ARQUITETA PREMIADA GOSTA DE CASAS VELHAS ..EU TAMBÉM

A arquiteta que gosta de casas velhas

SÉRGIO C. ANDRADE

07/10/2014 – 08:15

Joana Gonçalves, nascida em Bragança, foi distinguida com o Prémio Ibérico de Investigação da Arquitetura Tradicional, que esta terça-feira lhe é entregue em Lisboa. Foi o reconhecimento para a sua investigação sobre as antigas quintas da região transmontana, que vê como modelo para uma arquitectura contemporânea mais sustentável.
Varanda da Quinta de Britelo
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Arquitetura
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Um meticuloso trabalho de levantamento do anel de velhas quintas que circundam a cidade de Bragança, com casas multi-seculares maioritariamente construídas em xisto, um tipo de arquitectura muito dispersa pela região e até agora pouco estudada, valeu à arquiteta Joana Gonçalves, nascida nesta cidade há 24 anos, a 2ª edição do Prémio Ibérico de Investigação da Arquitetura Tradicional, no valor de três mil euros, que esta terça-feira lhe será entregue em cerimónia a realizar, às 18h, na sede da Ordem dos Arquitectos (AO), em Lisboa.

“A consistência e excelência” do trabalho, intitulado Tradição em Continuidade: Levantamento das quintas da Terra Fria transmontana e contributos para a sustentabilidade, foram as razões invocadas para a decisão do júri do concurso que foi promovido pela OA em parceria com as fundações espanholas Convento da Orada, Antonio Font de Bedoya e Colegio Oficial de Arquitectos de Léon.

De um número inicial de 36 candidaturas, o júri apurou oito finalistas, e atribuiu ainda duas menções honrosas: a Cristiana de Macedo Lamas, pela tese Consolidação e reforço de estruturas de alvenaria e de madeira. Técnicas de intervenção integradas na reabilitação arquitectónica do edificado antigo português; e aMarta Colón Alonso, por Transformaciones históricas en el Convento de San Francisco de Betanzos.

“Ainda estou a tentar perceber por que é que me deram este prémio”, perguntava-se Joana Gonçalves quando, na semana passada, falou do seu trabalho ao PÚBLICO numa sala do atelier de engenharia no Porto onde actualmente faz o estágio de entrada na OA.

“O que acho que será mais original, aqui, é a minha tentativa de fazer um estudo sociológico sobre como se morava ali, as tipologias das casas, a relação com o território, mas trazendo também para este trabalho a engenharia e fazendo parcerias com outras áreas de saber”, alinhava a autora em jeito de explicação, fazendo também notar que “há muitos trabalhos feitos na área da arquitectura tradicional, mas não neste sentido”. Recorda, a propósito, os levantamentos feitos, em meados do século passado, pelo geógrafo Orlando Ribeiro e pelas equipas do Inquérito à Arquitetura Popular Portuguesa, que visaram mais os povoamentos concentrados, mas que – nota – foram também “fontes fundamentais” para o seu estudo.

O facto de ter nascido e vivido em Bragança facilitou a Joana Gonçalves – que se licenciou em Arquitetura na Universidade do Minho, em Guimarães – o conhecimento e o contacto com o objeto da sua dissertação final de mestrado.

Esta tipologia construtiva – as quintas de que Joana Gonçalves fala incluem a casa propriamente dita, mas também o quintal em volta, aquilo a que chama “unidades produtivas de escala doméstica”, e que são diferentes, por exemplo, das quintas senhoriais do Douro, marcadas pela mono-cultura – esteve muito concentrada ao redor dos principais centros urbanos da região transmontana, como Vinhais, Vimioso e Miranda do Douro. Mas Joana Gonçalves, até por razões de “pragmatismo”, focou a sua atenção em Bragança. Da centena de casas que sabe terem existido na região num raio de apenas cinco quilómetros, começou por fazer “um mapeamento de 60, com visitas e fotografias”, passou depois para um estudo mais aprofundado de 15, e realizou a monitorização – com sensores de temperatura e de humidade – de “nove casos de estudo” para perceber o comportamento dos edifícios; e realizou várias entrevistas.

A primeira realidade que constatou – e que lamenta – é que muitas das casas “desapareceram por completo: são agora silvas e entulho, que voltaram à terra”, diz.

Mas as que ficaram, e são poucas as que continuam habitadas, resultaram de “um apuramento de séculos” – a arquiteta diz que as raízes de algumas delas remontam mesmo ao século XII, tendo a maioria sido fundadas a partir do século XV.

São construções maioritariamente em xisto, mas que, mais importante do que o material de que são feitas, surpreendem pelas soluções construtivas. “Os habitantes usavam a pedra que tinham no local, o barro, e as telhas eram também feitas in-situ. Não havia tanta dependência do exterior, eles conseguiam fazer com o que tinham à mão”, nota a investigadora.

Neste processo de construção e ampliação continuada através dos tempos, de acordo com as necessidades que iam surgindo, aquilo que Joana Gonçalves mais destaca é a capacidade que as pessoas tinham de encontrar as melhores soluções para responder às questões da temperatura e da humidade. “Quando temos paredes, seja em pedra, seja em xisto, na ordem dos 80 centímetros, há uma grande inércia, e a temperatura no exterior vai demorar a sentir-se no interior”. Uma realidade que a arquiteta confirmou com a monitorização da temperatura tanto no Verão como no Inverno, e que confirmou a reduzida variação térmica dentro das casas.

— http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/a-arquitecta-que-gosta-de-casas-velhas-1671941#/0

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