla war being fought by a whole nation who refuses to be colonized over again. It is only 400 km away from Darwin; it has been going on for 14 years now.

Six Australian journalists were killed there, but as we heard so many times, the Indonesians say it was their own fault. Maybe they were indeed reporting the truthful events that nobody wanted to hear about.

Likewise, 46 years ago there were 300 hundred Australian commando guerrillas supported by the east Timorese, fighting the Japanese invaders who wanted to take over Australia.

Most of those commandos were lucky, they survived together with Australia but not so lucky were the 40,000 Timorese who died then, and the 200,000 who died there since 1975. A third of a nation is gone and we cry tears over 2,000 of 1.8 billion people killed in Tian An Men.

Why are we being selective against massacres and genocides?

Next time Bob Hawke goes to television with tears in his eyes watch carefully and think about East Timor.

Even if you are totally brainwashed by our media, even if you read the lies that Gough -our best pm ever we keep on saying- wrote about East Timor, you still have plenty to think about after watching this movie.

You could go out and ask your MP’s why they haven’t joined the group of parliamentarians for East Timor. You could start writing to the papers and never seeing your letters published, but that is the minimum you the Timorese to live in an independent country today.

All they are asking is what you take for granted and do not even think about “free elections so that they can determine what to do with their lives and their future.

I, for myself, feel ashamed that we have done so little. That is one of the reasons why this movie had to be made. Enjoy it.

149. FILME SOBRE TIMOR NA TV AUSTRALIANA[12]

CAMBERRA, 28 AGOSTO, LUSA) José Ramos-Horta e Gil Scrine produtor do filme sobre Timor-Leste “Enterrados Vivos [Buried Alive] ” conseguiram hoje pôr a situação de Timor num dos principais programas de TV nacional.

Durante a última semana em várias entrevistas a órgãos de comunicação social escrita, rádio e TV o filme e a saga de Timor-Leste tem sido despertados da apatia nacional australiana, segundo declarava há momentos Gil Scrine à Lusa.

“Com mais de dez entrevistas em menos de uma semana, em Camberra, Sidney e Melbourne, a saga dos timorenses e o filme puseram Timor na lista dos assuntos que as pessoas queriam esquecer mas não podem” confirmou Horta, que se mostrou extremamente crítico em relação aos mass media.

“Ao longo destas entrevistas conseguimos expor porque é que as autoridades governamentais australianas e os meios de comunicação social tentam evitar o assunto, e felizmente temos obtido uma cobertura ótima para a apresentação ao público no próximo domingo do filme “Enterrados Vivos” que terá lugar em Sidney e no qual contaremos com a presença do cônsul geral de Portugal Alexandre Vassalo.

“Várias pessoas com quem contactamos nos últimos dias têm-nos dito que há muito se não focava Timor como agora e que era bom saber que o assunto não estava morto no resto do mundo”

“Na estreia pública do filme estarão presentes entidades importantes ligadas ao problema de Timor além de mim e do João Carrascalão teremos o novo presidente da UDT, Dr. Paulo Pires que se desloca propositadamente à Austrália para incrementar a participação da população timorense na nova fase diplomática da Convergência Nacionalista ” disse Horta a finalizar.

150. ESTREIA DO FILME [13]

SIDNEY 27 agosto 89 LUSA) Mais de 500 pessoas aplaudiram esta noite em pé a estreia pública do filme “Enterrados Vivos – a história de Timor-Leste” que se centra à volta de José Ramos-Horta. O filme que nas últimas semanas tem estado a ser lançado nas diversas capitais australianas tem merecido boas críticas por parte dos órgãos de comunicação social.

Esta semana por exemplo o único jornal nacional The Australian publicava um artigo a 3 colunas relativo ao mesmo, e a TV e outros meios da comunicação social davam relevo ao esquecimento que o caso de Timor tem tido na imprensa australiana.

Na sessão inaugural de hoje estiveram presentes: o cônsul geral de Portugal Dr. Alexandre Vassalo, o cônsul para os assuntos da imigração e comunidades portuguesas, Eduardo Oliveira, José Ramos-Horta embaixador de Timor na ONU, e o corpo dirigente da UDT (União Democrática Timorense) constituído pelo Dr. Paulo Pires expressamente vindo de Lisboa para o efeito, João Carrascalão, Domingos Oliveira e outros membros do comité central da UDT. Tratou-se da primeira vez desde há muitos anos que as cúpulas da convergência unitária timorense se encontravam tão altamente representadas.

