Portugal e o Islão na Idade Média

Portugal e o Islão na Idade Média

João Silva de Sousa*

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Portugal pode considerar-se herdeiro da cultura islâmica, uma herança resultante de 500 anos de dominação muçulmana, legadora de diversas vertentes culturais, ainda hoje visíveis.

Um dos contributos mais evidentes desta civilização é, sem duvida, o vocabulário, embora não passe de substantivos, nada que se compare com o legado latino, o qual é demonstrativo da própria construção da frase e de um número de verbos e nomes absolutamente incontáveis. Quanto à influência muçulmana, neste sector, tudo leva a crer que não tenha ultrapassado as 800 ou mesmo nem tivesse chegado a tão estreito léxico. Algumas, inclusive, acabaram por desaparecer do nosso dicionário, sobretudo no que respeita ao âmbito da Administração. Ficam alfaias de casa, nomenclatura médica (em número reduzido), nomes respeitantes à alimentação… e, acima de tudo, o mais importante, indiscutivelmente, a numeração e a introdução do zero que trouxeram do Oriente.

Dentro do legado construído islâmico, indubitavelmente, a arquitectura militar é dominante, nos finais da alta Idade Média. Reflexo disso, era a existência, no século X, em todas as cidades de uma alcáçova ou torre alta da fortificação, das quas quais poucos vestígios sobreviveram. Carlos Alberto Ferreira de Almeida aponta como importante evidência a do Castelo de Santa Maria da Feira – uma construção torriforme, habitacional, dos finais do gótico, assenta sobre uma alcáçova muçulmana. O arco da sua entrada principal, hoje alargado, na origem, terá sido em ferradura, numa arcada segundo a técnica cordovesa. O Autor data esta base da alcáçova, pertencente ao Castelo de Santa Maria da Feira, do século X ou XI (Ilustração 10).

Entre este património construído, legado da ocupação islâmica, contam-se vários castelos levantados com taipa, com objectivos defensivos, dominando as vias de comunicação do Gharb al-Andalus. Os castelos são os principais vestígios arquitectónicos legados pelos Muçulmanos entre os séculos VIII e XII. Como exemplo destas fortificações, temos o de Alcácer do Sal, interessante pela sua contextualização histórica e de localização estratégica ao dominar a entrada de um amplo território. Outros são os exemplos de castelos islâmicos, como os de Beja, Coimbra, Elvas, Évora, Faro, Lisboa, Mértola, Santa Maria da Feira, Silves, entre outros. Nestes fortes, está presente a utilização islâmica da taipa na arquitectura militar, profusamente divulgada e difundida pela Península Ibérica no tempo do domínio islâmico. No entanto, a taipa não tem origens islâmicas, nem a sua utilização na Península Ibérica se fez apenas no período muçulmano; a utilização da taipa já se evidencia ao tempo da ocupação romana, mas a civilização islâmica em Portugal incrementou e foi influente na utilização da taipa e do adobe, de que os Berberes foram transmissores de notáveis conhecimentos práticos das técnicas de utilização. Esta é conhecida desde a mais remota antiguidade e teve um uso generalizado em áreas do Mediterrâneo, sendo, ainda hoje, perceptível como um dos sistemas essenciais de construção nas Províncias do Sul do nosso País. Também, na reconstrução de paredes e divisórias de casas de pedra, típicas, que duraram pelo andar dos tempos, na nossa actual Beira Interior. Exemplos desta brilhante aplicação técnica são as muralhas de Silves, Paderne e Alcácer do Sal, evidenciando taipa militar das dinastias Almorávida e Almoada (Ilustrações 16 e 17), semelhantes às taipas das muralhas de várias medinas do reino de Marrocos.


A unidade, a globalidade, a contemplação, a escrita cúfica como elemento decorativo e como sistema transmissor religioso constituíram-se como príncípios gerais da arte islâmica.
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Professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Académico Correspondente da Academia Portuguesa da História.
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