açores – as pedras também falam

 

Ambiente – património natural.
«As pedras também falam» (1)
José Ávila Martins †
José Ávila Martins † – Departamento de Oceanografia e Pescas, Universidade dos Açores. 9900 Horta.
Martins, J. A. (2004), Ambiente – património natural. «As pedras também falam». Boletim do Núcleo Cultural da Horta , 13: 39-47.
Propomo-nos tratar, hoje, da própria terra que pisamos. Não do mítico continente afundado, citado por Platão, e, por muitos persistentemente atribuído aos Açores, mas destas ilhas que, mercê da acumulação de produtos vulcânicos, brotaram do fundo do mar. O objectivo continua a ser o de chamar a atenção das pessoas, diria da nossa comunidade, para a necessidade de se preservarem os valores naturais que nestas ilhas ainda possuímos e, mesmo, de procurar recuperar outros onde a degradação já chegou. Porém, de índole científica, apenas se esboçarão algumas noções elementares que, de alguma forma, possam contribuir para melhor se entenderem fenómenos e processos naturais que irão sendo referidos. Isto, tendo em conta as carências de informação na área das Ciências da Terra, praticamente banida dos programas escolares. E só se aprecia aquilo que se conhece.
Embora tendo a ilha do Pico como pano de fundo, não se deve perder de vista o facto de que o enquadramento geológico em que esta se situa e comum às restantes ilhas do Arquipélago e, de igual modo, a outras de idêntica origem por esse mundo fora. Tenha-se presente que o vulcão é a única janela de comunicação com o interior da Terra e que os produtos vulcânicos estão na origem de todas as rochas que conhecemos. Só através da análise dos produtos expelidos pelos vulcões nos é possível conhecer directamente a natureza dos materiais que se escondem sob o chão que trilhamos. Quando se fala de vulcanismo, a primeira questão que se põe é a de conhecer o que se passa acerca da distribuição dos vulcões à superfície da Terra. Como se sabe, eles não se dispõem ao acaso, obedecendo, antes, a condições geológico-estruturais favoráveis à sua formação. Aqui, convém abrir um parêntesis para referir (ou, para alguns, apenas recordar) que quase todos os processos geológicos e tectónicos, nomeadamente a deriva dos continentes, que ocorrem à superfície da Terra, se enquadram no âmbito dasplacas tectónicas, em que a litosfera, por meio de uma rede global de falhas, se encontra retalhada. Nas placas, são de salientar as margens de criação e expansão da crosta terrestre e margens de compressão, onde a mesma crosta é destruída (zonas de subducção). Ora, a maioria dos vulcões conhecidos distribui-se precisamente por estas duas áreas que, naturalmente, possuem características inteiramente distintas: (1) áreas de criação e expansão da crosta, que correspondem às cristas (ou dorsais) oceânicas, onde os Açores se enquadram, e (2) áreas de sinal contrário, onde se produz a sua destruição, de que o chamado “Anel de fogo do Pacífico” é, de longe, a mais conhecida. Nas primeiras, os edifícios vulcânicos não são mais do que relevos do próprio fundo basáltico do mar. Nas segundas, a actividade vulcânica concentra-se essencialmente em tomo dos oceanos, numa faixa continental, cuja largura, em regra, não ultrapassa os 200 km. Aqui, os vulcões são caracterizados por lavas mais siliciosas do que as lavas basálticas e, por conseguinte, mais viscosas, o que implica, também, regime de maior explosividade. Não é por acaso que as maiores catástrofes vulcânicas ocorrerem nos vulcões do Anel ou noutros inseridos em contexto geológico semelhante. De recordar, a explosão histórica do Krakatoa (1883) nas proximidades da ilha de Java e, mais recentemente, no final da década de 70, o espectáculo dantesco oferecido pelo vulcão de St. Helens, no Estado de Washington dos Estados Unidos. Neste perdeu a vida um jovem geólogo americano que, duas semanas antes, estivera aqui connosco.
