Sócrates, uma crónica

Yesterday at 15:09 · Edited ·

Apenas uma declaração, sem visar ninguém pelas suas opiniões ou costumes.

Declaração

“Declaro que nasci ignorante (como no fado) e até agora não tive o privilégio ou milagre de uma revelação divina. Habituei-me somente, e quando posso, a informar-me em fontes credíveis e a reportar-me a factos que tenham um encadeamento lógico dos quais se possam fazer deduções ou induções racionais, verificadas e alvo de contraditório. Para mim, Felícia Cabrita, que ainda há pouco conseguiu inventar um processo em que meteu na prisão um pobre diabo, ávido de uns minutos de fama na televisão, acusando-se de ser o estripador, não serve de juíza e não demonstrou ainda nada, nem outros que têm acompanhado o espetáculo. O que sei disto tudo, é que o senhor José Sousa está a ser alvo de um processo, em que é indiciado, em abstrato, de crimes de peculato, branqueamento de capitais, corrupção etc. De facto, não sei, nem quais os factos, montantes, em que data, se era primeiro-ministro ou não … Mas parece que metade do país já teve acesso ao segredo de justiça. Eu ainda não, e também não vou lá à procura, até pelo facto de ninguém me dar importância nessas inquisições. A outros dão, e não me parece que sejam bom, nem para Sócrates, nem Ricardo Salgado e famíla, nem para as famílias do BPN e vistos gold, nem para quem fez negócios de submarinos, nem para quem teve empresas manhosas e se esqueceu delas, nem para quem teve lucros exorbitantes de ações vendidas e compradas aos amigos, … nem ninguém.

Declaro que também não sou inocente, nem santo, e até fumo, às vezes chego atrasado, tenho lido coisas imorais e também fiz asneiras por vezes, o que pode não corresponder aos padrões éticos dos recentes justiceiros e cristãos-novos, impolutos e que nunca votaram em Sócrates, ou talvez sim, embora se sintam frequentemente enganados, como já se sentiram enganados por outros, porque a culpa de não se informarem nem participarem é sempre dos outros, “dos políticos”, o que mais que um hábito parece uma profissão ou um destino profético. A mim Sócrates nunca me enganou, não votei nele, fiz greves, em que perdi tempo e dinheiro, participei em manifestações contra o governo dele e nem tive o prazer ou desprazer de o conhecer pessoalmente.

Declaro também que não sou católico de missas e procissões, embora tenha sido bom aluno na catequese antes da adolescência, e ainda assisti a missas em latim, com sermões a orar pelos nossos governantes e combatentes, nem procuro andar a perdoar ou a oferecer a face esquerda para me baterem mais. Também não tenho obsessão pelos pecados, nem pelo original (ver primeira declaração supra, em que digo que nasci ignorante). Por isso não falo em perdoar nem esquecer.
Declaro ainda que não sou um defensor absoluto da sacrossanta propriedade privada, sem função social e adquirida de qualquer maneira, principalmente a que os grandes meios financeiros têm obtido nos últimos tempos. Mas também não admito que, como certas pessoas defensoras dessa mesma propriedade noutros casos, partam do princípio que alguém que detém alguma riqueza, a tenha obtido forçosa e recentemente por roubo a todos os que têm menos.

Se o juiz é de Mação é lá com ele, que se sinta satisfeito, como outros no Alentejo, no Algarve, Madeira, ou no Minho (Timor já não conta). Ainda não tive evidências (no sentido americano em moda) que os de Mação sejam melhores que os outros, que tenham mais ou menos espinhas, ou que os da província (eu também sou da província, com muito gosto, agora então com o cante alentejano, mas sem nenhum orgulho de me encher o ego). Isso pouco quer dizer, mas vale a pena lembrar aos que creem, que também Salazar era beirão e até comia e bebia do que lhe vinha lá das hortas dos camponeses submissos ao Sr. Doutor Salvador da Pátria (suponho que a manta e as botas eram de outra terras, também provincianas) e deixou este país ao fim de décadas de moral e proveito para alguns, eternos donos deste país, deixou, repito, este país na miséria, na emigração, no analfabetismo, com os piores índices da Europa Ocidental. Mas para quem não tenha reparado, o juiz é de instrução, para garantir a justiça e os direitos, quem acusa é o Ministério Público e o julgamento ainda não começou.

Declaro também que em democracia, “o pior dos regimes exceto os outros”, não há instituições nem pessoas sagradas. Tenho que acreditar na Justiça, embora esta também possa ser indagada, porque vivemos num estado em que não há instituições teocráticas. Há que ser claro e há que condenar todas as fugas de informação que, por serem parciais e privilegiarem apenas alguns, em prejuízo de outros, contaminam os processos, além de serem procedimentos cobardes e corruptos. Quero Justiça e não investigações inconclusivas por vaidades de uns e incompetência de outros, perda de provas, prescrições, como já aconteceu tanta vez.

E assim também declaro que distingo Política de Justiça e que distingo Poder Executivo de Poder Judicial e que nenhum deles se deve sobrepor, como aconselhava Montesquieu. E já agora também tenho ideia do que é Opinião Pública, que se presume informada e interveniente num Estado de Direito e numa Democracia, e Povo, constituído por cidadãos ativos. E de cidadãos, que não sejam considerados suspeitos e condenados à partida, porque regimes de suspeição já tivémos demasiados e demasiados séculos em Portugal.

Declaro ainda que quero Justiça e não um processo sumário do Santo Ofício remodelado, ad hoc e ad hominem, nas ruas, sem que esse “Juiz Coletivo”, pretensamente popular e disposto a sacrificar de imediato o “bode expiatório” em que se revê, se responsabilize por qualquer aplicação da Lei.”

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