Baleação na Ilha de São Miguel

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Ti Manuel «Favica»: «Tudo o que havia levaram. Só ficou essa chaminé»No lugar dos Poços, na freguesia das Capelas, Ilha de São Miguel, onde dantes se caçou a baleia e se a trabalhou na fábrica em frente ao mar, há hoje um bar de karaoke, uma piscina natural com balneários e estacionamento mas pouco ou nada resta da memória baleeira. «Levaram tudo», conta o ex-operário da fábrica Ti Manuel «Favica».

Na zona dos Poços, freguesia das Capelas, em São Miguel, onde dantes se caçaram as baleias e onde eram arrastadas para terra e esquartejadas numa fábrica bem em frente ao mar e às pedras negras, pouco resta da memória desses tempos. Manuel Travassos, conhecido como Ti Manuel «Favica», 87 anos, vive ali por perto numa casa pequena e humilde e costuma sentar-se no moderno e atractivo Bar dos Poços, um bar onde os jovens vão à procura de karaoke, música e animação. «O meu avô acho que também andou na pesca à baleia», diz um jovem, «mas não tenho a certeza». Dizem-me para procurar então o Ti Manuel, que vive ali por perto. Nunca caçou mas trabalhou muitos anos na fábrica baleeira. Da fábrica, em frente ao que é agora um moderna piscina natural, só resta praticamente a chaminé. «Quando fechou, desmantelaram tudo», conta pausadamente o Ti Manuel, um dos últimos sobreviventes. «Do meu tempo, já morreu quase tudo».

 

O Ti Manuel trabalhou, em turnos de quatro horas, uma «mão cheia de anos» na fábrica baleeira. «Acartavamos o toucinho em cestos e os ossos com a palanca. Nesse tempo havia muita baleia», conta Manuel, que começou ali com 26 anos. O trabalho, no entanto, era duro e mal pago. «Já se sabe, não é, para acartar a baleia, um homem chegava ao fim das quatro horas do turno sem se poder mexer e não dava para comer. Pagavam um escudo e 20 à hora».

Para se poder sustentar, Ti Manuel foi cavar vinha e pescar. Conheceu sempre muitos baleeiros. «Havia baleia que era o fim do mundo, nunca pesquei mas conheci muitos baleeiros de Santo António e das Capelas».

Hoje, olha para o largo e para a rampa dos Poços e para a piscina natural e pouco mais vê que fantasmas: «Arrasaram tudo, só ficou ali a chaminé. Ainda criaram bezerras aí dentro dos terrenos, já houve um canavial mas o que restava foi levado daqui, arpões, lanças, tudo».

No centro da freguesia das Capelas, junto ao edifício da Junta de Freguesia, um monumento imortaliza a caça à baleia naquela zona da costa norte da ilha de São Miguel e no restaurante «Emigrante», mais à frente, podem ver-se fotos a preto e branco da pesca à baleia na zona. Mas a memória baleeira nos Poços desapareceu com excepção de um guincho enferrujado onde ainda se lê Liverpool com dificuldade e daquela chaminé, erguida inutilmente ao céu dos Poços.

«Levaram tudo, o Banco [Banco Comercial dos Açores/ BANIF] é o dono do terreno», repete devagar o Ti Manuel, «ninguém diz o que isto foi». – Por Nuno Ferreira

Foto Ana Oliveira – terça-feira, 27 de Março de 2012 In http://www.cafeportugal.pt/pages/dossier_artigo.aspx?id=4658

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chrys chrystello

Chrys Chrystello presidente da direção e da comissão executiva da AICL