Dos diversos factores que condicionam o regime de actividade de um vulcão, são de salientar a viscosidade do magma e a proporção de gases nele dissolvidos sob pressão. Quanto mais elevada a viscosidade e maior a proporção de gases, mais intensa será a explosividade. Compare-se com a abertura da garrafa de champanhe. Se não se procede a uma desgasificação lenta, de líquido pouco ficará no fundo da garrafa, tal como acontece no habitual banho de champanhe com que terminam as corridas da “Formula 1”. De forma idêntica, actua o acesso de água à câmara magmática, onde a vaporização instantânea provoca forte actividade explosiva. Nos Capelinhos, por exemplo, prevaleceu o regime explosivo enquanto se manteve a abertura da cratera para o mar. Só após esta se ter fechado, aumentou a emissão de lavas, que, hoje, ainda se encontram patentes no cone central (já parcialmente desmantelado), formado na última fase da respectiva actividade vulcânica. O comportamento dos vulcões pode ser muito variável, de uma região para outra, de vulcão para vulcão e, mesmo, ao longo da vida do mesmo vulcão. Como exemplo mais acessível e, bem pode dizer-se, mais palpável, se pode invocar de novo o vulcão dos Capelinhos, cujas erupções passaram por diferentes fases de actividade vulcânica, desde a fase efusiva, com simples escoadas de lavas, até à forte explosividade, responsável pela formação das cinzas que, de longe, constituem o material mais abundante do edifício vulcânico. Das armas do poderoso arsenal dos vulcões, as lavas são as menos perigosas, já que, na maior parte dos casos, é possível delas fugir a tempo. O regime explosivo toma-se bastante mais traiçoeiro, surgindo, por vezes sem aviso, e com imprevisível intensidade. A lava, com elevada concentração de gases, é, projectada em fragmentos mentos que, arrefecendo durante o seu percurso aéreo, caem no terreno, já solidificados, conservando estrutura vacuolar, resultante da retenção, em bolhas, dos gases que se separaram. Estes piroclastos podem assumir aspectos e características muito diferentes, consoante a composição da rocha e as condições de formação, Nos basaltos, predomina o lapilli, conhecido nos Açores por bagacina. As bombas, constituídas por maiores fragmentos de lava que, não se consolidando inteiramente durante o trajecto, ao atingirem o solo, ainda se encontram em estado pastoso. Nos vulcões de fraca explosividade, são arremessadas, a pequena distância, pastas de lava que se acumulam em torno da chaminé, formando cones de forte pendor. Das erupções submarinas resultam piroclastos hidratados que, por litificação, dão tufospalagoníticos, como os do Monte da Guia, dos Ilhéus da Madalena, do Cabeço de Baixo (nos Toledos) e outros. A pedra-pomes é o piroclasto dominante das rochas traquíticas (mais siliciosas do que o basalto). Nesta, a vesiculação é extremamente elevada e as vesículas de tal modo estanques, que a rocha pode flutuar na água por largo período de tempo. Em grande parte da ilha do Faial, a leste da Caldeira, e na ilha de S. Miguel, a pedra pomes é particularmente abun dante. Quando os piroclastos caem ainda no estado pastoso, ao tocarem no solo, podem soldar-se entre si, formando aglomerados de escórias.
Os nossos cabeços são, em grande parte, constituídos por bagacina. Nalguns, porém, ocorrem leitos de lava, quer intercalados nos piroclastos quer a recobri-los, como se tratas­se de manto protector. A alternância de regimes explosivo e efusivo está quase sempre presente nos diferentes edifícios vulcânicos dos Açores. Aspectos destes podem ser observados, por exemplo, em explorações de bagacina,ao longo da estrada transversal, na descida para S. Roque. Também em cortes de estradas, nas escarpas costeiras e noutros afloramentos, se pode observar idêntica alternância de leitos de lava e de piroclastos. É nos vulcões periféricos (vulcões adventícios), situados em torno da base do vulcão central, que as lavas são mais abundantes. A essa mesma alternância de fases eruptivas se deve a estranha configuração da montanha do Pico, com encostas de elevado pendor, em comparação com o perfil esbatido de outros vulcões basálticos conhecidos. Isso deve-se ao facto de o acentuado pendor de equilíbrio dos piroclastos acabar por ser consolidado pelas escoadas de lava que, sucessivamente, os recobrem e com eles alternam. Nos Açores, além do basalto, ocorrem, na maior parte das ilhas, rochas traquíticas, de cor mais clara, que resultam de um magma mais silicioso e, naturalmente, mais viscoso, o que, conforme se disse, implica actividade vulcânica de maior explosividade. No Pico, em S. Jorge e na Graciosa o basalto é rocha única, embora assumindo aspectos muito variados.
