JOSÉ EDUARDO DOS SANTOS E A LÍNGUA PORTUGUESA

Língua e poder

Fronteiras Perdidas
José Eduardo Agualusa
PUBLICO – 24.9.06

Foi apenas um breve parágrafo num longo (e raro) discurso sobre política cultural – mas creio que ficará na História. É uma pena que em Portugal ninguém tenha reparado nele. Refiro-me ao texto que o presidente angolano, José Eduardo dos Santos, leu no passado dia 11 de Setembro, em Luanda, na abertura do 3° Simpósio sobre Cultura Nacional.

Cito: “Devemos ter a coragem de assumir que a Língua Portuguesa, adoptada desde a nossa Independência como língua oficial do país e que já é hoje a língua materna de mais de um terço dos cidadãos angolanos, se afirma tendencialmente como uma língua de dimensão nacional em Angola. Isso não significa de maneira nenhuma, bem pelo contrário, que nos devemos alhear da preservação e constante valorização das diferentes Línguas Africanas de Angola, até aqui designadas de “línguas nacionais”, talvez indevidamente, pois quase nunca ultrapassam o âmbito regional e muitas vezes se estendem para além das nossas fronteiras”.
Mesmo de forma tímida – aquele assustado “tendencialmente” – o facto é que, pela primeira vez, um dirigente angolano reconheceu o carácter nacional da variante angolana da língua portuguesa; foi mesmo além, ao sugerir que o português deveria ser reconhecido como a única língua verdadeiramente nacional de Angola.
O tema, diga-se, é espinhoso. Em privado, muitos altos dirigentes angolanos, assim como um grande número de intelectuais próximos do poder, vêm, há anos, a defender posições semelhantes. Nunca, porém, se atreveram a publicitar tais opiniões. Após o discurso de José Eduardo dos Santos será interessante saber como reagirá a corrente conservadora, de matriz rural, no seio do seu próprio partido.
Quanto à oposição, não me parece difícil adivinhar as reacções: há anos que os pequenos partidos do norte, tradicionalmente antilusófonos, se esforçam por apresentar José Eduardo dos Santos como um falso africano. No principal partido da oposição, também ele conservador, largamente antilusófono e de matriz rural, a linguagem pode ser (e, infelizmente, nem sempre é) um pouco mais sofisticada, mas, em substância, pouco difere.
Não obstante todas estas eventuais vozes contrárias, José Eduardo dos Santos rema claramente a favor da História. Não é crível que quem quer que seja consiga travar a extraordinária expansão da língua
portuguesa em Angola. Falada por uma pequena minoria de angolanos, enquanto idioma materna, antes da independência, o português enraizou-se depois disso, sendo hoje dominante na capital, cidade com mais de três milhões de habitantes, bem como nas principais urbes do país.
Não ocorreu no continente africano, tanto quanto sei, nada semelhante: uma língua europeia, instrumento de dominação colonial, que se fez africana. O bom domínio do português revela-se cada vez
mais importante para a ascensão política e social. Seria interessante, a propósito, comparar a qualidade do português no discurso dos políticos, hoje e há trinta anos. Apesar da extrema fragilidade do sistema de ensino, a qualidade do português falado em Angola melhorou consideravelmente, desde a independência, inclusive nos meios rurais.
O sucesso da língua portuguesa pode ser medido por um divertido paradoxo: é em português que o português é atacado. Mais: mesmo quem se opõe ao português esforça-se por o falar com elegância, sob pena de ser humilhado na praça pública.
Como recorda o linguista brasileiro Marcos Bagno num interessantíssimo ensaio, “A Norma Oculta – Língua & Poder na Sociedade Brasileira” (Parábola Editorial, 2003), “o último baluarte da discriminação social explícita continuará a ser o uso que uma pessoa faz da língua”. Bagno, curiosamente, escreveu o referido ensaio com o objectivo “de desvendar o jogo ideológico por trás da defesa de um conjunto padronizado de regras linguísticas”. Traduza-se: o linguista pretendeu socorrer o presidente Lula da Silva, atacado por uma boa parte da intelectualidade brasileira, que o acusa de não dominar o idioma português.
É uma outra discussão – e é a mesma. Lula representa, afinal, o triunfo desse mesmo mundo rural que, em Angola, perdeu a guerra e o poder.
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NOTA: Isto é mais uma achega para se aferir que a “colonização” portuguesa foi diferente da praticada pelos outros países, não estando a fazer juízos de valor.
Fernando Gil
MACUA DE MOÇAMBIQUE
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2006/09/lngua_e_poder.html

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