A ilha no interior… [Galiza 7 de abril de 2009] por concha rousia

A ilha no interior…  Galiza 7 de abril de 2009 por concha rousia

Amanhece no vale da Amaia, no vale em que eu, a três quilómetros da casa de Rosalía de Castro, moro; daqui ouço os sinos de Bastavales que por nós chamam. Na distância, se não fosse hoje um dia cinzento, poderia enxergar as torres da catedral de Santiago de Compostela. Mesmo assim o dia já anuncia, nestas horas temperãs do alvorecer, a beleza primaveril que vem conquistar este lado da Terra…do desabrochar das gemas dos majestosos carvalhos ao abrir das pétalas da mais delicada flor. Ora, se eu fechar os olhos, sinto é o latejar da ilha em mim, num ar que hoje traz aos meus ouvidos o som do piano de Rodrigo Warken em ‘saudades no coração’ que também vieram da ilha, e que muito agradeço a Edson Machado o ter trazido de Santa Catarina.
A ilha, sem eu saber, veio comigo, ou talvez fui eu que fiquei nela e vou voltando a pouco e pouco, mesmo que o meu corpo chegasse há algo mais de vinte e quatro horas. Em mim há hoje um vazio, um que desde miúda eu já aprendi a identificar como a morada da saudade… Atrevo-me a olhar lá dentro dessa morada e sinto a presença do que hoje me falta… Vejo a ilha, vejo as pedras negras abraçadas polo verde e o azul…
Penso no que sinto e em mim nasce um rio de palavras que querem ir ao vosso encontro; escrevo-as para todos vós, para nós, os habitantes dos colóquios, os habitantes de carne e osso da Lusofonia real que durante oito dias se converteu no nosso país… Daqui quase posso enxergar um sonho do futuro no que algum dia, parafraseando o grande bate, possamos todos dizer ‘A nossa pátria é a Lusofonia’.
Sei que para todos foi muito intensa a experiência de habitar nessa pátria da Lusofonia, pátria em construção que contrasta com a pátria em que os galegos moramos. Foi bom para os chegados dos continentes como o foi para os ilhéus… Ora, para os galegos foi ótimo. Para mim significou normalidade, significou ter pátria por um tempo que, mesmo que limitado, foi infinito… e eu levo em mim essa marca que levam os habitantes da diáspora, esses que sonham com voltar só para se verem e saberem de volta…
Essa saudade que é o sentimento que distingue os habitantes dos territórios nos que se fala a nossa língua… Eu, acostumada a analisar as profundezas dos sentimentos humanos, me pergunto hoje se essa saudade não virá desde que o nosso povo se partiu e nasceu entre nós uma fronteira política… Uma fronteira que rachou pola metade a árvore da nossa língua. Essa saudade tem que ter vido de algum momento no que nós perdemos qualquer cousa de essencial que nunca mais foi recuperada. Eu, sem entrar a analisar, só posso dizer que durante os dias em que duraram os colóquios, mesmo que eu quisesse, não poderia ter tido saudade por cousa nenhuma.
Agora é que sinto a falta desse tempo, de vós todos e também de mim, da que eu fui nesse tempo. Queria contar-vos isso e enviar um abraço desde esta Galiza, nossa mãe dos dous mares, um abraço no que caibais todos vós, aos que levo já para sempre dentro de mim, na ilha interior onde guardo os meus mais queridos membros da tribo, os que conheci ao longo desta vida, e os que já se foram para o além antes de eu nascer; a tribo à que eu pertenço e que dá sentido a tudo o que eu faço. Fecho os olhos e sinto as vossas vozes entrelaçadas e indistinguíveis das outras vozes que eu sempre cultivo em mim…
Sinto o rugir do mar rubro em cujas ondas vem hoje a serenidade e sabedoria do olhar genuíno de Bechara e de Malaca; a mim chega uma maré de sorrisos, de abraços, de imagens vivas… o restaurante Carlos onde a teoria do Sérgio, da inclusão através da arte, se faz realidade mágica, especialmente quando o restaurante é encerrado e a noite se continua no andar a rés-do-chão, onde a palavra ‘melting-pot’ que devia ser inventada em português, se faz carne. Sinto a fusão dos vizinhos da Lagoa com os chegados de toda a Lusofonia, fusão que emana do latir do coração brasileiro, do latir da música com que se derrete toda a barreira desnecessária para se sentir à vontade…nesta altura da minha crónica a minha voz sentiria eu, se estivesse a falar, congelar-se na minha garganta, mas nasceria logo o sorriso ao lembrar o frigorífico no que falou Cristóvão de Aguiar. Na ilha, nas noites de fusão cultural entre os ilhéus e os chegados, foi o mais perto que eu estive do Brasil… Guardo na memória do meu corpo abraços para um ano inteiro, ora isso não evita que eu, como o emigrante que sonha com as férias para voltar a casa, sonhe com o voltar dos colóquios. A mim chegam imagens que, sucintamente, gostaria de comunicar a todos vós…
Chega a mim a cachoeira da Achada com suas águas a ferver e humedecer os olhos de Silmara, minha aliada poeta e irmã. Chega também o sabor do vinho abafado num espaço vestido de artes tecidas por mãos femininas e açorianas. Chega o eco do almoço no que cantamos os parabéns à Helena, a musa dos colóquios que nascem de um vulcão chamado Chrys Chrystello, um vulcão do que brota uma maré de sonhos contagiosos em que todos temos direito a existir… Vem a mim a imagem de doçura e saber, e também saber dar, de Célia e o seu anjo ao que ela sabe cuidar… Vem a mim a magia do teatro Gira com sua arte que inclui a todo o mundo… Vem a música, mas como descrevê-la?! O que posso eu dizer dessa arca infinita de canções chamada Carlinhos… ou desse sorriso feito homem colado e inseparável do seu acordeão-sanfona-gaita a repartir felicidade… ou do penetrante olhar do Metre pop trançado com os fios do subtil soar do berimbau… ?
Tudo elevado nos pilares da escrita açoriana e lusófona…o Daniel [de Sá], o Cristóvão [de Aguiar], o Mário [Moura]. Os oradores e estudiosos das diversas temáticas destes colóquios. Os representantes dos governos da Câmara da Lagoa e do Governo de Santa Catarina. Os académicos. Os professores. Os poetas. E de novo a ilha… as suas pedras negras, as pradarias que sobem até ao capelo dos bicos, nada pronunciados, das lombas verdes que se recortam no céu mais cambiante que eu já vi, certamente num dia se podem viver as quatro estações do ano… A ilha exerce em todos nós um enorme fascínio; ela tem essa força magnética contra a que não podemos, nem queremos, lutar; força que lança as suas ondas do meio do mar aos quatro cantos desse planeta chamado Lusofonia…      


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