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A CRISE GREGA É O ESPELHO DOS LIMITES DO MODELO LIBERAL
ELES SÓ ENXERGAM A SI MESMOS
Portugal. PSD E O FIM DE UMA LIDERANÇA
OS VELHOS EM PORTUGAL E OS COICES QUE LHES DÃO
E OS OSCARES FORAM PARA… “DEZ MIL MILHÕES DE EUROS PARA OFFSHORES”
“É estranho que Maria Luís Albuquerque não tenha dito uma palavra” sobre os offshores

A CRISE GREGA É O ESPELHO DOS LIMITES DO MODELO LIBERAL

Posted: 27 Feb 2017 11:58 AM PST

As receitas econômicas terão um impacto limitado, ou nenhum, se não houver um debate aprofundado sobre que sociedade queremos construir.

Sophia Mappa – L’Humanité – em Carta Maior

O anúncio de uma possível falência do Estado grego provocou na Europa reações passionais e moralistas, de um lado e, do outro, reações técnicas, econômicas e até contáveis. O que revelam, antes de tudo, é a regressão do pensamento crítico e político entre os herdeiros do Iluminismo. Foram evocadas, especialmente nos bons e velhos países protestantes, guardiões da moralidade e do rigor econômico, a preguiça dos gregos, sua corrupção e clientelismo. A perspectiva de ver a crise se espalhar para outros países do sul da Europa levou ao uso de adjetivos tão deselegantes quanto desprovidos de capacidade analítica: os gregos foram classificados de “porcos”, “Club Med” e por aí vai.

Mas não se viu uma análise da sociedade grega que pudesse contribuir para a compreensão de sua especificidade e jogar luz, também, sobre as contradições da construção europeia. As abordagens econômicas tampouco tocaram nas questões mais profundas. Por que o “subdesenvolvimento” crônico da Grécia, uma vez que os gregos são “ricos”, como afirma o muito simpático Guy Burgel?[1] Por que os esforços europeus para “desenvolver” o país fracassam depois de trinta anos de adesão à União Europeia, e apesar dos dois séculos de tutela ocidental sobre o país? Quais os critérios utilizados para avaliar o desenvolvimento, a preguiça e a corrupção?

As poucas tentativas de introduzir uma visão mais complexa da sociedade foram dispensadas com uma arrogância representativa da pobreza do nosso pensamento[2] e, em todo caso, não suscitaram debate. Sem uma análise global, as soluções econômicas recomendadas, incluindo o escalonamento da dívida, serão, no fim, ineficazes. Estas soluções não lidam de forma complexa com as dificuldades gregas, incluindo o enorme fosso entre consumo e produção, nem com os desafios da construção europeia, como alguns países que não estão em conformidade com o modelo europeu, ou com a eficácia do próprio modelo, em uma conjuntura de crise sem precedentes. Na realidade, a crise econômica é um sintoma de complexas mutações sociais, e até antropológicas, e não sua origem.[3] O pensamento econômico explica uma pequena parte da sociedade, mas está longe de dar conta de sua complexidade.

As reações dos membros do governo e da opinião pública grega reforçaram o clima passional. Esquecendo que o PASOK reina na Grécia desde 1981, com um intervalo de oito anos de governos de direita, os líderes socialistas encontraram dois bodes expiatórios fáceis: a direita grega e a Alemanha. Nenhuma análise sobre uma sociedade devorada pelo consumo frenético de produtos ocidentais, sem produção equivalente e lutando com a ambivalência identitária que caracteriza todos os dominados: o desejo e a rejeição da Europa, a submissão e o descumprimento de suas ordens, as revoltas sem projeto para o futuro.

As reações viscerais e as abordagens técnicas, de ambas as partes, evitaram três questões básicas: a primeira é saber o grau de adesão dos países-membros da União Europeia aos princípios do liberalismo econômico e político, até sua própria compreensão dos mecanismos, valores e práticas inerentes a ele. As lógicas de exclusão, de que Merkel é a porta-voz, no interior da Europa, baseiam-se no pressuposto da adesão sem ressalvas ou, pelo menos, no imperativo de tal adesão. No extremo oposto, o caso grego desmente esse pressuposto. A segunda questão diz respeito à validade da convicção, amplamente difundida na Europa, de que a ajuda financeira a países não-conformes na Europa têm a finalidade de “desenvolvê-los” seguindo o modelo liberal, ou democratizá-los. Esta questão pode iluminar os impasses da integração europeia, mas também aqueles das políticas externas da Europa. A terceira é a questão da eficácia do modelo liberal, mesmo dentro de países europeus “verdadeiros” como a Alemanha, a França ou Holanda e Bélgica. Ela remete à necessidade de compreender a natureza da crise do modelo como um todo.

Assim como outras regiões e países europeus, como o sul da Itália, a Córsega, Portugal, Irlanda e, em menor medida, a Espanha, a Grécia pode fornecer pistas importantes para estas perguntas.

Rememorando o passado: uma adesão oportunista

Quando o país adere ao Mercado Comum, em 1981, a sociedade grega conhecia a Europa especialmente por suas conquistas materiais. Mas ignorava em grande parte os valores e o trabalho que estão na origem da riqueza. Apegada, sem saber, à sua tradição, principalmente ortodoxa [4], a sociedade nunca se propôs questionar e mudar as ideologias e práticas herdadas do passado bizantino e otomano. Mesmo tendo um domínio intelectual modesto sobre sua tradição, havia a experiência vivida, que se manifesta nas práticas cotidianas e nas ações mais íntimas dos indivíduos. Sua relação com o mundo exterior não indicava uma adesão ao espírito do capitalismo. Eram contemplativos, e a movimentação para transformar o mundo os deixava indiferentes. As seitas protestantes e sua glorificação do trabalho como meio de salvação nunca tocaram o imaginário coletivo, tradicionalmente hostil a qualquer coisa vinda do Ocidente. Como para muitas sociedades no mundo, o trabalho na Grécia não era algo associado à criatividade ou à identidade do indivíduo, mas à necessidade e à sobrevivência. As atividades econômicas que se desenvolviam eram aquelas tradicionalmente conhecidas: agricultura, comércio, marinha mercante, artesanato e, desde a década 1960, o turismo familiar. Não havia nada de capitalista nisso tudo. Nenhum desejo de transformar a natureza, nenhuma indústria, nenhuma acumulação de capital, investimento de longo prazo ou lógica contábil, nada de criação de riqueza ou de empregos modernos, nada de ciência e desenvolvimento tecnológico, mas uma dependência crônica das riquezas produzidas fora (os fundos enviados pelos expatriados, as ajudas europeias e depois americanas).

Do liberalismo político, a sociedade grega também só fazia uma vaga ideia sem nunca, em todo caso, o haver experimentado. O indivíduo livre e responsável por seus atos e pensamentos, o interesse público, o Estado de Direito, o Direito Civil, a razão, o debate público como meio de governar a cidade… nada disso fazia parte do patrimônio cultural nem da experiência da sociedade. Era a obediência aos poderes e a irresponsabilidade individual e coletiva que instituíam o político e o social. O estado, instaurado pelas potências europeias no início do século XIX, estava sob a tutela das chancelarias europeias e, após a Segunda Guerra, sob a tutela norte-americana. As relações do Estado com a sociedade eram clientelistas. Como o beylik Otomano, o estado era considerado propriedade do líder, do qual as clientelas se serviam, em detrimento de outros grupos. Além disso, o sistema de tributação ocidental para financiar a construção de serviços coletivos nunca vingou na Grécia. O poder governava pela força e era transmitido de família em família; como ainda hoje. Não havia nação ou unidade nacional, portanto. No lugar de soberania nacional, sucessivas tutelas. Nada de liberalismo político, mas uma longa série de regimes parlamentares abortados e de golpes militares, o mais recente entre 1967 e 1974.

A história contemporânea da Grécia é marcada por humilhações (derrotas militares, fracassos econômicos) que a fazem esquecer seus sucessos. Frustrações recorrentes igualmente, nunca elucidadas pela razão nem, a fortiori, assumidas. O responsável sempre estava fora: a Turquia, o Ocidente, o imperialismo. A responsabilidade própria, individual e coletiva, não faz sentido naquela sociedade. A genialidade do fundador do PASOK, pai do ex-primeiro-ministro George Papandreou e filho de outro líder político, foi explorar este estado de espírito e de incluir a sociedade grega em um “projeto” anti-capitalista e anti-ocidental. A história vai mostrar que não havia um projeto. O PASOK foi a expressão das frustrações gregas, mas não ofereceu nenhuma solução.

A adesão da Grécia à Europa, conduzida pelo primeiro-ministro K. Karamanlis, foi pensada como um remédio para a incapacidade da sociedade de sair do círculo vicioso de golpes militares, mas também da ameaça turca. Mas não houve nenhum debate significativo sobre a capacidade e a vontade da sociedade de se integrar ao mercado comum. A disputa acirrada que opôs os pró-europeus aos terceiro mundistas do PASOK, hostis à adesão, não se apoiava em qualquer análise da sociedade tal como era. Para os primeiros, cheios de desprezo pela Grécia real, a simples adesão à Europa seria suficiente para transformá-la em uma sociedade europeia. Para os últimos, não havia nada a mudar. Bastaria libertar o país da dominação ocidental para finalmente alcançar a felicidade. É significativo que o PASOK, que chegou ao poder em 1981, logo após a assinatura da adesão, não a contestou. Mas não mudou nada em sua posição antiocidental nem em suas explosões chauvinistas, que tanto entusiasmavam o povo.

