A Galiza na obra poética de Chrys C por Concha Rousia

in atas do 19º colóquio da lusofonia março 2013:
5. CONCHA ROUSIA, AGLP, GALIZA

CONCHA Rodríguez PÉREZ,
TEMA 3.2. A GALIZA NA OBRA POÉTICA DE CHRYS CHRYSTELLO – CONCHA ROUSIA, ACADEMIA GALEGA DA LÍNGUA PORTUGUESA

Partindo da análise da obra ‘Crónica do Quotidiano Inútil’ tratarei de entender a dimensão que a Galiza, tanto como ser vivo, terra que sofre, quanto como conceito lírico, tem na obra do poeta Chrys Chrystello. A primeira parte estará baseada na análise dos poemas incluídos na obra mencionada, que conformam o capítulo IV (Planeta Galiza) e que são os seguintes:
– Partir (à Concha Rousia e a uma Galiza Lusófona)
– Lendas da minha Galiza
– Concha é nome de guerra
– Elegia à AGLP
– Geneviève, e
– Galiza como Hiroshima mon amour.
Para complementar a minha análise considerarei também informações obtidas diretamente de conversas mantidas com o poeta Chrys Chrystello.

INTRODUÇÃO
Três são os eixos essências que confluem nesta análise, como se fosse uma trindade, três dimensões, a poética, representada pela poesia de Chrys Chrystello, a humana, representada pelo poeta Chrys Chrystello, e a social, representada pela Galiza. Começarei descrevendo, mais do que definindo estes três conceitos. Mas como se define a poesia? Como o poeta? E como a Galiza? Tentarei aproximar com as minhas palavras, como se fossem fotografias conceituais, como se as palavras pintassem, uma ideia sobre quem é o poeta Chrys Chrystello, o que é a poesia e ainda o que é a Galiza.

O POETA
Basear-me-ei nas informações que tenho sobre Chrys Chrystello, juntamente com o conhecimento pessoal que tenho do poeta. Antes de mais devo afirmar que o Chrys não apenas acredita em multiculturalismo, é um exemplo vivo de multiculturalismo, nascido numa família mista com alemão, galego, português, brasileiro, judeu…
O seu multiculturalismo genético cultural vem tanto por parte materna como por parte paterna. Não tenho certeza em que momento da sua história o Chrys se fez consciente desse seu multiculturalismo. Essa será uma pergunta que guardo para fazer ao poeta no próximo encontro; pois fiquei curiosa por saber se o seu multiculturalismo teve algum efeito nas suas escolhas de forma consciente ou se esse multiculturalismo atuou desde as profundas raízes do inconsciente, e só foi depois que o poeta descobriu essa trança de tantos fios e tanta riqueza de ancestrais. Fica esta questão para ser respondida e incorporada a informação derivada para uma ampliação que irei fazer deste trabalho em posterior ocasião.
Chrys foi levado em 1973 pelo Exército Português a prestar serviço em Timor; permaneceu lá por dois anos, em 1975 deixou Timor para ir-se para a Austrália e não demorou em perceber que queria ser australiano. Atrevo-me a dizer que o Chrys encontrou na Austrália a pátria capaz de acolher todas as suas pátrias, as descobertas e as por descobrir, as territoriais e as ideológicas e as poéticas. Pergunto-me se por aquela época o Chrys já tinha descoberto que a Galiza era mais uma de suas pátrias; embora consciente ou não desse facto, a Galiza ia nele como ser vivo, e com ele se movia pelo mundo, pois aonde o Chrys vai, a Galiza vai; isso é algo que desde já posso afirmar. Naquela altura o Chrys já era um estudioso das línguas e da política; sendo também já um autor publicado. Saliento aqui de sua obra poética o primeiro volume da Crónica do Quotidiano Inútil (1972). Publicou também um ensaio político sobre Timor. Mas a sua trajetória passou por muitos e diversos campos. Foi escolhido para um posto executivo como economista na CEM (Companhia de Eletricidade de Macau). Depois escolheu Sydney (e mais tarde Melbourne) para continuar sua vida como cidadão australiano até 1996.
No 1967 entra no mundo do rádio jornalismo, onde lhe esperavam grandes aventuras, e também na televisão e na imprensa.
Entre os anos 1976 e 1996 escreveu sobre o drama que se vivia em Timor Leste quando o mundo se negava a vê-lo. Sempre atento à voz que outros desde o poder escolhem não ouvir, mesmo quando essa voz era um grito, o Chrys não apenas ouvia, ele prestava a sua voz.
Podemos dizer que o escritor Chrys Chrystello desde sempre se interessou pelas línguas; e desde os anos setenta teve que enfrentar os mais de 30 dialetos no Timor-Leste.
Na Austrália aprendeu sobre as marcas de uma tribo aborígene que falava um crioulo do português. Foi membro fundador do AUSIT (the Australian Institute for Translators and Interpreters) e membro do painel da NAATI (National Accreditation Authority) desde o ano 1984, Chrys lecionou estudos de linguística e multiculturalismo. Tem ampla experiência na tradução e interpretação especialista em multitude de áreas desde artísticas até jurídicas ou médicas. Participou em conferências em muitos países nos diversos continentes. Autor de numerosas obras sobre os mais diversos temas, sempre com marcado multiculturalismo, tanto prático como teórico.
A defesa do multiculturalismo é uma das grandes teimas deste autor, e é também uma das suas grandes riquezas.

