ADRIANO MOREIRA E A EURÁFRICA

IN DIÁLOGOS LUSÓFONOS

Considero obrigatória a leitura do texto do prof Adriano Moreira. Uma aula sobre as relações entre Portugal e África , e o legado dos povos. Adriano Moreira lembra-nos a” Euráfrica, que em todas as épocas, com formas e semânticas variáveis, por vezes invocando a necessidade de destruir Cartago, outras de multiplicar a relação no domínio, finalmente assumindo que a relação mútua, consentida e racionalizada, seria o caminho mais correspondente à igual dignidade e interesses dos povos. Foi esse o projeto dos que, quando do fim da guerra de 1939-1945, pensaram ser evidente que era a cooperação o caminho, e tentaram que a Euráfrica fosse uma ideia força da recuperação, designadamente mediterrânica.” A Euroáfrica e a CPLP são forças a recuperar.

A Euráfrica

ADRIANO MOREIRA

por ADRIANO MOREIRAHoje
As preocupações explícitas de intervenções governamentais europeias, que acumulam as oportunidades de se ocupar do passado em termos de suavizarem as perplexidades com que visivelmente se defrontam para assumir o seu já longo presente, repetem o modelo, tantas vezes repetido, quando é evidente que a bússola não funciona.
Seguindo um livro de qualidade, devido a Douglas Smith, e traduzido em português com o título Gente do Passado, a experiência que relata diz respeito à evolução da Rússia para o sovietismo, e cita uma passagem de um jornal da época (1922), segundo o qual “já não existe nobreza russa. Já não existe aristocracia russa… Um historiador futuro descreverá, com pormenores precisos, como morreu esta classe”.
Nesta crise ocidental, que participamos, o conceito de gente do passado é mais de definição orçamental, para enfrentar o fenómeno da “geração grisalha”, gente do passado cujos impostos contribuíram para custearem a perfeição gestora atual, sem riscos de tributação retroativa.
Todavia, no legado dessa gente do passado, além do embaraçante direito constitucional em vigor, existem projetos que previram a urgência de responder à mudança do mundo, e da ordem que o século XX definitivamente destruiu.
E pelo que toca à Europa, lembra-se a questão da Euráfrica, em todas as épocas, com formas e semânticas variáveis, por vezes invocando a necessidade de destruir Cartago, outras de multiplicar a relação no domínio, finalmente assumindo que a relação mútua, consentida e racionalizada, seria o caminho mais correspondente à igual dignidade e interesses dos povos. Foi esse o projeto dos que, quando do fim da guerra de 1939-1945, pensaram ser evidente que era a cooperação o caminho, e tentaram que a Euráfrica fosse uma ideia força da recuperação, designadamente mediterrânica.
Não vale a pena lamentar que a CCTA (Comissão de Cooperação Técnica com África), juntando, com tal propósito, os países da frente marítima atlântica, tenha morrido sem certidão de óbito conhecida, mas é necessário não esquecer que apenas os países de língua portuguesa conseguiram, muito por decisão do Brasil, criar a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), numa época já difícil, o que o ilustre atual secretário executivo da Organização, Murade Issac Murargy, resumira recentemente (Globo, junho-setembro, 2013) com estas palavras: “Na altura da criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, há 17 anos, Angola estava em guerra, o Brasil tinha os seus problemas económicos e financeiros internos, Cabo Verde, que era estável, fazia parte dos países menos avançados, a Guiné-Bissau tinha o problema que tem, Moçambique tinha acabado de sair de uma guerra, e Portugal tinha entrado recentemente para a União Europeia.”
Neste quadro, nenhuma antiga metrópole, além de Portugal, viu concretizar o projeto. Por isso mesmo, isto é, pela viabilidade demonstrada, por ser um projeto com conceito estratégico definido e a consolidar, não é possível deixar de lidar com sentido de Estado com todos os problemas dessa comunidade, um sentido exigível a todos os órgãos estaduais, que não farão obra de futuro se não mobilizarem com confiança povos, gentes, elites, que possuem memória do passado, e que dão exemplo de cultivar as emergências anunciadoras de futuro, transformando em sabedoria os erros sofridos. Incidentes que firam o projeto e o seu trajeto, atingem o interesse comum, mas sobretudo agravam as dificuldades com que Portugal procura melhorar a circunstância externa e interna em que se encontra.
A diplomacia portuguesa não tem necessidade de ensinamentos para que, em relação a Angola, a tensão criada, com reflexo na opinião pública e seus órgãos, seja objeto de uma rápida política de contenção dos danos. Mas não dispensa que a decisão estratégica governamental não perca tempo.
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Publicado por

chrys chrystello

Chrys Chrystello presidente da direção e da comissão executiva da AICL