Tampouco houve debate entre os europeus. A relutância inicial [5] desapareceu após o “retorno à democracia”, em 1974. Por ignorância da sociedade, por uma crença amplamente compartilhada, ainda hoje, de que a democracia se resume à organização de eleições, e que as ajudas financeiras levariam ao capitalismo (e à democracia), pelo desejo de expansão e também de poder, pelo fascínio com o milagre ateniense de vinte e cinco séculos, o clube dos ricos aceitou o ingresso dos pobres. O Partenon agora estava na Europa e, com ele, as ilhas gregas, tão cobiçadas pelos turistas europeus, inclusive os alemães, em busca de sol para reproduzir sua força de trabalho. Sem esquecer o mercado consumidor para os produtos europeus, inclusive armas, que passaram a inundar o país.

Foi, dessa forma, um amálgama de ideologias, interesses e mitologias, que guiou o lado europeu na adesão da Grécia. A expectativa de uma transformação rápida provou-se ilusória. Não poderia ser de outra forma. Nenhuma sociedade muda radicalmente, e, a fortiori, impulsionada de fora. Como todo beneficiário da ajuda ocidental, a Grécia não utilizou a ajuda financeira para se “desenvolver” nem para se democratizar. Como no passado, com o Plano Marshall, o que aconteceu em trinta anos foi o reforço das lógicas tradicionais; de dependência, econômica e política, com um aumento sem precedentes do consumo, sem transformação do seu aparato produtivo. Este último perdeu algumas de suas atividades tradicionais (agricultura, artesanato), sem, no entanto, ser capaz de criar novas. As atividades tradicionais de importação e exportação aumentaram em importância, impulsionadas pelos países industrializados da UE, que usaram a Grécia como um trampolim de acesso aos Balcãs. No mesmo período, as atividades ilegais (tráfico de drogas e armas) floresceram e os laços familiares tradicionais se desintegraram, dando lugar a uma atomização crescente. O populismo se estabeleceu como forma de governo, à esquerda e à direita, e os benefícios sociais concedidos não tinham adequação com as receitas próprias. O custo foi o endividamento público e privado. Quanto às relações com os “parceiros europeus”, a divisão histórica e as ambivalências tradicionais persistem, mesmo que atenuadas pelo mimetismo e pelo consumismo. O erro é sempre do outro: da Europa, do FMI, dos bancos norte-americanos. Daí o naufrágio, não só econômico. É a derrota de uma sociedade que caiu na armadilha da ilusão de um progresso material infinito sem mudanças radicais em seus modos de produção e consumo. Como ocorre entre os beneficiários da ajuda ocidental, a sociedade grega nunca enxergou a mudança imposta pela União Europeia como um objetivo a ser alcançado. As obrigações foram contornadas pelo ardil. Hoje, em plena tempestade financeira, a não há nenhum debate em torno da produção.

A lógica da exclusão

A adesão da Grécia à UE foi, assim, uma oportunidade perdida para se debater que Europa queríamos construir, e para buscar uma resposta com conhecimento de causa. Assi, os países europeus “verdadeiros” são tão responsáveis %u20B%u20Bquanto os “falsos”. A sempre proclamada diversidade, ainda recentemente evocada nas eleições europeias, não passou de um slogan, como aqueles que exaltam a diversidade no planeta. Não houve reflexão significativa sobre o lugar da alteridade na Europa, pela simples razão de que, ali, a alteridade não está presente nem tampouco é aceita. É difícil compreender valores que não compartilhamos e não experimentamos. É mais fácil pedir mudanças nos outros e esquecer a necessidade de suas próprias mudanças para que o convívio seja possível.

As contradições desta velha ideologia europeia são hoje incontornáveis, tanto no nível europeu quanto internacional. A exclusão da Grécia, proposta por Angela Merkel, é, certamente, um caso extremo. Mas é significativa da densidade histórica das sociedades e das continuidades enraizadas em sua cultura, mesmo quando acreditam ter rompido com o passado. “Uma nação (a alemã) voltada para dentro, que retoma novamente a “questão alemã “no contexto europeu”, escreve Ulrich Beck [6]. Esta lógica de exclusão da diferença conduz inexoravelmente ao mito de Narciso: morrer de tanto contemplar a si mesmo e ser intolerante com o outro. Hoje é a Grécia, depois será a Itália e a Espanha. Amanhã, a Europa – ou quem sabe a humanidade – será só a Alemanha.

No entanto, a dificuldade de pensar na coexistência na Europa (e no mundo) de sociedades diferentes daquelas inspiradas no liberalismo é algo inerente à ideologia do suposto “modelo” liberal. O fortalecimento de movimentos xenófobos em todos os países europeus revela uma profunda intolerância a tudo o que vem de fora. O apoio à Grécia foi baseado em argumentos políticos e econômicos sem dúvida razoáveis: a interdependência dos Estados e a ameaça de falência generalizada [7], o fracasso do pacto de estabilidade e crescimento como instrumento de governança da zona do euro [8]. A necessidade de sair da lógica da “autorregulação” pelo mercado é amplamente debatida. Mas quem levantou o debate sobre se valores e modos de vida diferentes podem coexistir na Europa, e como se organizará esta diversidade?

Tanto a pergunta como a resposta são, no entanto, urgentes. Primeiro porque, além da organização da atual UE, levantam a questão das fronteiras e da seleção de novos candidatos. Por que a Grécia e não a Turquia? Em segundo lugar, porque a crise da hegemonia ocidental e a ascensão de sociedades muito diferentes das europeias suscitam a questão das relações da UE com os outros países. Pode-se insistir na lógica da exclusão daqueles que não refletem nossa própria imagem? Podemos nos fechar no autismo euro-americano [9] e na busca de espelhos a golpes de euros ou do furor das armas? Pode-se continuar a evocar a superioridade dos valores europeus para impô-los no relacionamento com o outro?

E que valores são esses? A crise sem precedentes nas sociedades europeias parece aproximá-las das sociedades que elas pretendem desenvolver. O individualismo, a irresponsabilidade individual e coletiva, a anomia e a desintegração dos laços sociais não têm por que causar inveja aos gregos, por exemplo. O interesse pela coisa pública desapareceu, as instituições funcionam mal, as relações entre os cidadãos e os governos são nefastas, e a transparência deu lugar ao segredo. A ganância e a corrupção tornaram-se modo de governança. As desigualdades aumentam e as sociedades temem perder suas conquistas materiais. Nasce um novo tipo de poder, personalizado e autoritário, populista e infantilizador de indivíduos apáticos [10].

A crise grega é o espelho dos limites do modelo liberal [11], não só do ponto de vista econômico, mas também político e social. Os efeitos devastadores da ascensão, no nível mundial, da ganância e do consumo como modo de vida, da competição de todos contra todos, exigem a busca de outras maneiras de vida comum, na UE mas também no planeta. Formas mais inclusivas das diferenças, dos alemães por causa da sua grande competitividade aos gregos pela razão oposta. Isso implica mudar os modos coletivos de nos enxergar e de enxergar os outros. As receitas econômicas terão um impacto limitado, ou nenhum, se não houver um debate aprofundado sobre que sociedade queremos construir no lugar desta que está em crise. Como reconstruir o coletivo, nos níveis nacional, europeu, e até global? Com que valores e que regras? Que tipo de poder político queremos para substituir este atual, tão difamado? Para isso, temos de superar a lógica econômica como único horizonte de pensamento e de ação e restabelecer o debate público, para suscitar a ação da sociedade sobre si mesma, para se transformar. Existem movimentos sociais e outras formas de pensamento na Europa, mas são marginais e fragmentados.

A globalização, por sua vez, exige um enorme esforço de compreensão do outro, por mais difícil seja. A finitude do planeta torna-se uma consciência comum que poderia abrir caminho a formas menos destrutivas de habitá-lo. O caminho, no entanto, será longo! Sem querer ofender economistas e outros detentores de verdades absolutas, não há solução milagrosa. É preciso inovar e trabalhar por uma revolução cultural da sociedade.