É à actividade explosiva que se deve a formação da cratera, em funil, característica dos cones de escórias que constituem os nossos cabeços. As caldeiras não são mais do que crateras de grandes dimensões (com diâmetro, convencionalmente, não inferior a 1000 m). O seu modo de formação, em regra, é também diferente. Após a projecção de grandes volumes de materiais piroclásticos, produz-se o afundamento de uma zona, por vezes bastante ampla, em torno da chaminé vulcânica. As paredes internas são, quase sempre, fortemente inclinadas ou, mesmo, verticais. Em S. Miguel, há quatro caldeiras. A caldeira do Faial constitui ornamento emblemático da ilha. Quanto ao Pico, se bem que poucos dêem por ela, a caldeira lá está no topo da montanha, embora com os bordos largamente desmantelados pela erosão. Grandes fatias têm caído durante alguns abalos de terra. A morfologia dos terrenos vulcânicos, com a grande variedade dos relevos que a caracterizam, distribuídos quer em alinhamento ao longo de fracturas quer disseminados, aparentemente ao acaso, oferece, no seu conjunto, algumas das mais belas paisagens naturais. Pela sua origem e modo de formação, pela sua evolução e, até, pelos processos de degradação, existe flagrante contraste entre os terrenos vulcânicos do domínio oceânico e os terrenos continentais. Enquanto a morfologia continental resulta de um processo extremamente lento, ao longo de milhões, mesmo de centenas de milhões de anos, os relevos vulcânicos, resultando da acumulação rápida de materiais eruptivos, podem adquirir corpo ao fim de semanas, ou apenas de dias de actividade, explosiva, efusiva ou mista. O vulcão dos Capelinhos, por exemplo, ao cabo de duas semanas, do seu início, acumulava já materiais que constituíam uma ilha com 1000 metros de diâmetro e 100 m de altura. Alguns vulcões conhecidos expulsaram muito maiores quantidades de material em muito menos tempo. A degradação, por sua vez, começa a actuar em simultâneo, causada pela própria actividade explosiva, pela abrasão marinha ou pelas chuvas que, rapidamente, actuam nos materiais incoerentes, acabados de se depositar. São processos muito rápidos que, só mais tarde, e com o tempo, se estabilizam, uma vez terminada a actividade vulcânica.
Quanto ao seu comportamento, os vulcões constituem verdadeiras caixinhas de surpresas, surgindo, por vezes, onde e quando menos se espera. Além disso, um vulcão, após uma fase eruptiva, pode adormecer, sem dar sinal de vida durante séculos, para, em dada altura, entrar de novo em actividade. E, em muitos casos, de que maneira!
A intenção, relativamente ao que anteriormente foi dito, é a de situar no respectivo contexto geológico, aspectos de produtos vulcânicos de particular interesse que, pela simples observação, nos podem contar a sua história e a história dos próprios vulcões donde provêm. Alguns dos aspectos que a seguir se referem, constituem peças valiosas do nosso património natural, que merecem, por isso mesmo, ser acautelados e devidamente protegidos. Embora esta nota, tendo como destino imediato a ilha do Pico, porventura ainda a menos degradada, naturalmente se aplica, de igual modo, às restantes ilhas do Arquipélago. A observação de qualquer pedaço de basalto revela-nos, quase sempre, a existência de vesículasdisseminadas na rocha. Resultam de gases separa­dos do magma que, não tendo conse­guido escapar a tempo para a atmosfera, ficaram assim aprisionados na rocha sob a forma de bolhas. A proporção, a dimensão e a forma das ve­sículas são particularmente variáveis,
Quando alongadas, a sua orientação denuncia a direcção de escoamento da lava. Os gases, na “ânsia” de escaparem para a atmosfera, sem o conseguirem, dão lugar a uma grande concentração de vesículas na parte superior da rocha que, por vezes, mais se parece com um favo-de-mel. No basalto aparecem, quase sempre,fenocristais disseminados na rocha. São cristais de cor branca, esverdeada ou negra, que se formaram, por arrefecimento lento, ainda no âmbito da câmara magmática. Na pedreira de empréstimo do porto de S. Roque, por exemplo, aflora um leito de basalto, constituído, na sua maior parte, por cristais relativamente desenvolvidos, quase como se de rocha holocristalina se tratasse. Um caso especial que bem merece uma visita de estudantes ou de simples curiosos. Quando emerge à superfície, o magma, em vez de homogéneo, é, afinal, constituído pelas três fases: líquida, sólida e gasosa. Só raramente o basalto é inteiramente desprovido de vesículas e de fenocristais. Neste caso, a rocha mais se parece com um vidro negro e compacto. Nas erupções efusivas, a lava escoa-se ao longo de terreno inclinado, dependendo a velocidade de escoamento do pendor do terreno e da viscosidade do magma que, por sua vez, vai aumentando com o progressivo arrefecimento, à medida que se afasta do local de origem.