Com os Colóquios da Lusofonia, de que é Presidente, e se podia poeticamente mesmo dizer que é pai, tem levado as vozes que necessitam ser ouvidas aos lugares mais diversos desde onde se podem ouvir. Entre estas vozes sempre levou a voz da Galiza, conseguindo para ela o que em terra própria lhe era negado. Foi nos Colóquios da Lusofonia que se concebeu e se deu a conhecer o projeto da criação da Academia Galega da Língua Portuguesa; podemos dizer que, portanto, que ele é pai putativo desta novel academia.
Poucos poetas como ele poderão dizer que tem escrito poemas a praticamente todos os cantos da Lusofonia com a intensidade de quem está a escrever sobre a sua própria terra. Dentro dessas terras às que este poeta canta, acha-se naturalmente, a Galiza.
Na sua obra “Crónica do Quotidiano Inútil” com a que comemora 40 anos de vida literária, há um capítulo dedicado inteiramente à Galiza.

Nesse capítulo intitulado ‘Planeta Galiza’ inclui os poemas que se integram neste estudo. (Chrys, página web)

A POESIA
Há pessoas que se dedicam a escrever a história para que fiquem documentados os fatos, os momentos, os acontecimentos que na vida veem, ou que sabem têm tido lugar. A poesia é diferente, a poesia é uma representação, uma fotografia feita com palavras do momento vivido, ou do que se tem alguma forma de conhecimento, de experiência, alguma forma de acesso. A poesia é como um momento congelado no tempo, integrada por componentes intelectuais e componentes emocionais para contar um acontecimento. De fato a epopeia é definida como o conjunto de acontecimentos históricos narrados em verso e que podem não representar os acontecimentos com fidelidade.

Os acontecimentos que se narram na epopeia são de fatos com relevante conceito moral, que transcorreram durante guerras, ou que fazem referência a outros fenómenos históricos ou mesmo míticos. Em todo o caso, desde o meu ponto de vista a verdade poética não se acha na história, mesmo quando trata de ser fiel aos acontecimentos e sim se acha na manifestação artística, se acha em tudo que fica expressado entre as linhas e não necessariamente recolhido nos conceitos que as palavras tratam de representar. O poder da poesia é portanto, o poder da máquina do tempo, faz viajar os fatos, como se os congelasse. Tomando como base uma definição oferecida pela Wikipédia podemos dizer que a poesia é uma das sete artes tradicionais, pela qual a linguagem humana é utilizada com fins estéticos, ou seja que ela retrata algo em que tudo pode acontecer da imaginação do autor e da imaginação do leitor. (Wikipédia 2)

MAS O QUE É A POESIA PARA CHRYS CHRYSTELLO?
Perguntado ele responde: “A poesia é uma fuga para a utopia, contra a injustiça e desigualdade, a voz que os jornais não permitem, um recurso para os momentos felizes, uma fuga quando o mundo exterior me oprime.” Tentarei ver como esta definição teórica se confirma na sua poesia. Mas antes vamos apresentar a poesia.