[1] G. Burgel, « Athènes est au bord de la faillite, mais les Grecs sont riches », in Le Monde, 6 de março de 2010
[2] Ver o caso de Jacques Attali mandando “se catar” Georges Prevelakis, acadêmico francês de origem grega, que salientou a identificação oriental da sociedade grega, sua cegueira sobre si própria, e a ineficácia das medidas impostas (7 / 10, Nicolas Demorand, France Inter, 6 de maio de 2010)
[3] Ver, entre outros, Marcel Gauchet, La crise du libéralisme, Paris, Gallimard, 2007
[4] Ver Sophia Mappa, Orthodoxie et Pouvoir, in Sophia Mappa (dir) Puissance et impuissance de l’Etat, Karthala, Paris, 1996
[5] O processo inicial de adesão começou em 1961. O Tratado de Roma previa um período de transição de 22 anos.
[6] Ulrich Beck, “Non à l’Allemagne du repli” in Le Monde, 12 de abril de 2010
[7] Ulrich Beck, idem
[8] Poul Nyrup Rasmussen, “introduzir um mecanismo de estabilidade financeira é insispensável”, em Le Monde, 06 de março de 2010
[9] Regis Debray, Un mythe contemporain : le dialogue des civilisations, Paris, CNRS Editions, 2007
[10] Além do excelente texto de J. P. Delevoye, Mediador da república, Le Monde, 20/02/2010, permitimo-nos remeter o leitor a nosso livro, Sophia Mappa (dir) Les impensés de la gouvernance. La société civile, réponse à la crise ? Paris, Karthala, 2009
[11] Ver, entre outros, Akram Belkaid, « Doit-on vraiment sauver la monnaie unique européenne ? » Em Le Monde diplomatique, junho de 2010

*Sophia Mappa é historiadora – Tradução de Clarisse Meireles – Créditos da foto: Wikimedia commons

ELES SÓ ENXERGAM A SI MESMOS

Posted: 27 Feb 2017 12:03 PM PST

Que transformações, ocorridas na cidade e no corpo, tornaram possível a arrogância contemporânea? Que ela tem a ver com a incapacidade de imaginar o outro, de se colocar em seu lugar?

Myriam Bahia Lopes – Outras Palavras

Privilegiamos no texto um recorte que associa a arrogância à delimitação da propriedade e da constituição da propriedade de si em um cenário que frequentemente se denominou de modernidade. Apesar do processo analisado remontar ao século XIX, endereçamos nossas questões às características inéditas do comportamento contemporâneo associado à arrogância.

Dividimos o texto em duas partes. Na primeira seguimos o tema da historicidade da visão e o papel da aceleração nas formas contemporâneas de arrogância estabelecendo um diálogo com os autores – Claudine Haroche, Anne Cauquelin, Jeanne Marie Gagnebin, Richard Sennett – também leitores de George Simmel e de Walter Benjamin.

O olhar

Uma genealogia dos sentidos na sociedade contemporânea ocidental é elaborada por Gagnebin, Haroche1 e Sennett2. Haroche cita Simmel para diferenciar o alcance da audição e da visão3. Para esse sociólogo, enquanto o olhar é capaz de perceber a semelhança de todos, a audição singulariza e identifica o indivíduo pela voz. Para Haroche, a predominância da visão tem por efeito “um distanciamento, uma separação, uma dissociação entre o sentimento de si, as maneiras de sentir e de olhar” e [ela] também induz a uma ausência de reflexão4.

A visão é mais rápida que o tato, o que possibilita aumentar a velocidade da percepção. O golpe de vista é instantâneo e denota acuidade. E não se trata de uma simples coincidência, o fato da arte da caricatura, que se inscreve na história do retrato, se consolidar, a partir da década de 1840, com o jornal ilustrado e a multidão nas metrópoles. A caricatura abre a possibilidade de se produzir uma série ilimitada de retratos: o primeiro artista que descobre um ponto que oscila entre o belo e o feio, o exagera e o fixa, constrói a charge, o portrait-charge que é, ao mesmo tempo, retrato simplificado, composto por poucas linhas e marca identitária do retratado. Realiza- se uma leitura rápida e certeira daquele que é o alvo do recurso ao exagero. A linguagem da caricatura exprime uma estética segundo a qual a imagem do outro se constrói por uma espécie de esvaziamento de sua personalidade; há um rebaixamento dos atributos de sua figura pelo humor. O traço cria uma espécie de cicatriz, marca visível e reconhecida na charge, ele evidencia o ponto da ferida que atingiu a imagem narcísica do retratado. Nessa direção a caricatura é um defeito descoberto e fixado pela ilustração. Seria oportuno perguntar nessa altura do texto, em que medida a caricatura impulsiona uma estética ou lança uma sensibilidade, segundo a qual a injunção a construir uma auto-imagem, a se expor e a se exibir tem por matéria-prima a arrogância?

Pois a visão, para Sennett, ao tornar-se nosso órgão sociológico libera a violência contida na simplificação operada pela vista. Em inglês, a palavra “consciência” significa o fato de ser consciente e o de julgar. Se o olho é o órgão que nós mais utilizamos para compreender a sociedade, Sennett pergunta-se, como a visão e a palavra julgam diferentemente? No ritmo acelerado da cidade produzimos veredictos visuais mais violentos sobre os seus habitantes. “Esses julgamentos imediatos estabelecem em geral um limite ao contato social; o olho tende a se retirar daquilo que ele julga estrangeiro”5 e diríamos mais, a não enxergar aquilo que ele não reconhece ou identifica como similar em uma imagem anteriormente adquirida e que esteja disponível em seu próprio repertório imagético. A arrogância seria uma impossibilidade de imaginar o outro?

No cerne da retração do tato e da preponderância da visão encontramos o impulso à velocidade dos fluxos na metrópole. A aceleração produz uma espécie de defesa psíquica observável no automatismo e na ausência de reflexão. Walter Benjamin sublinha nos gestos do personagem dos filmes de Chaplin a sua crítica ao automatismo da cidade moderna. Para Benjamin, a novidade dos filmes de Chaplin reside no fato que ele rompe com os movimentos expressivos dividindo- os em séries menores. Cada movimento se recompõe a partir de uma série de pedaços de movimentos desmembrados6. O automatismo do trabalhador na esteira da linha de montagem da fábrica é explorado pela mímica do ator-operário. Ao destacar-se da posição que ocupava na esteira, Chaplin expõe a incongruência e a artificialidade do ritmo industrial; ritmo mecânico que impregna-se em seu corpo que não para de se movimentar, alienado e que responde como um eco e de forma irrefletida à cadência da máquina. A mímica conecta a imaginação e o corpo e introduz uma reflexão sobre o gesto.

Na cidade que se adensa e acelera, a recepção cognitiva se descola de um aprendizado outrora ditado pela ação, por um domínio técnico do ofício pensado como um processo de maturação física do corpo em seu entorno sócio-técnico e a informação é substituída pela sensação7.

Ainda em seu estudo sobre Baudelaire, Walter Benjamin indica como o choque é produzido pela imersão do corpo na multidão. O choque prepara o homem fisicamente para a linguagem do cinema. O choque é uma reação, uma barreira, uma suspensão, uma proteção face aos excessos de estímulos que o corpo recebe na cidade.

“A medida que o elemento de choque se faz sobremaneira se sentir nas impressões singulares, é necessário que a consciência se defenda de maneira mais contínua contra a excitação; quanto mais ela consegue e mais as impressões penetram na experiência, mais importante torna-se por isso mesmo, o papel da experiência vivida (expérience vécue), a defesa contra o choque tem por resultado específico designar ao acontecimento – em detrimento da integridade de seus conteúdos – uma situação temporal precisa na consciência.” 8

A falha de transformar o acontecido em uma experiência vivida indica a falta de proteção contra o choque e a irrupção do pavor9. Na cidade contemporânea o lastro da percepção busca se situar na fugacidade do instante.

A multidão também provoca no corpo uma sensação de enebriamento, uma alteração de estado de consciência, uma espécie de deformação da percepção e um aumento da empatia pelo inorgânico e essa sensação é um dos fundamentos da dinâmica do cidade-empresa transformada em espaço de exposição de marcas. Como nesse processo de retração da consciência e de esvaziamento das relações emerge a atração ao inorgânico?

A arrogância

A exposição constante de si e o comércio de imagens que pauta as relações entre os indivíduos tende a instaurar uma propensão ao mimetismo. Para Octavio Paz, “o indivíduo ao se defender com o mimetismo exprime uma fascinação pela morte ou pelo espaço inerte, em repouso. Estender-se, confundir-se com o espaço é uma forma de inventar um novo uso para a aparência, mas é também de ser apenas aparência.”9

Esse contexto, como veremos mais a frente no texto, propicia o esvaziamento das relações entre os habitantes e também da própria vida urbana, que passa a ser marcada pelo jogo das aparências, pela atração ao inorgânico, pelo fetiche da mercadoria e pelo ritmo da acelerada obsolescência dos objetos da moda.

É importante ressaltar e seguindo Claudine Haroche em sua apresentação do colóquio, a arrogância se traduz pela “afirmação de uma forma específica de propriedade de si (propriété de soi) definida pela força toda poderosa que revela uma desigualdade profunda e induz uma desvalorização do outro”. Faz parte da dinâmica da arrogância não levar em consideração a propriedade do outro, não levar em consideração a presença do outro. Nessa direção a concorrência ilimitada pela visibilidade instantânea em um mercado mundial se objetiva também com a produção de milhões de invisíveis.

Octavio Paz discorre sobre o processo que consiste em transformar alguém em ninguém, o ningunear. “O nada se torna corpo e olhos, ele se individualiza, ele se torna ninguém”. Seria impreciso dizer que os outros o impedem de existir:

“Simplemente disimulan su existencia, obran como si no existiera. Lo nulifican, lo anulan, lo ningunean. […] Ninguno es la ausencia de nuestras miradas, la pausa de nuestra conversación, la reticencia de nuestro silencio” 10.

