POESIA

Nas pontas estão o Torga e o Nemésio. E Os outros?

Além do Torga e do Nemésio nas pontas, estão, da esquerda para a direita, um que eu não sei quem é, depois o Afonso Duarte e depois o Quintela.

Abraços.
Eduino (de Jesus)
TORGA59_n

nas pontas estão o Torga e o Nemésio. E Os outros?

“PENITÊNCIA”Este viver de líricas fragrânciasfaz-me corar,lá, onde a minha alma é toda-a-gente

como Deus manda.

Nas pálpebras a lágrima – o aljôfar,

como se diz no bem falar romântico;

dentro, a secura nua e crua dos desertos

onde não há sombra nem pão.

Ponho a minha casaca de cometas,

a ígnea farda de falar às musas,

e olho os esfarrapados

com literária piedade e o coração calado.

Caridade, perdão; Rainhas Santas

de palavras a passar na procissão das frases

e, se me tocam na pele,

fecho-me rápido como os dedos no cabo de um punhal.

Assim, estar assim, dói!

(neste doer de pôr em rezas…)

– Vamos! Quero o caminho de Estar para Ser;

talvez esta hora traga a da feliz viagem!

Esta hora!… a minha última descoberta:

terra fiel de paraíso ou horta?

Se vem chuva do céu, no céu me espero?

Se há água só nos poços, sobe ou desço?

Triste Vasco da Gama

no Mar das Trevas das perguntas velhas,

gastas, regastas, roídas

como cachimbos em segunda mão!

Ai, um pouco do travo do Eclesiastes!

– Vanitas vanitatum! (em latim

estas coisas ressoam bem melhor…)

enfim! Rei ou Poeta – figura de passar.

Confesso: não me confesso

para que me cuspam filosofias e saberes.

Quero a certeza de abraçar irmãos

para ser e sermos antes que a morte venha!

Quero o que negue em nós

o animal raivoso, a besta impura;

mas não quero o pecado de não ter pecados

enquanto houver pecadores.

ANTÓNIO DE SOUSA in “Sete Luas”, Lisboa, 1954 – 2ª edição

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Chrys Chrystello, An Aussie in the Azores /Um Australiano nos Açores, http://oz2.com.sapo.pt
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nas pontas estão o Torga e o Nemésio. E Os outros?
“PENITÊNCIA”

Este viver de líricas fragrâncias

faz-me corar,

lá, onde a minha alma é toda-a-gente

como Deus manda.

Nas pálpebras a lágrima – o aljôfar,

como se diz no bem falar romântico;

dentro, a secura nua e crua dos desertos

onde não há sombra nem pão.

Ponho a minha casaca de cometas,

a ígnea farda de falar às musas,

e olho os esfarrapados

com literária piedade e o coração calado.

Caridade, perdão; Rainhas Santas

de palavras a passar na procissão das frases

e, se me tocam na pele,

fecho-me rápido como os dedos no cabo de um punhal.

Assim, estar assim, dói!

(neste doer de pôr em rezas…)

– Vamos! Quero o caminho de Estar para Ser;

talvez esta hora traga a da feliz viagem!

Esta hora!… a minha última descoberta:

terra fiel de paraíso ou horta?

Se vem chuva do céu, no céu me espero?

Se há água só nos poços, sobe ou desço?

Triste Vasco da Gama

no Mar das Trevas das perguntas velhas,

gastas, regastas, roídas

como cachimbos em segunda mão!

Ai, um pouco do travo do Eclesiastes!

– Vanitas vanitatum! (em latim

estas coisas ressoam bem melhor…)

enfim! Rei ou Poeta – figura de passar.

Confesso: não me confesso

para que me cuspam filosofias e saberes.

Quero a certeza de abraçar irmãos

para ser e sermos antes que a morte venha!

Quero o que negue em nós

o animal raivoso, a besta impura;

mas não quero o pecado de não ter pecados

enquanto houver pecadores.

ANTÓNIO DE SOUSA in “Sete Luas”, Lisboa, 1954 – 2ª edição

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chrys chrystello

Chrys Chrystello presidente da direção e da comissão executiva da AICL