Poemas no capítulo ‘Planeta Galiza’ (Chrystello, 2012)
PARTIR (à Concha Rousia e a uma Galiza Lusófona)

Partir!
cortar amarras
como se ficar fosse já um naufrágio
ficar
como quem parte nunca
partir
como quem fica nas asas do tempo
ficar
como se viver fosse uma morte adiada
partir!
cortar amarras
cortas grilhetas
vencer ameias
velas ao vento
olhar o mundo
descobrir liberdades
esta a mensagem
levar o desespero ao limiar
até erguer a voz
sem medos
até rasgar as pedras
e o ventre úbere
semear desencanto
sorrir à grande utopia
nascer
– de novo –
dar o salto
transpor a fronteira
entre o ter e o ser
imaginar
como só os loucos sabem
e então chegaste
com primaveras nos dedos
e liberdade por nome
loucas promessas insinuavas
despontaste
como quem acorda horizontes perdidos
demos as mãos
sabor de início do mundo
pendão das palavras por dizer
esta a revolução
minha bandeira por desfraldar.

LENDAS DA MINHA GALIZA

Galiza és tão especial
quando sorris
por que não sorris sempre?

Galiza és tão bela
quando escarneces
com gargalhadas cristalinas
por que não ris sempre?

Galiza és tão enamorada
quando falas e cicias
por que não tagarelas sempre?

no monte das Ánimas
na era dos Templários
os cervos eram livres
e os servos escravos

do poço no meu eido
transbordam palavras
dele sorvo inspiração
amores e mouras encantadas
lá aprendi a história de Ith
filho de Breogán
indo à torre de Hércules
seduzir Eirin a Verde
este conto queda silente
na memória dos velhos
já não o aprendem os nenos

li em livros vetustos
o sumiço das Cassitérides
eram cativos os Ártabros
nas forjas de estanho
não encontrei os mapas
no meu poço seco e definhado
nem um fio de água
sem pardais nas árvores
nem flores no jardim
senti o coração trespassado
as lágrimas minguaram
jamais haveria fadas ou sereias
cronópios e polinópios

fui penar ao cimo do monte
atopei umas meigas
a dançar com o Dianho
também vi o Chupacabras
estandarte de Castela

sem medo de travessuras de Trasgos
nem Marimanta ou Dama de Castro
sem temor da Santa Companha
nem do Nubeiro vagueando
entre tempestades e tormentas
juntei ferraduras, alho e sal
colares de conchas e tesouras abertas
esconjurei meigas castelhanas
que me salve o burro farinheiro
ou o banho santo em Lanzada

visitei Santo Andrés de Teixido
duas vezes de morto
que não visitei uma de vivo
desci a Ribadavia
ali nasce o Minho
que ora passa caladinho
para não despertar os meninos

sigo caminhando
busco a moura fiandeira
um dia virá o eco
e brotará água de meu poço
escreverei os versos e serão mágicos
afincado no chão
erguerei a tua flâmula
no poste mais alto e cantarei
Galiza livre sempre.

