As línguas abrem caminhos: o caso do multilinguismo europeu

  As línguas abrem caminhos: o caso do multilinguismo europeu
27 Setembro2011  |  12:17 
Rytis Martikonis



Ontem, 26 de Setembro, dia em que se celebrou o Dia Europeu das Línguas, deveríamos talvez recordarmo-nos da riqueza que a diversidade linguística e cultural da Europa representa.
Ontem, 26 de Setembro, dia em que se celebrou o Dia Europeu das Línguas, deveríamos talvez recordarmo-nos da riqueza que a diversidade linguística e cultural da Europa representa. O multilinguismo esteve presente desde a primeira hora do projecto europeu: o primeiro regulamento, adoptado em 1958, estabeleceu o regime linguístico da então Comunidade Económica Europeia e tem sido sucessivamente alterado para integrar as línguas de todos os países que foram aderindo à União. O número de línguas oficiais da UE passou de quatro em 1958 para 23 actualmente. Algumas são faladas por menos de um milhão de pessoas, enquanto outras, como o português, têm milhões de falantes em todo o mundo. 

Numa época de crise económica, quando as coisas não são fáceis, é importante lembrar que as línguas podem ajudar. Apesar da corrente actual de cortes e reduções orçamentais, permitam-me que defenda a importância de continuar a promover o uso de várias línguas. O regulamento da UE de 1958 que referi acima prevê que todos os documentos jurídicos da UE sejam redigidos em todas as línguas oficiais e que cada cidadão europeu possa comunicar com as instituições europeias em qualquer dessas línguas. Seria impensável que um regulamento que produz efeitos directos em Portugal não fosse traduzido em português. Todas as instituições da UE têm um serviço linguístico próprio: na Comissão, esse serviço é a Direcção-Geral da Tradução, que tenho a honra de chefiar. Entre os nossos tradutores, contam-se actualmente 65 portugueses. 

À parte este ponto de vista institucional, o multilinguismo na União Europeia é também uma questão da sociedade em geral. Nessa perspectiva, significa a aprendizagem de línguas estrangeiras. A Comissão incentiva as autoridades nacionais a melhorarem o ensino das línguas e exorta os cidadãos europeus de todas as idades e condições a aprenderem línguas estrangeiras. O nosso programa de aprendizagem ao longo da vida investe anualmente cerca de 50 milhões de euros na promoção da aprendizagem de línguas. 

Devemos também interrogarmo-nos sobre os sistemas de formação dos linguistas. Serão adaptados às necessidades do mercado? Produzirão um número suficiente de linguistas profissionais? A Comissão está a observar com grande interesse o que se está a fazer em termos de novos programas curriculares. A Direcção-Geral da Tradução da Comissão Europeia desenvolve desde há alguns anos o projecto EMT (“European Master’s in Translation” – mestrado europeu de tradução), que atribui uma espécie de selo de qualidade aos programas universitários que propõem formações de alta qualidade em tradução ao nível de mestrado. União Europeia e definir o perfil do tradutor no dealbar do século XXI. A rede EMT conta já em Portugal com a participação do curso de mestrado em tradução e serviços linguísticos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. 

Segundo um estudo de 2006 organizado pela Comissão Europeia, quase 11% das PME na Europa perdem concursos e contratos por causa da falta de competências linguísticas e por não estarem cientes da importância desta dimensão nos negócios1. O inglês só não chega; as empresas com uma política de multilinguismo são geralmente mais produtivas e conseguem uma maior penetração nos mercados locais. No caso das pessoas, uma das maiores vantagens da Europa é a mobilidade, que não pode existir sem competências linguísticas. Se não falamos línguas estrangeiras, não podemos ir viver, estudar ou trabalhar para outros países da UE. 

Não há dúvida que, actualmente, o conhecimento de línguas é uma vantagem competitiva para as empresas europeias e facilita a obtenção de melhores empregos. As línguas já não representam apenas uma paixão pessoal ou uma satisfação intelectual; tornaram-se meios para compreender identidades, culturas e necessidades de mercado, bem como realizar objectivos pessoais, especialmente profissionais, no contexto de um mercado único e multilingue. 



1 “ELAN: Effects on the European Economy of Shortages of Foreign Language Skills in Enterprise”, ver http://ec.europa.eu/education/languages/Focus/docs/elan_en.pdf


“Els límits de la meva llengua són els límits del meu món”
Ludwig Wittgenstein

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