A cidade como espaço de visibilidade da mercadoria

Na multidão e para Benjamin, “aquele que fala é a mercadoria: Sim, essas últimas palavras nos oferecem a noção precisa […] [o] murmúrio ao pobre diabo que passa face a uma vitrine cheia de coisas belas e caras.” As multidões” falam, o fetiche, com o qual a sensibilidade de Baudelaire vibra tão forte em uníssono. A empatia com o inorgânico torna-se uma das fontes de sua inspiração.11

Claudine Haroche ou Jeanne Marie Gagnebin, ao seguir Simmel, indicam que a densidade da população urbana, a presença da multidão, a proximidade física excessiva reforça os sentimentos de solidão e de hostilidade entre os indivíduos.

“Simmel analisa esse paradoxo no domínio da percepção sensível, aisthèsis, a transformação histórica dos sentidos […] O sociólogo emprega a palavra em alemão, Antlits, palavra que pode ser traduzida por olhar e também por face (Levinas), para destacar a reciprocidade do olhar. A visão humana encontra sua plenitude na reciprocidade do olhar compartilhado, quando a atenção de um olhar responde ao outro”.12

E no presente, se o compararmos ao contexto analisado por Simmel e Benjamin, é o próprio sentido da proximidade e da distância que é totalmente transformado pela noção de interatividade; habitamos um espaço topológico, sem distâncias.

A lírica da canção Vitrines de Chico Buarque de Holanda aborda a tentativa e a impossibilidade de se corresponder com o olhar que se esparrama na intermitência dos reflexos da cidade:

Eu te vejo sumir por aí
Te avisei que a cidade era um vão
– Dá tua mão
– Olha pra mim
– Não faz assim
– Não vai lá não
Os letreiros a te colorir Embaraçam a minha visão […]
Nos teus olhos também posso ver As vitrines te vendo passar
[…]
Passas em exposição Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão

Se a aura é:
“o quadro que se empresta à imagem enquadrada um campo de percepção próprio, uma abertura sobre uma dimensão diferente da superfície de nossas percepções quotidianas. A perda da aura não se resume, segundo Benjamim, à suas consequências para as prática artísticas, ela diz respeito a outras práticas pois ela assinala uma transformação radical das relações fundamentais entre a distância e a proximidade, mas também pela alteridade do mundo e do sagrado. Essa mudança toca, em especial, o domínio do erótico e aqui, novamente, a poesia baudelairiana deve ser um exemplo privilegiado” 13 Gagnebin destaca que trata-se de uma teoria estética e também de uma teoria da vida em comum.

Em um percurso diferente, Sennett ao analisar, o desejo de neutralidade expresso na forma em grelha do urbanismo norte-americano e o medo de exposição de seus habitantes, ele se propõe comparar a cidade contemporânea com a cidade antiga. Para esse autor, os antigos utilizavam os seus olhos em suas experiências políticas, religiosas, eróticas, na cidade14.“Em diversas circunstâncias, “no combate, sobre o seu leito de morte ou na rua, o Grego antigo não tinha nada de um grande sentimental com coração mole, emocionado às lágrimas pelo espetáculo da dor do outro. O fato de ser testemunho tanto das dificuldades que da diversidade dos outros tinha valor a seus olhos na medida que, ao se expor ao mundo, o indivíduo descobria, pouco a pouco, sua orientação e como guardar o seu equilíbrio. Os gregos chamavam esse estado sophrosyné, o que nós podemos traduzir por “graça” ou “calme assurance”. Hoje, dissemos de uma pessoa que guarda assim seu equilíbrio no mundo, que ela é “centrada” ou “equilibrada”. A cidade deve ser a escola onde aprendemos como levar uma vida centrada. Nos expondo aos outros, nós poderíamos aprender a pesar aquilo que é importante e o que não é. Nós não deveríamos considerar as diferenças, nas ruas ou com outras pessoas, nem como ameaças nem como convites sentimentais, mais como visões necessárias […] Nossa cultura tem necessidade de uma arte da exposição de si; essa arte não nos tornará vítimas uns dos outros, mas forjará adultos mais equilibrados, capazes de encarar a complexidade e dela aprender.” 15

A aceleração e o instantâneo

O ritmo da vida urbana aprisiona o seu habitante no instante. A velocidade, para Benjamin, transforma a temporalidade substituindo-a por “uma sucessão cada vez mais acelerada de momentos semelhantes, e ao espaço, com as técnicas cada vez mais rápidas de aproximação do distante.”16

Paul Virilio elucida a relação entre a velocidade, a delocalização, a perda da memória do passado e da imaginação sobre o futuro. Esse autor indica um Kairos do tempo real, da imediatez e da ubíquidade, que domina o espaço real (em oposição ao virtual) da extensão geográfica e a duração, criando o interativo17. O tempo hiper-realista que domina o espaço real da atividade humana lança-nos em uma espécie de amnésia dromológica [associada à velocidade]. A “aceleração do real” que condiciona hoje, […] o instante, cada instante passado, em benefício de um instante mais onipresente do que presente, em um mundo […] onde a Terra, pequena demais para o Progresso e o lucro, a curto termo, torna-se repentinamente muito estreita para os nossos projetos futuros18.

“Esse efeito de campo entre uma percepção direta de visu e in situ e uma outra, à distância e instantânea, esse grande relevo, por sua vez, estereoscópio e estereofônico, devido a perspectiva do tempo real da emissão-recepção, vai alterar completamente as condições de visibilidade da existência de cada um, assim como a maior ou menor viabilidade de estar lá, aqui e agora.”19

Na imagem empregada pelo autor o homem tornou-se, no presente, um anjo do instante20.

A arrogância contemporânea estaria vinculada às mutações da percepção e da vivencia do tempo e do espaço? À perda da moldura que ao articular passado, presente e futuro permitia vislumbrar a profundidade do processo, da experiência, da vida?

Apropriar e sujar

Talvez fosse oportuno nos deter no cerne da definição da arrogância e da sua relação com a propriedade, no gesto de se apropriar. A propriedade, tal como Michel Serres a define, se relaciona a um contrato natural, ao lugar e ao tempo imprescindíveis à vida – no qual, para empregar ainda uma noção usada por Benjamin em diálogo com Goethe, a história natural acontece.

Da leitura de Rousseau sobre a origem da propriedade, Michel Serres21 propõe reter apenas a ação de delimitar, cercar, marcar, limitar, estabelecer margens. Cravar a linha no espaço e se apropriar. A genealogia desse gesto torna visível a continuidade entre homens e animais em seus processos de apropriação e de territorialização. Além disso, essas considerações trazem uma chave possível para a leitura do comportamento do homem contemporâneo em seu ímpeto de se apropriar e poluir o planeta de forma ilimitada. Serres altera a frase de Rousseau: a primeira vez que o homem cercou um terreno e ao poluir afirmou a sua posse e consolidou a sua propriedade. E é a partir desse ponto que o autor ensaia indicar algumas formas diferenciadas de apropriação e da propriedade. E lembra que na etimologia da palavra Templo, temos que na língua grega ela designa recorte; o sangue do sacrifício firma o espaço interno, sagrado. Em uma leitura transversal, Serres aproxima dois momentos, por exemplo, ao mostrar como o limite que se constrói com o sacrifício, com o sangue que cerca, está presente na fundação da cidade, em Roma e nas Guerras nacionais e mundiais. A religião cristã e posteriormente o
direito limpa as marcas dessa violência. Em outro momento, “a referência para a propriedade passa […] dessa dureza – a terra arável, a tumba, os cadáveres e os deuses pagãos – ao suave: uma simples assinatura no papel. Do pagus à página; a antiga nomenclatura se repete, passando do duro ao suave” 22.

“Globalizada, a atual poluição resulta da luta pela posse do espaço em sua totalidade”.23 O que coloca, em teoria, a noção de propriedade face a uma aporia, pois a perda de limites, o progresso ilimitado suprime os limites da própria propriedade.

À guisa de conclusão

E se com relação à subjetividade contemporânea ultrapassássemos a divisão interior/exterior? E se deslocássemos a reflexão para além dos limites daquilo que compreende, encerra e fixa o Eu para pensar a espacialização da subjetividade contemporânea? A divisão entre o interior, local de produção do sentido e o exterior, nos lembra Sennett, remonta à uma tradição religiosa que também opera a divisão entre a alma e o corpo. Talvez o conceito de lugar aristotélico, em especial a leitura realizada por Anne Cauquelin24 nos auxiliasse a dar continuidade às reflexões. Esse lugar é “interior e exterior, dentro e fora”. Esse envelope técnico faz parte daquilo que contorna e o limita: o corpo, o pensamento, o ser. Não seria essa uma pista para se repensar no presente a relação entre a linguagem e a ação, as mutações da espacialização da subjetividade contemporânea?

Pois no diagnóstico de Paul Virilio, a ausência da duração posta pela aceleração e o domínio do instante implicaria na extinção da crono-diversidade da vida sensível e acrescentamos, na ameaça da vida.