A solidificação inicia-se à superfície, com a formação de uma película (comparável à que se forma à superfície do leite fervido), que, por arrastamento da lava subjacente, se vai do­brando e empilhando, e acaba por formar um amontoado, enrolado à laia de cordas, ou assumindo outros aspectos não menos singulares e extremamente variados. Assim se forma a lava encordoada, um dos ornamentos mais apreciados das nossas lavas basálticas. É uma lava lisa, tipo pahoe-hoe, na nomenclatura do Hawai e adoptada pelo mundo. Quando arqueada, a convexidade da “corda” indica o sentido do escoamento. Isto sucede especialmente em escoadas de lava pouco espessas. Diferente comportamento se verifica em escoadas mais volumosas e, porventura, menos fluidas. O progressivo arrefecimento conduz à formação de uma crosta espessa e quebradiça, que se vai partindo em fragmentos irregulares e pontiagudos que, arrastados pela corrente de lava subjacente, se amontoam de modo caótico, dando, finalmente, lugar a uma rocha com superfície grosseira, afiada como lâminas. É a lava escoriácea ou lava aa, na terminologia do Hawai. Uma corrente de lava inicialmente lisa, pode passar, a juzante, a lava do tipo escoriáceo.
Nestas correntes espessas de lava, pode formar-se, por arrefecimento, crosta sólida, suficientemente espessa e resistente ao atrito da lava que, no estado líquido, continua a escoar-se no seu interior. Cessando a alimentação na origem, o magma continua a correr, até esvaziar o espaço que ocupava. Assim se formam estruturas tubulares, por vezes, de grandes dimensões que, nalguns casos, se prolongam por centenas ou milhares de me­tros. São as estruturas naturais, conhecidos entre nós como furnas ou grutas. Do tecto pendem abundantes “estalactites” (que correspondem a pingos de lava) de aspecto semelhan­te às que, embora por processo inteiramente diferente, se formam nas grutas calcárias. Assumindo, por vezes, formas de grande beleza, são, por isso mesmo, altamente cobiçadas, e, daí, a delapidação de que têm sido vítimas algumas das nossas grutas de mais fácil acesso, como é o caso da Fuma de Frei Matias. São estes e outros aspectos da nossa paisagem que, como parte valiosa do nosso património natural, importa preservar e proteger. Para além do interesse científico que possuem, cons­tituem, ao mesmo tempo, factor importante da tão desejada atracção turística. As pessoas, hoje, fartas de passarem o tempo intramuros, na sua actividade profissional, querem gozar ar fresco e admirar ambiente natural que não conhecem. Por outro lado, não se podem descurar os factores cultural e educacional, que aqui encontram precioso material de estudo. Não será demais recordar que a finalidade essencial desta série de considerações é a de chamar a atenção, não só das entidades oficiais mais responsáveis mas, de igual modo e especialmente, das comunidades desta ilha, para que seja preservada a riqueza natural que possuímos. Para nós, para os nossos filhos e para quem queira visitar-nos. Para tal toma-se necessária uma vigilância constante, que a todos nós incumbe exercer, sem esperar por legislação, que só tardiamente poderá chegar, quando já não houver coisa que valha a pena proteger. Sem minorar a importância dos restantes, queremos chamar a atenção para alguns aspectos que, pela sua vulnerabilidade, correm maior risco de degradação. Entre eles:
a) – Os cones de escórias, ou sejam, os tão característicos cabeços do Pico e não só, que estão a ser desalmadamente mutilados, e outros simples­mente arrasados. A cada passo, se depara com verdadeiras chagas abertas, deixadas como resultado da exploração da bagacina, onde é mais fácil retirá-la. Ultimamente, diversos cabeços têm sido inteiramente riscados do mapa, para a conquista de mais al­guns palmos de terreno, sobretudo para pastagem e cultura da vinha.
