ex-Presidente Mujica do Uruguai tem raízes açorianas

O presidente mais generoso do mundo tem origens açorianas

Leia no jornal Mundo Açoriano de 25 de janeiro 2013
Guerrilheiro/revolucionário nos anos 70 e 80, preso e torturado durante 14 anos, hoje presidente do mais pequeno país da América do Sul de língua espanhola, 3,300.000 habitantes, encrostado nos dois maiores, Brasil e Argentina. Com algumas costelas açorianas e cicatrizes de balas e tortura, na luta pelo fim da ditadura no Uruguai, José Mujica, foi considerado pelos meios de comunicação como o presidente mais pobre do mundo. Parece, no entanto, muito mais apropriado considerá-lo o mais carismático, dado as circunstâncias económico-financeiras em que se vive hoje em dia.
O Uruguai tem profundos laços históricos com Portugal, desde o primeiro povoamento europeu naquele país, fundado pelos portugueses em 1680, e a própria independência, bastante mais tarde, disputada, no primeiro quartel do século XIX, entre Espanha, Portugal, Brasil e Argentina.

Mujica foi ministro da agricultura, após a libertação do Uruguai das garras da ditadura militar, em 1985, influenciado pela onda democrática que avassalou a América Latina, nos fins do século passado. Pequeno latifundiário dos subúrbios de Montevidéu, foi um dos membros do grupo principal da oposição, os Tupamaros. Ainda hoje traz no corpo as cicatrizes dos maus tratos, a que se refere frequentemente, mas sem rancor nem ódio, ou sede de vingança. E diz num misto de humor profético: “Até me chamam o presidente mais pobre do mundo, mas eu não me sinto pobre, pobres são as pessoas que levam um estilo de vida dispendioso e aspiram sempre a mais e mais”.

O presidente Mujica é, sem dúvida, o político menos dispendioso do país e talvez do mundo. A sua guarda pessoal são dois polícias e três cães. Não usa os carros luxuosos dos chefes de estado ou dos ministros, não tem chofer pessoal, conduz o seu Volkswagen carocha, um modelo de 1987. Oferece às causas sociais 90% do seu salário, ficando apenas com o equivalente ao salário mínimo do mais pobre uruguaio!

Eleito presidente em 2009, depois de uma vida de guerrilheiro perseguido e encarcerado, recusa viver no palácio presidencial de Montevidéu, herança desonrada dos antigos ditadores. Continua a viver como antes: quando não pernoitava na prisão, juntava-se à esposa na modesta residência da sua propriedade rural, nos subúrbios da capital. Em contraste impressionante com o aparato de todas as chefias governamentais da política mundial rodeadas de luxo e pompa, proteção e protocolo, etiquetas supérfluas e cerimónias dispendiosas.

Nada que se pareça com a opulência da Casa Branca, em Washington D.C, da requintada residência 10 Downing Street, em Londres, nem mesmo do Palácio Miraflores, em Caracas, nem da imponência do Kremlin ou da magnificência do Vaticano, para nem sequer falar do palácio de Belém, em Lisboa, e do de Santana, em Ponta Delgada.

Vive realmente na liberdade da simplicidade e humildade que quase ninguém nota e muito menos tem a coragem de imitar. Nem assim foi possível contentar toda a população do Uruguai. Imensamente popular, quase divinizado, José Mujica, depois de não ter vetado a lei do aborto, uma das primeiras na tradicional América Latina, e autorizado o uso de marijuana, ambas votadas e aprovadas pela legislatura nacional, desceu, sem dó nem piedade, no barómetro da aprovação popular.

E sem ingenuidade ou ignorância das mazelas do mundo real da violência, do fanatismo e das ambições, o modelo Mujica não será facilmente aplicável, mas lá que é digno de um momento de reflexão, creio que sim. Perante a crise mundial que, de muitas e diferentes maneiras avassala o nosso planeta, o seu testemunho de vida não pode cair na irrelevância de mera extravagância, sobretudo para as personalidades políticas e religiosas, responsáveis principais pela justiça e moralidade do nosso habitat humano.

As eleições americanas, talvez o expoente máximo da ambição de poder e desperdício de recursos materiais, foram as mais dispendiosas de sempre nos EUA e provavelmente na história da humanidade, cerca de seis biliões de dólares pelo espetáculo da luta política entre os dois candidatos principais! Na Europa, nas costas do povo, a burocracia dos cargos políticos de numerosos ministérios e presidências, assembleias e secretarias recheadas de benesses e carros de luxo, são autêntica afronta à precariedade dos salários mínimos e do desemprego avassalador.

No meio deste contraste de opulência e desprendimento entre o presidente do Uruguai e o resto do mundo, é escandaloso os seis biliões de dólares da campanha eleitoral americana, como é inadmissível a insensibilidade do presidente de Portugal, queixando-se de que a sua reforma não é o suficiente, e as do “custe o que custar” do primeiro ministro na sua profissão de fidelidade à troika e, naturalmente, as da chanceler alemã anunciando mais cinco anos de carestia.

Parece cada vez mais difícil compreender os meandros da política e aceitar as linhas com que é urdida, mesmo em democracia!

(Título original: O presidente mais carismático do mundo; foto de veja.abril.com.br).
CAETANO VALADÃO SERPA
Universidade de Massachusetts
Natural das Flores, residente em Boston

http://www.mundoacoriano.com/index.php?mode=noticias&action=show&id=432

From: “‘Maria Eduarda’ [dialogos_lusofonos]”
To: dialogos_lusofonos
Sent: Monday, August 31, 2015 1:11 AM
Subject: RES: [dialogos_lusofonos] Centenas de milhares de uruguaios têm português como língua materna
Numa viagem que fiz aos Açores, no início do anos 2000, conheci um casal uruguaio. Estava à cata de suas raízes açorianas!
Eduarda Fagundes

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chrys chrystello

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção e da comissão executiva da AICL