Myriam Bahia Lopes é professora e pesquisadora da Escola de Arquitetura da UFMG. É historiadora pela Unicamp, 1982, bacharel, 1988, mestre e 1997, doutora pela Université Paris 7, Paris, cidade na qual também realizou respectivamente em 2009 e 2015, pós-doutorado na EHESS. Autora do livro O Rio em movimento: quadros médicos e(m) história, FIOCRUZ (http://books.scielo.org/id/4cdf6) e Corpos inscritos (no prelo); “Ladeira” em L`aventure des mots de la ville, Robert Laffont. Publicou, dentre outros, “Porto, Porta, Poros” em Imagens da Cidade, Marco Zero e “A torção do horizonte” na revista Urbana. Co-organizou a edição brasileira do Ensaios sobre a Arrogância (http://www.arq.ufmg.br/nehcitj/editora). Foi diretora da Casa dos Contos de Ouro Preto (2001-2004) e coordena desde 1999 o NEHCIT (http://www.arq.ufmg.br/nehcit).

Notas:
*O presente texto foi escrito para ser um comentário ao texto de Claudine Haroche e foi apresentado no Colóquio Internacional Arrogância (http://bharrogancia2013.wordpress.com).
1HAROCHE, C L´avenir du sensible. Les sens et les sentiments en question, Paris, PUF, 2008, p 165. Tradução em português A condição sensível. Formas e maneiras de sentir no Ocidente. Rio de Janeiro, Contracapa, 2008 (traduzido por Jacy Alves Seixas).
2SENNETT, R La conscience de l´oeil. Paris, Verdier, 2009
3HAROCHE, C. op.cit.,p 176
4idem, p. 188
5SENNETT, R. op.cit., p 13 14.
6BENJAMIN, W. Uber einige Motive bei Baudelaire, I, p 609 apud MORSS, Dialética do Olhar. Walter Benjamin e o Projeto das Passagens, Belo Horizonte, UFMG, 2002, p 322
7BENJAMIN, W. O Narrador em Benjamin, W – Benjamin, São Paulo, Abril Cultural, Coleção Os Pensadores.
8BENJAMIN, W. Poésie et Revolution, Paris, Denoel, p 234.
9 PAZ, O. El laberinto de la soledad. Fondo de Cultura Económica, México, 1992, p 16
10PAZ, O op.cit, p. 17
11BENJAMIN, W op cit,
12GAGNEBIN, J.M. Limiar, aura e rememoração, Ed 34,p 122
13idem, p 134
14SENNETT, R op cit, p 20
15idem 16GAGNEBIN idem
17VIRILIO, P Le futurisme de l´instant: Stop – Eject Paris, Galilée, 2009, p 69
18idem, p 71
19idem, p 79
20ibidem, p 80
21SERRES, M O mal limpo: Poluir para se apropriar?, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2011.
22idem, p 36
23ibidem, p 90
24CAUQUELIN, A Aristote. Le Langage, Paris, PUF, 1990

Portugal. PSD E O FIM DE UMA LIDERANÇA

Posted: 27 Feb 2017 12:01 PM PST

Ana Alexandra Gonçalves*

É arriscado afirmar o fim de uma liderança política e, como todo o exercício de futurologia, este pode muito bem cair em saco roto. Mas os sinais de tibieza da ainda liderança do PSD são mais do que evidentes. E mais: os sinais de desespero de Passos Coelho e dos seus acólitos revelam-se a cada dia que passa.

Tudo começou com o inesperado entendimento das esquerdas e a incapacidade da direita congeminar alianças com o PS. Em rigor, Passos Coelho nunca recuperou verdadeiramente do facto de ter vencido as eleições, mas, por culpa própria, não ter sido capaz de formar maioria.

Depois esperou-se ansiosamente pela chegada do Diabo, tomasse ele a forma das instituições europeias, ou de um hipotético desaire da economia portuguesa ou ainda de um desentendimento entre as esquerdas. O Diabo não chegou e o Presidente da República agiu mais vezes como anjo da guarda do Governo do que eventualmente se esperaria – tudo em nome da estabilidade, claro está.

Mais recentemente, Passos Coelho viu nova oportunidade de provocar instabilidade no Governo, designadamente com a história bacoca das sms trocadas entre o ministro das Finanças e aquele que seria o Presidente da Caixa Geral de Depósitos. Com esta jogada, Passos Coelho e o seu séquito matariam dois coelhos com uma só cajadada: provocariam a tão desejada instabilidade no Governo e ainda utilizariam a tal história bacoca para escamotear os bons resultados da economia portuguesa, alvo de alguns elogios da comissão europeia e da comunicação social fora de portas.

Mas o tiro voltou a sair pela culatra. Para além de um Presidente zangado, pouco mais resultou desta história e nem a preciosa e recorrente ajuda da comunicação social permitiu tirar frutos de uma polémica que pouco ou nenhum interesse provocou na maioria dos portugueses. Em contrapartida, soube-se agora que durante o seu mandato, Passos Coelho viu 10 mil milhões de euros fugir de Portugal sem quaisquer satisfações – um assunto que, muito provavelmente, causará desagrado naqueles que, durante esse mesmo período, viram os seus rendimentos serem cortados, enquanto assistiam ao enfraquecimento do Estado Social e à fuga de muitos jovens para o estrangeiro, tudo em nome de uma culpa do país que havia, segundo o então primeiro-ministro, vivido acima das suas possibilidades. Tudo com a preciosa ajuda do secretário de Estado Paulo Núncio, via CDS.

Resta ao líder do maior partido da oposição esperar por um milagre nas autárquicas. Se esse milagre não chegar, resta-lhe a porta de saída.

*Ana Alexandra Gonçalves – Triunfo da Razão

OS VELHOS EM PORTUGAL E OS COICES QUE LHES DÃO

Posted: 27 Feb 2017 12:00 PM PST

Sobre os idosos, os velhos. Credo. A fraseologia mudou com intenção de dourar a pílula, talvez até para enganar, ou para ocultar. “Imparidades”, chamam a isso agora comummente. Porque não crédito mal-parado? Porque não calotes? Num país com tantos iletrados e analfabetos dá jeito avançar com os tais “palavrões”, e vai daí dizem “imparidades”. Como este exemplo muitos outros há. Em tempos, a estes galamas da freseologia, chamavam-lhes “dótores” pela negativa, e mais comummente “cagões”. Oh deuses! Atualmente Portugal está a abarrotar de “cagões” engravatados, com canudos distribuídos ao desbarato que têm redundado em dótores de tudo e mais alguma coisa mas principalmente encostados a partidos políticos ou a contas bancárias e fortunas que lhes dá para quase serem donos disto tudo. Entretanto o povoléu produz mas eles dizem que não chega. Tal é a gula. Comem tudo, mas não chega.

Os velhos estão tramados. É o que vai vir a seguir em trabalho de Goreti Pera no Notícias ao Minuto. Provavelmente já muitos leram. Provavelmente há muitos mais a dever ler. Era muito bom que também os agora jovens, os novos, lessem e soubessem interpretar. Sim, porque só saber ler não chega. É muito importante saber interpretar. Pensar. Inclusive debater. Os novos de agora são os futuros velhos. Pensem nisso. Depois, quando lá chegarem vão lembrar-se disto. Provavelmente porque vão estar ainda pior que os velhos de agora. Aqueles velhos (agora) que na juventude viram-na atirada para as urtigas. Para uma guerra colonial que devastou muitos portugueses. Que foram “carne para canhão” de um regime déspota que tinha por ideologia o fascismo e era dirigido por um tal tipo tacanho de Santa Comba Dão que dava pelo nome de Salazar. Não por acaso, nas bruxarias, usam sal nas entradas das residências, para levar azar às famílias que lá habitam. Sal-azar, compreendem ou querem que se faça o desenho pictórico na parede?

É então que a seguir vem a abordagem sobre os velhos, mais em baixo. Diz o entrevistado que os velhos deviam estar representados na Concertação Social, pois deviam. Afinal foram eles que neste país construíram muito do que é usufruído por todos. Incluindo o derrube do fascismo e a construção do Portugal livre e democrático, mais justo (como já não é atualmente). Deviam agradecer-lhes e estimá-los. Em vez disso a maioria só lhes dá coices. Grandes bestas!

A entrevista. Moderada, mas…

MM / PG

“Idosos não podem ser considerados mercadoria para beneficiar interesses”

Lino Maia, representante das instituições de solidariedade, lamenta que o setor social não esteja representado na concertação social e louva a preocupação manifestada pelo Presidente da República para com os mais desfavorecidos. Sobre os idosos e lares ilegais encerrados, manifesta preocupação. Até porque, “quando um lar clandestino é encerrado, é muito difícil arranjar uma alternativa para os idosos”.

O presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS) está em negociações com o Governo para encontrar medidas que compensem o aumento do salário mínimo nacional. Sobre este debate, tece elogios ao ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Viera da Silva: “É muito sensível e conhece muito bem esta área”.