b) – Lava encordoada e outros aspectos peculiares das lavas basálticas que, como se sabe, continuam a ser exploradas para com elas enfeitar casas, por dentro e por fora. E, até, para exportação. Sem prejuízo de tantas outras, cita-se, como zona a proteger, toda a planura costeira, situada entre a Madalena e o aeroporto, de muito fácil acesso para os delapidadores, alguns dos quais assim procedem mais por falta de informação do que por maldade. Só um novo vulcão poderá repor o que já se tirou. Se legislação existe neste domínio, ela não se cumpre. Nos países desenvolvidos, em nada disto se toca sem parecer prévio dos Serviços competentes. E não é raro mudar-se o curso de estradas ou de outras obras planeadas para evitar a destruição daquilo que é considerado património geológico nacional. Eu repetiria o que, já noutra ocasião, tive oportunidade de dizer: “Salvem a única riqueza não importada que possuímos”. A testemunhar o seu valor, veja-se, na página 65 do National Geographic Magazine, de Novembro de 1992, a magnifica fotografia do Pico, com um belo afloramento de lava encordoada em primeiro plano e, ao fundo, o perfil da montanha. Um belo reclame, de que bem nos podemos orgulhar, promovido espontaneamente, por uma das mais conceituadas e divulgadas revis­ta, a nível mundial.
c) – As Furnas (ou grutas) dos Açores, talvez pela dose de mistério que encerram, são os edifícios vulcânicos mais conhecidos do imaginário popular e, não raramente, ligadas a histórias que vão passando através das gerações. Sabia-se onde começavam mas não se lhes conhecia o fim. Há anos atrás, poucas furnas eram conhecidas nesta ilha. Presentemente, graças ao entusiasmo e trabalho árduo do nosso conterrâneo Albino Terra Garcia, já hoje existe um notável trabalho realizado, com inventário bastante completo das fumas do Pico, algumas delas com levantamento topográfico e reconhecimento de particular interesse cientifico e turístico. O trabalho, que tem tido a colaboração do grupo dos Montanheiros e de conhecidos especialistas em espeleologia, encontra-se presentemente em fase de preparação para publicar. Ao que parece, tudo feito com a “prata da casa”, já que a de fora nunca chegou. O que agora se pretende – e não será pedir demais – é que se crie legislação e regulamentação com vista à protecção deste singular património natural. Com as suas 102 grutas já conhecidas (1994), 66 das quais já exploradas, bem se pode dizer que o Pico é a ilha das grutas vulcânicas. Uma delas, com mais de 4000 metros de extensão.
Conforme logo de início se disse, achámos conveniente fazer acompanhar as considerações aqui expressas sobre o nosso património geológico, de alguns esclarecimentos elementares para melhor o compreender. Isto, tendo em atenção a carência de informação respeitante às Ciências da Terra, sobretudo por se tratar de uma área que – nunca percebi por quê – foi praticamente erradicada dos programas escolares de Ciências Naturais. Assim, muitos saem da Escola sem nunca terem ouvido falar das rochas nem dos minerais que as constituem, como se de matéria de somenos importância se tratasse. E isto, sabendo-se que, afinal, é das rochas que saem todos os metais que utilizamos. Saem, igualmente, o petróleo, o gás natural e a própria água que bebemos. Sem rochas, não haveria solo e, sem este, onde se cultivaria tudo quanto comemos? E, ainda, com rochas, em bruto ou trabalhadas, que se constróem as casas onde nos abrigamos. E, a quem tenha gosto pelas jóias, é de recordar que os diamantes e o enorme cortejo de pedras semi-preciosas que invadem o nosso mercado, também é das rochas que provêm. Afigura-se realmente estranha a subordinação a que, nos programas de ciências naturais, foi votada a geologia, ou seja, o estu­do da Terra que pisamos, que, de vez em quando, vemos crescer e, não raramente, sentimos tremer. Não admira, pois, que, na nossa comunidade, para além de alguns curiosos e autodidactas, pouco se saiba do assunto em apreço: o património geológico dos Açores. A ausência de sensibilidade que, a diferentes níveis, se verifica neste domínio, talvez encontre aqui a sua verdadeira explicação. Não são, porém, necessários grandes conhecimentos para, da simples observação, se extrair a história da rocha, como se as próprias pedras falassem, para nos dizerem como e onde se formaram.
J. A. M. Dez. 1994
(1) O editor agradece a Helen Rost Martins a cedência deste artigo, para publicação neste Boletim.
Please follow and like us:
error

Publicado por

CHRYS CHRYSTELLO

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção e da comissão executiva da AICL