CONCHA É NOME DE GUERRA

para ti não há música nem dança
apenas as artes marciais
guerrilheira de montes e vales
urdidora de emboscadas

sob a copa das amplas árvores
brandes teu gládio de palavras suaves
não usas as falas do inimigo
vingas a dor de seres galega

a montanha tu a herdaste sozinha
prenhada de mar na ilha dos nossos
o povo desaparecido da Rousia aldeia
esse recanto insuspeito ao virar da raia
esse recanto insuspeito ao virar da raia
onde fui a férias em 2005 sem te saber
eu que nasci galego do sul
sendo galego de Celanova

apartado de meus irmãos e irmãs
vivi séculos de história ao desbarato
distavam mares que nunca navegávamos
montes que nunca escalámos
estrelas que jamais enxergámos

até um dia em que surgiste
vestias azul e branco orlada a ouro
estandarte do nosso reino
ciciavas liberdades por atingir
sonhos por realizar
brandias a tua utopia
numa mesma lusofonia.

ELEGIA À AGLP

viver numa ilha é prisão
sair dela é impossível
nem a velocidade da chita
nem a força do elefante
nem o mergulho do cachalote

viver numa ilha é prisão
inúteis os passaportes
ou vistos consulares
não basta saber nadar

viver na Galiza é prisão
sair é possível
não expulsa carcereiros
não abate as grades
não liberta do cativeiro

viver nesta ilha é prisão
há sempre uma Concha dos Bosques
ou um Ângelo Merlim
um Joám Pequeno Evans Pim
um frei Tuck Montero Santalha
e seu bando de lusofalantes
manejando o arco como António Gil
a invencível besta da Lusofonia

GENEVIEVE

genevieve era nome de mulher
em restaurante japonês
no meio de chinatown

sorrisos largos e astutos
mansos como o rio minho
olhos profundos amendoados
como o canon do sil
prometia ribeiras sacras
seios amplos acolhedores
como as rias baixas

genoveva da galiza
amazona em sidney
um pai na argentina
uma mãe em paris
com saudades de arousa
servia sushi com saké

minhas loucas bebedeiras em galego.

GALIZA COMO HIROSHIMA MON AMOUR

acordaste
e ouviste o teu hino
estandarte desfraldado
ao vento ao intrépido som
das armas de breogán
amor da terra verde,
da viçosa terra nossa,
à nobre Lusitânia
estendes os braços amigos,
despertas do teu sono
agarras nos irmãos
caminhas pelas estradas
ergues bem alto a voz
dizes a quem te ouve quem és
orgulhosa, vetusta e altiva
indomada criatura
nenhum poder te subjugará
indomada criatura
nenhum poder te subjugará
nenhum exército te conquistará
nenhuma lei te aniquilará

és a Galiza mon amour. (Chrys, 2012)

A Galiza
Todo país, toda terra, toda pátria é indefinível, ou dito de outra forma, toda a terra poderia ser definida de muitas formas, tal qual se fossem acontecimentos lendários; portanto eu vou colocar aqui uma carta em que a Galiza, através das minhas palavras, se apresenta ao Brasil. Esta é a imagem da Galiza que levo em mim, e acho é uma dialoga imagem perfeitamente com a Galiza que vive e viaja na alma deste poeta.

Carta da Galiza ao Brasil
Meu benquerido irmão:

Antes de mais permite-me que me apresente, há tantas cousas erradas que te tem contado de mim, e eu quero, necessito mesmo, que tu me conheças como eu sou. O meu nome é Galiza, ocupo o noroeste da península Ibérica, sou geograficamente, culturalmente e linguisticamente irmã de Portugal, que fica ao meu Sul, do outro lado do rio Minho; uma pequenina parte de mim permaneceu sempre independente de qualquer estado até meados do século XIX, mas hoje sou um território totalmente dominado polo Estado Espanhol… Eu sou uma velha pátria que esqueceu já a sua idade; mas o que nunca vou esquecer, mesmo que ao mundo lhe custe perceber, é que em mim nasceu e se criou a nossa língua; esta que tu e eu falamos e que por vicissitudes da história se conhece internacionalmente apenas como ‘português’, mas que nós aqui também chamamos ‘galego’. Mas deixa-me continuar a te contar…

Permite-me que te fale um bocadinho da minha longa história. Eu sou a velha terra chamada ‘Calaica’ Terra onde, como já te disse, nasceu e se criou esta nossa formosa língua; um dia eu fui grande… Naqueles tempos foram os meus filhos os que emigrados povoaram a Bretanha, o Centro dos Alpes, e as ilhas Britânicas, consolidando durante milénios a laborada cultura Atlântica. Vai ser muito difícil para mim em poucas palavras resumir-te tantos azares, tantas batalhas, tantas façanhas e também tanta dor e tanto sangue derramado.