Em entrevista ao Vozes ao Minuto, Lino Maia mostra-se preocupado com a existência de lares ilegais no país. “Quando um lar clandestino é encerrado, é muito difícil arranjar uma alternativa para os idosos”, lamenta.

Como é que vê o papel do Presidente da República junto das instituições de solidariedade e a preocupação que tem manifestado para com os sem-abrigo?

Este Presidente está muito atento e os anteriores também. Nunca vi um Presidente da República distante dos problemas da comunidade. Este [Marcelo Rebelo de Sousa] tem uma forma de estar muito viva, atuante e presente e sempre acompanhou este setor, sendo até dirigente de IPS’s. É um homem muito sensível a este setor e a sua atuação é uma forma de estimular os dirigentes que nem sempre são convenientemente respeitados, defendidos e valorizados.

Ter um Presidente tão próximo do povo e que se mostra preocupado com setores desfavorecidos da sociedade faz com que o próprio Executivo lhes dê mais atenção?

Eu tenho notado, desde que estou na CNIS, que tem sido progressiva a atenção dos governos ao setor. Independentemente da atuação do Presidente da República, que é absolutamente louvável, noto neste ministro [da Solidariedade e Segurança Social] uma grande compreensão e sensibilidade. Mas repito: os recursos são finitos e, portanto, nem sempre se pode fazer aquilo que se queria. Mas vai-se caminhando.

O Governo socialista dá mais ou menos importância ao setor social do que o anterior governo PSD/CDS?

São visões algo diferentes. Em Portugal todos os partidos defendem o Estado social. Agora a questão que tem sido debatida é se deve ser o Estado a prestar diretamente os apoios e a organizar diretamente as respostas ou se deve respeitar a subsidiaridade e a organização feita pelos próprios cidadãos, ou seja, se deve ser o Estado a fazer tudo ou se deve respeitar quem o faz na proximidade. Eu sou absolutamente a favor de um Estado que reconhece quem faz, que apoia, coordena, regula e supre necessidades, para que ninguém fique para trás. Se a sociedade não se organiza, o Estado tem então de implementar essas respostas. Esta é a minha visão, mas nem todos estão de acordo com ela. É na proximidade que se prestam melhores serviços, para além de eventualmente ficar mais barato. É melhor termos uma sociedade que se corresponsabiliza pelos seus cidadãos em vez de ser apenas dependente das iniciativas do Estado.

Noto neste ministro uma grande compreensão e sensibilidade

Passa por ensinar o povo a pescar ao invés de lhe dar o peixe?

Às vezes é preciso tudo: dar o peixe e ensinar a pescar. Sobretudo é importante que, na proximidade, as pessoas sintam que a sorte do seu vizinho é a sua sorte. Não estarmos à espera do Estado mas organizarmo-nos para que não falte a ninguém aquilo de que precisa para ter um futuro bom.

Mas, por muito que as pessoas se organizem, são necessárias verbas. É aqui que tem de entrar o papel do Estado?

Claro, e entra o Estado exatamente para que estas organizações o façam. Os que têm mais dificuldade muitas vezes não podem pagar os serviços que lhe são prestados. Por isso é que o Estado cobra impostos, para apoiar estas instituições. Mas não é só no cobrar impostos e distribuir apoios financeiros que o Estado é importante. É-o também para a regulamentação, a supressão e universalização das respostas.

Os acordos de cooperação com o Executivo já foram atualizados este ano? Já foi definido algum valor?

Ainda não, estamos precisamente em diálogo para chegar a uma atualização, que nunca será a desejável, será a possível. A atualização este ano tem em atenção o aumento do salário mínimo, que é muito importante e que ainda não é suficiente, e o aumento de custos nas instituições. Espero que até ao final do mês de fevereiro possamos chegar a uma conclusão final, que terá retroativos a partir de 1 de janeiro.

Falou-se numa atualização acima do valor da inflação. É isso que considera justo?

Terá de ser, até porque a inflação nestas instituições é sempre muito mais elevada do que na economia comum. A massa salarial nestas organizações representa mais de 50% da despesa e em muitas chega a atingir os 70%, enquanto no resto da economia andará nos 13% a 15%. Aqui, os salários têm um impacto muito grande e têm estado menos protegidos os trabalhadores destas profissões, porque ganham menos do que ganhariam noutra atividade económica. Nós temos de ser justos para com os trabalhadores destas instituições.

Portanto, ainda não foi definido com o Governo que medidas serão aplicadas para compensar o chumbo da redução da TSU?

É isso que estamos a debater. Devo referir que a descida da TSU em 1,25% não tinha grande impacto. Agora estamos a estudar e penso que vamos chegar a uma boa conclusão (ou a possível), até porque da parte do Governo temos um ministro que é muito sensível e que conhece muito bem esta área.

Se a atualização para 2017 for superior a 3,5%, penso que estará num bom caminho

A que valor considera que seria necessário chegar para compensar de forma justa o aumento do salário mínimo?

Tendo em atenção a necessidade de revermos toda a tabela salarial, precisaríamos de uma atualização bastante elevada para ir pondo progressivamente os nossos trabalhadores ao nível praticado na Função Pública. Se a atualização para 2017 for superior a 3,5%, penso que estará num bom caminho. Não tenho a menor dúvida que, da parte do Governo, haveria vontade de ultrapassar esse valor, mas os recursos são finitos e provavelmente o Estado não tem meios para uma atualização superior a 3,5%. No ano passado, a atualização foi de 1,3%. Este ano espero que seja superior, porque se for desse nível ficaremos com imensas dificuldades.

Considera que os representantes de IPS’s, misericórdias e mutualidades deveriam integrar a concertação social?

Sem dúvida que deveria haver um representante deste setor, até porque este é um setor muito empregador (temos mais de 250 mil trabalhadores). Há organizações patronais que representam muito menos trabalhadores. Na concertação social, alguém que fale por este setor seria importante e equilibrador. Somos um setor empregador muito especial, os nossos dirigentes não são remunerados e eles próprios são muitas vezes trabalhadores.

Mas é uma possibilidade que alguma vez lhe foi colocada?

Está agora em reformulação o Conselho Económico e Social. Eu tenho falado disso e não sou só eu a falar. Provavelmente, no CES haverá – espero eu – condições para se aprofundar melhor a conveniência [desta medida] e avançar nesse sentido.

Quando um lar clandestino é encerrado, é muito difícil arranjar uma alternativa para os idosos

Nos últimos dias, têm sido encerrados vários lares por funcionarem de forma ilegal ou por não terem condições dignas para albergar os utentes. Isto preocupa-o?

É evidente que me preocupa a existência de lares clandestinos. Em Portugal há lares lucrativos, que não são IPS’s, muitíssimo bons. E há outros que deixam muitas dúvidas. É importante o acompanhamento para que não haja lares ilegais. Os idosos não podem ser considerados uma mercadoria para beneficiar interesses nem sempre claros.

Mas isto levanta uma outra questão: pode haver lares ilegais que o são porque o processo de legalização é moroso e isso pode favorecer a abertura de lares ilegais. Talvez seja conveniente que o processo de legalização seja mais célere, sem deixar de ser sério e exigente.

Haverá um aproveitamento por parte de algumas pessoas pelo facto de haver falta de instituições para acolher, por exemplo, idosos?

Há um aproveitamento por parte de alguns protagonistas que querem ganhar dinheiro e abrem lares sem condições. É um negócio lucrativo. É preciso que, da parte da Segurança Social, haja um grande acompanhamento para evitar que os idosos sejam encarados como uma mercadoria.

Que soluções se podem encontrar, tendo em conta que quando um lar ilegal é encerrado há idosos que ficam sem um teto?

A maior parte dos idosos em lares está em IPS’s (são mais de 50 mil pessoas). Mas não temos capacidade para muito mais, sobretudo em algumas zonas com maior densidade populacional. Quando um lar clandestino é encerrado, é muito difícil arranjar uma alternativa para os idosos. Temos de estar atentos a isso.

*Pode ler a segunda parte desta entrevista aqui.

Goreti Pera – Notícias ao Minuto em Vozes ao Minuto

E OS OSCARES FORAM PARA… “DEZ MIL MILHÕES DE EUROS PARA OFFSHORES”

Posted: 27 Feb 2017 12:04 PM PST

Banda sonora (refrão): Maria Luís já te tenho dito que não é bonito andar a enganar…

Olá, este é o Expresso Curto de hoje. A lavra é do senhor diretor do Expresso, Pedro Santos Guerreiro, conforme é referido logo-logo no inicio da página correspondente (online). Hoje ele perde-se a relatar e considerar a cerimónia dos Óscares que ocorreu nos States. Vamos nessa, mas a lista dos óscares deixamos a consulta ao critério de quem nos lê, por isso recorra à ligação (link) que vai encontrar lá no sítio desta prosa.

Que nos óscares ocorreu um enorme erro histórico… Ocorre quase sempre!

