Estranhos por Arnaldo Viana

in diálogos lusófonos

Estranhos

Arnaldo Viana – [email protected]

Publicação: caderno CULTURA do jornal ESTADO DE MINAS de 28/09/2013

Recentemente, o Cine Humberto Mauro reprisou o melhor da filmografia de Alfred Hitchcock. Embora não sugira terror, Os pássaros, ficção produzida em 1953, pelo menos fomenta preocupação, exige debates. Para eternizar a obra, o aplaudido cineasta não abriu o motivo pelo qual os penosos declararam guerra aos moradores e visitantes da sossegada Bodega Bay, balneário californiano. O conteúdo da fita todos os bons cinéfilos conhecem, e hão de concordar: os mais agressivos são os corvos, de plumagem negra como os black blocs de bandeira anticapitalista, criados na Europa e que hoje campeiam por estas terras. Hitchcock conseguiu o objetivo de tornar as aves revoltadas de Bodega Bay motivo de reflexão sobre o papel ruim que o homem desempenha na relação com o meio ambiente.

Já em Revolução dos bichos, livro do libertário George Orwell, escritor indiano criado na Inglaterra, o conteúdo não tem nada de ecologia. O tema é puramente político e são atual que parte dele esteve nas boca e nas faixas dos manifestantes que, em junho, tomaram as ruas das principais cidades do país. É contra minorias que comandam o destino de maiorias com ações que vão além da ética e da lei. Os bichos em questão são animais de uma pequena fazenda que se rebelam contra a tirania dos donos. Parece simples assim, mas não é. Quando assumiram a direção da granja, tornaram-se tão cruéis quanto seus antecessores. Uma má lição retirada da cartilha de imperfeições humanas.

A revisão dessas duas obras é oportuna porque os bichos começam a realmente incomodar o homem. Os paulistanos abriram guerra ao sabiá-laranjeira, aquele que a ciência chama de Turdus rufiventris. O pássaro não está deixando moradores da grande cidade dormirem. Com seu canto, deu para substituir, ainda de madrugada, o abençoado som das descargas abertas das possantes motocicletas, o agradável ruído das frenagens dos veículos desgovernados. E, dia adentro, não deixa ninguém ouvir direito o saudável barulho dos marteletes, dos bate-estacas, as buzinas, os tiroteios, as pragas que os motoristas verbalizam uns contra os outros na agonia do trânsito. É entre o fim do inverno e o início da primavera que o sabiá canta para marcar território, chamar a fêmea para o acasalamento e ensinar a melodia aos filhotes. E não deixa de ser um estranho à cultura da metrópole.

Em Belo Horizonte, famílias evitam passeios e piqueniques no Parque das Mangabeiras. O tal do quati tomou conta das trilhas e fica à espreita dos incautos para lhes roubar a comida. Se não acham o que comer, não se vexam de invadir quintais de casas vizinhas à reserva verde para fuçar-lhes o lixo. Quem batizou os danadinhos que agem como os Gremlins, do filme de 1984, produzido por Steven Spielberg, foram os índios tupis. Acharam-no narigudo – quati significa nariz alongado, ou coisa assim. Há quem não se incomode se os quatizinhos forem convidados ao extermínio.

Na outra ponta da cidade, o incômodo vem das capivaras, roedores supostamente incontestáveis que proliferam em velocidade. Supostamente porque renomado cidadão, representante de área de responsabilidade ambiental da prefeitura, disse que a Hydrochoerus hydrochaeris, além de destruir os jardins de um dos patrimônios culturais da cidade, está comendo os peixes da lagoa. Então, os tupis mentiram sobre as preferências gastronômicas da capivara, palavra que tem algo a ver com comedor de capim.

Afinal, o que esses bichos acham que são? Sabiá, capivara, quati, bem-ti-vi, alma-de-gato, pomba-trocal, rolinha, canário, mico, pica-pau, assanhaço, maritaca. Por que vieram causar estranhamento ao homem no seu paraíso urbano? Vieram atacar, como no roteiro de Hitchcock? Ou fazer uma inversão tirânica como no texto de Orwell? E algum passarinho deve acreditar que o ser humano vai trocar os acordes de um trinado pela criativa batida do funk, a 250 decibéis, que passa sob janelas expelida pelas possantes cornetas instaladas em porta-malas e carrocerias de caminhonetes? Vá para casa, bichinho. Deixe o homem em paz na sua inconsciência.

 
***“Quando perdemos o direito de ser diferentes, perdemos o privilégio de ser livres.”/Charles Evans Hughes

 

Please follow and like us:
error