Muitos foram os povos que quiseram governar-me, pola cobiça do Ouro, pola riqueza mineira que guardava a minha entranha; chegaram legados de Roma ávidos de conquista e saque, para abrir seu domínio, atravessando do Douro as margens, mas antes tiveram que ceifar 50.000 almas indomáveis, que a peito nu combatiam, porque cobrir o peito era para eles ação de cobardes. Do Latim trazido com as suas outras falas, misturou-se através dos séculos nossa céltica linguagem, para que abrolhasse na Idade Media a língua que agora, meu irmão em espírito, embeleces arrolando-a, com o amor e a exuberância das florestas incontornáveis. Essa língua nascida para amar e ser cantada criou uma das maiores culturas da Europa Medieval, polo caminho de Sant’Iago difundida e admirada. Mas tarde, nas lutas dos reinos Ibéricos polo controlo da Hispânia, fui vencida e humilhada polos reis Católicos de Castela e seus ferozes aliados, para pronto, sem dar-me fôlego, à escuridão ser condenada. Atrás ficara o 1º Reino da Europa a liberar-se do Império romano, no século V, polo embate dos aguerridos suevos. Atrás ficaram as lutas entre Afonso Henriques, 1 º rei português, meu filho do Porto Calem, e seu primo Afonso VII, imperador de toda a Gallaecia.

Minhas glórias foram vendidas pola arrogância e a astúcia dos homens, pola traição dos insensatos; meu nome da história foi apagado. Mas o espírito só adormeceu, e centos de anos mais tarde, as vozes de Rosalía, Pondal, Curros Enriquez e muitos outros, alguns mártires em Carral, ergueram de novo esta chama que agora te entrego irmão na confiança, sabendo que farás bom uso dela, e elevarás no continente americano, como na África e Oceânia, onde outros irmãos nos aclamam, a voz lírica deste novo mundo, lusofonia chamado, para que nunca mais a vida nascida das minhas entranhas seja por outros desprezada.

Eis a minha história, irmão Brasil, ainda hoje continuam meus filhos, contra a ignorância lutando, pola dignidade deste recanto que foi berço da cultura que hoje tu com orgulho ao mundo amostras sem arrogância. Continuarão ainda cá tempos difíceis que pronto iremos superando com ajuda dos nossos irmãos que conhecem a nossa palavra, porque a palavra hoje é carne e mora vestida de raças, para os povos unir na nobreza da que foi criada.

Como vês, querido irmão, a minha luta tem sido longa e sem tréguas, tenho de admitir que vou velha e por vezes me sinto cansada… acho alívio em saber que tu herdaste a minha fala e que em ti nunca se apagará a minha chama; não é que eu recuse a luta, mas tenho que ser realista… O destino da nossa língua, língua em que eternamente viajará a minha alma, aqui na pátria mãe, ainda é incerto.

Há algum tempo um grupo de intelectuais e artistas, professores, escritores, e defensores da nossa cultura, criaram a Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP). A ajuda da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia Brasileira de Letras foi notável e imprescindível. A AGLP, a que sinto como a minha filha mais nova, tentará abrir os caminhos que rompam o cerco que nos sitia e nos abafa; do seu êxito depende em grande medida o meu futuro, é por isso que te peço a acolhas com agarimo e a ajudes no que puderes em nome da nossa eterna irmandade.