Filmes. Filmes, filmes. Um grande filme é o que aborda de leve a cena dos tais 10 mil milhões de euros que de Portugal voaram para os offshores. E quem foram, exatamente, os tipos que se baldaram com o dinheiro? Que o Espírito Santo é um dos que mais se baldou. Compreende-se, é o dono disto tudo. Ainda é. É, provavelmente só é de menos partes do país, mas que tem peso, podem crer que tem. E quem mais se baldou? Tudo acabará em águas de bacalhau devidamente estagnadas. A justiça…. Oh, a justiça. Quem? Aquela que é forte com os fracos e fraca com os fortes? Oh, pois, essa.

O filme dos 10 mil milhões vai ter o “tratamento” VIP, correspondente ao “E Tudo o Vento Levou”. É o que já está a acontecer. A Maria Luís Albuquerque, que se põe em bicos dos pés por dá cá aquela palha, está caladinha que nem uma rata de sacristia. Até parece que nem era ministra das finanças nessa altura das fugas de capitais e ao fisco enquanto também na época andavam a virar de pernas para o ar os portugueses que trabalhavam por conta de outrem (os mais fáceis de roubar). Que prazer devem ter sentido naqueles gabinetes pagos por todos nós! Ainda mais porque os das máfias do capital conseguiam fugas de capital enormes e fugas ao fisco. Eram só fugas, para eles. Era muita fome para muitos dos mais fracos em Portugal. Vai daí a razão de ainda hoje existir tantos famélicos. E eles moita-carrasco. Debitam uns bitates e coisa e tal mas as consequências dos responsáveis é zero. Do secretário de estado, o tal Núncio, da Luís Albuquerque, do então PM Passos Coelho, desses trafulhas todos que em quatro anos debulharam o país em prol dos que já muito ricos passaram a ainda mais ricos. Bom trabalho, Maria Luís, Passos, Portas, Cavaco… E restante pandilha.

Chega de filme sobre a realidade portuguesa. Chega de portugueses a deixarem-se enlevar nas loas de Passos e daqueles PSD/CDS desnaturados e entregues a uma pandilha vergonhosa. Chega. Basta!

Pirem-se para o Curto, vale sempre ler. Para saber como é que ELES escrevem a dose diária (ou quase) que adormece tanta gente mas que também acaba por despertar outros.

Os Óscares, coisa importante, no país das fitas. aNúncio: “E os Óscares foram para… 10 mil milhões de euros para offshores!” Pois.

Pergunta: e então, “voam” 10 mil milhões… E há crime ou não há crime? A resposta: Pois, bem… Deixem-se estar, o povo é sereno. Para a próxima podem ser 30 mil milhões ou mais. Porque não debulhar totalmente Portugal e vender o país de uma só vez por atacado? Pois.

MM / PG

Este é o Expresso Curto

Pedro Santos Guerreiro – Expresso

O erro mais embaraçoso de sempre

Na Casa Branca, o Presidente deve estar a rir-se como uma hiena. A noite foi quase até ao fim marcada por símbolos e discursos anti-Trump mas as manchetes de hoje no mundo inteiro são sobre dois minutos quase no final. Foi esse o tempo que durou a “vitória” de La La Land como melhor filme do ano. Depois, bom, depois foi um embaraço visto em direto por milhões de pessoas. Faye Dunaway anunciou o nome errado, afinal o Óscar de melhor filme foi ganho por “Moonlight”. “Se fosse um filme ninguém acreditaria”, escreve o New York Times.

Um fiasco.

Já estava tudo em palco, trocaram-se as estatuetas entre falso e verdadeiro vencedores, enquanto se repetia “isto não foi uma brincadeira, isto não foi uma brincadeira”… Não foi uma brincadeira, foi mesmo um espalhanço ao comprido daqueles que dá vergonha alheia. O Twitter encheu-se de “what’s happening?”, “o que está a acontecer?”, relata o New York Times.

Pobres Faye Dunaway e Warren Beatty, que estava a seu lado: o erro não foi dela. Terá sido da PricewaterhouseCoopers, a auditora dos prémios, que três horas depois emitiu um comunicado a assumir que tinha entregue o envelope errado e a pedir desculpa. A Vanity Fair, que em condições normais teria o site a abrir com as fotografias dos vestidos da noite, dá destaque ao relato do que correu mel e do alvoroço nos bastidores.

Apesar das críticas explícitas ou implícitas a Trump, a noite já não estava a ser grande coisa, como escreve a Mariana Lima Cunha na crónica da noite. Não houve sequer um daqueles discursos a sério que pusesse em causa a xenofobia e o populismo do Presidente. Talvez se Denzel Washington tivesse ganho o Óscar… mas o melhor ator foi Casey Affleck (de “Manchester by the Sea”).

O episódio final deixou para trás os momentos de intervenção política, iniciados pelo anfitrião Jimmy Kimmel, que começou por ironizar agradecendo a Donald Trump: “Lembram-se do ano passado, quando parecia que os Óscares eram racistas?” A cerimónia, acrescentou, estava a ser vista em 225 países “que agora nos odeiam”. Um dos momentos da noite pertenceria a Gael García Bernal: “Sou contra qualquer tipo de muro que nos tente separar. Como mexicano, como migrante, como ser humano”. A presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs, que foi apresentada por Kimmel como “uma coisa rara: uma Presidente que acredita nas artes e na ciência”, orgulhou-se da comunidade “mais inclusiva e diversa a cada dia que passa”, que prova que “a arte não tem uma linguagem nem pertence a uma só fé”. Antes do espalhanço, Warren Beatty afirmava: “O nosso objetivo na política é o mesmo que na arte: encontrar a verdade”.

Bom, mas “Moonlight” ganhou mesmo o Óscar de melhor filme, bem como o de melhor ator secundário e o de melhor argumento adaptado. Pode ler aqui a crónica sobre “um filme deslumbrante e delicado mas também doloroso e violento”. La La Land ganhou seis prémios.

Eis a lista completa das estatuetas

OUTRAS NOTÍCIAS

Divulgar a lista de devedores da Caixa no Parlamento era uma ameaça ao regime? Não, responde Ferraz da Costa no Eco. “Era uma ameaça aos ladrões.”

A Caixa Geral de Depósitos vai juntar-se a outros bancos e, segundo o Correio da Manhã, deixar de pagar juros nos depósitos à ordem.

O Ministério da Saúde vai abrir até 150 vagas com incentivos para médicos, escreve o Diário de Notícias. Ainda não há dados sobre as especialidades, para unidades carenciadas.

O caso do offshores prosseguiu durante o fim de semana. O PSD propõe agora que a publicação de transferências para “offshores” deixe de depender do Governo, para evitar o que sucedeu… no seu governo. Isto depois de Paulo Núncio ter assumido “responsabilidades políticas” e saído do CDS. Assunção Cristas disse que Núncio revela “grande elevação de caráter”, ela que não se revelou contra a sua saída. “Não, Assunção”, escreve Rui Tavares no Público, “Não é possível dizer que “o país deve muito ao doutor Paulo Núncio pelo trabalho de combate à fraude e à evasão fiscal”.

Há décadas que não morriam tantas pessoas em Portugal num ano como as que morreram em 2016: 111 mil. Mais do que o número de nascimentos. “Nunca fomos tão velhos, esta evolução terá muito a ver com o envelhecimento”, afirma Paulo Nogueira, da Direção de Serviços de Informação e Análise da Direção-Geral de Saúde, no Público.

Momento Manuel Pinho: salários na China crescem para níveis próximos dos de Portugal. Segundo o Financial Times deste fim de semana, o custo de cada hora trabalhada na indústria chinesa superou os praticados em economias como o Brasil e o México, aproximando-se do custo do trabalho industrial em Portugal. (Numa declaração então polémica, Pinho defendeu na China, há dez anos, a vantagem de investir em Portugal argumentando com os nossos baixos salários).

O Jornal de Angola criticou a justiça portuguesa, escrevendo em editorial que “custa ver tanta falta de vergonha”. Em causa ter sido notícia nos jornais portugueses o processo envolvendo o vice-presidente angolano, Manuel Vicente. Pois, em Portugal há notícias de que os políticos do poder não gostam. Os de lá e os de cá.

Nos Estados Unidos, em Nova Orleães, um veículo avançou contra uma multidão e provocou 28 feridos. O suspeito, que “parecia fora de si”, foi detido.

A Casa Branca quer olhar para os telemóveis dos seus funcionários para saber de onde vêm fugas de informação para a imprensa (no El Pais).

A China passou a ser o maior parceiro comercial da Alemanha. Não é uma notícia qualquer, esta analisada no Quartz. Este gráfico mostra o crescimento das importações.

“Faliu a primeira empresa salva por um PER”, titula o Negócios. Trata-se da Elnor, empresa de Santo Tiro que quebrou depois de dois anos a pagar só juros à banca, passando a ter de pagar a fornecedores.

Chama-se Fibroglobal, empresa que tem gerado queixas da Nos e da Vodafone, depois de ter recebido quase 30 milhões do Estado para construir uma rede de comunicações na zona rural centro, impondo preços grossistas (cobradas aos operadores) que só são boas para a PT. Segundo o Público, esta empresa está ligada a Armando Pereira, o sócio português da Altice, dona da… PT. “A Fibroglobal é apenas uma de várias nebulosas na intricada teia de relações entre sociedades que passaram a rodear a PT desde que a Altice a comprou”, escreve o jornal.