Com uma presença superior a 500 pessoas, nas quais, segundo a Lusa apurou, se encontravam veteranos australianos da 2ª Grande Guerra, a senadora australiana Irina Dunn do partido antinuclear para o desarmamento do Pacífico, inúmeros membros da comunidade timorense aqui radicada, intelectuais, jornalistas australianos e apenas um representando os semanários portugueses locais: José Almada, diretor do “Português”, propriedade do Clube Portugal Madeira.

No final da sessão que por várias vezes foi interrompida por ovações do público, houve um cocktail, durante o qual o cônsul geral de Portugal Dr. Alexandre Vassalo declarou à Lusa “este filme devia ser visto em Portugal”.

Eduardo Oliveira da secretaria de estado da imigração e comunidades adiantou que “estava disposto a interceder junto das autoridades portuguesas e em especial da RTP para que a passagem deste filme em Portugal fosse possível, dado tratar-se de um documento extraordinário, do qual o governo português se não devia dissociar”.

O sucesso desta primeira exibição pública vem culminar uma crescente ofensiva nos órgãos de informação australianos para o problema de Timor, que nas últimas semanas pode ler doze entrevistas e vários programas de TV e rádio dedicados a Timor-Leste.

De acordo com o que Ramos-Horta disse à Lusa: “não deve ser menosprezada a vontade dos portugueses e timorenses em resolver o problema e tal como me foi assegurado aquando da minha visita em fevereiro a Portugal pelo próprio presidente Dr. Mário Soares, este quer ver encontrada uma solução para o problema da mesma forma que o Prof. Cavaco e Silva a tenta.”

O filme “Enterrados Vivos” de Gil Scrine manter-se-á em exibição em Sidney por várias semanas depois da sua apresentação na passada semana em Camberra e em Adelaide e Melbourne.

O semanário “O Português” que na sua última edição dedicava a 1ª e a 17ª página ao filme, irá apresentar esta semana um suplemento especial de 4 páginas dedicado ao mesmo e ao problema de Timor-Leste.

[1] LUSA DESPACHO 120/89, 18 AGOSTO 89 LUSA ÁSIA PACÍFICO

[2] EXCLUSIVO PARA O GABINETE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DE MACAU (REVISTA MACAU) AGOSTO 1989.

[3] EXCLUSIVO GABINETE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DE MACAU (REVISTA MACAU) AGOSTO 1989.

[4] EXCLUSIVO GABINETE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DE MACAU (REVISTA MACAU) AGOSTO 1989.

[5] NO GUIÃO SURGE ALFONSO EM VEZ DE AFONSO.

[6] EXCLUSIVO GABINETE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DE MACAU (REVISTA MACAU) AGOSTO 1989.

[7] EXCLUSIVO GABINETE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DE MACAU (REVISTA MACAU) AGOSTO 1989.

[8] EXCLUSIVO GABINETE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DE MACAU (REVISTA MACAU) AGOSTO 1989.

[9] EXCLUSIVO GABINETE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DE MACAU (REVISTA MACAU) AGOSTO 1989.

[10] INTRODUÇÃO AO FILME “ENTERRADOS VIVOS” NO PARLAMENTO AUSTRALIANO.

APRESENTAÇÃO DO VICE-PRESIDENTE TONY LAMB, PERANTE A PRESENÇA DE SENADORES E PARLAMENTARES, EMBAIXADOR PORTUGUÊS E OUTRAS PERSONALIDADES. [DIA NACIONAL DA INDONÉSIA 17 DE AGOSTO 1989)

[11] TRATA-SE DA MULHER DE ADELINO GOMES, ÚLTIMO JORNALISTA PORTUGUÊS EM TIMOR ANTES DE 7 DEZº 1975.

[12] LUSA DESPACHO #126/89 28/8/89

[13] EXCLUSIVO LUSA DESPACHO #125/89 27 AGOSTO 89

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lusofonias.net

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção e da comissão executiva da AICL