A nossa língua atravessa uma das suas piores etapas de todos os tempos na terra berço, a terra mãe que com tanto amor a viu nascer, e a seus filhos e filhas de todo o mundo envia hoje a sua voz… Voz que vai na procura de ajuda que tanto necessito, ajuda que restaure a minha dignidade, peço não continuar a ser ignorada. Por isso te falo, querido irmão, por isso te falo…

Recebe de mim a palavra que mais estimes, meu amado irmão Brasil
Assinado: A Galiza (Rousia, Blog República da Rousia)

Mas o que é a Galiza para Chrys Chrystello?
Perguntado o poeta responde:
“A Galiza é uma referência matricial inculcada pelo pai e avó paterna como a origem ancestral no ano de 942. Cellanova foi o ponto de partida onde um homem e uma mulher se juntaram para criar os Barbosa dos quais descendo, assim como dos Meira também galegos.”
Como podemos ver o Chrys, poeta voador, é muito consciente de suas raízes, o que lhe permite voar com a força e sem medos, pois só quem sabe que sua raiz é de profundidade eterna se atreve a voar tão longe, tão alto, tão generoso em sua trajetória, tanto quanto possível

COMO FOI QUE DESCOBRISTE QUE A GALIZA ERA UM SER VIVO QUE TAMBÉM NECESSITAVA SE ALIMENTAR DE TI?
“A Galiza precisa da voz dos que a amam e sofrem com a opressão de estarem sob jugo estrangeiro há 500 anos ++++” Breve conciso e contundente Chrys.

ACHAS QUE É POSSÍVEL UMA GALIZA FORA DA LUSOFONIA?
A Galiza só existe se for lusófona, se fosse castelhanizada não seria Galiza…

E COMO FICARIA A LUSOFONIA SE A GALIZA SE PERDER DE SUA LÍNGUA DEFINITIVAMENTE?
A Lusofonia ficaria órfã da sua mãe, que lhe deu origem e razão de ser e nisto de bater na mãe já bastou o Dom Afonso Henriques primeiro rei de Portugal…

Como vês o futuro da Galiza, da Lusofonia e do Mundo?
Promissor desde que as novas gerações entendam o peso da Lusofonia e a arma que a língua pode ser contra a dominação e o jugo estrangeiro opressor.

COMO ACHAS A POESIA PODE AJUDAR?
A poesia é uma arma carregada de sonhos e o sonho comanda a vida como disse António Gedeão.

POR FAVOR CONTA TUDO QUE TE FALTE POR CONTAR RELATIVAMENTE À IMPORTÂNCIA DA GALIZA NA TUA VIDA, TANTO PESSOAL COMO POÉTICA…
Na juventude/adolescência a Galiza era uma extensão do país para norte e não um acréscimo do país ao lado que era a Espanha… …são galegos os do Minho a Trás-os-Montes com um sotaque diferente, mas a mesma alma…

ANÁLISE DOS POEMAS
Os textos formam um conjunto que definem o planeta que o poeta chama ‘Planeta Galiza’ e dão conta da realidade atual da Galiza, dão também as pinceladas suficientes para termos uma breve história contada de forma épica. A Galiza está em grande dívida com o poeta, pois ele a reconhece ilha, tal qual ela é, mas já a sonha planeta, livre como ela flui nos seus versos, linda e indomesticável; uma pessoa sente desejos de se ficar a viver neste planeta. Vamos agora olhar mais de perto e detalhadamente os poemas.
Os poemas do Chrys são a vivificação do seu mundo conceitual, eles são mostras vivas do que ele acha a poesia é, e que eu resumi baseando-me nas palavras dele como: ‘uma fuga para a utopia quando o mundo exterior me oprime.’ (Comunicação pessoal)
O poema ‘Partir’, primeiro desta série, primeiro do planeta Galiza, parece a Galiza mesma falando de sua urgência por mudar a situação que vive. Neste poema a Galiza parte, corta amarras, porque ficar é já um naufrágio, é um naufrágio desde há demasiado tempo, demasiados séculos. A Galiza parte para ficar nas asas do tempo, para viver, se eternizar… E como se viver como realmente vive fosse adiar só um bocado a morte; a poesia do Chrys corta grilhetas, vence ameias, iça velas ao vento…. Vai sorrir à grande utopia: nascer! A Galiza indo, partindo do lugar onde se abafa: a Galiza nasce! Renasce! – de novo – Eu não sei se o poeta foi consciente disto tudo que ele colocou neste poema, e talvez se poderia adaptar a outras realidades, a outras terras, certamente poderia, mas este poema cai como uma luva para o espírito da Galiza.