Manchetes do dia:

“Figuras do Estado comunicam sem segurança informática”, Diário de Notícias.

“Banco de Portugal aplaude lei que trava novo caso dos offshores”, Público.

“Caso das offshores. Especialistas dizem que dinheiro não saiu ilegalmente”, i.

“Saco azul dá 24 milhões a Granadeiro”, Correio da Manhã.

“Nova proposta de quatro mil milhões para o Novo Banco”, Negócios.

“Clube falido era entrada para jogadores ilegais”, Jornal de Notícias.

Nos desportivos, Sporting. As eleições são sábado mas ontem José Maria Ricciardi entrou em campo e não foi por sua iniciativa. Num áudio colocado (e mais tarde retirado) no Youtube, ouve-se o antigo presidente do BES Investimento (que integra a comissão de honra da candidatura de Bruno de Carvalho) dizer que a única solução para a SAD é a entrada de um acionista privado, o que implicaria o Sporting perder maioria do seu capital. Pedro Madeira Rodrigues convocou os jornalistas para dizer que “a máscara caiu, há um projeto em curso para tirar o Sporting dos sócios”. E disse, como se lê n’ O Jogo, que que “Bruno é marioneta de Ricciardi”. Ricciardi disse ao jornal A Bola que a conversa é de “2013, numa altura em que o Sporting estava em vias de falir”, pondo em causa a colocação do áudio de forma manipuladora. Madeira Rodrigues negou que tivesse sido a sua equipa a fazê-lo e ameaça no Record processar Ricciardi por difamação.

Enquanto isso, o FC Porto venceu o Boavista por 1-0, mantendo-se a um ponto do Benfica, com um golo de Soares, que chegou em janeiro e já marcou cinco golos, como nota o Diogo Pombo na Tribuna, que fala do “olhar triste, fechado e desiludido” do miúdo que passou para o banco. Na contra-crónica do jogo, Catarina Pereira imaginou “como seria levar Jaime Pacheco, Petit e Martelinho a irem ver os Mirós a Serralves”.

No Porto, livrarias nascem; em Lisboa, livrarias morrem. A notícia é do Público, onde Nuno Pacheco escreve que “talvez a prazo ressurjam até os antigos vendedores qualificados, que se foram perdendo na mercantilização rápida e impessoal dos nossos dias. Se isso acontecer, o requiem de hoje poderá dar lugar a um verdadeiro renascimento nos próximos anos”.

Vem aí a Facebook TV. Uma aplicação ainda em desenvolvimento para ver publicações e vídeos partilhados entre amigos, celebridades e figuras publicas, incluindo transmissões em direto do “Facebook Live”.

FRASES

“Tu tens os SMS, eu tenho os offshores.” Marques Mendes, que escreve no Negócios que o caso dos offshores é a resposta de Costa aos SMS de Domingues sobre Mário Centeno.

“O que vai animando a economia é o espantoso caso do turismo, que cresceu 10% num ano.” Luciano Amaral, no Correio da Manhã.

“A tendência para o populismo centrista é um desastre para a União Europeia e para a zona euro. (…) A sua sobrevivência depende da ausência de populismo.” Wolfgang Münchau, no Diário de Notícias.

“Não basta, como o bispo de Leiria-Fátima fez recentemente, apelar à “honestidade” dos operadores hoteleiros [que estão a cobrar exorbitâncias na semana da visita de maio do Papa a Fátima]. Em matéria de transparência, deveria ser o Santuário o primeiro a prestar contas publicamente, o que não faz há largos anos.” Inês Cardoso, Jornal de Notícias.

O QUE EU ANDO A LER

Frase feita #1: “A saúde não tem preço”.
Frase feita #2: “A saúde não tem preço mas tem custo”.

Estas frases feitas espelham duas visões sobre uma controvérsia com alguns anos: deve o Estado mostrar a conta do hospital aos pacientes que lá vão, não a conta que os pacientes pagam mas o custo real para o Estado?

Catarina Guerreiro passou um dia no maior hospital do país, o Santa Maria, em Lisboa, e conta tudo o que viu vendo a conta de tudo. A reportagem “A Saúde não tem preço?” foi publicada este sábado na revista E do Expresso, e pode também ser lida aqui. E lá pode ler “quanto custa uma cirurgia? E ficar internado num hospital público? Qual o preço das análises, da uma TAC, de um tratamento de quimioterapia ou de um simples penso?” Mas, além do custo de 1,2 milhões de euros gastos num dia, também pode ler muito dos casos que passaram no Santa Maria, onde circulam 5080 funcionários, naquelas 24 horas em que decorreram 92 operações, foram atendidos 719 doentes na urgência, realizaram-se 3642 consultas externas e efetuaram-se mais de 27 mil análises.

Também dos jornais, outras duas recomendações completamente diferentes: “No inferno do Boko Haram”, uma grande reportagem do El Pais no terror da Nigéria. E, também no Expresso, a grande entrevista que a Carolina Reis fez ao psicanalista António Coimbra de Matos, sob o título “Não é fácil amar, mas é bom. E se não se amar não se vive”.

A parte boa da condição humana: “a capacidade de amar, de criar”. A parte má: “o egoísmo, a vaidade, a sacanice”. Há duas coisas importantes, diz Coimbra de Matos, “a capacidade de nos interessarmos pelo outro, em que o mais importante são as pessoas de quem gosto. E depois há o narcisismo, os outros que se lixem. E todos nós temos um bocado dos dois. Quando somos mais saudáveis, somos melhores pessoas. Predomina a capacidade de a pessoa se interessar pelo outro, ajudar a sociedade, criar um mundo melhor.”

“Desde o fim da II Guerra Mundial, as sociedades deixaram de ser sociedades de culpa e passaram a ser sociedades de sucesso, da performance, do desempenho. E os pais estão muito preocupados com isso, hoje é necessário para ser bom cidadão ter um bom emprego. Ainda sou do tempo em que as depressões eram marcadas pela culpa, hoje é pelo insucesso, por não terem notas para ir para a faculdade.”

Estamos em semana de carnaval e há sete distritos sob aviso laranja devido à agitação marítima. Amanhã o Martim Silva escreve-vos com o noticiário do dia. Até lá – e depois -, encontramo-nos no Expresso. Tenha um dia bom. Sem enganos de dois minutos.

“É estranho que Maria Luís Albuquerque não tenha dito uma palavra” sobre os offshores

Posted: 27 Feb 2017 12:06 PM PST

Mariana Mortágua diz que o PSD está a tentar fugir às suas responsabilidades no caso dos offshores, após ter governado em regime de “perseguição fiscal a quem falhava um pequeno pagamento”.

Em declarações aos jornalistas este domingo, a deputada Mariana Mortágua falou da proposta do PSD para que a publicação obrigatória das transferências para offshores deixe de depender da autorização do Governo.

“Isso são tudo formas de agora não acatar responsabilidades que têm que ser acatadas”, disse a deputada do Bloco à agência Lusa. “O PSD não pode de repente vir dizer que o assunto se resolve tirando a responsabilidade de publicação do governo porque a pergunta mantém-se: porque é que Paulo Núncio não quis a publicação das estatísticas e porque há 10 mil milhões que não foram sequer alvo de fiscalização?”

Mariana Mortágua lembrou que o ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais – e agora dirigente demissionário do CDS, após assumir a responsabilidade política pela ocultação das estatísticas no período em que pelo menos 10 mil milhões de euros passaram ao lado do controlo do fisco – “pertencia ao ministério das Finanças e havia ministros com responsabilidade política. É estranho que Maria Luís Albuquerque não tenha dito uma palavra sobre este caso e esteja a passar entre os pingos da chuva”.

“10 mil milhões foram transferidos para ‘offshores’ sem fiscalização, ao mesmo tempo que havia uma autoridade tributária e um governo que esmifravam os pequenos contribuintes, com perseguição fiscal a quem falhava um pequeno pagamento ou quem vivia do seu trabalho”, recordou Mariana Mortágua.

Paulo Núncio assumiu a “responsabilidade política” pelo caso após o ex-dirigente da Autoridade Tributária, Azevedo Pereira, ter declarado que a opção de não publicação das estatísticas não era sua, pois esse trabalho estava pronto a publicar. Um dia antes, Pedro Passos Coelho viera negar a existência de responsabilidade política neste caso. Para Mariana Mortágua, “o facto de Paulo Núncio se responsabilizar não nos diz por que é que o fez. Porque há um Secretário de Estado que entende que há uma lista de offshores que não pode ser divulgada? Ou que há transferências que não devem ser fiscalizadas?”.

“Esta pergunta tem de ser respondida. Porque é que entendeu que não tinha de cumprir a lei e divulgar as transferências. E é preciso compreender que transferências são estas: pagaram impostos, não pagaram impostos? É para fugir a alguma coisa? Não estamos a acusar, é preciso compreender”, prosseguiu a deputada bloquista, acrescentando que é necessário “garantir que não voltará a acontecer”. Uma das propostas do Bloco em debate parlamentar na especialidade vem alargar o âmbito da publicação das transferências de dinheiro para lugares onde não se paga imposto.

Esquerda.net

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