Curiosidades sobre a linguagem das Ilhas J.m. Soares de Barcelos

Curiosidades sobre a linguagem das Ilhas

Nas Flores chama-se “cana-vial” a uma variedade de cana, cientificamente denominada Arundo donax, muito comum nos Açores, assim como em todo o lado, diferente da cana-da-índia, que é mais resistente e própria para fazer os caniços de pesca. Contudo, quando não havia esta última, os miúdos aproveitavam uma cana-vial e aparelhavam um caniço para a pesca do peixe miúdo. Era também com estas canas que os rapazes fabricavam as lanchas ou botes de cana, armações feitas com duas canas amarradas nas pontas e separadas no meio por um troço mais grosso, também de cana, indo a correr dois miúdos, um atrás, outro à frente, a imitar os gasolinas, ou seja, as lanchas a motor, geralmente fazendo com a boca um ruído semelhante ao daquelas lanchas.
Eu disse, de propósito, “caniços” e não “canas de pesca”, pois antigamente nunca se ouvia este último nome — caniços eram todas as canas de pesca, ao contrário do Algarve, em que ‘caniço’ é apenas uma cana de pesca pequena.

Toda a gente conhece, decerto, a expressão “às cavalitas”. Isso mesmo: é levar, por exemplo, um miúdo às costas, escanchado no nosso pescoço.
Pois, esta locução adverbial é dita de muitas outras formas, consoante os lugares do país.
Comecemos pelos Açores: em S. Miguel, com o mesmo sentido, ouve-se dizer “às cabeleirotas” ou “às cavalheirotas”; no Faial, tanto se ouve dizer “às cancharrolas” como “às canchas”, “levar às cancharrolas”, “levar às canchas”. Em S. Jorge diz-se “às carrancholas” e no Faial e no Pico diz-se “ir às escancharrolas”.
Na Madeira, a nossa confreira Maria Florentina Silva Santos recolheu, na Ponta do Sol, com o mesmo significado, a expressão “às carralhotas”, ouvindo-se também a forma “às carlotas”. Nesta Ilha também ouvi dizer “às cavalhotas”.
Por cá, na região da Gândara ouve-se uma expressão um pouco diferente, segundo me informou o Prof. Idalécio Cação: “aos cavaleirozes”.
Os Alentejanos dizem “às cambalaritas”.
Mas a região onde se ouvem mais expressões com o mesmo sentido é decerto o Algarve. Os Algarvios, consoante o lugar, tanto dizem “às cavalaritas”, “às cavalharitas”, “às cavaletas” e (em Odeleite) “às cavalhitas”, esta última não sendo mais do que a palatalização do [l] da expressão do português padrão.
Pois é assim, os nossos falares populares são riquíssimos e, apesar da dita Globalização, mantêm-se por todo o país os regionalismos, graças ao nosso poder de conservação das coisas. Ainda bem que isso acontece…

→ continua…

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