O poema ‘Lendas da minha Galiza’ é um canto de amor, épico, no que o poeta salienta aqueles aspetos da Galiza que ele quer ver crescer, como se os semeasse, para ver a Galiza florir, eis a utopia! Quer o poeta que a Galiza seja feliz, se expresse, se conte tal e qual ela é, tal e qual ela foi sonhada desde o começo dos tempos, o poeta clama por uma Galiza que conserve toda a sua história, seu celtismo tão negado pelos historiadores com outros interesses do que a realidade histórica da Galiza. Dá vida a Ith, filho de Breogán, e reclama um povo para vir herdar esta riqueza secular, por não ver isto acontecendo o poeta canta:

senti o coração trespassado
as lágrimas minguaram
jamais haveria fadas ou sereias
cronópios e polinópios

Mas nem toda a dor deste mundo detém o poema ai, nem a Santa Companha detém o poeta que anuncia seu propósito de visitar o Santo André de Teixido, o que, de novo, o rende galego, pois só os galegos têm que fazer esse caminho peregrino quer de mortos, quer de vivos:

visitei Santo Andrés de Teixido
duas vezes de morto
que não visitei uma de vivo

Desce pelo Minho, desde o nascimento, permitindo que o curso vivo da água flua em seu poema, vai na procura da moura, vai na procura do eco que outorgue a seus versos o poder de libertar esta terra que tanto ama.
escreverei os versos e serão mágicos
afincado no chão
erguerei a tua flâmula
no poste mais alto e cantarei
Galiza livre sempre.

O poema ‘Concha é nome de guerra’, o que eu pessoalmente agradeço muito, muito mais do que me caberia dizer aqui, mostra como é dura a escolha de resistir, com seus versos ele tece uma capa para a galega que resiste sem renunciar a nada do que é, sem perder nada da sua essência Nesse poema também se reinvindica a si mesmo quando diz:

eu que nasci galego do sul
sendo galego de Celanova,
apartado de meus irmãos e irmãs,
vivi séculos de história ao desbarato

E coloca o rumo face a lusofonia, uma utopia para a que vale a pena escrever e lutar com a palavra.

No seu poema ‘Elegia à AGLP’, no que verso após verso faz sentir ao leitor como é viver numa ilha, numa ilha que é prisão, viver como se vive agora na Galiza é prisão, e sair mesmo que parece difícil é possível com a tripulação da AGLP a que o poeta coloca dentro da sua elegia. De novo a utopia se faz possível, o poema começa com um reconhecimento da realidade, dura, difícil, situação de isolamento, mas que ele no poema já semeia com força a profecia, o desejo de a ver avançando.

O último poema deste capítulo intitula-se ‘Galiza como Hiroshima mon amour’, com a força de um hino os versos vão narrando as bondades, as belezas, as grandezas da Galiza que devem ser preservadas, defendidas, amadas, protegidas e encaminhadas à nobre Lusitânia com a força de quem desperta de um longo sono para ir com os irmãos, erguendo a voz. A voz do poema vai crescendo para no final, nesse último verso poeta, poesia e Galiza se deixem sentir como uma só voz.

indomada criatura
nenhum poder te subjugará
nenhum exército te conquistará
nenhuma lei te aniquilará

és a Galiza mon amour.

Referências Bibliográficas
Chrystello, C. (2012) Crónica do Quotidiano Inútil. Vila Nova de Gaia. Calendário Editora.
Chrystello, C. (Página web) http://oz2.com.sapo.pt
Rousia, C. (Blog Républica da Rousia) http://republicadarousia.blogspot.com.es
Wikipédia http://pt.wikipedia.org/wiki/Poesia